
- Restou isso: uma marca de cigarro e de alma – ela diz sem perturbar o olhar sereno da caixa preta do Black -... sobre a do cigarro, já nem sei dizer quantas vezes me castiguei por comprar mais de um box por vez. Desnecessariamente... sempre que o via reluzente e negro, nessa certa escuridão completa que não chega a ser sinistra, mas é hipnótica. Ela fala, tragando e soltando a fumaça que volta à atmosfera mais branca: – passei minutos na fila do caixa da padaria num estúpido “confessionário” – e as aspas que aqui se encontram são também desenhadas por ela no ar da noite, com as duas mãos suspensas no ar – interior. Cochichei a ouvintes imaginários minha admiração por este cigarro... falava do fumo, da densidade, do sabor mentolado com traços quase insensíveis de canela, que escapa dos lábios. Acho até mesmo que um dia, alguém, nem sei mais quando, comentou que também gostava dele. Me senti injuriada, estranha. Não queria mais ninguém para gostar dele como eu gosto. Retruquei dizendo que o melhor era beijar alguém que o tivesse fumado. Vê, daí, como as coisas tomaram rumos irreconhecíveis, ir-remediáveis – ela sorri pela última palavra, impulsionando o meu sorriso também – estática, lá, olhando o box.... – e baixa os olhos à altura dos pés, encobrindo a boca pelo joelho flexionado – observando a marca externa e tateando a interna, desenhada no meu... – rouba o olhar dos pés e o oferece a mim, sem concluir a frase – é isso. Restou você nos vinhos baratos comprados no sábado à noite, naquele supermercado 24 horas, quando passávamos horas sem decidir absolutamente nada, vagando Alices pelas prateleiras, trombando propositadamente uma na outra... tanto de você ainda nos comerciais entre filmes da televisão, quando eu já esperava aquele seu cochicho, rouco pelo silêncio, tramando e intertextualizando todas as idéias possíveis, dando razões a uma única razão só: estar aqui. Acho que você não precisa – ela se corrige a tempo, confundindo os tempos verbais e o meu tempo – não precisava se justificar tanto. Só a Loucura salva – ela fecha a fala com uma risada sarcástica.
- Eu só queria... – tento, mas ela interrompe. Os olhos despejam as pálpebras pesadas que, agora, parecem dar licença às palavras que virão:
- Ainda... ainda e para sempre ... – ela se pausa - isso porque eu descobri que a interseção entre “sempre” e “nunca” é um “ainda” infiel a qualquer uma das anteriores... enfim... – ela dá um novo trago no cigarro -... ainda é teu jeito de tocar a campainha: uma, duas, prolongamento, três, que me coloca com o ouvido a postos e ansiedade à flor da pele.
Ela volta o olhar para as nuvens e, antes de encostar o cigarro nos lábios, ela sussurra, bem próxima a ele, uma última sentença: “há tanto de você”.
Daqui, senta na posição de Lótus, minha vontade é de levantar e abraçá-la por trás, aprisionando-a nos meus braços que se fariam infinitos; beijar o imediato-abaixo de sua orelha, (re)pousando a ponta do meu nariz no seu ombro descoberto pela camiseta. Contudo, é pouca vontade para tanto receio, e o que me resta é beber um outro gole do vinho, que começa a ficar quente, dando mergulhos na admiração delicada, pulando do alto da torre de marfim dentro da qual a observo.
Ela permanece, sem dizer nada, insuspeita dentro de sua fumaça. Eu:
- Era ou é melhor colar os lábios numa coisa silenciosa, como o Black, do que me render às vontades e promessas que passavam ou passam pela minha cabeça. Planos coloridos de uma viagem para a Serra do Cipó, São Tomé das Letras, Milão, Rio, tanto faz o lugar, foram tantos mesmo; EZ Special tocando, os incensos de cereja camuflando minha-ou-sua-ou-nossa ansiedade mútua; meditações budistas – aponto o desenho do Ohm no meu anel de prata, no anular esquerdo - que terminariam frustradíssimas com os corpos muito mais próximos do Nirvana... vontades e inquietudes que eu queimava ou queimo na ponta do cigarro acesa, porque não sabia ou sei, ao certo, se poderia ou posso realizá-las.
Ainda que a semi-escuridão do quarto embace os contornos das formas, vejo o pequeno furo que resplandece na bochecha dela, vizinho íntimo de um sorriso branco. Ela não diz nada e apenas apaga a ponta do cigarro no cinzeiro marrom sob o criado-também-mudo. Levanta-se do sofá, sem calçar os chinelos, e caminha a passos cansados na direção da cama. Enquanto se levanta, provoca um distúrbio nas molas do sofá, excitando-as e me deslocando, o que faz com que a taça bamboleie em minhas mãos e ameace derramar o vinho. Desfaço o enlace das minhas pernas e estico a mão até o criado-mudo do outro lado do sofá, depositando a taça ao lado do cinzeiro, do qual ainda nasciam fracas linhas cinza da fumaça do cigarro. Quando termino de colocá-la ali e retorno ao meu lugar e olho para ela, deitada na cama, projeta atrás dos meus olhos um curta com todas as cenas de outrora que, embora minhas, habitavam este quarto, à minha espera, e só estando aqui é que elas podem me visitar, convidadas pela minha retina mediante a visão do corpo dela estendido ali, sobre o lençol branco da cama, com os braços cruzados atrás da cabeça:
... as pernas nuas, a blusa de botões - sem nada por baixo – abotoada displicentemente, as auréolas que colocavam em alto relevo a lisura da blusa, com suas duas pontinhas salientes, o cabelo solto que erotizava todo o resto, os violentados lábios avermelhados e brilhantes pela saliva da língua molhada, os arredondamentos que desfaziam a geometria retangular da blusa...
Corre nas minhas têmporas uma gota de suor recém-formada que eu não ouso limpar. Ela bate com a mão espalmada sobre a cama duas vezes, me convidando a deitar. Eu obedeço: sento à beirada da cama, retiro os tênis e ela me ajuda a retirar o moletom, quando então desliza os dedos longos no meu pescoço. É breve, mas o suficiente para que ela sinta o úmido suor que desgruda do meu corpo. Ela se deita e vou com ela logo em seguida, afundando a maciez do colchão com nossos pesos. Fitamos o teto do quarto, com suas estrelas fosforescentes amarelo-esverdeadas coladas na superfície pintada de branco. Ouço um chiado vindo do lado dela, uma inspiração rouca, aparentemente molhada. Viro meu corpo de lado, no sentido dela, e vejo uma gota também salgada escorrer do canto agudo do olho: outra a qual eu não posso impedir. Percebendo-me atenta à lágrima, ela a recolhe com as costas da mão, de um lado e do outro do rosto. Assim, se vira também no meu sentido.
Ficamos algum tempo com os corpos paralelos estendidos sobre o lençol branco que começa a amarrotar, desenvolvendo mapas anatômicos da dela-boca-minha; rotas sinuosas que infringem as leis e os limites das roupas, cultivando jardins à flor da pele. Vezoutra, os percursos se cruzam na indução de um olhar que recomeça do finápice: os olhos. No último entroncamento, ela se levanta:
- Do que adianta isto agora? – ela se encaminha para o espaço vazio que o guarda-roupa faz com a parede, próximo à porta. Leva a mão ao pescoço e o contorna, terminando-a volta na nuca.
- Isto? – atravesso a cama e me sento sobre a beirada do lado no qual ela estava. Observo-a se distanciar e encostar naquele espaço limpo da parede.
- É. E não finja que não sente. Não hoje e nem agora.
- Eu sinto isso... – e caminho até o corpo dela, abandonando a cama, enlaçando-a pela cintura, infiltrando minhas pernas entre as pernas dela, colocando minha boca no imediato-abaixo da sua orelha, pressionando meu corpo contra o dela em um abraço térmico- laços.















