- Miaaaaaau...
Pensei ser da televisão.
- Miaaaaaaaaaaaaaaaau... – insistiu, pedindo a atenção.
Coloquei a televisão em mudo. Repetiu-se do lado de fora do prédio.
- Miaaaaaaaaaaaaaaaaaau... – agora mais irritado, quase gritando.
Corri até a janela, sem me preocupar em calçar os chinelos, apenas debruçando-me sobre a armação da janela. Esperei o próximo chamado.
- Miaaaaaaau....
Foi quando a silhueta saiu de baixo de um dos carros, já dentro da minha garagem. As patas que tocavam o chão acimentado, dando a ele a impressão de um carpete de veludo. Quando caminhava, os ossos e os músculos de suas costas se projetavam; alternavam-se nos movimentos flutuantes de subida e descida, elegantemente decorando o caminhar que se desenhava com tranqüilidade. As orelhas brancas e pontudas, mirando o céu, moviam-se de tempos em tempos, indicando-me que estava atenta, ainda que aparentasse uma certa indiferença ao lugar.
- Miaaaau... – disse, lançando o olhar riscado pra cima e mostrando os dentes pontiagudos na boca entreaberta – miaaaau.
Olhei o pequeno corpo branco da janela do meu segundo andar. Não disse nada, não me dirigi a ele, não estalei os dedos, não gastei meu humor fazendo onomatopéias: nada. Apenas observei-o daqui, gritando o mesmo “miau” repetidas vezes, com os olhos claros seteiros e apontados para cima. Pensei que implorasse qualquer coisa, um pouco de comida, quem sabe. Ameaçei descolar o corpo da janela e ir buscar-lhe um pedaço de carne. Na possibilidade de não me ver livre daquele som depois, permaneci, imóvel, apenas enquadrando aquele pequeno corpo branco numa fotografia mental. Era uma noite fria, a primeira noite fria de um inverno atrasado que chegava ao final de Julho. Uma corrente de ar entrou pela janela lateral e eriçou-me os pêlos das pernas. Fechei as janelas e em seguida as parnesianas, sem titubear. Sorri cansada, respirando lânguido pelas narinas, enquanto voltava para o sofá, ainda morno pelo contato prolongado do meu corpo. Gisele perguntou-me o que era. Respondi sem olhá-la, calculando os passos até ela. Sentei-me no exato lugar que havia abandonado, com a cabeça sobre o colo dela, entre as horas perdidas e abandonadas em frente da telinha azul colorido.
Apertei “play” e continuamos o filme. Na televisão 40 polegadas da Semp Toshiba, todas as cores de Almodóvar em “Carne Trêmula”. Na cena, Davi, o ator principal-sem-clichês: em óculos de armações pesadas e grossas, dentro de um carro vermelho fosco, com uma máquina fotográfica em mãos, transparecendo a ansiedade-raiva de estar fotografando momentos indiscretos de um casal adúltero, como se adquirisse a maior munição dos tempos contra os seus males e transtornos. Gisele comentou alguma coisa, soltando da boca falante bufadas de fumaça que se lançavam como cogumelos no ar. Não dei a devida atenção, mas sei que comentei qualquer coisa de volta, tomando o cigarro dos dedos dela e dando um trago longo. Desfiz das cinzas, batendo na lateral do cinzeiro que Gisele segurava com a mão parada no ar e, então, levantei o corpo, postei-me boca-a-boca e, quando nossos lábios se tocaram selados, devolvi o trago roubado para boca dela.

Ela sorriu com os olhos apertados daqueles cílios-cortinas: expirou aquela língua cinza gasosa, iluminada de azul pelo aparelho de TV e que aos poucos se dissolvia no ar. O miado insistiu. Aumentamos o som do televisor, enquanto Davi se preparava para sair com o carro.
De sangue a sangue, de vida em vida, o filme terminou. O olhar de Gisele se cruzou com o meu, naqueles momentos seguintes do término da
película, enquanto os créditos ainda passavam, nuns segundos inenarráveis de reciprocidade e proximidade. Afagou-me, já se levantando do sofá e espreguiçando o corpo a minha frente. O moleton azul subiu pouco acima do umbigo e revelou-o para mim, como se a própria Gisele me ofertasse um beijo ou uma mordida molhada naquele pedaço de corpo moreno. Ainda com a boca escancarada dos dentes grandes e milagrosamente alvos (haja visto tanto cigarro), com os braços angulados para cima, pilares das mãos que também se espreguiçavam, olhava para baixo, enrugando a pele sob o queixo. De novo: o sorriso ocular – em nós duas. Concertei o corpo. Fiquei à frente dela, já a abraçando pelas presilhas para cinto da calça
jeans e, com as mãos presas nas voltas glúteas donde nádegas viram pernas, beijei-lhe redondezas do umbigo, mordendo suave, uma hora ou outra, para delírio e prazer, meu e dela, dela e meu, respectiva e reciprocamente. Ao final do último gemido, Gisele abaixou os braços e com as mãos já descansadas, carinhou minhas orelhas, dando um beijo superficial na minha testa descoberta pelo cabelo preso. Alguns passos para trás, dois à direita e caminhou para o banheiro, sem qualquer palavra. A televisão ainda insistia nos infinitos créditos, com tantos nomes e cargos e funções e importâncias. Refiz o rabo de cavalo dos meus cabelos, já abandonando a temperatura do sofá e adentrando o frio da sala, agora escura pela cor negra de pano de fundo das letras em movimento da televisão. Do lado de fora, pela janela, os retângulos e quadrados iluminados de vida, longe e perto. O prédio vizinho, com algumas janelas fechadas, outras abertas e ainda aquelas que expunham a vida alheia na vitrine urbana da cidade. Foi quando o miado vociferou do lado de fora, pela última vez. Uma réstia de vontade de descer as escadas e ficar vis-à-vis com aquele (ou seria aquela?) felino (ou felina) esquadrinhou a sola dos meus pés presos nos chinelos. Não houve movimento, nem menção. Continuamos os três corpos, separados por muitos obstáculos.
Gisele voltou do banheiro, com o rosto e alguns fios de cabelo ainda molhados, segurando a toalha amarelo-vivo nas mãos. Dois botões da sua camisete branca abertos, revelações de um colo que eu tanto beijei e tanto desejava beijar. Olhei o contorno dos seios enleados por um sutiã justo. Olhei sem de(i)scrição. Mordida de lábios, meu e dela. Jogou a toalha sobre a mesa de vidro pela qual passou enquanto caminhava na minha direção, já com as mãos sobre o terceiro botão, prenúncios do meu deleite. Próxima, jogou as mãos sobre o apoio do sofá, imediatamente atrás de mim, à altura dos meus ombros. Beijou molhado a ponta da minha orelha: morna e segura língua que brincou com os lóbulos, deixando os lábios para abraçar o resto. Desceu ao pescoço, até quase o ombro e sentou-se sobre meu colo, encaixando sua anca sobre a minha. Das pernas longas, senti a atenção e tensão das coxas, embora elas me apertassem pelas laterais. Sobranceira, soltou as mãos do apoio do sofá e atarracou-as na minha nuca, despreocupada se arranhava ou doía. Não houve movimento, nem menção minha. O único desbrave foi o da porta da sala se abrindo e por entre a fresta mal iluminada que aparecia, abandonava-me o prazer do corpo de Gisele e entrava o - outro - corpo felino e mais branco, nos seus poucos centímetros acima do chão. Saindo rápido de cima de mim e jogando-se rapidamente já sentada no sofá e de pernas cruzadas, Gisele abandonou seus dedos, deixando as marcas ardidas e - que eu supunha-vermelhas na minha nuca e voltou para sua suavidade suspeita, embora alguns fios de desejo invisíveis ainda atavam seu corpo ao meu. Todo esse movimento dela feito com o meu olhar ainda imóvel na fresta escura da porta da sala, de onde apenas a parte posterior daquela pouca silhueta alva aparecia. Do negro de lá de fora, veio a curiosa gata (sim, era uma gata, eu me certificava visualmente), inquiridora no seu andar ritmado e logo atrás, minha mãe, com suas sacolas brancas de supermercado, com seu olhar antropológico sobre a felina que ela mesma acabara de convidar a entrar.
- Quê isso, mãe? – eu gritei e, no tom, misturou-se alegria e dúvida.
Não respondeu. Continuou sorrindo, com as sobrancelhas arqueadas de uma menina sapeca na sua primeira década de vida.
- Uma gata! – respondeu por fim, a contragosto.
- Que é uma gata, eu sei!, – e corri até perto das duas recém-chegadas – até já tinha a visto há algum tempo, saindo de baixo de um dos carros da garagem. Miava demais. Mas, mãe! Você não gosta de gatos! – argumentei, por fim.
Não respondeu novamente. Colocou as compras sobre o balcão da cozinha, alheia a presença da gata que, àquela altura, já havia caminhado até os pés de Gisele e enroscava-se por entre as canelas dela. Acompanhei os movimentos absurdamente normais de minha mãe, na sua tarefa recreativa e terapêutica de providenciar o lugar certo de todas as coisas. Meus olhos mais abertos do que o normal, inquietos pelo movimento horizontal da minha cabeça insatisfeita.
- Você nem gosta de gatos!... ela vai ficar aqui? Imagina! Vai rasgar todos os sofás. Eles transmitem toxoplasmose!... – minha mãe enchia uma tigelinha laranja de leite, ausente das minhas súplicas por explicação -... me dá aqui essa tigela.
Com o pote sobre a palma da minha mão, caminhei alguns passos cautelosos até próxima a gata, próxima a Gisele. Sentei sobre os calcanhares e busquei a atenção do pequeno animalzinho pelo qual, inadvertidamente, todos já criávamos afeição (ou talvez só eu criasse e construísse um sentimento inexistente nas outras pessoas). Perto assim, notei que era uma gata extremamente branca, quase albina. As bordas dos olhos, das quais os cílios também claros saiam, eram róseas. O nariz unido a boca arqueada também apresentava manchas rosas claríssimas, como um batom borrado. Um derrame quente de carinho desceu da garganta e aqueceu-me o peito, fazendo com que colocasse a tigela no chão e lançasse as mãos para tocá-la. Parei a centímetros dela e, por medo da rejeição ou de uma bela mordida, apenas ofertei-lhe as costas da minha mão para que ela, a gata, se decidisse se eu poderia acariciá-la mais e melhor. Enfurnou sua cabeçinha sob a minha mão e deu um passinho feminino, para que a palma deslizasse, delicada, sobre seu pêlo branco e organizado. Abri a boca num sorriso de graça e olhei, logo acima, para Gisele, que também sorria - de deboche ou de ternura ou ambos.
Passou a noite em minha casa. Bailou por todos os quartos, subindo nas camas vez ou outra, dando voltas sobre o próprio corpo e deitando logo em seguida. Bebia o leite com a ponta de sua língua minúscula e rosa, fazendo círculos no líquido também branco. Recebia um afago e aproximava as pálpebras gostosamente, saboreando aqueles momentos de contato. Trançava entre as pernas humanas e das cadeiras, adentrava cantos apertados entre os sofás e móveis. Fazia da minha casa o seu universo particular. Gisele foi embora, oferecendo-se para levar a gata para a rua. Perguntei à minha mãe.
- Abra a porta e deixe que ela mesma se decida. Se sair, leve-a embora. Se não, arrume um cobertor e faça-lhe uma cama. - respondeu sonolenta, já debaixo das cobertas.
Gisele escancarou a porta, já pronta para tomar a gata no colo e irem embora juntas. Risonha, a gata caminhou com suas patas de algodão até o vão: olhou as escadas, o corredor e eu supus que também olhou para Gisele. Deu de ombros e, meia-volta, caminhava para dentro do apartamento de novo. Despedi-me com um beijo na bochecha de Gisele, enquanto ela me dava uma lista de coordenadas para o dia seguinte, onde nos encontraríamos, que horário eu iria buscá-la, em que lugares iríamos comer, fazendo-me prometer que ligaria logo que acordasse. Consenti a tudo, com uma das mãos repousadas sobre a maçaneta. Ainda perto da escada, mandou-me um beijo. Peguei-o no ar e mantive a mão fortemente fechada até que ela desapareceu no segundo lance de escadas. Abrindo lentamente cada um dos dedos, olhei para o nada da mão, justamente ali sobre as linhas da vida desenhadas na palma. Observei o sangue voltar às extremidades e enrubescer as pontas dos dedos e das unhas que, imediatamente antes, estavam amarelados. Com a mesma mão, reajeitei a armação dos óculos e fechei a porta.
Voltei ao sofá, sem notícias do paradeiro da gata. Fui até o quarto da minha mãe e ela e meu irmão se divertiam fazendo perguntas a gata que, sentada no chão, talvez também fizesse perguntas ininteligíveis a eles. Desliguei o aparelho de DVD, recoloquei nos canais normais e acabei por adormecer assistindo a um jornal qualquer, um desses de altas horas da noite. Acordei com o miado da gata, dessa vez, falado ao pé do meu ouvido. Com o corpo posudo sobre as quatro brancas patas, ela me fitava. Imóvel, mais um miado. Franzi a testa, sem entendê-la. Não miou mais. Apenas esperou que eu me levantasse, desligasse a televisão e rumasse para minha cama. Do sofá a cama: em transe e desmemoriado. A última cena que ficou foi a do seu corpo quadrúpede na porta do meu quarto, sentada perto da armação da porta. A luz amarela da sala atravessava os corredores e iluminava as costas da gata, projetando sua sombra no chão de taco envernizado do meu quarto escuro. Seu rabo dançava, de um lado para o outro, desenhando esse's no ar, como se, sendo um braço, me dava adeus. Ainda forcei as pálpebras, para não adormecer. Não houve movimento, nem menção. Foi a última vez que a vi.
Acordei pela manhã e o sol já se colocara bem alto no céu. Perambulei pelos cômodos da casa, na esperança matutina de encontrá-la ainda lá, no cobertor xadrez em vermelho e preto que eu havia preparado para seu repouso. A arrumadeira avisou que ela já havia ido embora. Logo que acordou, minha mãe saiu para o trabalho e consigo, levou aquele corpo branco e carente para fora, disse a mulher, sem a adjetivação, que é própria de quem sente e não de quem apenas conta. Houve sim, um alívio triste. Eu não precisaria prender a gata e nem a gata a mim. Foi a primeira que me deixou, pensei. Dói? Acho que não, é tranqüilizante. É melhor partir ou ficar? Não soube responder.
Voltava para cama quando o celular tocou e no visor, o nome Gisele piscava incansável e irritadiço, enquanto o réquiem de Mozart berrava do aparelho. Balbuciei alguns monossílabos enquanto ela desperdiçava opiniões naquela hora da manhã. Eu ri. Ela indagou. Reafirmei o riso e disse “bom dia, meu bem”. Ela acalmou-se e, com um sorriso telefônico propriamente silencioso, continuo o discurso. Busquei-a pela tarde e foi-se embora novamente pela noite. Numa noite, aliás, sem miados.
Dias depois, quando chegava ofegante a minha casa, vinda de suas voltas pela cidade, Gisele respondeu sincopada, entre um fôlego e outro:
- Acabou de passar um carro de propaganda por aqui, você não ouviu? Dizia assim:
“procura-se uma gata adulta de pêlos brancos, perdida no dia 26 de julho, no bairro da Graça. Atende pelo nome de Lisa. É muito dócil e afável. Informações pelo contato...” – terminou, vitoriosa, a fala.