Friday, August 31, 2007

Notícias Mínimas

"A cidade é muito grande
E eu sou praticamente invisível
Temos nossas canções
E alguns recados na porta
Promessa de dias melhores"
Notícias para Honey - Dinartes (composição André Zitto/Rodrigo Chaise)










À meia-luz: uma tosse seca arranhando a garganta, meia dúzia de livros jogados pelos sofás e mesas, canetas e lápis espalhados sobre as folhas brancas e impacientes. A ponta preta de um cigarro enterrado em meio às suas próprias cinzas, enquanto o isqueiro transparente brinca nos meus dedos, de um lado para o outro; um calendário sobre a geladeira da cozinha, com seus números indistinguíveis e seus feriados marcados em caneta marca-texto rosa. A escuridão sem estrelas de um tapete negro sobre os prédios fugidos ao alcance da minha visão. Diálogos privados numa esquina distante e passos indiferentes na rua à frente revelados pelo silêncio das ruas pacatas de um feriado; o box preto de um cigarro, no qual a réstia de luz amarelada de um abajur muito mal posicionado ao canto da sala se reflete. Um copo sujo de café próximo aos pés do sofá que atrai minúsculas formigas no seu trabalho fabril de achar alimento. Deitada com o rosto colado ao tecido sintético do estofado, deixo que o peso da minha mão a mantenha próxima ao chão e com a ponta do isqueiro preso entre os dedos indicador e polegar, mato uma a uma todas as pequenas formigas, desenhando no chão um círculo de morte ao redor da base redonda do copo de vidro transparente. Acendo e apago a chama do isqueiro, alguns centímetros do meu rosto, iluminando as órbitas oculares úmidas e ricas em vasos dilatados e avermelhados. Observo a chama intensa e brilhante, até que a ponta do meu dedo polegar se exaure, e então a labareda regride para dentro do corpo translúcido do isqueiro. Fecho os olhos e a luminosidade dela ainda é visível no tapete escuro sob minhas pálpebras.

Vozes do andar de cima anunciam uma chegada noturna de algum lugar muito alegre e risonho. Palavras povoadas de uma alegria fugaz e de uma ansiedade tremenda aceleram o diálogo e acentuam as risadas, deixando essas últimas à beira do nervosismo. Barulhos de saltos e sapatos contra o piso de madeira. Uma voz rouca e grave, outra adocicada e aveludada, ambas amortecidas pela largura do concreto que separa o meu apartamento do apartamento de cima. Elogiam-se... silenciam-se. Ligam o chuveiro e a energia que exala do meu abajur envelhecido ameaça desequilibrar, cochila, diminui de intensidade, mas volta a si rapidamente, como se lutasse contra um sono irrecusável. Ligam também o som, na exata mesma rádio do meu rádio-relógio, mas com uma intensidade muito maior: acaba por sufocar o chiado do meu simplório aparelho. Olho pro teto, para o bulbo esférico que protege a lâmpada e para os fios metálicos que escapam de suas redondezas e um desconforto se precipita da minha conveniente morbidez. Ajeito o travesseiro entre as pernas, alongo o pescoço, estralando-o de um lado para o outro. Levo um novo cigarro à boca e tomo-o entre os dentes sem acendê-lo. A brincadeira com o isqueiro é divertida e o cigarro permanece intacto, apoiado nos meus lábios secos e trincados.

Então, eu penso e paro. E penso tanto e paro tão pouco que construo lendas e capítulos de uma história pitoresca e onírica: assino com a memória e as promessas. Surgem apáticas teorias de evolução e frases construídas entre soluços sequiosos; medito sobre um encontro acidental, numa avenida longínqua, num dia cinzento e frio: ela vem caminhando em minha direção, dentro de um agasalho rosa claro, com os cadernos abraçados ao peito. Uma pequena presilha adorna os cabelos escuros e abundantes que se derramam da cabeça às costas, deixando algumas mexas onduladas suspensas no ar, ao sabor do embaraço. Um vento leve revolta os cachos e eles se revelam no ar, desbravando o princípio do precipício de uma nuca delicada... enquanto eu, com os cabelos presos num rabo-de-cavalo impecavelmente preso, observo-a se aproximar, por cima dos óculos; ensaio um movimento com a sobrancelha, seguido de um leve levantar dos olhos à altura dos olhos dela. Ela sorri, exatamente como sempre sorriu, com a clareza do desejo que eu julgo palpitante – porque assim também se configura em mim. O pensamento se espanta com a intensidade e foge, me jogando contra a realidade suada do meu rosto colado ao sofá. A moça dos cabelos ondulados e do moleton rosa acena, no nosso último momento, ofuscada pela luz real do abajur, com seus dedos longos, acompanhada pelo sorriso adimensional que se estampa no seu rosto pálido pela minha imaginação em retirada, cantando o último trecho do mais recente bolero. De volta à realidade mundana, o cigarro ainda permanece sem fogo, preso entre os dentes.

“Não quero falar – e se for possível nem pensar - as coisas que não sei dizer (ou daquelas que não ouso). Não sei mais datar os acontecimentos numa escala clímax de sensações, para que ao final, sem fôlego, ainda me reste um sopro de saudade – e isso é isto: mergulhos profundos em piscinas de saudades para ver se acordo molhada de coragem de procura-la dentro e fora de mim. Já se foram horas e maços numa busca completamente interior de chegar a algum lugar ao menos próximo do meu algo-maior... chega! Houve tempo em que precisei de tempestuosas palavras e descrições megalomaníacas para ameaçar a sensatez cega dos bons tempos, tudo por um momento misericordioso de loucura criativa e desperta. Lancei olhares significativos e nada. Haja o que houver, sou sempre eu e termino assim. Nada além...” – eu medito mentalmente, sem aproximar, um centímetro se quer, cigarro e isqueiro...

“Desde que me descobri incansável, corro atrás do abatimento. Noites sem dormir, madrugadas adentro e fora de mim: cigarros amiúde, taças sujas, lençóis intactos, televisões acesas, livros grifados, chamadas perdidas, cadernos rabiscados, telefonemas inventados, diálogos imaginários” – retumbam no meu tímpano idéias silenciosas que eu grito dentro do vazio do meu apartamento. Então, por um segundo, eu deixo que o rádio-relógio preto, de números vermelhos e geométricos e de vozes teatrais e músicas antigas, me conte uma história banal, uma notícia de realidade, um despropósito publicitário, um acontecimento invisível. Escuto e brinco com as palavras e com as asas das palavras, que ainda as mantêm no ar, ao alcance da minha imaginação, caçoando do meu desespero comedido. Com o flash de luz que faço com isqueiro, ainda posso ver umas últimas réstias e restos dos pensamentos que deixei há pouco e uma nuvem dourada de brocal paira cintilante sobre minha cabeça, onde antes flutuavam, à deriva, os pensamentos... a ponta do cigarro ainda marrom do fumo...

Sei que é noite pelos algarismos vermelhos no painel digital do rádio-relógio e pelos locutores que se revezavam na brincadeira teimosa e covarde de me dizer que as horas se passam e eu continuo aqui. Oito e alguma coisa. Bato o isqueiro contra o chão no número de vezes igual ao dos minutos. Na última batida, interrompo o movimento no ar, levo a mão à boca: tomo o cigarro entre dos dedos e coloco-o sobre a pequena mesa que sustenta o abajur. Salto do sofá já calçando os tênis e colocando o isqueiro no bolso da frente da calça. Atravesso a porta do meu apartamento-mundo-casulo, batendo-a fortemente contra as paredes de selecionado tom “branco gelo”. O estrondoso barulho é apenas um aviso às vozes do andar superior de que existe vida (ou sobrevida) sob os pés deles.

(...)




(Dados sobre a foto: Yun fotografias de ação grátis)




Friday, August 17, 2007

Se vis pacem, para bellum

Há silêncios preciosos.

Friday, August 10, 2007

Orange's flow




Juro: apertei os olhos tão forte que foi difícil recobrar a visão. Esfreguei-os com as pontas dos dedos, impedindo uma lágrima de se despencar, molhada de lucidez, enquanto o resto do corpo se estremecia no desespero da lembrança de você, inquieta em mim. Ainda de olhos abertos, era tudo tão escuro... há dias inteiros a sua espera, uma paciência mentirosa de quem espera o telefone tocar. Qualquer torpor de ouvir sua voz entre cinco e seis da tarde, quando o céu se entristece e me leva com ele. Observei, de cá, as minúsculas estrelas laranjas se acenderem dependuradas nos postes das ruas vizinhas. Juro: quis tanto. Prometo: quero, ainda e pra sempre, mais.

Saturday, August 04, 2007

Lisa, uma história felina (e verídica)




- Miaaaaaau...

Pensei ser da televisão.

- Miaaaaaaaaaaaaaaaau... – insistiu, pedindo a atenção.

Coloquei a televisão em mudo. Repetiu-se do lado de fora do prédio.

- Miaaaaaaaaaaaaaaaaaau... – agora mais irritado, quase gritando.

Corri até a janela, sem me preocupar em calçar os chinelos, apenas debruçando-me sobre a armação da janela. Esperei o próximo chamado.

- Miaaaaaaau....

Foi quando a silhueta saiu de baixo de um dos carros, já dentro da minha garagem. As patas que tocavam o chão acimentado, dando a ele a impressão de um carpete de veludo. Quando caminhava, os ossos e os músculos de suas costas se projetavam; alternavam-se nos movimentos flutuantes de subida e descida, elegantemente decorando o caminhar que se desenhava com tranqüilidade. As orelhas brancas e pontudas, mirando o céu, moviam-se de tempos em tempos, indicando-me que estava atenta, ainda que aparentasse uma certa indiferença ao lugar.

- Miaaaau... – disse, lançando o olhar riscado pra cima e mostrando os dentes pontiagudos na boca entreaberta – miaaaau.

Olhei o pequeno corpo branco da janela do meu segundo andar. Não disse nada, não me dirigi a ele, não estalei os dedos, não gastei meu humor fazendo onomatopéias: nada. Apenas observei-o daqui, gritando o mesmo “miau” repetidas vezes, com os olhos claros seteiros e apontados para cima. Pensei que implorasse qualquer coisa, um pouco de comida, quem sabe. Ameaçei descolar o corpo da janela e ir buscar-lhe um pedaço de carne. Na possibilidade de não me ver livre daquele som depois, permaneci, imóvel, apenas enquadrando aquele pequeno corpo branco numa fotografia mental. Era uma noite fria, a primeira noite fria de um inverno atrasado que chegava ao final de Julho. Uma corrente de ar entrou pela janela lateral e eriçou-me os pêlos das pernas. Fechei as janelas e em seguida as parnesianas, sem titubear. Sorri cansada, respirando lânguido pelas narinas, enquanto voltava para o sofá, ainda morno pelo contato prolongado do meu corpo. Gisele perguntou-me o que era. Respondi sem olhá-la, calculando os passos até ela. Sentei-me no exato lugar que havia abandonado, com a cabeça sobre o colo dela, entre as horas perdidas e abandonadas em frente da telinha azul colorido.

Apertei “play” e continuamos o filme. Na televisão 40 polegadas da Semp Toshiba, todas as cores de Almodóvar em “Carne Trêmula”. Na cena, Davi, o ator principal-sem-clichês: em óculos de armações pesadas e grossas, dentro de um carro vermelho fosco, com uma máquina fotográfica em mãos, transparecendo a ansiedade-raiva de estar fotografando momentos indiscretos de um casal adúltero, como se adquirisse a maior munição dos tempos contra os seus males e transtornos. Gisele comentou alguma coisa, soltando da boca falante bufadas de fumaça que se lançavam como cogumelos no ar. Não dei a devida atenção, mas sei que comentei qualquer coisa de volta, tomando o cigarro dos dedos dela e dando um trago longo. Desfiz das cinzas, batendo na lateral do cinzeiro que Gisele segurava com a mão parada no ar e, então, levantei o corpo, postei-me boca-a-boca e, quando nossos lábios se tocaram selados, devolvi o trago roubado para boca dela. Ela sorriu com os olhos apertados daqueles cílios-cortinas: expirou aquela língua cinza gasosa, iluminada de azul pelo aparelho de TV e que aos poucos se dissolvia no ar. O miado insistiu. Aumentamos o som do televisor, enquanto Davi se preparava para sair com o carro.

De sangue a sangue, de vida em vida, o filme terminou. O olhar de Gisele se cruzou com o meu, naqueles momentos seguintes do término da película, enquanto os créditos ainda passavam, nuns segundos inenarráveis de reciprocidade e proximidade. Afagou-me, já se levantando do sofá e espreguiçando o corpo a minha frente. O moleton azul subiu pouco acima do umbigo e revelou-o para mim, como se a própria Gisele me ofertasse um beijo ou uma mordida molhada naquele pedaço de corpo moreno. Ainda com a boca escancarada dos dentes grandes e milagrosamente alvos (haja visto tanto cigarro), com os braços angulados para cima, pilares das mãos que também se espreguiçavam, olhava para baixo, enrugando a pele sob o queixo. De novo: o sorriso ocular – em nós duas. Concertei o corpo. Fiquei à frente dela, já a abraçando pelas presilhas para cinto da calça jeans e, com as mãos presas nas voltas glúteas donde nádegas viram pernas, beijei-lhe redondezas do umbigo, mordendo suave, uma hora ou outra, para delírio e prazer, meu e dela, dela e meu, respectiva e reciprocamente. Ao final do último gemido, Gisele abaixou os braços e com as mãos já descansadas, carinhou minhas orelhas, dando um beijo superficial na minha testa descoberta pelo cabelo preso. Alguns passos para trás, dois à direita e caminhou para o banheiro, sem qualquer palavra. A televisão ainda insistia nos infinitos créditos, com tantos nomes e cargos e funções e importâncias. Refiz o rabo de cavalo dos meus cabelos, já abandonando a temperatura do sofá e adentrando o frio da sala, agora escura pela cor negra de pano de fundo das letras em movimento da televisão. Do lado de fora, pela janela, os retângulos e quadrados iluminados de vida, longe e perto. O prédio vizinho, com algumas janelas fechadas, outras abertas e ainda aquelas que expunham a vida alheia na vitrine urbana da cidade. Foi quando o miado vociferou do lado de fora, pela última vez. Uma réstia de vontade de descer as escadas e ficar vis-à-vis com aquele (ou seria aquela?) felino (ou felina) esquadrinhou a sola dos meus pés presos nos chinelos. Não houve movimento, nem menção. Continuamos os três corpos, separados por muitos obstáculos.

Gisele voltou do banheiro, com o rosto e alguns fios de cabelo ainda molhados, segurando a toalha amarelo-vivo nas mãos. Dois botões da sua camisete branca abertos, revelações de um colo que eu tanto beijei e tanto desejava beijar. Olhei o contorno dos seios enleados por um sutiã justo. Olhei sem de(i)scrição. Mordida de lábios, meu e dela. Jogou a toalha sobre a mesa de vidro pela qual passou enquanto caminhava na minha direção, já com as mãos sobre o terceiro botão, prenúncios do meu deleite. Próxima, jogou as mãos sobre o apoio do sofá, imediatamente atrás de mim, à altura dos meus ombros. Beijou molhado a ponta da minha orelha: morna e segura língua que brincou com os lóbulos, deixando os lábios para abraçar o resto. Desceu ao pescoço, até quase o ombro e sentou-se sobre meu colo, encaixando sua anca sobre a minha. Das pernas longas, senti a atenção e tensão das coxas, embora elas me apertassem pelas laterais. Sobranceira, soltou as mãos do apoio do sofá e atarracou-as na minha nuca, despreocupada se arranhava ou doía. Não houve movimento, nem menção minha. O único desbrave foi o da porta da sala se abrindo e por entre a fresta mal iluminada que aparecia, abandonava-me o prazer do corpo de Gisele e entrava o - outro - corpo felino e mais branco, nos seus poucos centímetros acima do chão. Saindo rápido de cima de mim e jogando-se rapidamente já sentada no sofá e de pernas cruzadas, Gisele abandonou seus dedos, deixando as marcas ardidas e - que eu supunha-vermelhas na minha nuca e voltou para sua suavidade suspeita, embora alguns fios de desejo invisíveis ainda atavam seu corpo ao meu. Todo esse movimento dela feito com o meu olhar ainda imóvel na fresta escura da porta da sala, de onde apenas a parte posterior daquela pouca silhueta alva aparecia. Do negro de lá de fora, veio a curiosa gata (sim, era uma gata, eu me certificava visualmente), inquiridora no seu andar ritmado e logo atrás, minha mãe, com suas sacolas brancas de supermercado, com seu olhar antropológico sobre a felina que ela mesma acabara de convidar a entrar.

- Quê isso, mãe? – eu gritei e, no tom, misturou-se alegria e dúvida.

Não respondeu. Continuou sorrindo, com as sobrancelhas arqueadas de uma menina sapeca na sua primeira década de vida.

- Uma gata! – respondeu por fim, a contragosto.

- Que é uma gata, eu sei!, – e corri até perto das duas recém-chegadas – até já tinha a visto há algum tempo, saindo de baixo de um dos carros da garagem. Miava demais. Mas, mãe! Você não gosta de gatos! – argumentei, por fim.

Não respondeu novamente. Colocou as compras sobre o balcão da cozinha, alheia a presença da gata que, àquela altura, já havia caminhado até os pés de Gisele e enroscava-se por entre as canelas dela. Acompanhei os movimentos absurdamente normais de minha mãe, na sua tarefa recreativa e terapêutica de providenciar o lugar certo de todas as coisas. Meus olhos mais abertos do que o normal, inquietos pelo movimento horizontal da minha cabeça insatisfeita.

- Você nem gosta de gatos!... ela vai ficar aqui? Imagina! Vai rasgar todos os sofás. Eles transmitem toxoplasmose!... – minha mãe enchia uma tigelinha laranja de leite, ausente das minhas súplicas por explicação -... me dá aqui essa tigela.

Com o pote sobre a palma da minha mão, caminhei alguns passos cautelosos até próxima a gata, próxima a Gisele. Sentei sobre os calcanhares e busquei a atenção do pequeno animalzinho pelo qual, inadvertidamente, todos já criávamos afeição (ou talvez só eu criasse e construísse um sentimento inexistente nas outras pessoas). Perto assim, notei que era uma gata extremamente branca, quase albina. As bordas dos olhos, das quais os cílios também claros saiam, eram róseas. O nariz unido a boca arqueada também apresentava manchas rosas claríssimas, como um batom borrado. Um derrame quente de carinho desceu da garganta e aqueceu-me o peito, fazendo com que colocasse a tigela no chão e lançasse as mãos para tocá-la. Parei a centímetros dela e, por medo da rejeição ou de uma bela mordida, apenas ofertei-lhe as costas da minha mão para que ela, a gata, se decidisse se eu poderia acariciá-la mais e melhor. Enfurnou sua cabeçinha sob a minha mão e deu um passinho feminino, para que a palma deslizasse, delicada, sobre seu pêlo branco e organizado. Abri a boca num sorriso de graça e olhei, logo acima, para Gisele, que também sorria - de deboche ou de ternura ou ambos.

Passou a noite em minha casa. Bailou por todos os quartos, subindo nas camas vez ou outra, dando voltas sobre o próprio corpo e deitando logo em seguida. Bebia o leite com a ponta de sua língua minúscula e rosa, fazendo círculos no líquido também branco. Recebia um afago e aproximava as pálpebras gostosamente, saboreando aqueles momentos de contato. Trançava entre as pernas humanas e das cadeiras, adentrava cantos apertados entre os sofás e móveis. Fazia da minha casa o seu universo particular. Gisele foi embora, oferecendo-se para levar a gata para a rua. Perguntei à minha mãe.

- Abra a porta e deixe que ela mesma se decida. Se sair, leve-a embora. Se não, arrume um cobertor e faça-lhe uma cama. - respondeu sonolenta, já debaixo das cobertas.

Gisele escancarou a porta, já pronta para tomar a gata no colo e irem embora juntas. Risonha, a gata caminhou com suas patas de algodão até o vão: olhou as escadas, o corredor e eu supus que também olhou para Gisele. Deu de ombros e, meia-volta, caminhava para dentro do apartamento de novo. Despedi-me com um beijo na bochecha de Gisele, enquanto ela me dava uma lista de coordenadas para o dia seguinte, onde nos encontraríamos, que horário eu iria buscá-la, em que lugares iríamos comer, fazendo-me prometer que ligaria logo que acordasse. Consenti a tudo, com uma das mãos repousadas sobre a maçaneta. Ainda perto da escada, mandou-me um beijo. Peguei-o no ar e mantive a mão fortemente fechada até que ela desapareceu no segundo lance de escadas. Abrindo lentamente cada um dos dedos, olhei para o nada da mão, justamente ali sobre as linhas da vida desenhadas na palma. Observei o sangue voltar às extremidades e enrubescer as pontas dos dedos e das unhas que, imediatamente antes, estavam amarelados. Com a mesma mão, reajeitei a armação dos óculos e fechei a porta.

Voltei ao sofá, sem notícias do paradeiro da gata. Fui até o quarto da minha mãe e ela e meu irmão se divertiam fazendo perguntas a gata que, sentada no chão, talvez também fizesse perguntas ininteligíveis a eles. Desliguei o aparelho de DVD, recoloquei nos canais normais e acabei por adormecer assistindo a um jornal qualquer, um desses de altas horas da noite. Acordei com o miado da gata, dessa vez, falado ao pé do meu ouvido. Com o corpo posudo sobre as quatro brancas patas, ela me fitava. Imóvel, mais um miado. Franzi a testa, sem entendê-la. Não miou mais. Apenas esperou que eu me levantasse, desligasse a televisão e rumasse para minha cama. Do sofá a cama: em transe e desmemoriado. A última cena que ficou foi a do seu corpo quadrúpede na porta do meu quarto, sentada perto da armação da porta. A luz amarela da sala atravessava os corredores e iluminava as costas da gata, projetando sua sombra no chão de taco envernizado do meu quarto escuro. Seu rabo dançava, de um lado para o outro, desenhando esse's no ar, como se, sendo um braço, me dava adeus. Ainda forcei as pálpebras, para não adormecer. Não houve movimento, nem menção. Foi a última vez que a vi.

Acordei pela manhã e o sol já se colocara bem alto no céu. Perambulei pelos cômodos da casa, na esperança matutina de encontrá-la ainda lá, no cobertor xadrez em vermelho e preto que eu havia preparado para seu repouso. A arrumadeira avisou que ela já havia ido embora. Logo que acordou, minha mãe saiu para o trabalho e consigo, levou aquele corpo branco e carente para fora, disse a mulher, sem a adjetivação, que é própria de quem sente e não de quem apenas conta. Houve sim, um alívio triste. Eu não precisaria prender a gata e nem a gata a mim. Foi a primeira que me deixou, pensei. Dói? Acho que não, é tranqüilizante. É melhor partir ou ficar? Não soube responder.

Voltava para cama quando o celular tocou e no visor, o nome Gisele piscava incansável e irritadiço, enquanto o réquiem de Mozart berrava do aparelho. Balbuciei alguns monossílabos enquanto ela desperdiçava opiniões naquela hora da manhã. Eu ri. Ela indagou. Reafirmei o riso e disse “bom dia, meu bem”. Ela acalmou-se e, com um sorriso telefônico propriamente silencioso, continuo o discurso. Busquei-a pela tarde e foi-se embora novamente pela noite. Numa noite, aliás, sem miados.

Dias depois, quando chegava ofegante a minha casa, vinda de suas voltas pela cidade, Gisele respondeu sincopada, entre um fôlego e outro:

- Acabou de passar um carro de propaganda por aqui, você não ouviu? Dizia assim:
“procura-se uma gata adulta de pêlos brancos, perdida no dia 26 de julho, no bairro da Graça. Atende pelo nome de Lisa. É muito dócil e afável. Informações pelo contato...” – terminou, vitoriosa, a fala.






Sunday, July 29, 2007

Nada para mim (reborn)


Olhei no relógio do canto direito inferior do meu computador quase obsoleto. 23:25h. Como um ato que não pede explicação, conferi o mesmo horário no meu relógio digital no punho. Religiosamente no mesmo horário. Passei a mãos pelos cabelos presos com um prendedor metálico prateado, reajeitei a armação dos óculos. O celular completamente imóvel. E é assim que você me coloca no mesmo lugar.


Perdi meu tempo há muito tempo. Quando? Não sei mais. Sinto um vazio estranho num espaço que não me pertence. Vou voltar, mas é na volta que as amarguras da ida latejam dolorosamente mais evidentes. Queria não precisar, queria não ter a necessidade de. Sempre preciso; nada tenho. Só a possibilidade do meu amanhã.


É. Você não apareceu e essa vai ser só mais uma noite, entre eu, meu travesseiro e o rádio ligado até de manhã.


Se eu acordar durante a madrugada, que meus pensamentos não despertem. Costumo passar alguns minutos - há dias em que eles se transformam em horas - deitada, imóvel, apenas sob o controle da minha respiração. Penso em você, é óbvio. Penso nos seus sussurros, na sua voz quase rouca que me acordava de manhã. O cheiro dos seus cabelos, as curvas do seu corpo. Num mar de nostalgia, eu me pego embriagada de você. Aí, eu olho o relógio (de novo) e vejo que mal cinco minutos passaram e você ainda em mim. Queria que você precisasse mais de mim. Queria poder ir embora, jogar as suas fotos fora, deletar seus telefones da minha agenda eletrônica. Queria ir embora para você me querer mais. Se hoje eu lhe vejo e fingo (espero que bem) que não se passa de situação comum, é porque quero que você deseje. Não que eu me renda aos jogos, mas é que fica doloroso entregar os dados na sua mão.


Reviro os lençóis e os meus dois grandes travesseiros. Sinto um calor diferente que aquece e umidece meu corpo sob o lençol. Eu saio da cama, sento à frente do computador e espero não-sei-o-quê. Penso em rendição. Tomo um café esquecido na garrafa térmica vermelha. Amargo, ácidos, mas assim mesmo o tomo. Pergunto-me se preciso aprender a aceitar sua ausência. Aí então é que vejo que sempre estive adaptada a ela. Não sei se dói saber mais da minha consciência ou da sua indiferença.
(O primeiro post pós Anjo Caído. Por que há uma certa saudade de antes... só uma saudade.)

Tuesday, July 17, 2007

No Jardim das Hespérides (por fim)


Caiu a noite. De repente, como se o céu tivesse fechado as pálpebras, a noite despencou de qualquer lugar sobre nós duas. Havia um peso pouco discreto, o qual não se alivia com uma boa inspiração, ou um cigarro e ou uma boa desculpa. Era severo, constante e pálpavel. Contudo, abreviava a nossa intensidade, que tomava contornos quase visíveis. Sentamos-nos a bons
metros da fogueira e dos amigos que eu acabara de conhecer, de maneira que eles voltavam a ser apenas vultos escuros e alegres, circundando a língua alaranjada de fogo que nada iluminava. Ela se sentou primeiro, cruzando as pernas em forma de "borboleta", como se fizesse um laço com elas; fui logo depois, tomando o cuidado antes de retirar a mochila e colocá-la logo atrás de mim. Paralelas e simétricas, posto que eu também havia cruzado minhas pernas do mesmo jeito, fitávamos o mar, revolto e rotineiro, no seu vai-e-vem de ondas. Ela apoiou um dos braços sobre o joelho e, com o outro, anunciou a pequena mão que desenhava na areia da praia círculos, elipses, infinitos. Cruzei os braços sobre o peito e fechei os olhos junto com o céu, que dava boas-vindas à noite. Eu dava boas-vindas a ela.

Apoiei uma das mãos sobre a areia que começava a ficar fria, naquele princípio de noite, esperando que o calor da outra mão viesse, intrépido, aquecê-la e apertá-la, enquanto as palavras invadiriam meus ouvidos dizendo as frases pausadas e quase roucas, como eu esperava que fossem ditas, segredadas. Plenitude. Aproximei meu corpo, discreta, para não quebrar a bolha de tempo e espaço que havíamos criado e habitávamos naqueles instantes. Um bravio frio soprou do mar em nossa direção, desajeitando alguns fios de cabelo, secando a lágrima alforriada de algum canto de olho marejado. “Você...”, eu pensei sem desviar o olhar das ondas que vinham e voltavam, harmonizando um som em dó menor, dor menor:“...você”.

Friday, July 13, 2007

No Jardim das Hespérides (continuação...)







O silêncio do meu sorriso.



Andamos algum tempo com os pés descalços sobre a areia, assistindo ao últimos raios de sol que, de poucos, não iluminavam, apenas desenhavam retas borradas de luz no céu azul. Lentamente, acendiam-se luzes laranjas, amarelas e brancas pela calçada, nos apartamentos dos prédios que circundavam a enseada e em algumas casas mais próximas da praia. A insipiente iluminação, que aos poucos tomava espaço, contrastava com as tonalidades azuis intensas, róseas e alaranjadas daquele anoitecer especialmente frio. Não nos importávamos para aonde íamos ou de onde vínhamos, pois estar ali já era a chegada de algo muito menos direcional. Deixamos os sorrisos e as vozes dos amigos dela para trás e íamos nos afastando do barulho que eles faziam, nos camuflando sob o ocaso. Alguns transeuntes passavam, inertes, com fones presos às orelhas, completamente alheios a nossa presença; outros se arriscavam a correr, ritmando uma velocidade que contrastava com a atemporalidade do nosso momento e desacelerava o nosso andar. Enquanto caminhava sob passos lentos, completamente desprovidos de pressa e sem um destino distingüível, notei que meus pés se afundavam na areia e alguns grãos invadiam as reentrâncias dos dedos sem, contudo, tornarem-se desagradáveis. Distingui uma alegria grave no olhar dela que, em conjunto aos cabelos dourados que flutuavam no vento, não me aliviava o torpor e a ansiedade de estar à espera. Andamos um bom tempo assim, despedindo-nos do mundo e adentrando esse universo paralelo recém descoberto. O céu estava aberto e eu podia identificar uma ou outra constelação com facilidade, o que me fez lembrar dos signos. Olhei para ela, entusiasmada, deslocando a língua para dizer-lhe qualquer idéia roubada de recorte de jornal sobre signos. Parei. Seu ombro direito estava descoberto pela blusa de alça que ela usava e era incontrolável não o olhar. Não era um ombro que impunha presença, largo e notório; era delicado, desenhado em suaves curvas que terminavam não só nos braços e nas costas, mas também subiam sintuosos pelo pescoço e nuca. Pensei "seria bonito se ela tivesse uma tatuagem aqui", inclinei levemente a cabeça. "Talvez uma tatuagem de escorpião... uma tatuagem de Sol!", eu finalizei com um aperto contente no peito, atravessando a atenção do ombro para a face dela. Foi quando, propositadamente ou não, ela esbarrou todo seu lado direito no meu esquerdo. Com a mão que lhe ficava mais próxima, tentei apoiá-la e sem a consciência da fala, pedi desculpas. Abruptamente, ela consertou o corpo, voltou-se para mim, com um olhar alucinante, me fazendo repensar nas minhas desculpas, e segurou minha mão. Não disse nada. Apertou-a e, ainda sem soltar, continuamos andando.

Tuesday, July 10, 2007

No Jardim das Hespérides



Meu relógio de pulso ameaçava marcar seis e meia de uma tarde não muito friorenta de inverno, quando chegamos à praia. Olhei-o, despreocupada, mais interessada em agarrar-me a algo concreto, norteador. Havíamos caminhado todo o percurso do hotel no qual eu me instalara, passando por ruas e ruelas, bares e lojas, uns que fechavam, outros que se alegravam com o ocaso, até a grande avenida que margeava o litoral. Durante o percurso tentei, em vão, gravar os nomes dos lugares pelos quais passavámos, como se sabendo o nome deles, eu pudesse rememorar posteriormente todas as sensações que me ocorriam naquele tempo, como fotos que eu jamais tirei. Lembro-me de que estava ligeiramente dormente e incrédula de estar ali, ainda com um ou outro calafrio teimoso que persistiu desde que havíamos nos encontrado. Talvez fosse uma quinta-feira - sob resguardos de Oxossi e regência de Júpiter - pois há sempre um clima diferente neste dia, – quinta-feira é um “quase”, alegre e ansioso pela promessa do fim de semana -, ou talvez fosse mesmo uma sexta-feira, com toda sua pretensão e boemia. Caminhávamos, era certo. Ela me guiava, ora ou outra esbarrando sua mão na minha, visivelmente excitada pela possibilidade de ser minha grande anfitriã nesse mundo novo, no qual eu mal pisara. Enquanto falava, gesticulava expansivamente, apontando e explicando um detalhe ou outro que, na rapidez do cotidiano passa despercebido e sem ela, ali, eu não os veria com os olhos, entre marejados e sorridentes, que vi. O olhar dela, arisco e enérgico, examinava a paisagem a nossa volta, e os dedos, delicadamente pequenos e ágeis, estavam prestes a focar a minha atenção perdida e espalhada naquele novo lugar, uma desatenção ingênua que, eu sabia, ela tinha certo prazer em consertá-la . Enquanto ela apontava os edifícios e construções daquela cidade miraculosamente linda, percebi que até mesmo eles, estátuas e esculturas do mundo moderno, se curvavam a ela, solenes, tão interessados quanto eu, valsando na valsa que ela, regente, conduzia, numa sinfonia inaudível. Quando se cansava ou talvez achasse conveniente se calar, ela lançava os olhos à calçada a nossa frente. Mas, eu sabia: era uma maneira discreta de averiguar a minha atenção e captar qualquer sorriso-evidência da alegria simétrica que, mutuamente, nos invadia. Eu sorria, irremediavelmente consciente de estar sob observação dos audaciosos olhos dela, que se encerravam castanhos, mas apresentavam a inigualável suavidade feminina, talvez pelo tom dourado das sobrancelhas ou pela delicadeza dos traços que desenhavam, graciosos, nariz, bochechas e queixo. Sorri amplo, dando a ela a sincera e entregue sensação de que estava, completa e finalmente, ali. Nesses instantes de quietude, nos quais ela silenciava a voz e os braços, as casas e os prédios, respiravam, recuperavam o fôlego, entre um ato e outro, ainda absortos pelo comando dela. Segundos depois, ela avistava algo interessante ou simplesmente uma lembrança boa de algum lugar ou algo lhe acometia, e ela, então, reiniciava o ballet e a paisagem se movia, no ritmo das reminiscências e da voz inigualável dela.

Acompanhamos a avenida que tangenciava a praia durante bons minutos. Não posso dar noção melhor do tempo, pois naqueles passos letárgicos que dávamos, arrastando os chinelos sobre o chão, o tempo não se instalou. Nem ele, nem a monotonia, nem o cansaço, nem a pressa, nem o menor desequilíbrio. A cidade ia gradualmente perdendo a euforia do dia ensolarado para dar espaço a inadvertida noite que, embora um pouco fria, chegava sorrateira, embalando as intenções estampadas nas caras dos corpos morenos, nus ou quase nus, que transitavam e nos orbitavam. Ela evitava sorrir, embora constantemente eu a enxergasse abrir a boca, de lábios nem grossos nem finos, libertando um suspiro ou um pretexto duvidoso de molhar os lábios ressecados pela brisa que se chocava contra nós duas; quando sorria, entretanto, desviava o olhar para o lado oposto ao meu, de maneira que eu não lhe podia mirar a expressão. E era bonito vê-la assim, levemente desconcertada, certamente curiosa e atenta. Era belo, embora fosse assustador, pois havia dentro de mim um turbilhão de vontades e impulsos encarcerados e a presença dela me deixava assim, observadora e passível, sem saber se era tão bom para ela quanto era para mim. Segurei as alças da minha mochila, que começava a incomodar os ombros, quando ela, repentina, virou o rosto em direção ao mar, esticou o braço direito e apontou para um pequeno foco de luz em meio ao começo de escuridão azul da noite. De onde estávamos, ainda na calçada, parecia ponto luminoso de fogo no qual alguns vultos o circundavam. Faíscas de um alaranjado intenso subiam ao azul ciano do céu, desengonçadas e sem direção. Forçei a visão, espremendo os olhos atrás das lentes dos óculos, aproveitando para reajeitá-lo, ato que sei que dá a minha testa rugas pequenas de uma sabedoria desacreditada. Ela me olhou, eu a olhei de volta. Segurou-me a mão, pulamos o pequeno muro que separava o passeio da praia, retiramos os chinelos e reiniciamos a caminhada.

Andei ao lado dela, olhando para o mar, para as ondas que quebravam quando próximas da praia, espumando a poucos metros de meus pés. A maresia tem um odor e uma certa umidade que desperta qualquer coisa de desatino em mim - como se num passado inexistente na consciência desperta, algo de muito bom tivesse ocorrido ali, às margens do Atlântico Sul... uma despedida ou um reencontro ou outra epifania qualquer - e, naquele dia, havia mais pretextos para tanto. Do meu "mineirismo" inalienável, veio a sensação de pequenez diante da grandeza do oceano; em seguida, experimentei a sensação de "pertencer", como se mar e eu fôssemos um só e nessa hora eu quis correr o máximo possível e me atirar contra as ondas. Continuei caminhando, hipnotizada, seguindo os passos da minha guia. Foi preciso que ela disesse algo para me resgatar e quando percebi, já estávamos a poucos metros do local que ela havia apontado há pouco, quando ainda estávamos na calçada. Alguns dos vultos se clarearam e entre eles, alguns olhavam insistentes para mim. Intimidaram-me, confesso. Não havia me preparado para tanto e nem sei dizer se estava preparada para ela. Magistralmente, ela acelerou o passo e, enquanto buscava minha mão e segurava-a forte, já foi logo bradando meu nome e, mais divertidamente, minha naturalidade. Orgulho e diversão se misturavam na fala dela; ela soletrava o nome de minha cidade, numa afronta a minha tranqüilidade, mas era inútil, pois eu também sorria. Falseou um sotaque mineiro para alegria dos "convivas" e eu terminei o comentário com um "uai", dando o toque final. Eu apertava as mãos dos antes-vultos-agora-pessoas com uma certa alegria, pois sabia que eles também, assim como o lugar e as construções, me narrariam fatos e observações interessantíssimos, permeados pela voz soberana de todo carioca. Ou talvez ficassem gravados na memória daquele dia de inverno, como peças de um quebra-cabeça maior, do quebra-cabeça que ela era e do qual, eles faziam parte e eu apenas tinha começado a montá-lo. Ela, logo atrás de mim, entre uma repetição do meu nome e outro comentário com alguém mais distante, aquecia-me com a presença, como se me dissesse que estava ali, que cuidaria de mim. Ouvi alguns risos amigáveis, outros comentários sobre tempos passados com outros mineiros e a verdade era que me divertia, pois era tudo muito acolhedor. Nunca fui dada ao contato físico e sempre tive extrema dificuldade de aproximar fisicamente das pessoas embora, naquela atmosfera aconchegante, eu me atreveria a tocá-la, abraçá-la novamente, envolver-lhe pela cintura, prender meus dedos nos cabelos encaracolados dela, na lentidão morna de quem finalmente chega, apoiando a ponta do meu nariz na curva dos ombros dela. Naqueles momentos, aquecida não só pelo círculo magnético dela, mas pela fogueira à minha frente, deixei-me tocar. Toques leves nos ombros de uns, ora pesados e desatentos de outro; um braço ou outro que se prendia a minha cintura, me levando a um outro alguém que se aproximaria, beijando-me as bochechas e assim repetidas vezes até conhecer a todos. Ao final da apresentação, uma idéia lançou-se veloz para ponta da língua e eu sussurrei pra mim mesma, já que ela estava distante: cariocas são carentes, carinhosamente carentes, irresistivelmente carentes. Quando abandonei o pensamento, ela já estava do meu lado. Aproximou-se de mim, reajeitou uma mecha do meu cabelo, recolocando-a atrás da orelha, quando falou num tom de voz pausadamente grave e convidativo: "vem cá, tenho um lugar pra te mostrar". Ofereci a ela minha mão e ela tomou-a, como se tivesse abraçado o corpo inteiro.

Saturday, June 30, 2007

Por onde andará Lily Braun?


(Ainda está inacabado. O texto me pede mais e mais. Como o Bruxo soube fazer tão bem inúmeras vezes e é legado - ou seria feitiço? - dele em mim, "Por onde andará Lily Braun?" me escraviza, me cobra a continuação-satisfação, pois eu sou, além de narradora-voyeurista - prefiro ao simplório observador e sobre isso, escrevo depois -, uma leitora borbaniana* e, como minha cara Bárbara, também estou esperando, olhando pra tela, que é minha porta, com as pontas dos dedos também trêmulos, lábios dela. Estamos esperando o texto que virá me dilatando, catársico, independente, abortivo. Será ele por ele e, maternalmente, morrerei depois, anestesiada e sabe-se-lá se satisfeita.)






(E o leitor ficou desanimado, haja visto dois preâmbulos. Pensou, categórico, segurando a língua e ameaçando fechar o site, que este ser que vos fala é desnecessariamente explicativo, será leitura enfadonha. Se assim for, seja meu convidado à saída. Veja bem, se eu não introduzir certas perguntas e desmascarar a leitura inútil, logo agora, você terminará como Lily Braun, "nunca mais romance". Considere estas poucas linhas a âncora que dará sustentabilidade. Entrarás engatinhando nos terrenos de Bárbara e eu já estou crescida e enraizada lá. Pense, leitor atento, com seus dourados botões, por que será que toda boa história termina com um ponto de interrogação, visível ou não?)





Enquanto apertava com uma das mãos o gargalo da garrafa verde-escura de vinho tinto, levava, entre os dedos da outra mão, a taça arredondada ainda marcada com o batom que acabara de passar: um vermelho intenso, vulgar e barato, marcado na borda, sombra dos lábios trêmulos; o desenho avermelhado não se deixava confundir com o roxo do vinho, que sujava o interior da taça, indicando que a bebiba ficara ali tempo suficiente para impregnar o vidro. Bárbara encheu mais uma vez a taça, até um quarto do recipiente e tomou-o um gole só, deixando escorrer uma gota atrevida pelo canto da boca. Segurou o líquido na boca durante algum tempo, o que deixava as bochechas inchadas e, aos poucos, deixava que fios quentes da bebida escorressem garganta abaixo. Quando se deu por terminada, apoiou garrafa e a taça em cima da mesa de madeira, bem ali no canto esquerdo da sala, justaposta à porta que dava na cozinha. Olhou-as - sem as ver - por um breve segundo, para em seguida fechar fortemente os olhos e perceber que os pés se despediam do assoalho e o corpo ameaçava tombar; balançou a cabeça, desorganizando algumas mexas do cabelo castanho claro, sem desajeitar as idéias que, poucas, ainda tinham algum lugar. Um olhar despistado contra o relógio de pulso, numa batalha silenciosa de quem-vence-quem pelo cansaço, pela silenciosa espera, pela inafiançável esperança, pela infinitude milimetrada. Já se passaram vinte e três minutos e teimosos segundos do horário previsto para a chegada e, inevitavelmente, os olhos de Bárbara voltam inquietos para a porta. Será que viria? Tornava a encher outra taça até um quarto do conteúdo e tomava o vinho num gole único, sedento e descompassado, que levantava seu colo ao ritmo dos goles ferozes. O afastar dos lábios agora molhados da taça, imprimiu, em outro lado da borda, o mesmo desenho de tom vermelho, entretanto mais claro; os olhos que, perdidos, perambulavam entre garrafa, porta, relógio, garrafa, porta. Os ouvidos estavam especialmente sensíveis a qualquer ruído externo e acabavam por criar ondulações alegria-raiva, quando alguma porta de carro se fechava do lado de lá da porta da frente, e ela se retocava, felina, olhando para o espelho que, distraído, olhava também para ela.

Ameaçou levar os dedos à boca e roer-lhes as unhas, mas ao aproximá-las do rosto e ainda com uma dificuldade visual causada pelo álcool, viu como estavam bem-feitas e delicadas: os contornos visualmente uniformes, o brilho do esmalte cintilante contra a pouca iluminação da sala. Lembrou-se de que levara tempo até mantê-las de um tamanho adequado, posto que passara tempo demais roendo-as, ao ponto de se ferir e acabava por adicionar um pouco de diversão ao pouco de sangue que saia e ardia. Silenciosa até para os pensamentos – como se o desejo assumido despertasse um azar e quebrasse qualquer possibilidade de felicidade futura, ela sonhava pouco e breve, anestesiada, acolhendo tenra, o que de bom podia e se permitia ter nos suspiros dos seus devaneios–, torcia para que suas mãos, especialmente as unhas, fossem notadas. Acreditava num carinho recôndito daquele que lhe prestasse essa atenção e, se alguém, então, assim o fizesse, poderia visualizar a áurea feminina de Bárbara cruzar as pernas primeiro e então os braços sobre o peito, esboçar um sorriso senhor da sedução dissimulada, no canto do lábio, plenamente satisfeito; abandonaria-o apenas para balbuciar falácias para si mesma, com a boca entreaberta, na qual podia se ver a língua rósea inquieta e viscosa.
Ainda de pé e ligeiramente desequilibrada, apoiou-se na mesa de madeira, forçando o corpo sobre ela e ela, a mesa, forçava o seu sobre a parede e assim, mulher, mesa, parede tornavam-se um só ser, estático. Fitava as pontas dos dedos longos e alvos como se ali residisse todo seu empenho em mudar. Riu-se, levemente histérica, provocando algum abalado no equilíbrio da mesa, enquanto olhava para as mãos. Um outro gole de vinho, agora já da garrafa, que começava a se esvaziar.






(...)
* veja Quincas Borba, obra de Machado de Assis.

Thursday, June 28, 2007

Sabedoria enlatada faz seu pout-porri



Você diz coisas bonitas compradas em qualquer loja de conveniência, enlatadas e industrializadas, organizadas num caderno em espiral e espera que nessa insipidez haja algo belo e formidável, que talvez, você diz para parecer filosofia, você estampe numa camisa, anote no celular, tatue nas costas, vire seu mantra matinal. Está tudo podre, eu digo. Não adianta, não tem gosto, não tem sabor e nem é seu. Mas, para você, é tão bonito o ato de tomar essa garrafa de pensamentos alheios e se dizer sábio, recontando histórias que eu estou pouco me lixando. Você é colecionador e eu tenho horror a coleções porque, meu caro amigo, elas perdem o sentido assim que são atingidas. Só a caça pelo exemplares especiais e reluzentes é que faz essa patologia de compilar as coisas menos vaga. Vai fazer o quê? Guardar tudo num armário, na estante e olhar para isso como se fosse seu, orgulhoso da ausência de si? Isso é quase roubo. Eu digo: joga fora, vai lá fora e cria algo seu, ainda que de mau gosto. Incendeie tudo o que é barato, universalmente barato. Está tudo tão podre ultimamente, contaminando o que resta de proveitoso nas pessoas, tornando toda criação duvidosa e toda leitura um sufocante teste de qualidade. A gente precisa lutar, amigo, lutar contra o fantasma da praticidade, da pseudo-cultura descartável. Sejamos complicados, sejamos espirais num mar de retas. Pra quê?, você diria com a testa larga franzida, chateado pela crítica. Pra quê se no final tudo se perde e morre pra mim e, afinal, toda criação não passa de uma releitura? Por que simplesmente não ser observador, colecionador, como você diz? E eu responderia, negando com a cabeça e o dedo indicador, bailarino no ar: cara, já disse, fique longe de mim com esses enlatados literários-culturais mofados. Meus escritores de cabeçeira morreram, não estão por aí para brigarem por seus direitos autorais, escreveram pelo mesmo obscuro e incerto motivo ou motivos que eu também escrevo e, numa forma egoísta-heróica, eu escrevo para eles, como se saldasse uma dívida inalienaválel de conhecimento e perspectiva. Vou criar os meus textos com os meus temperos e, se ninguém apreciar, vou comê-los, ávida de mim mesma, auto-antropofágica, porque lá – e eu diria com os olhos marejados, apontando para uma paisagem invisível que se desabrocharia pra mim – até lá, meu amigo, há coisas que eu preciso comer, absorver, transformar. E você ficaria irritado, andaria de um lado para o outro, com as mãos presas, uma na outra, atrás de si, com o óbvio pensamento de coletar na sua memória uma passagem bonita, pra me contradizer e depois, lustroso, se vangloriar. Não vê que a glória não é sua, se é que há glória e não uma dor de quem acaba de parir, uma mãe cega e anestesiada pela felicidade de conceber? Escrever é segredar, desconstruir e construir, constantemente – pode ser doloroso, amigo. Eu desconstruo Caio, Clarice, Chico, Machado... e das pequenas partes deles, eu me remonto. E você diria, apontando agora seu indicador no meu peito: não vê que és também cópia, faz coleção deles? E eu diria sorridente, segurando a ponta do seu dedo parado no ar: sou eles, mas também sou eu, porque sou eu a cola que une tudo, sou a forma e as pinceladas. Dou um exemplo fácil: as cores são fixas, encontrará as mesmas cores em todos os quadros. Mas, Dalí é Dalí e você não o confundiria com Tarsila, muito menos Renoir. E as cores são as mesmas! Todos somos matéria-prima de uma mesma essência e sou, essencialmente, Caios, Clarices, Chicos, Machados e todos os outros que não cito por pressa de me fazer entender. Quem é que pode dizer que no que escrevo não estão todos eles ou se em todos eles, não estou eu também? É espelho-reflexo, amigo. Você não saberia identificar, muito menos com os seus enlatados - descarte-os! E você ficaria mais apressado, acuado, veias saltariam à testa, trincaria as arcadas dentro da boca. E eu já não diria mais nada, porque até sua reação, daí pra frente, seria ready-made. Deixo você se divertir com as suas compilações laicas e inóspitas, dou de ombros, enquanto vou aprendendo e me divertindo com as pedras do meu caminho; caminho esse que só reconheço depois de caminhar.
[créditos da foto: http://www.digitaldrops.com.br/drops/design/ - releitura do quadro The Persistence of Memory (1931), SALVADOR DALÍ]

Monday, June 18, 2007

Na madrugada em que Mercúrio se alinhou com Urano

Urano:
- Você dá a data, eu dou o vinho.
Mercúrio:
- Oh yes! Oh baby come on!
Minutos depois...
Mercúrio:
- Daqui a pouco estarei sobre os seus domínios...
Urano:
- Sempre esteve, não?
(...)
"Uma vez que Virgem se delicia em levar a ordem ao caos e que Aquário se delicia em levar o caos à ordem, estes dois signos solares deveriam representar o desafio final um para o outro.

Os aquarianos insistem no direito de serem individualistas e se recusam a levar os outros ou a si mesmos a sério, encarando a vida com agradável e descuidado alheamento.

Naturalmente, tudo isto fascina o virginiano de mente metódica e inclinado à ordem, o qual não ousaria profetizar ou predizer o futuro (vivem muito ocupados analisando o passado e esmiuçando o presente), que levam a si mesmos e tudo o mais a sério e não encaram coisa alguma com descuidado alheamento.

Um aquariano quase nunca se desculpa por falhas ou excentricidades, ao passo que o virginiano típico, graciosa e sedutoramente, diz "perdão" a cada vez que comete a mais insignificante ofensa contra a tradição ou idéias populares de comportamento.

Os aquarianos são as criaturas mais motivadas pela curiosidade que conhecemos.

O mesmo vale para os virginianos, porém estes em geral se dividem entre a cautela e a curiosidade.

Eles se impacientam, analisam e refletem sobre um assunto cuidadosamente antes de agir, assim se privando da espontaneidade..

um dom que terão de aprender com Aquário, o qual está aprendendo a muito necessária lição de discernimento com Virgem.

A perspicácia e clareza de pensamento virginiano, combinadas à inventividade e gênio de Aquário, poderão ser a exata alquimia mágica de que precisamos, mais a inata gentileza e preocupação pelos outros, características destes dois signos solares. "

Wednesday, June 13, 2007

Ao sabor da correnteza

(créditos da foto ao blog: Mulher de 50 a 60)


As palmas das mãos apoiadas nos respectivos joelhos e os dedos, inquietos, datilografando cartas imaginárias e poesias não declamadas sobre o azul do jeans. E não olhava para os dedos: olhava para os lados, ansiosa; pro relógio branco de ponteiros negros sustentado no teto da rodoviária, impaciente; para as caras sem expressão ambulantes pelo saguão, curiosa. Em meio ao mar de cinzas metálicos visualmente cansativos, eu movimentava apenas cabeça e vez ou outra o braço esquerdo, conferindo as horas, duvidando até mesmo da boa vontade de ambos senhores do tempo. Fitei meus pés semi-nus, numa sandália bege claro e "só ri" alguns segundos devido ao tamanho dos saltos. Somei a minha altura aos quase dez centímetros da plataforma do meu calçado e forcei a memória para lembrar-me da altura dela: “seriam 1,57, 1,55?”. Indignada, percebi que ficaríamos distantes na hora do abraço – e era a hora mais importante, porque todos aqueles meses, que se converteram, teimosos, em anos e em desejos, confabulavam histórias mágicas do poder do círculo magnético dela sobre o meu, quando finalmente fôssemos só um orbital, elíptico, bilobulado e especialmente brilhante, quente e simétrico. Retornei a ambos relógios, pedindo um conselho gratuito, deveria ou não trocar os sapatos? Uma das malas estava cheia deles e, salvo o embaraço de retirá-los em local tão público, nada mais parecia tão adequado – porque eu queria os braços dela ao redor do meu corpo, paralelo aos meus, entregues e apertados. Alguns minutos perdidos, reavaliando meus próprios pés, os dedos, as unhas tão delicadamente cuidadas e pintadas na cor renda... e ver aquele carinho todo traduzido até ali acabou por me convencer de que não haveria de mudar nada: “não vou mudar nada”, eu repetia sorrindo, sem me importar com os rostos sem expressão que transitavam e que jamais entenderiam a ternura do meu momento antes-dela físico.

E era irremediável não pensar nisso: no antes-dela. Desde que ela, magistralmente, entrou na minha vida, algo em mim se tornou menos óbvio, mais encaracolado, dual, bivalente, poderosamente interpretativo. Antes: eu poderia medir, com réguas e dias, a minha existência pacífica. Como se eu acordasse depois de uma noite de pouco sono e tantas perguntas, ela apareceu, luminosa e indescritível, segurando minha mão e recontando as coisas, refazendo minhas perguntas e refletindo as respostas (e insisto no prefixo "re" justamente porque é um começo, "é tudo novo de novo", como ela mesma, certo dia, colocou). Nasceu para mim, então? Caoticamente enumerando: pensava, pensei, pensaria e penso sempre: no poderoso, expansivo, espontâneo e escorpiano existir dela. E eu insistia em teimar, com as pernas inquietas, se ela entenderia; em seguida, balançava a cabeça num movimento de amplitude pequena, livrando-me desse agouro, segredando aos relógios e concluindo “ela sente”. E um vento agressivo e docemente frio abandonou a Afonso Pena, cortou a Praça da Estação, revolvendo flores e folhas para entrar suave na rodoviária e me lembrar de que ainda era inverno. E mais que imediato, eu respondi “seu bobo, nunca é inverno no Rio”.

Verifiquei que alguns minutos ainda me separavam do horário de embarque. Havia decidido ir de ônibus, para dar tempo de ouvir todas as músicas que meticulosamente coloquei no iPod, enquanto ensaiava, como se morasse dentro de uma lata de felicidade contrabandiada dos meus sonhos, os momentos que passaríamos, as risadas que dividiríamos, as pequenas epifanias pintadas de azul e encontradas ao seu tempo, como pequenas conchinhas recolhidas ao longo da praia. O coração acelerava diante da possibilidade dos detalhes, de todos os traços que eu anotaria mentalmente, (a)provando a proximidade que antes era apenas possibilidade. No espaço de tempo que ainda me separava da jornada, puxei uma das malas para próxima de mim; abri um de seus zipers e conferi o sólido geométrico cuidadosamente embalado num papel de presente azul, bem azul. Tomei-o no colo e, com uma das mãos espalmadas sobre sua superfície, alisava-o, com os olhos fixos em seus contornos e o olhar semi-cerrado, por trás das lentes dos óculos que, lentamente, se umedeciam. E eu me lembrava de quando havia surgido a idéia, de ter imprimido a foto, em toda sua essência azul e laranja, chegado próximo de mamãe, pedido carinhosamente, enquanto brincava com seus cabelos loiros e ondulados, tão parecido aos dela. E, na sua áurea tão reluzente e compreensiva, mamãe tomou o desenho em mãos, me ouviu e desenhou, com algumas distorções e outros detalhes, a mesma paisagem, em tons parecidos. Calmo e profundo, o rio foi sendo pincelado, dividindo e misturando azul e laranja em suas águas. E agora, com o quadro já pronto em mãos, a alegria da entrega era estupenda e eu só poderia esperar com os olhos, que os olhos dela, que eu imaginava ligeiros e astutos, entendessem o que de mim ficaria com ela, assim que o recebesse em mãos. E a boca? Bem, a boca saberia se expressar ligeiramente melhor do que os olhos e seriam, por assim dizer, mais contundentes.

Monday, May 14, 2007

A microdistância longínqua entre o Sol e o azul

Em conto que merecia, fala, gesto e expressão: a saga [se o momento pede Guimarães, o verbete se revela, é lenda em germânico] "dum" pedaço de dia, por acaso hoje. Situando, sem saturar com descritivismo, mas tentando o aprazível em razão da interlocutora ao qual o mesmo se destina, temos sem tocar: uma aula de geografia onde discute-se a drástica diminuição do número de filhos por mulher. No desenrolar, bamboleamos até chegar. Quantidade de homens X quantidade de mulheres. E aí, vem em conjunto, o clímax-fim, vindo de uma meninas que não encarei:

- Ué, mas em Minas Gerais tem 7 mulheres a cada 1 homem.

- Ai, tadinhas, como será que elas fazem?...

[Passou de raspão na língua, devido a agilidade com que me veio: "elas se desacostumam", "elas nem sentem falta", "tadinhas nada" e variantes].

[Preciso narrar assim, a conversar, que é pra te mostrar a saudade,pois a tua ausência é pesar. - A pesar, apesar-]

(...)

Pela, nada mais nada menos, sempre Fragaria vesca L, ou mais intimamente conhecida como Morango... porque deu saudade do Salada Mista. E só agora, tardiamente, fui perceber que todas as frutas terminavam com "L."... - meu sorriso de canto de lábio e os olhos semi-cerrados para a mesma autora do trecho acima.

Wednesday, April 25, 2007

Soluços avulsos: palavras cruzadas

Queria, de novo, escrever coisas bonitas. Palavras-poemas, frases eternas e belas que, acima de tudo, me tocassem ou tocassem a quem as lesse. Aproximassem de mim, sutis, soprando uma melodia qualquer em lá menor, ao fundo de um ambiente em tons azuis em degrade. Ou, quem sabe, como diria Caio, esmurrassem a boca do meu estômago e me permitissem vomitar todo meu quase-sentimento guardado e mofado para hora nenhuma.

Ando com um gosto estranho na boca: amargo, seco, insípido. Verdade andei fumando mais do que estava acostumada, na pura e infantil ânsia de me achar suficientemente madura, com o canudo branco enfiado entre meus dedos indicador e médio. Ou quem sabe, para no meio daquela fumaça, permitir que uma ou duas lágrimas percorressem o triste caminho dos meus olhos até o queixo. Seja lá qual o motivo, longas baforadas cinzas foram perdidas entre uma e quatro da madrugada, entre copos de Coca-cola light e programas de TV a cabo. O gosto permanece indefinidamente e só agradeço a ele por ficar, pois a este mesmo amargo gosto deve-se essa vontade nova de escrever.

Escrever pra falar que eu não entendo. Que já cansei de tentar entender tudo que acontece(u), por quê acontece, como acontece. Estar ciente de que existe o acaso é fácil, chega a ser didático; aceitá-lo é bem diferente. Esse gosto que fica... que não exala, não destila... a sensação de deixar a festa antes do fim, quando tudo indicava pra ficar: os olhares, as bocas, os toques intencionados. Ter me levantado e ido embora, com as mãos guardadas nos bolsos, o cabelo que se rebelava num vento frio. Erguer a cabeça, tão certa disso, com os olhos que cintilavam uma vontade que chegava até a ser bonita: dentro e fora. Agora, é só amargo e seco. Voltar não é mais opção, a porta que se fecha do lado de dentro. Do lado de fora, aqui, ficou tão distante e frio e pálido e ausente e melancólico e quase febril, que já esqueci porque mesmo tinha ido embora? É quando se regurgita o gosto amargo pra nunca mais se extirpá-lo. Ali, completamente viva entre o querer ir e querer ficar, tão somente permaneço. Alguns breves segundos e desejo alucinantemente que alguém perceba a partida: olhe ao seu redor, procure, chame, chore, beba, ria-se e procure mais e mais; procure nas pessoas, nas coisas, nos perfumes, nos lábios, nos gostos. Sem jamais achar. Breves segundos e a vontade se convulsiona num choro fino, silencioso, no sopro do vento que corta a rua.

Friday, April 06, 2007

Você sabe o que eu quero dizer/ não tá escrito nos outdoors/ por mais que a gente grite/ o silêncio é sempre maior"

Aqui
Eu nunca disse que iria ser
A pessoa certa pra você
Mas sou eu quem te adora
Se fico um tempo sem te procurar
É pra saudade nos aproximar
E eu já não vejo a hora
Eu não consigo esconder
Certo ou errado, eu quero ter você
Ei, você sabe que eu não sei jogar
Não é meu dom representar
Não dá pra disfarçar
Eu tento aparentar frieza mas não dá
É como uma represa pronta pra jorrar
Querendo iluminar
A estrada, a casa, o quarto onde você está
Não dá pra ocultar
Algo preso quer sair do meu olhar
Atravessar montanhas e te alcançar
Tocar o seu olhar
Te fazer me enxergar e se enxergar em mim
Aqui
Agora que você parece não ligar
Que já não pensa e já não quer pensar
Dizendo que não sente nada
Estou lembrando menos de você
Falta pouco pra me convencer
Que sou a pessoa errada
Eu não consigo esconder...

(Ana Carolina, AQUI)

Wednesday, March 21, 2007

Uma carta para além do rio

Pensei em mil textos. Palavras, frases, pensamentos prontos, clichês sinceros. Nada. Dentro e fora: o seco se (con)funde com toda a dor, cegando-me, desorientando-me pro lado de lá, que é sempre distante e fugaz. As lágrimas, de tão poucas, caem pesadas; fecundam o improvável, alimentam o incerto. E aqui dentro: seco e amargo. Quero cuspir, balançar a cabeça, dar voltas sobre meus próprios pés até que não haja ponto fixo pra visão. Cansei de pensar e pensar parece agora tão distante. Já não é mais pensamento, é fuga. Diagonais que se aproximam, se observam, se entortam na proximidade do infinito, sem jamais se tocaram. E tudo parece mais abstrato, fora, dentro, único e desorganizado. E tudo parece menos eu.

Penso nas coisas que queria te dizer, nas coisas bonitas que me faz bem ouvir e falar pra você. Algo em mim se perdeu. Está tão dolorido que já não existe dor. Entende? Eu sei, você sente. Penso na sua desventura (ou seria aventura?) amorosa e nos inúmeros jogos que você anda aceitando-jogando-perdendo-ganhando. Vontade sincera de estapear tua cara, te levar pra longe, beber tanto, até você e eu sermos só essa fumaça opaca no meio da madrugada de uma noite de luar. Vou deixar a vontade guardada no bolso, apalpá-la sobre a calça, até que seja o momento certo de tomá-la entre os dedos e viver sua plenitude.

Elevo meu pensamento até sua rima, pra entender em que verso eu consigo te captar. Não duvido do amor, eu duvido dos amantes e do teatro deles; não duvido de você, duvido das circunstâncias. E você há de amar, sempre mais, acredite. Amor é virose. Acabei de crer.

Acabo por pensar em mim também. Pensar em mim é difícil de definir, posto que não sei o que realmente enxergo. Queria me ver pelos seus olhos, pela sua força, pela sua presença. O espelho da minha alma que corre por ai e talvez me dê respostas necessárias pra que minha existência não seja só seca e amarga...

Quero me perder. É tão natural. É tão óbvio. Preciso me perder, pra alguém certo me achar - se é que o certo existe, e só não é projeção ilusória da solidão. Até lá, me conta, pra onde eu vou?


(como eu entitulei: um cartão postal pra lá das minas, ou, a resposta dela)
Ainda guardo os pontos brilhantes daquela noite. A tela, os olhos, os olhos ao olharem para a tela. Foi como despertar para uma frase recém (re)lida em noite de insônia e nunca mais conseguir escapar de sorrisos. E, no horizonte, junto à tal esteira, a qual escapou e, independente, transfigurou-se em recurso estilístico, vejo ainda as faíscas. Não apagaram, nem apagarão, mesmo ao passarem pelo (R)rio.

Saturday, January 27, 2007

Like the desert misses the rain...

Ao som de: Take On Me – A-ha

Retirou a aliança prateada do dedo anular da mão direita. Colocou-a sobre a palma da mão molhada e fitou-a por longos minutos. Recolocou-a de volta ao dedo, sem contudo empurra-la até o final; ficou ali movendo-a da ponta do dedo até a base, com os olhos firmes e parados num ponto qualquer do tapete.

- Aceita? – a voz adocicada sobre o seu ombro esquerdo.

Ela ficou em silêncio. A dona da voz aproximou-se, com uma das mãos apoiadas sobre o ombro da outra, até que se assentou perigosamente próxima dela, de uma maneira que sua perna descoberta pela saia roçasse na calça jeans da de aliança nos dedos. Na outra mão, levava uma taça em formato oval preenchida até a metade com um líquido transparente com uma leve coloração amarelada. Ela aceitou.

- Não sei por que insistem tanto no vinho tinto. Existe um charme discreto no vinho branco demi séc que nenhum outro vinho conseguiria ter...– e lançou, orgulhosa, um olhar pra taça que estava entre as mãos da outra – espero que goste, Paula.

Enquanto o líquido descia a garganta de Paula, vagoroso e quente, Sílvia percorria, de lado, o olhar congelado da outra, no além da taça. Fez menção de abraçá-la e a vontade era tão maior que parecia aquecer o seio, o ventre. Era uma revolução dentro dela, que lhe inquietava e roubava a concentração. A perna trepidava e ela levava freqüentemente a mão à nuca, evitando que um arrepio qualquer lhe invadisse. Queria o abraço, o peso exato dos braços, a maciez dos seios de Paula contra os seus, mas se continha. Inclinava-se suavemente sobre o corpo dela conjeturando qual era o cheiro dos pequenos cachinhos que se perfaziam na nuca dela, qual era o sabor do lóbulo de sua orelha quando beijada, quais seriam seus gemidos, o sofrimento de suas lágrimas, o alívio de seu sorriso. Presa no próprio querer, assistia atentamente o engolir do vinho por Paula, sem conscientemente saber que desejava também ser parte daquele vinho. Queria tocá-la, colocar-lhe com o rosto apoiado sobre seus ombros enquanto brincava distraída com seus cabelos, mas não se atrevia; comedia-se, remediava sua loucura, seu desejo. Apertava mais e mais forte a nuca cada vez que o sentimento vinha mais intenso e mais capaz de criar movimentos. Sentia suas partes intumescerem, umedecerem apenas com a proximidade dos corpos. Sentia-se perdida nos pequenos centímetros que as separavam.

- Você tem razão – disse Paula, colocando a taça sobre a pequena mesa de vidro no centro da sala e voltando-se para Sílvia - tem sim seu charme.

Paula levantou os óculos com o dedo indicador, franzindo suavemente a testa, como se não entendesse, como se quisesse entender. Olhava, cuidadosa, os traços de Sílvia, que de tão bem elaborados intimidavam. A língua bateu no céu da boca, nervosa, mas Paula mordeu-a e logo a sensação se esvaziou.

- Já que você não fala nada... – começou Sílvia – eu preciso dizer algumas coisas.

O olhar de Paula correu de volta ao tapete e o irritante jogo do anel recomeçou.

- Sabe? Já não vou mais fingir que eu não quero. Que você não me faz estremecer, que não é você que me faz sorrir nos dias mais inóspitos da minha vida. Não adianta. Ainda guardo o ticket do nosso primeiro cinema juntas. Lembra de como você achou os atores falsos demais? Eu lembro. Aliás, pior que isso. Não esqueço. Não consigo, Paula.

O silêncio como grande pano de fundo. Sílvia esperou qualquer reação, mas a outra continuou com o olhar vago, sem qualquer expressão. Continuou, lutando contra a trepidação das pontas dos dedos:

- Da primeira vez que lhe vi naquele bar, de como seus olhos estavam cansados e pareciam sumir atrás dessas lentes. Desde então, a vontade em mim é sempre a mesma: descobrir quem é você. E não, nem venha me falar que “ela te conhece”. Não, meu bem, ela apenas lhe tem. E tendo você, esquece de quão delicioso poderia ser descobrir esse mistério que você guarda em si – e continuou, esfregando uma mão na outra. Lembro do seu olhar fugidio que tão pouco se esbarrava com o meu, como se fugisse, como um bicho arisco preste a dar o bote. Eu queria seus olhos, Paula. Eu quero ainda. E não adianta falar que passa porque eu sei que não vai passar. Esse tipo de coisa não nasceu pra ter fim: nem em mim e nem em você.

Levantou-se do sofá. A vista escureceu, sentiu uma das pernas um pouco dormente. Contudo, ensaiou um desfile quando passava a frente de Paula, com passos precisos e barulhentos contra o piso de taco, uma profundidade no andar tão longe da consciência da palavra. Alcançou o outro lado da sala, onde havia uma espécie de mini-bar e foi logo enchendo um copo de vinho branco meio amarelado, tomando-o num gole só e só então recomeçou:

- Entendo que você a ame e eu não lhe tiro esse direito. Afinal, é tanto tempo com ela que seria ilógico esperar que você a deixasse de amar para viver essa aventura comigo. Mas, também não vou negar que lhe desejo e é tanto que aceito o termo de “outra” – e deu uma risada pronta – justo eu, Paula... – e colocou mais um pouco de vinho dentro do copo- ... justo eu que xinguei tantos por aceitarem essa posição de... substituta – e com os olhos fixos no copo cheio -... substituta – e tomou-o num outro gole único.

Tuesday, January 09, 2007

Fim do dia

(Pausa no momento anterior. Prometo continuação... a falta de tempo me permitiu apenas esse pequeno rascunho. Às amigas blogueiras, que carinhosamente comentam aqui, peço desculpas e garanto abundantes visitas em breve.)


Você fechou a porta atrás de si. Recostou-se à porta, pausou a respiração e buscou pela sala qualquer epifania que lhe fizesse perceber quão viva estava. Conferiu os móveis, as cores, os pés, os joelhos. Fitou suas mãos, girando-as sobre o punho, contraindo-as fortemente para então relaxá-las e sentir o retorno do sangue as extremidades. Alguns passos em direção ao quarto sem desviar os olhos do chão, apenas tateando com a mão a parede que lhe guiava em meio à semi-escuridão daquele dia de inverno. Sentou-se à cama, arqueando os ombros para frente, uma estátua de desalento. A pouca luminosidade dos letreiros e postes passavam aquela sensação de fim, de desfecho, de final de linha. Você quis saltar, mas apenas abriu a janela. Enxergou os pequenos carros que, apressados, seguiam seu percurso; pensou nela. No carro dela. No cheiro exato de tutti-frutti que ele tinha. O lábio contorceu-se e um sorriso pálido aliviou a expressão. Pensou “quem sabe ela está por aí, em qualquer carro desse, retocando o batom num sinal desta cidade”. A imagem dela lhe fez bem e você inspirou o pouco ar que lhe parecia rodear. Voltou-se para a cama, sentando-se sobre uma das pernas, com o olhar atento ao lençol ainda desarrumado que revestia seu leito. Deslizou suavemente o dedo sobre ele, percorrendo um caminho imaginário que ia da cama até o corpo dela - onde quer que ele estivesse. Esforçou-se para conter uma risada triste, porque se lembrou dos cabelos molhados que ela insistia em não secar de noite e que deixavam o cheiro do shampoo no travesseiro - até agora sentido por mais de um sentido; você espremeu os olhos e algumas rugas se pronunciaram. Reteve a mão no ar, achando-se estúpida por tanta babaquice. Permitiu-se, entretanto, uma última aspiração e toda memória pareceu viva e latente, tão sua e tão inteira que seria difícil separar o que era apenas amor do que era necessidade. Você adormeceu minutos depois, agarrada no mesmo lençol.

Sunday, December 24, 2006

Papo sério - parte I

- Oi Bruna.
- Ei Raquel.
- Você? Aqui?
- É... eu aqui.
- Gente, que mundo...
-... pequeno, né? Eu sei... eu sei... você aqui!
- ... é.
- Tanto tempo não nos falamos. Desde a última vez...
- Na academia, certo? Pois é, faz tempos.
- É, faz sim, faz sim. Saiu de lá faz muito tempo?
- Algum... estudando mesmo. E você, continua lá?
- Não, já saí também. Nossa! Tem mesmo muito tempo que não nos vemos. Acredita que lembrei muito de você depois que saiu?
- É? Eu duvido...
- É... verdade. Morando aqui em BH?
- Ahã.
- República?
- Sozinha, na maior parte do tempo. E você?
- Ainda no mesmo lugar de sempre.(...) Quem diria encontrar você aqui?! Não acredito...
- Eu quem digo! Você! Por aqui...
- Não sabia que você gostava de...
-... pois é. Gosto. Também não imaginava você...
- É.
- Que coisa!(...) Veio sozinha?
- Com um amigo.
- Homem?
- ... ou quase isso.
-(risos)
- E você?
- Uma turminha...
- Hmmm... turminha?
- É... alguns amigos.
- Algumas amigas?
-... também.
- Algumas com um prefixo de “ex”?
- Não. Ainda não... por quê? Você tem?
- ... quem sabe?
- (...) Ainda está namorando o...?
- Não, já terminei. E você?
- Terminei também. Faz algum tempo... logo depois eu descobri “isso”.
- Ah... (risos), aconteceu comigo assim também.
- Sério?
- Ahã.
- Já veio muito aqui?
- Algumas vezes, nada demais. Você?
- Primeira, já fui naquela outra boate, a Jô, mas prefiro essa aqui...
- É, também prefiro a Gis. Para quem gosta dessa “balada” mais feminina, é perfeito.
- (sorriso) Mesmo?
- (recíproca) É... é sim.
- Fala como se tivesse bastante experiência.
- Bastante? Não. Alguma. Você tem?
- Uma só.
- Sério? Faz muito tempo?
-... não.
- Ok. (...)
- E hoje? Sempre lhe vi acompanhada, sempre com alguém. Quem é o sortudo... melhor dito, ou seria sortuda de hoje?
- (sorriso) Esse copo de vodka. Aceita?
- Não, obrigada. Sozinha nessa balada abarrotada de gente?
- Às vezes é preciso estar suficientemente só para não fazer besteira.
- Uau, que momento poético (risos).
- Desculpa, vai ver é a vodka...
- Não... gostei, gostei. Também estou sozinha...
- Por opção.
- Por falta de opção.
- Você? (sorriso) Falta de opção? Corta essa...
- (sorriso) Por que disse "eu"? Insinua...
-... sem insinuações. Só acho que você não combina com o tipo de perfil que passa por falta de qualquer coisa.
- Mas, passo. Adianta ficar com qualquer um pra terminar a noite sem saber o nome?
- Verdade... o final, a noite sempre termina, não é? A diferença é se a gente termina junto com ela.
- É. (...) Está difícil lhe ouvir, quer vir mais pra cá, assim a gente foge do som. (...) Aqui.
- E como andam as coisas por lá?
- Bem... pensei em você depois que saiu da academia. Não deixou número, não entrou mais no ICQ...
- É... é bom hibernar um pouco...
- Um pouco? Acho que até demais. (...) Lembra das horas que passávamos na esteira conversando? Lembra?
- Claro, né? Como eu ia esquecer.
- Bruna...
-... oi?
- Você ainda tem o mesmo olhar.
- Mesmo olhar?
- É. Mas, antes parecia menina sapeca.
- (risos) Sapeca?
- É. Agora... (sorriso), não sei... mulher... me deixaria dizer sensual sem soar atrevida?
- (sorriso) Claro. (...) Posso dizer outra coisa, sem soar atrevida?
- (sorriso)
-... você continua com o mesmo sorriso.
-... desde quando repara no sorriso dos outros?
- No dos outros, nunca. No seu... (sorriso), já é outra história...
- Ahn... (sorriso). Que que tem demais meu sorriso?
- Chama a minha atenção. Sempre chamou. Quando você ficava lá horas na bicicleta, conversando com os instrutores... fazia caras e bocas.
- (sorriso)... prestava muita atenção...
- Nananinanão. Já disse: sua boca é a culpada.
- Está bom.
- Sua amiga está lhe chamando, olha lá...
(...)
- Uai, achei que fosse embora...
- Disse pra ela que queria ficar... eles já estavam indo embora, mas expliquei que tinha um bom motivo pra ficar...
- (sorriso) Você vai dormir aqui em BH essa noite?
- É... na casa de um dos meninos. Lá no Santa Efigênia...
-... hmmmm. Não é longe de onde moro. Se quiser, diga lá que você fica e, depois de um café, eu te levo em casa.
- (sorriso)... mas já me convidou pro café?
- (sorriso)...

Sunday, December 10, 2006

O final que eu prometi e o sem fim de mim...

" Elas se amavam e achavam que o mal
Tava no fundo do rio
Não se tocavam e achavam normal
Deixar seus corpos com frio
Mas exalavam o cheiro fatal
De todo corpo vazio
E era um amor assim medieval
Claro, num porão sombrio " (Oswaldo Montenegro)

Rodei a chave dentro da fechadura da porta, ainda um pouco tonta com as doses de whiskie, lutando contra o peso das pálpebras, o arder dos olhos das lágrimas recentes. Quando fiz menção de destrancá-la, percebi que já estava livre do ferrolho e apenas torçi a maçaneta. O clarão da luz do meu apartamento, contrastante com a semi-escuridão do corredor, cegou-me por alguns minutos e quando recobrei a visão, deparei-me com a silhueta de Letícia atirada num dos sofás com uma taça vazia nas mãos. Antes que eu a interpelasse com qualquer pergunta, ela se lançou:

- O vigia me deixou entrar - disse sem desviar o olhar da taça vazia - incrível o que um decote faz com os homens - e sorriu, consertando a cava da blusa que vestia.

- É... realmente.

Sem entender o propósito da visita noturna de Letícia e ainda sentindo latentes o calor de Ana e de Amanda no meu corpo, caminhei em direção ao sofá oposto aquele onde ela se sentava. Desamarrei as sandálias, tirei-as, alonguei os dedos enquando Letícia não despregava o olhar espremido da taça, que parecia enfeitiçá-la e, sabe-se lá, segredar-lhes conselhos. Franziu as sobrancelhas quando começou:

- Você apareceu na festa.

- Eu tinha que ir - um sorriso cínico nos lábios.

- É... - ela sorriu - tinha. - silêncio, inspiração profunda - gostou?

- Nada demais, nada de menos.

Ela sorriu novamente. Entretanto, desviou o olhar e fixou-os em mim. Largou a taça de lado, pegou a bolsa que estava encostada no braço do sofá, retirou um maço de Carlton e acendeu um cigarro e continuou:

- Quantas já dormiram aqui?

- Que pergunta sem...

- Quantas, eu perguntei.

- Não sei - eu franzi a testa, aproximando sobrancelhas - pra quê isso?

- Não te interessa.

- Me interessa a partir do momento em que você invade meu apartamento em plena madrugada...

- Como se você não tivesse feito isso comigo...

- Quando? - eu ironizei.

- ... quando invadiu a minha vida, meu corpo...

- Que papo é esse, Letícia? Você está bêbada?

- E se tivesse? Importa menos?

- Não, mas é o que parece...

- Não importa, Lisa... fica calada enquanto ainda não falou merda.

Por raiva ou simplesmente cansaço, atirei-me ao sofá. Cruzei as mãos atrás da cabeça e relaxei o abdômen; fitei o teto por longos minutos, dando poucos olhares de soslaio para Letícia, sentada ao meu lado direito no sofá do outro lado da sala, entretida com a fumaça de cigarro.

Subitamente, ela se levantou. Caminhou a passos calculados em minha direção. Contra o piso e contra o ar, ela andou aqueles metros pausadamente, como se silabasse uma sentença, forçando o salto de seu sapato contra o chão: um anúncio de chegada sonoramente sinalizado. Sentou-se sobre o meu ventre, pressionando o corpo contra o meu; inclinou-se sobre mim e me puxou ao encontro de seu corpo. Letícia encostou os lábios vermelhos nos meus. Por simples reflexo, eu acabava me envolvendo no beijo, invadindo a boca dela com a minha língua e deixando que ela invadisse também a minha boca, numa mistura amarga de diferentes gostos. Ela imprimiu um ritmo ao movimento das ancas e eu percorri o contorno das coxas dela com a palma da minha mão.

E sem que eu esperasse, ela me empurrou de volta ao sofá e desenvolveu um raivoso tapa na minha face. Acelerado, raivoso, pesado, sofrido... o tapa me deslocou, me desconcertou, ardeu, umedeceu os olhos. Arregalei os olhos, buscando o olhar dela e um bravio frio percorreu-me o ventre quando percebi que o olhar dela permanecia imóvel e estático, tão análogo à maneira como olhava a taça, fria e vazia.

Letícia se levantou, pegou a bolsa, saiu apressada do apartamento e, antes de fechar a porta atrás de si, deixou um papel sobre a mesa do centro. O barulho da porta é forte e ameaçou me alavancar daquela sensação de torpor e inconsciência do tapa. Cogitei buscar-lhe à força, perguntar-lhe retóricas idiotas e apenas fiquei ali - com a pretensão vermelha ardida no rosto. Alguns minutos mais tarde, e eu adormeçi encolhida no sofá preto, sem demonstrar qualquer pretenção de levantar e ler o papel.

No dia seguinte, lembro-me que levantei com uma terrível enxaqueca, o crânio que parecia fervilhar e latejava dolorido. No caminho para o banheiro, pego o papel que Letícia havia deixado sobre a mesa: uma foto. Alguém na festa havia tirado uma foto no momento genial; eu, com os olhos no copo; Roberta, ao meu lado, com a boca semi-aberta perto ao meu ouvido; Ana com os olhos brilhantes e oblíquos apontados para mim; Letícia, mordendo os lábios inferiores, com o olhar desmedido e guloso sobre mim; Amanda, com uma das mãos nos cabelos, com os olhos marejados e tímidos, que pareciam esconder-se de todos, mas revelavam a pupila teimosa que se lançava sobre mim.

Parei algum tempo com aquela fotografia entre os dedos e, naquele instante incerto e dolorido, uma história inteira de relacionamentos parecia desvendada e a maldição que caia sobre mim finalmente libertada. Meus olhos não eram de ninguém, nem mesmo de Ana, que parecia ser a que mais os marecia - ou era confortável, para mim, pensar que era ela quem os merecia, já que dificilmente ela iria aceitá-los de volta. Meu olhar, obscuro e melancólico, pairava sob meu próprio copo, sobre aquele amarelado líquido; amarelo e óbvio líquido, volátil e amargo, cuja forma depende unicamente do recipiente.

Joguei o papel sobre a mesa, de um jeito desajeitado. Caminhei pra banho em passos pesados e vagarosos, com o corpo trôpego e desamparado. Acendi a luz do banheiro e quando me foi possível enxergar no espelho, a imagem parecia distante da minha. Imagem fugidia e inverossímel, que conta uma história errada do meu fim. Um fim que é tão só meu que também termina só e absoluto, relembrando que não existe nada além da finitude e do inalcançável. Nada, além dessa certeza de que, eventualmente, a noite também tem seu fim, e as cabeças se vão entorpecidas, os corpos sedentos, os corações impermeabilizados, as caras e as almas marcadas de um vermelho sangrento e escuro. O grand finale que fecha as cortinas antes que alguém enxergue as lágrimas dos atores.