
“Depois foi cinza
Nódoa envenenada e mineral
Poeira de estrelas”
Nódoa envenenada e mineral
Poeira de estrelas”
(Geraldo Eduardo Carneiro)
"Same old song
Just a drop of water in an endless sea
All we do
Crumbles to the ground,
Though we refuse to see"
(Scorpions)
Dani, eu estava agora há pouco me lembrando de nosso tempo de criança, de como corríamos com energia infindável pelos corredores brancos da escola, de como nos divertíamos com a insipiente ironia que nos era permitido ter naquela época, de como jogávamos vôlei na quadra do colégio de tardezinha, o sol fraco se pondo atrás da igrejinha da serra e o alaranjado colorindo a bola que pairava no ar. Hoje eu fumo, você é médica. Como seria diferente? Eu desconstruo, você constrói. E sempre nos demos tão bem. Eu tenho essa inconstância, esse leve desespero que embala meus dias; tenho também esse pensamento cancerígeno que só alastrou nos últimos anos. Uma vez Bárbara usou uma metáfora piegas, mas que me tocou em cheio “vi você renascer das cinzas, como fênix”. Bonito até. Mas, não mais bonito do que cuidar das pessoas e conseguir curá-las, como você faz. Terapia desse seu sorriso simpático e largo. Tenho saudade da sua saúde emocional, dessa leveza sentimental que você carrega no seu ascendente e principalmente da naturalidade com que você convertia meus problemas em piadas das quais eu conseguia rir, ainda que fosse uma risada pouca no intervalo do recreio.
Recordei, outro dia, da nossa aposta de quem transaria primeiro. Dinheiro fácil que você me levou. Pior de tudo, além do prejuízo financeiro, foi não ter entendido, quando você tentou me dizer, que havia transado com o “...” e me pedia ajuda psicológica para ir dormir sem achar que estava grávida. Ainda dou boas gargalhadas quando lembro das suas bochechas coradas logo que entendi o que tanto se esforçava para dizer. Espero que esteja “fazendo amor” (eu iria falar trepar, mas esse vocabulário o tempo me ensinou e você não conseguiria o ouvir) mais e melhor agora, explorando posições e lugares e desejo mais é que ele te faça gozar. Só assim para você se livrar do seu pudor mineiro.
O assunto que aqui entrará me fez postergar a conclusão desta carta. Dani, eu sei que você me viu quase morta. Jamais esqueço daquele dia em que lhe contei tudo, da consulta no dia anterior, da lista infinita de remédios, das advertências dos médicos, do desespero da minha família. Eu não olhava para os seus olhos, mas encostada na porta da sala, eu sabia que você também chorava com os cantos brancos dos olhos avermelhados, mordendo a mão, sem dizer nada, apenas olhando para o chão. Naquele dia, você me viu. Naqueles minutos em que você ficou parada, silenciosa, sem ação, você me viu e me sentiu. E chorou dolorido, como eu chorei. O momento ainda está em mim, como você ainda está em mim, embora haja essa distância maior do que os quilômetros. Lamento reconhecer que a doença não findou. O corpo deu vacilos, rodopiou na encruzilhada da vida, soergueu-se no abismo da cova, mas continuou até aqui, sobrevivendo como pode. Eu finjo que esqueço e assim também fazem a maioria das pessoas e, ao nosso favor, advoga apenas o meu sumiço – porque foi essa minha alternativa a dor. Já não sei mais quem sou, se sou a enferma ou a sobrevivente de mim mesma, se sou o que deveria ter sido ou o que nunca fui, ou talvez nada disso. Os anos estão passando para você. Estará se formando em breve, estetoscópio no peito, consultório cheio, dinheiro no bolso, três filhos, uma fazenda, um marido insaciável. Capa de revista, memória dos meus sonhos. Eu, cá dentro, ainda estou à espera de mim. Meu carma e meu coma.
Acabei de acender outro cigarro e você deve estar achando isso tudo muito poético. Sei que você gosta quando eu escrevo, pois você sabe que eu sinto e transbordo, você vê qualquer coisa em mim meio nostálgica – talvez seja culpa dos óculos e o jeito de falar pausado entre uma retórica e um aforismo. Você ainda tem aquela fita cassete que gravei para você, falando e fazendo sons eletrônicos com o teclado? Não, acho que não tem mais. Essas reminiscências pré-adolescentes devem ter sido encaixotadas e jogadas fora. Outras cartas e presentes vieram com o tempo e, inevitavelmente, velharias precisam sair para que a novidade entre. Creio que fez bem. É sua maneira de andar em frente e eu a admiro, ainda que eu faça parte do que fica para trás. Sobre meu cigarro, não se preocupe, doutora. Como todas as coisas (e receio fazer o adendo: e também pessoas), eventualmente, eu irei cansar de fumar, adotarei um outro vício, talvez volte para o alucinante mundo das academias e a saúde física agradecerá. Quem sabe? Sempre retorno ao ponto em que deixei algo para trás, certa de que encontrarei uma pista para onde eu fui. Quem sabe eu me encontrarei? Por enquanto: outro trago no cigarro. Não, por favor, não repare no meu jeito paradoxal de pensar as coisas. Já lhe disse que minha figura de linguagem predileta é o paradoxo. A vida imita a arte, fato. Com facilidade assombrosa, caminho pelo invisível imediato que une duas pontas de uma mesma realidade, de um mesmo universo. Evito sempre o trajeto mais óbvio-linear-concreto-inóspito pelo qual as pessoas sabem passar de um extremo ao outro, com a lucidez do drama urbano. O meu atalho abrupto contra a correnteza sempre me coube muito bem: minha pedagogia de avessos.
Não datei a carta, posto que sei que ela nunca irá chegar ou ser lida; será enterrada nas mesma lápide de alguns sonhos meus. Escrevo a você. Escrevo porque é inexorável. E não escrevo a mulher decidida e distante a qual você se transformou (ou sempre foi e eu me recusei a ver), mas me dirigo a menina de nariz grande que roubou meu relógio na quinta-série e o ofereceu a minha oposta (e não opositora) inimiga Letícia – atitude, aliás, de incrível sensibilidade sua. Creio que Lê foi meu primeiro “caso” (aqui não cabe a palavra amor, porque amá-la seria muito domesticável). Back then, eu costumava ouvir Losing my religion pensando naquele rosto moreno do nariz pequenino, na voz peculiar com a qual ela falava e ironizava meu jeito lunático de falar dos clips da Mtv. Letícia me desconcertava e, exatamente por isso, me prendia. Lembra-se de que eu e ela costumávamos correr, primeiro, uma atrás da outra e, depois, uma da outra? Naquele tempo eu não entendia o que me impelia a fugir e ao mesmo tempo estar perto. Hoje, com a vivência dos romances frustrados e das revelações sexuais, sei dizer que aquilo tudo era um turbilhão de sentimentos irritados com a própria profundidade. Com um sorriso saudosista nos lábios, ainda sinto o frio na barriga quando ela me olhava, aqueles olhos grandes atentos a tudo, espertos demais e sedutores demais para uma pré-adolescente em paranóia de descobrir o recém-inventado mundo “grande”. Jamais gostaria de uma mulher como gostei de Letícia. Cheguei a reencontrá-la nessas minhas andanças errantes pelos cursinhos belorizontinos. Bonita como antes, fiel à imagem que criei. Ela não soube me cumprimentar – como sempre -, embora me olhasse da mesma maneira íntima como sempre olhou: jeito de me tocar que carreguei na memória junto com o sabor das balas de maçã verde Lilith no intervalo das aulas. Sempre alimentei uma saudade de Letícia, até quando ela estava presente, sentada á minha frente com os cabelos cacheados esparramados na minha carteira. Pena ter perdido a carta a qual ela me mandou naqueles meses em que passei debilitada (seria bom relê-la agora, boas observações do que eu fui ou deveria ter sido). Talvez nela também tenha doído essa minha partida – que aqui toma um cunho mais de cisão do que de ida. Outra ocasião, encontrei com ela no ônibus. Letícia trocou de poltronas quatro vezes antes de se sentar á minha frente, jogar a mala pesada no bagageiro e me cumprimentar com pressa, quase gritando meu nome. Passamos a viagem espionando as conversas e os telefonemas da outra e não nos despedimos quando o ônibus chegou ao destino. Engraçado isso de relembrar: é como se redescobrir e perceber o tempo dentro do que chamamos de “eu”, um relógio incansável que nos permite sentir saudade, criar vínculos com o etéreo, acreditar que somos e existimos apenas porque há um resto de vida chamado lembrança. Talvez seja isto uma das poucas coisas que aprendi com o pêndulo do dia-a-dia, a única coisa que realmente posso lhe dar: existir e deixar existir, o restante do nada. A razão a gente encontra quando perde o controle. Paradoxo novamente.
Descobri que não sei de qual signo sou. Durante quase vinte anos, acreditei que fosse de Aquário e o simulacro da minha solidão parecia astrologicamente justificável. Mas, recentemente, uma estrela – ou qualquer outra coisa astral e solar – discutiu com as constelações e me roubou de Aquário, atirando-me à realidade pisciana. Será? Talvez realmente caiba a mim reunir as tristezas dos homens e envia-las a esse ser maior de vários nomes e poucas aberturas. Pretensioso da parte Dele acreditar que eu seria capaz de concluir a maior de suas tarefas e estúpido me dar o dom da compreensão, posto que nem entendo a mim mesma. Vá saber. Apenas sei que preciso me encontrar e justamente por isso lhe escrevo. Você me encontrou e me perdeu, assim como eu mesma me encontrei e me perdi. Estou de volta ao sem volta de mim, às pegadas que deixei, à poeira que restou dos cometas das minhas ilusões. Já sinto saudades de você, Dani. Fique com Deus e bem.
Recordei, outro dia, da nossa aposta de quem transaria primeiro. Dinheiro fácil que você me levou. Pior de tudo, além do prejuízo financeiro, foi não ter entendido, quando você tentou me dizer, que havia transado com o “...” e me pedia ajuda psicológica para ir dormir sem achar que estava grávida. Ainda dou boas gargalhadas quando lembro das suas bochechas coradas logo que entendi o que tanto se esforçava para dizer. Espero que esteja “fazendo amor” (eu iria falar trepar, mas esse vocabulário o tempo me ensinou e você não conseguiria o ouvir) mais e melhor agora, explorando posições e lugares e desejo mais é que ele te faça gozar. Só assim para você se livrar do seu pudor mineiro.
O assunto que aqui entrará me fez postergar a conclusão desta carta. Dani, eu sei que você me viu quase morta. Jamais esqueço daquele dia em que lhe contei tudo, da consulta no dia anterior, da lista infinita de remédios, das advertências dos médicos, do desespero da minha família. Eu não olhava para os seus olhos, mas encostada na porta da sala, eu sabia que você também chorava com os cantos brancos dos olhos avermelhados, mordendo a mão, sem dizer nada, apenas olhando para o chão. Naquele dia, você me viu. Naqueles minutos em que você ficou parada, silenciosa, sem ação, você me viu e me sentiu. E chorou dolorido, como eu chorei. O momento ainda está em mim, como você ainda está em mim, embora haja essa distância maior do que os quilômetros. Lamento reconhecer que a doença não findou. O corpo deu vacilos, rodopiou na encruzilhada da vida, soergueu-se no abismo da cova, mas continuou até aqui, sobrevivendo como pode. Eu finjo que esqueço e assim também fazem a maioria das pessoas e, ao nosso favor, advoga apenas o meu sumiço – porque foi essa minha alternativa a dor. Já não sei mais quem sou, se sou a enferma ou a sobrevivente de mim mesma, se sou o que deveria ter sido ou o que nunca fui, ou talvez nada disso. Os anos estão passando para você. Estará se formando em breve, estetoscópio no peito, consultório cheio, dinheiro no bolso, três filhos, uma fazenda, um marido insaciável. Capa de revista, memória dos meus sonhos. Eu, cá dentro, ainda estou à espera de mim. Meu carma e meu coma.
Acabei de acender outro cigarro e você deve estar achando isso tudo muito poético. Sei que você gosta quando eu escrevo, pois você sabe que eu sinto e transbordo, você vê qualquer coisa em mim meio nostálgica – talvez seja culpa dos óculos e o jeito de falar pausado entre uma retórica e um aforismo. Você ainda tem aquela fita cassete que gravei para você, falando e fazendo sons eletrônicos com o teclado? Não, acho que não tem mais. Essas reminiscências pré-adolescentes devem ter sido encaixotadas e jogadas fora. Outras cartas e presentes vieram com o tempo e, inevitavelmente, velharias precisam sair para que a novidade entre. Creio que fez bem. É sua maneira de andar em frente e eu a admiro, ainda que eu faça parte do que fica para trás. Sobre meu cigarro, não se preocupe, doutora. Como todas as coisas (e receio fazer o adendo: e também pessoas), eventualmente, eu irei cansar de fumar, adotarei um outro vício, talvez volte para o alucinante mundo das academias e a saúde física agradecerá. Quem sabe? Sempre retorno ao ponto em que deixei algo para trás, certa de que encontrarei uma pista para onde eu fui. Quem sabe eu me encontrarei? Por enquanto: outro trago no cigarro. Não, por favor, não repare no meu jeito paradoxal de pensar as coisas. Já lhe disse que minha figura de linguagem predileta é o paradoxo. A vida imita a arte, fato. Com facilidade assombrosa, caminho pelo invisível imediato que une duas pontas de uma mesma realidade, de um mesmo universo. Evito sempre o trajeto mais óbvio-linear-concreto-inóspito pelo qual as pessoas sabem passar de um extremo ao outro, com a lucidez do drama urbano. O meu atalho abrupto contra a correnteza sempre me coube muito bem: minha pedagogia de avessos.
Não datei a carta, posto que sei que ela nunca irá chegar ou ser lida; será enterrada nas mesma lápide de alguns sonhos meus. Escrevo a você. Escrevo porque é inexorável. E não escrevo a mulher decidida e distante a qual você se transformou (ou sempre foi e eu me recusei a ver), mas me dirigo a menina de nariz grande que roubou meu relógio na quinta-série e o ofereceu a minha oposta (e não opositora) inimiga Letícia – atitude, aliás, de incrível sensibilidade sua. Creio que Lê foi meu primeiro “caso” (aqui não cabe a palavra amor, porque amá-la seria muito domesticável). Back then, eu costumava ouvir Losing my religion pensando naquele rosto moreno do nariz pequenino, na voz peculiar com a qual ela falava e ironizava meu jeito lunático de falar dos clips da Mtv. Letícia me desconcertava e, exatamente por isso, me prendia. Lembra-se de que eu e ela costumávamos correr, primeiro, uma atrás da outra e, depois, uma da outra? Naquele tempo eu não entendia o que me impelia a fugir e ao mesmo tempo estar perto. Hoje, com a vivência dos romances frustrados e das revelações sexuais, sei dizer que aquilo tudo era um turbilhão de sentimentos irritados com a própria profundidade. Com um sorriso saudosista nos lábios, ainda sinto o frio na barriga quando ela me olhava, aqueles olhos grandes atentos a tudo, espertos demais e sedutores demais para uma pré-adolescente em paranóia de descobrir o recém-inventado mundo “grande”. Jamais gostaria de uma mulher como gostei de Letícia. Cheguei a reencontrá-la nessas minhas andanças errantes pelos cursinhos belorizontinos. Bonita como antes, fiel à imagem que criei. Ela não soube me cumprimentar – como sempre -, embora me olhasse da mesma maneira íntima como sempre olhou: jeito de me tocar que carreguei na memória junto com o sabor das balas de maçã verde Lilith no intervalo das aulas. Sempre alimentei uma saudade de Letícia, até quando ela estava presente, sentada á minha frente com os cabelos cacheados esparramados na minha carteira. Pena ter perdido a carta a qual ela me mandou naqueles meses em que passei debilitada (seria bom relê-la agora, boas observações do que eu fui ou deveria ter sido). Talvez nela também tenha doído essa minha partida – que aqui toma um cunho mais de cisão do que de ida. Outra ocasião, encontrei com ela no ônibus. Letícia trocou de poltronas quatro vezes antes de se sentar á minha frente, jogar a mala pesada no bagageiro e me cumprimentar com pressa, quase gritando meu nome. Passamos a viagem espionando as conversas e os telefonemas da outra e não nos despedimos quando o ônibus chegou ao destino. Engraçado isso de relembrar: é como se redescobrir e perceber o tempo dentro do que chamamos de “eu”, um relógio incansável que nos permite sentir saudade, criar vínculos com o etéreo, acreditar que somos e existimos apenas porque há um resto de vida chamado lembrança. Talvez seja isto uma das poucas coisas que aprendi com o pêndulo do dia-a-dia, a única coisa que realmente posso lhe dar: existir e deixar existir, o restante do nada. A razão a gente encontra quando perde o controle. Paradoxo novamente.
Descobri que não sei de qual signo sou. Durante quase vinte anos, acreditei que fosse de Aquário e o simulacro da minha solidão parecia astrologicamente justificável. Mas, recentemente, uma estrela – ou qualquer outra coisa astral e solar – discutiu com as constelações e me roubou de Aquário, atirando-me à realidade pisciana. Será? Talvez realmente caiba a mim reunir as tristezas dos homens e envia-las a esse ser maior de vários nomes e poucas aberturas. Pretensioso da parte Dele acreditar que eu seria capaz de concluir a maior de suas tarefas e estúpido me dar o dom da compreensão, posto que nem entendo a mim mesma. Vá saber. Apenas sei que preciso me encontrar e justamente por isso lhe escrevo. Você me encontrou e me perdeu, assim como eu mesma me encontrei e me perdi. Estou de volta ao sem volta de mim, às pegadas que deixei, à poeira que restou dos cometas das minhas ilusões. Já sinto saudades de você, Dani. Fique com Deus e bem.
"Vou sair pra ver o céu
Vou me perder entre as estrelas
Ver daonde nasce o sol
Como se guiam os cometas pelo espaço
E os meus passos, nunca mais serão iguais
Se for mais veloz que a luz, então escapo da tristeza
Deixo toda a dor pra trás,
perdida num planeta abandonado no espaço
E volto sem olhar pra trás"
(Busca Vida - Os Paralamas do Sucesso)
Dados sobre as fotos: "Reflexos", por Dário M.F. Santos; site Olhares.















