Friday, November 09, 2007

Star's dust


“Depois foi cinza
Nódoa envenenada e mineral
Poeira de estrelas”

(Geraldo Eduardo Carneiro)
"Same old song
Just a drop of water in an endless sea
All we do
Crumbles to the ground,
Though we refuse to see"
(Scorpions)

Dani, eu estava agora há pouco me lembrando de nosso tempo de criança, de como corríamos com energia infindável pelos corredores brancos da escola, de como nos divertíamos com a insipiente ironia que nos era permitido ter naquela época, de como jogávamos vôlei na quadra do colégio de tardezinha, o sol fraco se pondo atrás da igrejinha da serra e o alaranjado colorindo a bola que pairava no ar. Hoje eu fumo, você é médica. Como seria diferente? Eu desconstruo, você constrói. E sempre nos demos tão bem. Eu tenho essa inconstância, esse leve desespero que embala meus dias; tenho também esse pensamento cancerígeno que só alastrou nos últimos anos. Uma vez Bárbara usou uma metáfora piegas, mas que me tocou em cheio “vi você renascer das cinzas, como fênix”. Bonito até. Mas, não mais bonito do que cuidar das pessoas e conseguir curá-las, como você faz. Terapia desse seu sorriso simpático e largo. Tenho saudade da sua saúde emocional, dessa leveza sentimental que você carrega no seu ascendente e principalmente da naturalidade com que você convertia meus problemas em piadas das quais eu conseguia rir, ainda que fosse uma risada pouca no intervalo do recreio.

Recordei, outro dia, da nossa aposta de quem transaria primeiro. Dinheiro fácil que você me levou. Pior de tudo, além do prejuízo financeiro, foi não ter entendido, quando você tentou me dizer, que havia transado com o “...” e me pedia ajuda psicológica para ir dormir sem achar que estava grávida. Ainda dou boas gargalhadas quando lembro das suas bochechas coradas logo que entendi o que tanto se esforçava para dizer. Espero que esteja “fazendo amor” (eu iria falar trepar, mas esse vocabulário o tempo me ensinou e você não conseguiria o ouvir) mais e melhor agora, explorando posições e lugares e desejo mais é que ele te faça gozar. Só assim para você se livrar do seu pudor mineiro.

O assunto que aqui entrará me fez postergar a conclusão desta carta. Dani, eu sei que você me viu quase morta. Jamais esqueço daquele dia em que lhe contei tudo, da consulta no dia anterior, da lista infinita de remédios, das advertências dos médicos, do desespero da minha família. Eu não olhava para os seus olhos, mas encostada na porta da sala, eu sabia que você também chorava com os cantos brancos dos olhos avermelhados, mordendo a mão, sem dizer nada, apenas olhando para o chão. Naquele dia, você me viu. Naqueles minutos em que você ficou parada, silenciosa, sem ação, você me viu e me sentiu. E chorou dolorido, como eu chorei. O momento ainda está em mim, como você ainda está em mim, embora haja essa distância maior do que os quilômetros. Lamento reconhecer que a doença não findou. O corpo deu vacilos, rodopiou na encruzilhada da vida, soergueu-se no abismo da cova, mas continuou até aqui, sobrevivendo como pode. Eu finjo que esqueço e assim também fazem a maioria das pessoas e, ao nosso favor, advoga apenas o meu sumiço – porque foi essa minha alternativa a dor. Já não sei mais quem sou, se sou a enferma ou a sobrevivente de mim mesma, se sou o que deveria ter sido ou o que nunca fui, ou talvez nada disso. Os anos estão passando para você. Estará se formando em breve, estetoscópio no peito, consultório cheio, dinheiro no bolso, três filhos, uma fazenda, um marido insaciável. Capa de revista, memória dos meus sonhos. Eu, cá dentro, ainda estou à espera de mim. Meu carma e meu coma.

Acabei de acender outro cigarro e você deve estar achando isso tudo muito poético. Sei que você gosta quando eu escrevo, pois você sabe que eu sinto e transbordo, você vê qualquer coisa em mim meio nostálgica – talvez seja culpa dos óculos e o jeito de falar pausado entre uma retórica e um aforismo. Você ainda tem aquela fita cassete que gravei para você, falando e fazendo sons eletrônicos com o teclado? Não, acho que não tem mais. Essas reminiscências pré-adolescentes devem ter sido encaixotadas e jogadas fora. Outras cartas e presentes vieram com o tempo e, inevitavelmente, velharias precisam sair para que a novidade entre. Creio que fez bem. É sua maneira de andar em frente e eu a admiro, ainda que eu faça parte do que fica para trás. Sobre meu cigarro, não se preocupe, doutora. Como todas as coisas (e receio fazer o adendo: e também pessoas), eventualmente, eu irei cansar de fumar, adotarei um outro vício, talvez volte para o alucinante mundo das academias e a saúde física agradecerá. Quem sabe? Sempre retorno ao ponto em que deixei algo para trás, certa de que encontrarei uma pista para onde eu fui. Quem sabe eu me encontrarei? Por enquanto: outro trago no cigarro. Não, por favor, não repare no meu jeito paradoxal de pensar as coisas. Já lhe disse que minha figura de linguagem predileta é o paradoxo. A vida imita a arte, fato. Com facilidade assombrosa, caminho pelo invisível imediato que une duas pontas de uma mesma realidade, de um mesmo universo. Evito sempre o trajeto mais óbvio-linear-concreto-inóspito pelo qual as pessoas sabem passar de um extremo ao outro, com a lucidez do drama urbano. O meu atalho abrupto contra a correnteza sempre me coube muito bem: minha pedagogia de avessos.

Não datei a carta, posto que sei que ela nunca irá chegar ou ser lida; será enterrada nas mesma lápide de alguns sonhos meus. Escrevo a você. Escrevo porque é inexorável. E não escrevo a mulher decidida e distante a qual você se transformou (ou sempre foi e eu me recusei a ver), mas me dirigo a menina de nariz grande que roubou meu relógio na quinta-série e o ofereceu a minha oposta (e não opositora) inimiga Letícia – atitude, aliás, de incrível sensibilidade sua. Creio que Lê foi meu primeiro “caso” (aqui não cabe a palavra amor, porque amá-la seria muito domesticável). Back then, eu costumava ouvir Losing my religion pensando naquele rosto moreno do nariz pequenino, na voz peculiar com a qual ela falava e ironizava meu jeito lunático de falar dos clips da Mtv. Letícia me desconcertava e, exatamente por isso, me prendia. Lembra-se de que eu e ela costumávamos correr, primeiro, uma atrás da outra e, depois, uma da outra? Naquele tempo eu não entendia o que me impelia a fugir e ao mesmo tempo estar perto. Hoje, com a vivência dos romances frustrados e das revelações sexuais, sei dizer que aquilo tudo era um turbilhão de sentimentos irritados com a própria profundidade. Com um sorriso saudosista nos lábios, ainda sinto o frio na barriga quando ela me olhava, aqueles olhos grandes atentos a tudo, espertos demais e sedutores demais para uma pré-adolescente em paranóia de descobrir o recém-inventado mundo “grande”. Jamais gostaria de uma mulher como gostei de Letícia. Cheguei a reencontrá-la nessas minhas andanças errantes pelos cursinhos belorizontinos. Bonita como antes, fiel à imagem que criei. Ela não soube me cumprimentar – como sempre -, embora me olhasse da mesma maneira íntima como sempre olhou: jeito de me tocar que carreguei na memória junto com o sabor das balas de maçã verde Lilith no intervalo das aulas. Sempre alimentei uma saudade de Letícia, até quando ela estava presente, sentada á minha frente com os cabelos cacheados esparramados na minha carteira. Pena ter perdido a carta a qual ela me mandou naqueles meses em que passei debilitada (seria bom relê-la agora, boas observações do que eu fui ou deveria ter sido). Talvez nela também tenha doído essa minha partida – que aqui toma um cunho mais de cisão do que de ida. Outra ocasião, encontrei com ela no ônibus. Letícia trocou de poltronas quatro vezes antes de se sentar á minha frente, jogar a mala pesada no bagageiro e me cumprimentar com pressa, quase gritando meu nome. Passamos a viagem espionando as conversas e os telefonemas da outra e não nos despedimos quando o ônibus chegou ao destino. Engraçado isso de relembrar: é como se redescobrir e perceber o tempo dentro do que chamamos de “eu”, um relógio incansável que nos permite sentir saudade, criar vínculos com o etéreo, acreditar que somos e existimos apenas porque há um resto de vida chamado lembrança. Talvez seja isto uma das poucas coisas que aprendi com o pêndulo do dia-a-dia, a única coisa que realmente posso lhe dar: existir e deixar existir, o restante do nada. A razão a gente encontra quando perde o controle. Paradoxo novamente.

Descobri que não sei de qual signo sou. Durante quase vinte anos, acreditei que fosse de Aquário e o simulacro da minha solidão parecia astrologicamente justificável. Mas, recentemente, uma estrela – ou qualquer outra coisa astral e solar – discutiu com as constelações e me roubou de Aquário, atirando-me à realidade pisciana. Será? Talvez realmente caiba a mim reunir as tristezas dos homens e envia-las a esse ser maior de vários nomes e poucas aberturas. Pretensioso da parte Dele acreditar que eu seria capaz de concluir a maior de suas tarefas e estúpido me dar o dom da compreensão, posto que nem entendo a mim mesma. Vá saber. Apenas sei que preciso me encontrar e justamente por isso lhe escrevo. Você me encontrou e me perdeu, assim como eu mesma me encontrei e me perdi. Estou de volta ao sem volta de mim, às pegadas que deixei, à poeira que restou dos cometas das minhas ilusões. Já sinto saudades de você, Dani. Fique com Deus e bem.
"Vou sair pra ver o céu
Vou me perder entre as estrelas
Ver daonde nasce o sol
Como se guiam os cometas pelo espaço
E os meus passos, nunca mais serão iguais
Se for mais veloz que a luz, então escapo da tristeza
Deixo toda a dor pra trás,
perdida num planeta abandonado no espaço
E volto sem olhar pra trás"
(Busca Vida - Os Paralamas do Sucesso)

Dados sobre as fotos: "Reflexos", por Dário M.F. Santos; site Olhares.

Friday, October 26, 2007

Aveszo


7

- Tenho essa pressa.
- Você tem mais do que pressa...
- O que eu tenho, então, se não é só pressa?
- É também e mais do que pressa – bebeu da cerveja esquecida no copo plástico, fazendo pausa mansa com sabedoria no sabor. Você anda em fuga, correndo não se sabe para onde, vai indo sem saber como... – e balançou a mão livre no ar, como se desanuviasse uma fumaça, empurrando-a para frente - se reunindo numa noite, se desmembrando pela manhã.
- Se andamos – observou-a, como quem se reinventa - saímos de um ponto. Se eu ando mais rápido – pausa e desvio de olhar para a boca da ouvinte - é por pressa desse próximo.
- Você anda não como quem saiu – resposta concisa no olhar de Maísa -, mas como quem quer chegar.
- Você quer chegar também, não quer? – palavras mínimas num momento largo de sentimentos no fundo do copo de cerveja nas mãos de Teresa.
- Eu não. Chegar é sempre amanhã e amanhã é nada, estrada de ferro para o seguinte sem chegada. Paradoxo do andarilho.
- Não andar é o mito da caverna de Platão, medo do desconhecido.

Não se entreolharam mais; Tereza se recostou no sofá, cruzando as pernas e reajeitando a roupa, não permitindo ao tecido ficar um centímetro a mais perto dos joelhos, limite da saia no ápice da coxa morena, enquanto Maísa separou as pernas e já apoiava as mãos sobre o joelho para se levantar. Dividia, uma, a atenção da outra com o movimento dos convidados na festa, alcançando com os aguçados ouvidos um murmúrio de conversa à direita, reconhecendo um casal abraçado no outro sofá verde à esquerda do lounge especialmente decorado para aquela solenidade GLS. Uns amigos em comum passavam e davam risadinhas com as bocas abertas e bêbadas, alternando com as pontas dos dedos uma reta invisível Maíza-Teresa-Tereza-Maísa. Elas sorriram e logo olhavam em sentidos opostos, pessoas opostas. Maísa se levantou, foi buscar algo como desculpa para abandonar o sofá. A outra, imóvel, procurou a bolsa atrás de umas almofadas e achou o cigarro amassado, sem encontrar o isqueiro. Uma terceira mulher se aproximou, fogo na ponta de um palito de fósforo: Teresa ofereceu o rosto com o cigarro preso nos lábios em “C” deitado, parábola com concavidade para cima; tragou duas vezes até acender o canudo branco. A dona do fogo balançou o fósforo no ar, jogou-o longe e, sem pedir licença, sentou-se ao lado direito dela, lado inverso de onde Maíza havia saído. Das caixas de som, saiu a voz rouca do Legend “we just don’t care, we just don’t”, as mulheres balançaram os cabelos soltos, os homens bateram os sapatos engraxados contra o piso marcando o tempo do bumbo. Embora soubessem o que John falava, ninguém entendeu o que ele realmente dizia. Iluminação decaiu, a noite se aproximou, foram acesas luminárias amarelas e vermelhas, pendentes do teto por um fio fino e os corpos naturalmente se aproximaram, boca com boca, inferno e céu. O sussurro das vozes amenizou a intensidade, só uma gargalhada ou tosses desmedidas rasgavam o zum-zum-zum velado das pessoas. Maísa, num dos apótemas do hexágono irregular inscrito num círculo de amigos, conversava com todos, mãos escondidas nos bolsos, ombros relaxados. Quando lhe perguntavam onde estava Tereza, desconversava dizendo que estava por aí, não suportava quando ela fumava descontroladamente, não sabia dançar, bebia demais, flertava insuportavelmente igual às vezes em que elas flertaram, lá naquele princípio e ante-princípio de tudo. Era suportavelmente doloroso vê-la exatamente igual, sem qualquer marca sua nela, tela em branco. Não disse nada, contudo. Apenas inclinou a cabeça e sorriu leve, sem graça, olhando Teresa sentada no sofá, mão estendida no encosto do móvel, com o terceiro cigarro nos dedos, cabelos constantemente jogados para trás ou preso atrás das orelhas dos brincos de duas argolas grandes; e a terceira pessoa com o corpo todo direcionado na direção da falante, olhos em faróis para o espetáculos da boca molhada de cerveja. Ciúmes? Alguns amigos do hexágono de comentários pensaram ser ciúmes, olharam para o sofá também sem mover músculo algum da face, desentendidamente atentos. Mas Maísa sabia que era só tristeza. Ciúmes e tristeza não se cumprimentam. Voltaram à discussão sobre a CPMF, destronamento de Plutão, cinema europeu, novela das oito, Tio Sam e Lenin, reencarnação.

6

Reencontraram-se, horas depois, no espelho do banheiro. Maísa saia de dentro de uma das cabines, ainda fechando a braguilha da calça, lutando contra a dificuldade do botão muito maior do que a casa. Tereza retocava o batom, espremendo os olhos, lutando contra a imprecisão proporcionada pelos milhares de mililitros de cerveja. Demorou um tempo até que se reconhecessem pelo espelho. Teresa observou que a outra tinha dificuldades com a calça, olhou com ironia para os braços magros de Maísa que tensionavam as veias contra a pele com força entusiasmada para abotoar a calça. Não parou de passar o batom, mas acelerou o ritmo; esfregou um lábio no outro e com a ponta do mindinho limpou as manchas que evadiam dos lábios. Guardou, com cautela, o batom de volta à bolsa, apoiou-se sobre a pia com as mãos na borda, batendo a unha pintada de vermelho no mármore preto.

- Vem cá – e, sem abandonar o corpo da pia, meteu os dedos dentro da calça ainda aberta de Maíza e puxou-a para perto de si. Fitava-a nos olhos e, com delicadeza, concluiu a tarefa de abotoamento da calça. Ainda deslizou as mãos do abdômen inferior de Maísa até a lateral dos seus quadris, sem encontrar uma mão na outra, apenas confortando-a no espaço preciso do corpo entre as palmas das mãos abertas. No reflexo do espelho, Maíza viu as costas expostas de Teresa, sem marcas de sutiã, apenas leves traços de um corpo magro e bonito, desvendado pela displicência da blusa cinza caída às costas. Posicionou, então, as duas mãos sobre os ombros desnudos de Tereza, massageando-os com leve pressão, caminhando com as pontas dos dedos curtos até o pescoço, escorregando e subindo o declive da nuca. Penetrou os dedos nos cabelos macios daquele corpo anestesiado pelo álcool que, agora, lançava as mãos para mais atrás do quadril dela, prendendo os dedos nas presilhas da calça feita para o cinto. Brincou com os cabelos escuros de Tereza até fazê-la fechar os olhos e mostrar a sombra clara pintada sobre as pálpebras dos cílios longos e também retocados. Era uma mulher tão bonita, Maísa pensava quase sorridente, imaginação transitória entre o “tão” e o “bonita”, embalada na embriagez que exalava do corpo entregue de Teresa. Era uma mulher tão envolvente, Teresa inspirava abrindo as narinas, memória mergulhada no “envolvente”, reconhecendo o perfume antigo do corpo. Alguém entrou no banheiro e o som do ambiente conturbado lá fora sulcou a atmosfera tépida do banheiro. Despertou-as da condição encantada em que estavam. Desenlaçaram-se. Uma buscou a bolsa sobre a pia, outra foi lavar as mãos e o rosto. A porta arranhou no chão, na saída da última.




5

Maíza dançava: corpo solto no ar, cabelo preso pelo próprio cabelo num coque em forma de caracol; silhueta brincando com as formas, boca aberta de onde saiam onomatopéias álibis de um sentimento bom. A música era trance, mas ela cantarolava:

Como fosse um par que
Nessa valsa triste
Se desenvolvesse
Ao som dos bandolins....

E como não?
E por que não dizer
Que o mundo respirava mais
Se ela apertava assim...

Seu colo como
Se não fosse um tempo
Em que já fosse impróprio
Se dançar assim

Ela teimou e enfrentou
O mundo
Se rodopiando ao som
Dos bandolins...

Esqueceu-se de Teresa, da dor, da CPMF, da decadência de Plutão, das contas, das correspondências, da idade, da identidade, do capitalismo, do comunismo, de ontem e de amanhã. Gingou no ar, maestra e regente da própria música: letra e melodia. Olhos fechados, alma aberta.

Tereza, de volta ao sofá: quarta pessoa, mesma anedota, quarta vítima, mesma técnica, quarto pedido, mesma recusa, quarto sentimento, mesma indiferença. Olhos abertos, alma fechada. Na memória, a polifonia da música e da gaita, com Blue e Elton John: “What do I gotta do if sorry seems to be the hardest word".


(Dados sobre a foto) Autor: Alexandre P. Site: Olhares.com

INDEZ

Suicidadãos: epifanias póstumas entre fragmentos de uma vida extraordinariamente desconhecida


Terra de Vera Cruz, 11 de setembro de 2007


Eu sabia que era você quando seu corpo cansado despontou de dentro da Mercedes preta e recebeu das mãos do sargento este envelope amassado e sujo de sangue. Perdoe-me a bagunça – mas você bem sabe que eu nunca fui ou soube fingir ser uma mulher muito organizada, o que me desbancou da elite feminina sou-frágil-sou-delicada-sou-mulher -, mas, meu amor, no nosso último contato, eu não haveria de desfazer todo esse quadro que você pintou sobre mim: a tinta sempre foi esta, vermelho-rubro, cor sanguinolenta, visceral. Talvez o cheiro esteja desagradável, esse odor metálico absorvido pela celulose do papel deve lhe dar ânsia de vômito e, ainda sem os antigos olhos, posso vislumbrar o rasgado da sua boca com asco desta carta. Fique com o seu nojo e a minha indiferença, pois só mesmo agora, nesta pausa antes da morte, é que sou capaz de perceber a inutilidade dessa fútil espécie humana e seus hobbies made in USA. Ojeriza, agora, é o melhor que lhe posso oferecer: herança inalienável sem testamenteiros.

Ah, eu dizia que sabia que era você que faria a questão mórbida de ler minhas últimas palavras. Sei por que você tem gosto gótico pela morte. Todo mundo estará lá: platéia plácida e a certeza do aplauso morto. No enterro, cogito, já sei: passará minutos sonolentos proliferando esses vocabulozinhos patética e religiosamente aprendidos nas aulas de latim da faculdade de Direito; terno preto, camisa social branca por dentro da calça, todos os botões sisudamente fechados até o caroço na sua garganta, elegantemente triste com a morte de tão-querida-amiga, que-Deus-a-tenha e outros momentos epifânicos arroz-de-festa. Poupe-nos o desconforto. Apenas diga “um dia a conheci, era bonita, mulher feita de vistosas ancas, morena brasileira, fruto telúrico do nosso solo pátrio. Morreu por teimosia, nos deixou de castigo pela eternidade”. Martinha irá chorar e o lenço preto dançará nos dedos enrugados. Contudo, ninguém perceberá, pois botox é feito fralda e vai absorver as lágrimas e os suores. Ela dará entrevistas aos jornais, consolada no peito estufado e malhado do mais novo gigolô da novela barata do canal Roupa Suja, dizendo coisas agradabilíssimas copiadas-coladas de qualquer outro velório, relatando happy-hours dos quais nunca participei, talvez até memorando, com faixa de melhor amiga, um coquetel inventado na casa de um amigo em comum, de preferência nome de estrangeiro impronunciável pela segunda vez. No enterro, meu caixão fechado, lá dentro o resto de mim, catados com tanto zelo pelos bombeiros. Pedaços de um pouco corpo espatifado contra o gris do asfalto, emendados como pedaços de boneca e enfeitados com rosas brancas e amarelas para ninguém ver; do lado de fora, sete coroas coloridas, com faixas esperançosas, fotos minhas, anos 60, 70 e 80, punk, pop e rock: decoração de um mau gosto justificável e perdoável apenas pelo momento funesto. Você chamará alguém para tocar? Uma orquestra e o Réquiem, de Mozart? Não, meu querido, chame a mais popular banda de axé, com direito a atabaque, negro um-e-noventa, cabelo dread, sorriso branco... Mozart morreu só: eu quero minha morte a toque de tambor africano, marcha-grave, congado. Morri no Brasil dos brasileiros, não no universo paralelo e pseudotropical dos nossos amigos engravatados.

Agora, eu sei, suas lágrimas secaram. Talvez você confira um tremor na mão trepidar a folha de papel, tapando a boca com os dedos assustadoramente inertes. Pensa por que eu escolhi você. Mas, sabe? Foi você quem sempre me escolheu. Ou, melhor dito, a você sempre coube a minha não-escolha e é justamente agora, na pausa antes da passagem, que sou capaz de tomar-lhe as rédeas do jogo e colocá-lo, surpreso, sob o meu arbítrio. Calma, não há nada delatado aqui: seus segredos se esmagaram com o meu corpo no meio do asfalto da Avenida Brasil. Ninguém saberá limpar meu sangue deles; estão, pois, muito bem guardados. Respire outra vez: você está a salvo e eu estou morta, relaxe.

Quem sabe - eu indago, minutos antes de subir no parapeito desse prédio – você esteja interessado no meu último momento de vida. Meu caro, trejeitos para metafísico nunca lhe cumprimentaram, já que o máximo ao qual você se aproximou de alguma filosofia foi quando leu Karl Marx e ficou excitadíssimo com a mais-valia. Entretanto, se sua vontade inconsciente o fez atravessar o último ponto final e o encaminhou até esta presente linha, acho viável dar-lhe meu último comentário não-político, como aqueles os quais você me fazia parar de dizer, já no quinto Martini da noite. Sou mulher, meu senhor, sem as dores do parto, mas com as mesmas mazelas miseráveis da alma. Não se decepcione agora com minhas epifanias póstumas: você bem sabe que tentou me engravatar, me socou num terninho à lá Condoleezza Rice, me fez trepar com altos executivos duas três vezes na noite, até com mais de um homem, para ver se eu criava essa carapaça de indiferença que você ostenta com pose e poder. Para ser sincera, sempre que voltei ao meu apartamento pela manhã, corpo destruído e alma morta, havia ainda em mim um tesão descabido pelo sagrado, instinto rousseauniano, não querendo ser corrompido. Lavei os cabelos, o corpo e o caráter com xampu barato e embebi de álcool e água sanitária as roupas fedidas da fumaça do seu charuto. Pentei as madeixas setecentas e setenta e sete vezes; por baixo do edredom, de roupa, me toquei carinhosamente, gemendo em sussuro para um rapazinho musculoso e de cachos dourados, membro endurecido que não me penetrava: apenas caminhávamos de mãos dadas numa dessas pracinhas de cidade pequena, feito Itabira de Drummond. É isso: sob o coque da mulher-moderna, havia também uma Amélia emocionada e à espera do próximo capítulo da novela das oito, mulher com a qual você nunca trepou e jamais trepará. Elas estão morrendo: saltarei, em alguns instantes, com a minha Amélia nos braços, como amazonas no embate do sertão, um seio a menos pelo filho que não tive. Pereceremos eu, ela e – principalmente – um pouco mais de você.

Você ficará bem! Trate de não convulsionar esse choro. Sua maquiagem metrossexual irá desmanchar e as putas-tristes de García e Copacabana irão ver quão velho você está. Limpe as lágrimas com o lenço de cetim italiano; aproveita e também limpa as mãos sujas do meu sangue que, muito provavelmente misturado ao seu suor, criou uma gosma incômoda. Ou não limpe agora e, quando acabar de ler esta carta, limpe-se nela mesma, já que é capaz de ver tanta sujeira aqui, reflexo do espelho da sua alma. No meu último impulso, ainda quero você limpo e impecável por fora, posto ser impossível por dentro. Além do mais, não lhe quero ver novamente nos seus poucos momentos byronistas, tomando dois Prozac e meio com um copo de whiskie on the rocks. Nós dois já sabemos que você apagará em meia-hora, baba branca escorrendo do canto do lábio, sonhará com o Schwasnegger, sendo a primeira dama do governador-do-fututo, peruca loira à lá Monroe com esse bigode Jânio Quadros. Acordará excitado, corpo estranho latejando dentro da calça de linho. Irá se aliviar na ducha pensando na enteada, tomando outro Prozac mais um Johnnie Walker. Livre-se desse espírito, pois hoje é dia de festa – ainda que seja fúnebre. Invadirão sua casa no nosso – perdão, digo: - meu velório. Você se achará tão importante e imponente como antes: “meus pêsames” retumbaram no ouvido do seu ego como “meus parabéns”. Celebre: hoje é tarde para mim e festa para você.

Presa, aqui dentro desse apartamento de pouco luxo que você me deu, prestes a lançar meu fraco corpo em queda livre pela janela, tenho de me respeitar: reconhecer que passei as primaveras como invernos, sem jamais experimentar a sinestésica sensação do pôr-do-Sol na beira da praia, sem nunca ter sentado numa gangorra de play-ground, como este aqui, no piso do condomínio, de onde ecoam vozes de criançada serelepe, antes insuportáveis, agora o embalo angelical dos meus últimos suspiros. Eles não irão se assustar com meu corpo espatifado no chão, pois, há pouco, no momento exato em que nasceram, reconheceram de imediato o outro extremo: a morte. Reconheça, em meu respeito, a beleza da minha morte livre; imagine o vento nos meus cabelos soltos, meu corpo de peso sem balança para medir, Quintana cantando “eles passarão, ela passarinho”. Você pode até ejacular com o Arnold, darling, mas sou eu quem vai para a Califórnia nesse verão.

Meu querido, não faça meu epitáfio e nem chore copiosamente. Deixe uns otários se lamentarem e sentirem o desgosto do meu caixão fechado, sem cena e sem céu. Apenas escreva na minha lápide, com corretivo escolar, quando não houver mais fotógrafos e coveiros: aqui jaz a minha pior amiga e melhor inimiga: Ética.

Bom final de tarde e não se esqueça da sua reunião, amanhã, com aquela empresa construtora: negócio de primeiro mundo, corrupção tupiniquim.


Com amor,
Ética

Friday, October 12, 2007

In n' In



"She eyes me like a pisces when I am weak
I've been locked inside your heart-shaped box
for weeks
I've been drawn into your magnet tar pit trap"


Nirvana
Heart-Shaped Box











Há dias que não conhecem o fim. São dias meus, principalmente, só meus, mergulhados no escuro do apartamento, porque é sempre de noite e é sempre demorado. O céu, às vezes lilás e triste, vai deixando o escuro se espalhar e infiltrar no atrás das nuvens, minguando até que o sol nem apareça mais no horizonte; os prédios recortam-no com seus vértices gritantes e, inerte pela noite, o céu aceita que o poder de suas estrelas fique ofuscado pela pretensão das luzes das casas e apartamentos. São dias estranhos dentro de sensações confusas que não passam com cigarros, não passam com garrafas de vodka inteiras, não desaparecem com a (re)leitura das várias mensagens no painel do celular, não aliviam mesmo depois de assistir horas de programas estúpidos nos canais abertos, não abandonam o âmago mesmo lendo livros e análises, fórmulas e teoremas, porque até na leitura é fácil achar motivos para voltar no exato instante em que tudo se explodiu com a precisão de um botão de rosas em plena primavera: a forma choca-se contra o pensamento. Fico minutos em baixo do chuveiro, deixando a água quente ou fria, cair sobre o rosto, a nuca, os ombros e deixo que ela suavize um corpo aprisionado dentro de seus próprios limites estranhos. Aperto os olhos com muita força, limpando-os com certa freqüência para evitar que a água entre e faça-os arder, contraindo as pálpebras até perder o equilíbrio e jogar a mão molhada contra o box do banheiro. Um box de vidro transparente onde, quando está esfumaçado, eu escrevo aquele mesmo nome, repetidas vezes e em inúmeras formas, como se fossem lado de uma mesma figura, um poliedro quem sabe. A cada novo traço, um sorriso ou um soluço quase sempre seco; em cursiva, itálico, negrito, riscado, sublinhado... várias vezes o pensamento toma a forma no vapor de água que cora o vidro e se transforma no meu painel, ou melhor dito, diário. Mas, é só aparecer três ou quatro vezes aquele mesmo nome (ou apenas algumas letras tão íntimas minhas capazes de conduzir aquele mesmo momento), que eu acabo por deslizar a mão do princípio ao fim do box, limpando-o daqueles projetos fugazes de sonhos e planos. Sento-me num canto do banheiro verde do meu apartamento, jogo a cabeça para trás, apoiando-a sobre uma das paredes, desligo o chuveiro e deixo o tempo correr com as últimas poças de água que se derramam pelo ralo. E é só mais um banho dentro dos infinitos dias que se passam desprezando os calendários e os relógios. E há esse sufoco entre a espera e o querer.

O corpo ficou indefinidamente naquele espaço, que era pouco e exato, naquele derradeiro momento em que algo se rompeu, como uma represa que não suporta mais a correnteza de um rio em época de cheia. Talvez aqueles instantes tenham durado segundos, minutos na mais longa hipótese. Mas, um tempo em que o corpo desprezou o mistério da gravidade e a alma observou-o como uma fênix num último vôo rasante, quando sabe que pela última vez sente aquele frio do ar em velocidade contra suas penas. Um momento que passaria despercebido, indolor, inconcebível, incontrolável, inenarrável, instigante, in n’ in, dentro e dentro. Talvez fosse só mais uma noite no conforto da paz insensível dos dias. Mas, era cedo e falávamos tanto e nos deixávamos ser tão inteiras que, entre voltar atrás ou não, agora estamos aqui dentro, como testemunhas de um mesmo crime, cúmplices de uma mesma história, lados do mesmo poliedro espelhado. Bem que tentei duas ou três vezes piscar os olhos, tomar um gole de água, rir para o ar, dissimular uma tranqüilidade auto-iludida... ainda que eu desvencilhasse a mente, o corpo e a alma estavam entregues e , embora eu tentasse correr deste destino ceifado há muito tempo, todos os sinais e os segredos acalentavam esse disparate e me faziam ansiar pelas palavras seguintes, que chegariam como balas de revólver matando um sem-volta de mim que há tempos esperava para ser morto. Sete palavras ficaram grudadas nos dias seguintes – ou talvez eu tenha ficado grudada a elas -, como se nada mais fizesse sentido e eu só conseguia repeti-las, no escuro do quarto de luzes apagadas, sobre o edredon, sentindo o próprio hálito; os ouvidos ensurdecerem e apenas ouviam o que vinha de dentro, como um canto de cisne, uma escala de blues. Os olhos se desfizeram em caleidoscópios que recombinavam as cores dos dias em imagens que só faziam sentido quando eu me voltava para aquele exato momento, quando tudo ficou muito mais complicado, ou até mesmo para antes, quando tudo era tão bonito, mas tão embaçado; as mãos rodopiavam pelas folhas pautadas dos cadernos, desobedecendo as ordens que eu enviava para que parassem: giravam e manchavam o papel com aquelas mesmas letras ou com alguns pensamentos naufragados de suas andanças. Naquele momento, quando então, tudo se explodiu e implodiu, acabei por juntar pedaços e imagens de tudo que se passara e guardei-os juntos às outras coisas nos bolsos, nem ao menos me importando se apertá-los entre os dedos provocaria um corte, dado suas arpas afiadas. Segurei-os violentamente com a necessidade de quem se despede e ainda sinto um vigor nas pontas dos dedos que ainda sabem deixar os pedaços livres para uma próxima ex-implo-são.

Acho estranho quando eu digo que não havia dor, antes daquele dia. E não havia. Existia um contentamento sonâmbulo com a alma completamente cega. Agora, há uma dor, sim, embora o instante tenha sido belo - e mais belo e doloroso ainda o pós-instante -. E é do mais alto dessa dor que nasce também a sobrevida que me faz levantar do canto do banheiro, secar os cabelos e passar horas procurando, debruçada sobre a janela, o cruzeiro do Sul, para achar qual ponto, cardeal-final-ou-triplo, que me leva para um pouco mais perto dela; a dor se contorce no peito-garganta e só depois, é que ela se alivia, pesada e com um outro nome que eu jamais sonhei em falar e sobre o qual ainda não escrevo, porque é – ainda – grande demais para mim.

(Dados sobre a foto em link na figura)
Para ouvir: In a Lifetime; Bonno Vox & Clannad;

Monday, October 08, 2007

Infinita Highway



Menvolve...
Desenvolve, em mim, revolta.
Da distância, que não permite resolver.
Sempre: "Volver".
Vou ver. Sem devolver-te esse você em mim(...envolve).


Passariam horas ao telefone, um tremia e o outro falava, e passaria a eternidade de uma distância que chegava a doer. Talvez fosse azul lá fora, no céu uma lua de prata, uma e outra estrela discutindo as disposições dos astros. Mas, estavam de olhos fechados, pêlos eriçados, corpos no limiar da plenitude. As palavras tomavam formas engraçadas no jeito de falar de um, no jeito de rir do outro: e eles sonhavam como era bom se encontrar, por fim e enfim. Falavam sobre a praia, sobre os outros, mas em cada história, falavam mais de si mesmos, um para o outro, outro para um, se deixando mergulhar naquela correnteza que flui pela linha, que ficava suspensa por um fio. E se deixavam tocar, respirando em largo, quando não havia mais voz no telefone, mas só uma respiração desajeitada e umas interjeições suspiradas. Ah, eles se falavam e sobretudo se achavam. Um precisava dormir, o outro tinha que estudar. Mas, era ad infinitum aquele momento: e era deles. Um rio desaguou de um rosto; o outro segurava a testa com a mão aberta, olhando para os pés descalços e imaginava aqueles pequenos grãozinhos de areia entre os dedos. Eram maior do que o lugar, eram o próprio sertão e o vasto mundo. O outro olhava a tecla sete no telefone com as três letrinhas "prs" embaixo e tentava fazer frases com ela. Havia o silêncio também, o silêncio em persona, que eram bem maior do que se dizia, segredava. Um deles disse:
- Como é que se faz quando se treme por dentro?
- Abraça...
Eles hastearam a bandeira, ao mais azul do céu e o sol, durante os dias seguintes, dourado como ele só, flamejou no desenho que ninguém mais podia ver, só eles dois: por que era para eles e por eles aquele desenho, que não era só desenho, mas estava tatuado. Estava instaurada uma... independência? República? 'Mon'arquia? Não sabiam dizer. Aqueles dois naquele dia fizeram o que sempre deveriam ter feito.
Uma ligação veio ao fim, e uma outra conexão, mais forte e mais bela, nasceu e passou a conectar os dias, como pérolas num colar, pérolas essas que se catam no fundo de um rio, de águas muito azuis.


"Nós Dois
Tadeu Franco
Composição: Celso Adolfo

E nós que nem sabemos quanto nos queremos
Que nem sabemos tudo que queremos
Como é difícil o desejo de amar
Você que nem me soube quanto eu quis
Que não coube, não me viu raiz
Nascendo, crescendo nos terrenos seus
Eu da janela olhando a lua, perguntando a lua
Onde você foi amar?
E nós que nem soubemos nos querer de vez
Estamos sós, laçados em dois nós
Um que é meu beijo o outro é o lábio seu
Não sei sair cantando sem contar você
Que eu sei cantar, mas conto com você
Que eu vou seguir, mas vou seguir você
Queria que assim sabendo se a gente se quer
Queria me rimar no seu colo mulher
Vencer a vida donde ela vier
Ganhar seu chegar no chegar meu
Dar de mim o homem que é seu"


Saturday, October 06, 2007

Notícias mínimas: ad eternum (juro que agora acabou!)


Tomo um trago longo, com os olhos semi-cerrados, segurando o cigarro entre dedos indicador e médio, jogando a cabeça levemente para trás. Ela me assiste, mordendo a ponta do dedo mindinho da mão que segurava o cigarro; com o box ainda em mãos, ela o apalpa, olhando-o algumas vezes e me olhando nos intervalos.

- Restou isso: uma marca de cigarro e de alma – ela diz sem perturbar o olhar sereno da caixa preta do Black -... sobre a do cigarro, já nem sei dizer quantas vezes me castiguei por comprar mais de um box por vez. Desnecessariamente... sempre que o via reluzente e negro, nessa certa escuridão completa que não chega a ser sinistra, mas é hipnótica. Ela fala, tragando e soltando a fumaça que volta à atmosfera mais branca: – passei minutos na fila do caixa da padaria num estúpido “confessionário” – e as aspas que aqui se encontram são também desenhadas por ela no ar da noite, com as duas mãos suspensas no ar – interior. Cochichei a ouvintes imaginários minha admiração por este cigarro... falava do fumo, da densidade, do sabor mentolado com traços quase insensíveis de canela, que escapa dos lábios. Acho até mesmo que um dia, alguém, nem sei mais quando, comentou que também gostava dele. Me senti injuriada, estranha. Não queria mais ninguém para gostar dele como eu gosto. Retruquei dizendo que o melhor era beijar alguém que o tivesse fumado. Vê, daí, como as coisas tomaram rumos irreconhecíveis, ir-remediáveis – ela sorri pela última palavra, impulsionando o meu sorriso também – estática, lá, olhando o box.... – e baixa os olhos à altura dos pés, encobrindo a boca pelo joelho flexionado – observando a marca externa e tateando a interna, desenhada no meu... – rouba o olhar dos pés e o oferece a mim, sem concluir a frase – é isso. Restou você nos vinhos baratos comprados no sábado à noite, naquele supermercado 24 horas, quando passávamos horas sem decidir absolutamente nada, vagando Alices pelas prateleiras, trombando propositadamente uma na outra... tanto de você ainda nos comerciais entre filmes da televisão, quando eu já esperava aquele seu cochicho, rouco pelo silêncio, tramando e intertextualizando todas as idéias possíveis, dando razões a uma única razão só: estar aqui. Acho que você não precisa – ela se corrige a tempo, confundindo os tempos verbais e o meu tempo – não precisava se justificar tanto. Só a Loucura salva – ela fecha a fala com uma risada sarcástica.

- Eu só queria... – tento, mas ela interrompe. Os olhos despejam as pálpebras pesadas que, agora, parecem dar licença às palavras que virão:

- Ainda... ainda e para sempre ... – ela se pausa - isso porque eu descobri que a interseção entre “sempre” e “nunca” é um “ainda” infiel a qualquer uma das anteriores... enfim... – ela dá um novo trago no cigarro -... ainda é teu jeito de tocar a campainha: uma, duas, prolongamento, três, que me coloca com o ouvido a postos e ansiedade à flor da pele.

Ela volta o olhar para as nuvens e, antes de encostar o cigarro nos lábios, ela sussurra, bem próxima a ele, uma última sentença: “há tanto de você”.

Daqui, senta na posição de Lótus, minha vontade é de levantar e abraçá-la por trás, aprisionando-a nos meus braços que se fariam infinitos; beijar o imediato-abaixo de sua orelha, (re)pousando a ponta do meu nariz no seu ombro descoberto pela camiseta. Contudo, é pouca vontade para tanto receio, e o que me resta é beber um outro gole do vinho, que começa a ficar quente, dando mergulhos na admiração delicada, pulando do alto da torre de marfim dentro da qual a observo.

Ela permanece, sem dizer nada, insuspeita dentro de sua fumaça. Eu:

- Era ou é melhor colar os lábios numa coisa silenciosa, como o Black, do que me render às vontades e promessas que passavam ou passam pela minha cabeça. Planos coloridos de uma viagem para a Serra do Cipó, São Tomé das Letras, Milão, Rio, tanto faz o lugar, foram tantos mesmo; EZ Special tocando, os incensos de cereja camuflando minha-ou-sua-ou-nossa ansiedade mútua; meditações budistas – aponto o desenho do Ohm no meu anel de prata, no anular esquerdo - que terminariam frustradíssimas com os corpos muito mais próximos do Nirvana... vontades e inquietudes que eu queimava ou queimo na ponta do cigarro acesa, porque não sabia ou sei, ao certo, se poderia ou posso realizá-las.

Ainda que a semi-escuridão do quarto embace os contornos das formas, vejo o pequeno furo que resplandece na bochecha dela, vizinho íntimo de um sorriso branco. Ela não diz nada e apenas apaga a ponta do cigarro no cinzeiro marrom sob o criado-também-mudo. Levanta-se do sofá, sem calçar os chinelos, e caminha a passos cansados na direção da cama. Enquanto se levanta, provoca um distúrbio nas molas do sofá, excitando-as e me deslocando, o que faz com que a taça bamboleie em minhas mãos e ameace derramar o vinho. Desfaço o enlace das minhas pernas e estico a mão até o criado-mudo do outro lado do sofá, depositando a taça ao lado do cinzeiro, do qual ainda nasciam fracas linhas cinza da fumaça do cigarro. Quando termino de colocá-la ali e retorno ao meu lugar e olho para ela, deitada na cama, projeta atrás dos meus olhos um curta com todas as cenas de outrora que, embora minhas, habitavam este quarto, à minha espera, e só estando aqui é que elas podem me visitar, convidadas pela minha retina mediante a visão do corpo dela estendido ali, sobre o lençol branco da cama, com os braços cruzados atrás da cabeça:

... as pernas nuas, a blusa de botões - sem nada por baixo – abotoada displicentemente, as auréolas que colocavam em alto relevo a lisura da blusa, com suas duas pontinhas salientes, o cabelo solto que erotizava todo o resto, os violentados lábios avermelhados e brilhantes pela saliva da língua molhada, os arredondamentos que desfaziam a geometria retangular da blusa...

Corre nas minhas têmporas uma gota de suor recém-formada que eu não ouso limpar. Ela bate com a mão espalmada sobre a cama duas vezes, me convidando a deitar. Eu obedeço: sento à beirada da cama, retiro os tênis e ela me ajuda a retirar o moletom, quando então desliza os dedos longos no meu pescoço. É breve, mas o suficiente para que ela sinta o úmido suor que desgruda do meu corpo. Ela se deita e vou com ela logo em seguida, afundando a maciez do colchão com nossos pesos. Fitamos o teto do quarto, com suas estrelas fosforescentes amarelo-esverdeadas coladas na superfície pintada de branco. Ouço um chiado vindo do lado dela, uma inspiração rouca, aparentemente molhada. Viro meu corpo de lado, no sentido dela, e vejo uma gota também salgada escorrer do canto agudo do olho: outra a qual eu não posso impedir. Percebendo-me atenta à lágrima, ela a recolhe com as costas da mão, de um lado e do outro do rosto. Assim, se vira também no meu sentido.

Ficamos algum tempo com os corpos paralelos estendidos sobre o lençol branco que começa a amarrotar, desenvolvendo mapas anatômicos da dela-boca-minha; rotas sinuosas que infringem as leis e os limites das roupas, cultivando jardins à flor da pele. Vezoutra, os percursos se cruzam na indução de um olhar que recomeça do finápice: os olhos. No último entroncamento, ela se levanta:

- Do que adianta isto agora? – ela se encaminha para o espaço vazio que o guarda-roupa faz com a parede, próximo à porta. Leva a mão ao pescoço e o contorna, terminando-a volta na nuca.

- Isto? – atravesso a cama e me sento sobre a beirada do lado no qual ela estava. Observo-a se distanciar e encostar naquele espaço limpo da parede.

- É. E não finja que não sente. Não hoje e nem agora.

- Eu sinto isso... – e caminho até o corpo dela, abandonando a cama, enlaçando-a pela cintura, infiltrando minhas pernas entre as pernas dela, colocando minha boca no imediato-abaixo da sua orelha, pressionando meu corpo contra o dela em um abraço térmico- laços.


Sunday, September 23, 2007

Notícias Mínimas: ad eternum


Nos acordes do pensamento, os passos se constroem rápidos e, em instantes, eu chego à porta do lugar onde ela mora. Abandonando as desengonçadas avenidas, adentro ruas menores, que vão se estreitando à medida que me aproximo. As calçadas, antes tão geometricamente paralelas e indiferentes, já dão impressões de curvas e parábolas, tremem na proximidade do infinito dos bairros e se escondem na quebrada de um bar na esquina, na circunferência de uma praça ou na carroçaria de um carro estacionado. Alguns metros e a memória aciona aquele lóbulo da lembrança acalentada e reconheço-o: é um prédio pequeno, de quatro andares colabados e empilhados uns sob os outros, como se cada um estivesse cansadíssimo de suportar os outros superiores. Em cada nível, um conjunto de janelas de vidro rodeando o paralelepípedo de concreto, nas quais, por vezes, surge uma violeta roxa ou rosa debruçada sobre os metros que separam-na do chão; em alguma daquelas janelas pende um pedaço de uma mão, fazendo sua sombra contra a luz amarela que foge do teto imediatamente acima. Posso ver daqui apenas antebraço e mão, que leva um cigarro negro aceso, liberando raios cinzas na atmosfera de ar parado e velho das redondezas: a fumaça não vai longe e faz pequenos cogumelos cinzas no vão do quarto. Minha mão desliza sobre o bolso da calça e identifica o isqueiro: de uma cor verde enjoativa e de tamanho menor do que a palma aberta. Com ele preso entre os dedos e apontado para o prédio, vou contando os andares até aquele de onde surgira, há pouco, o resto de mão apoiado no parapeito da janela... um, dois, três, quatro. Ela mora no quarto andar, eu tenho certeza. Da última vez que estive aqui, desci as escadas devagar, numa manhã de sexta-feira cinzenta, apoiando nos corrimãos pretos com o resto de energia que sobrava, sentando entre um lance e outro de escadas, quando então engolia uma náusea dolorida que amargava a boca, fruto da madrugada anterior àquela manhã. É ela de novo, diz meus sentidos, mas advoga meu corpo no sentido contrário, refutando o choque de imagens. Mas, aquele pedaço de mão, aquelas unhas pintadas e principalmente aquele cigarro aceso... não pode, não é ela. Ainda com o isqueiro verde, aperto o botão do 402 e a campainha ressoa dentro da exata janela do cigarro negro. A mão lança o resto do cigarro ainda aceso pela janela aberta, fechando-a logo depois. E o que era apenas um pedaço de um corpo toma os contornos velhos, ainda que embaçados pelo vidro fosco; o desenho tão familiar e tão doloridamente perdido no tempo e na distância fulgura-se na moldura da janela e da minha memória. Dos minúsculos pêlos da minha nuca, nasce uma desordenação de sentimentos inquietos que impedem o movimento dos membros em qualquer direção. A iluminação de lá de dentro do apartamento, que chega até aqui, próximo à calçada, é interrompida pelo corpo que se levanta e aos poucos encobre toda a possibilidade de iluminação, caminhando em direção à luz e para longe da janela. O vulto, antes de sumir, pára alguns minutos no que eu suponho ser o vão de uma porta; dança com os braços no ar sobre a cabeça, construindo um coque desajeitado às pressas. Logo que o balé das madeixas se dá por terminado, ela abandona meu campo de visão, adentro o além da porta e da luz, deixando-me com os olhos enrugados pela luminosidade que agora, cruel, se lança numa briga contra minhas pálpebras. Meus olhos se fecham com uma certa força, mirando o chão apenas para evitar a claridade de cima. Guardo as minhas mãos e o isqueiro nos bolsos do moletom e, lá dentro, dou estalos de pulga com as pontas das unhas. O interfone cinza toma uma vida colorida com a surpresa da voz que brota dele:


- Alô?


E antes da consciência ou do arrependimento, eu verbalizo meu nome. Não respondo ao alô, não dou boa-noite, não me anuncio. O que sai é meu nome, dito assim, cru e vomitado, como se naquele caminho todo - que, afinal, duraram meses - , eu estivesse ruminando-o e fosse ele o grande resumo de tudo. Ela não diz nada e o que se ouve é o colocar do interfone no gancho, seguido de um barulho metálico, que abria o portão da frente do prédio. Empurro-o e fecho-o com uma leveza de jeitos que não é compatível com o pesar do caminhar até ali. Agora, os movimentos são anti-gravitacionais, pausados ao ponto de transbordarem uma fragilidade que antes não era possível se observar. O corredor acimentado corta o meio de um jardim florido e nas bordas do trajeto alguns arbustos de pingo-de-ouro me indicam o caminho. Até chegar à outra porta de vidro - a que me leva para dentro do prédio, vou andando com os braços caídos e as palmas das mãos abertas, tateando o verde frio das folhas na noite, ansiosas pelo orvalho da manhã.


Daqui, já é possível ouvir os passos jogados de chinelos contra a ardósia dos degraus. Uma sonoridade que não deixa dúvidas quanto a precisão do corpo. Do outro lado da porta, sua figura vem tomando contornos mais palpáveis, ainda que profundamente distorcidos pela porta de vidro, na qual hexágonos tortos tomam lugar e disvirtuam as trajetórias dos raios-de-luz. O perfume do cabelo recém-lavado contorna as frestas e brinca de pique-esconde com minha memória. A porta é aberta por ela com a mesma delicadeza dos meus passos e só depois de ter a certeza de que ela me olha, com aqueles mesmos olhos amendoadíssimos, é que desfaço a expressão forçosa das rugas contra a luminosidade e, de trás das lentes, sorrio o mais amplo dos suspiros. Ela move os lábios, não para falar, mas para lentamente os separar com a ponta da língua que concomitantemente molha os lábios e oferece a visão dos dentes brancos e grandes dentro da boca. Quando a língua se recolhe ao céu da boca entreaberta, os dentes roçam e mordiscam o lábio inferior, enquanto o corpo dela me dá passagem, convidando-me para entrar.


- Estranho... - ela diz, rodando a chave dentro da fechadura da porta, sem olhar para mim -... você chegou.


- Cheguei? - eu repito espantada, sem entender o motivo da escolha do verbo "chegar".


- Sonhei que você viria.


- De ontem para hoje?


- Sempre... - ela diz depois de um leve balançar da cabeça de um lado para o outro, negativamente.


Quando esta última sílaba é dita, confundi-se com ela o som da chave que tranca a porta. Passamos uns momentos silenciosos, nos nossos silêncios que se fundiam naquele último fonema. Ela é quem toma a iniciativa e sobe as escadas, impedindo qualquer precipitação do meu corpo sobre o dela. E, como sempre, inevitavelmente, vou atrás.


- Sei que é tarde... - eu falo para desembaraçar as vontades que se engalfinharam na garganta.


- Nunca é tarde - ela diz no espaço de tempo entre a subida de um degrau e outro -, ou talvez seja. Não faz mal, não faz mal. Gosto dessas visitas noturnas... - e ela diz, aproveitando o encontro entre duas escadas num patamar plano - me lembra um certo conto que um dia você me mostrou: Rubem Fonseca - e volta a retumbar o chinelo contra o piso.


- "Passeio Noturno"... - eu deixo que um sorriso escape.


Ela responde com um "hmrrum" amarrado em outro sorriso fugitivo, repetindo o título "passeio noturno", já emendando "é isso? Você está fazendo um passeio noturno?".


- Não... se passeio pressupõe que estar aqui é um acaso, não. - eu respondo enquanto ela escolhe a chave para abrir a porta sob o "402" entre as demais presas num chaveiro em forma de coração.


- Se não é um acaso, é o que então? - ela diz, sem desviar os olhos das chaves.


- Um caso - e me encosto na parede ao lado dela, olhando também para as chaves, para os dedos, para os braços, para...


Ela não me olha de volta, dissimulando uma seriedade em achar a chave. Quando a encontra, demora algum tempo para encaixá-la da maneira correta na fechadura, titubeando duas ou três vezes até destrancá-la. A porta se abre, rangendo as dobradiças que a mantêm presa à parede e ela, minha anfitriã, se encosta na parede ao lado, apontando com a mão aberta o interior da casa. Vou me descolando da parede, devagar, olhando para as pontas dos meus pés enquanto caminho e, quando chego no meio da sala, retenho os passos e espero o barulho da porta se fechando atrás de mim.


- Tempos que não venho aqui... - meu olhar em radar recapitulando todos os móveis de longas datas e eternas lembranças.



- Dois meses - ela quase exclama, repetindo agora num tom mais baixo, menos agressivo - dois meses ou algo assim. Quer beber alguma coisa? - e dá uma risada adentrando a cozinha, me deixando sozinha e estática no centro da sala - vinho?



Eu balanço a cabeça da esquerda para direita, repetidas e ligeiras vezes, contente não só com a lembrança da outra noite, mas com a lembrança dela, expressa pelo convite ao vinho. O movimento ainda existe quando ela volta da cozinha com a taça preenchida numa mão e a garrafa na outra.



- Cadê a sua? -recebo a taça da mão dela, tomando o cuidado de esbarrar meus dedos nos dedos dela.

- Ali - e aponta para o quarto semi-escuro no fim de um corredor pequeno.



Ela caminha à minha frente, acendendo as luzes que viriam, enquanto eu apago aquelas que deixamos para trás. A luz do quarto, contudo, ela não acende; há a claridade discreta de um aquário de um azul límpido, colocado sobre uma armação de madeira pregada na parede, dentro do qual peixes de um laranja vivo passeam margeando os limites impostos pelo vidro. No quarto: uma cama de casal com grandes travesseiros desorganizados, um sofá vermelho encostado à parede, imediatamente abaixo da janela; ao lado, um criado-mudo, celular, cinzeiro, chaves, isqueiro e o maço negro do cigarro; uma mesa abarrotada de livros e cadernos, um deles, em especial, aberto, no qual eu observo linhas escritas sem poder distinguir uma palavra sequer. Ela se encaminha em direção ao sofá e senta sobre uma das pernas, sem olhar em qualquer momento para mim, parada perto da porta. Ela pega o box, escolhendo um cigarro e colocando-o na boca. Antes que ela pudesse pegar o isqueiro, me lanço dentro do quarto e ofereço a chama do meu isqueiro. Ela se surpreende, forçando as pálpebras e me olhando hipnoticamente, enquanto aproxima o cigarro da chama e num só trago, acende em vermelho brasa a ponta do cigarro.



- Senta aqui... - ela retira uma almofada do outro lugar vago do sofá.



- Não sabia que você tinha começado a fumar... - eu olho atenta para os gestos que ela desenha com o cigarro na mão, terminando por apoiá-la no parapeito da janela.



Ela olha para o cigarro, com os olhos semi-cerrados devido à fumaça:



- Faz mal, eu sei...



- Não, não é isso... - eu interrompo com medo de intimidá-la e perder o prazer de observá-la naquele exercício que era meu também.



-... mas, é bom. Você bem sabe. Você quem me ensinou...



- É... eu sei. Só não esperava te ver fumando assim... sozinha.



Ela traga devagar, deixando a ponta do cigarro vermelhíssima, fechando os olhos dos cílios tão negros.



- Às vezes... - ela solta a fumaça rala pela boca-... fumo me olhando no espelho. Não é tão só assim, se você pensar bem...



- Gosto de fumar com você, você sabe - acomodo o corpo na maciez do sofá.



Ela me oferece o próprio cigarro aceso preso entre os dedos da mão. Acompanho o seu movimento e quando projeto minha mão para perto da mão dela, ela recua o braço e trocando o cigarro de sentido, ela se aproxima de mim e coloca o cigarro nos meus lábios. Espero que ela retorne ao lugar, para então aspirar o ar mentolado que o atravessa e impregna a boca. Ela observa a cena e me espera devolver a fumaça ao ar, em forma de um pequeno cogumelo de fumaça que, com as pontas dos dedos pintados, ela agarra e desmancha. O box é novamente aberto e, dessa vez, ela mesma se encarrega de acender o cigarro.

Sunday, September 16, 2007

Notícias Mínimas: ad eternum



Ainda posso visualizar algumas figuras rabiscadas no espaço branco que sobra da página da qual os vocábulos saltaram agora há pouco. Relampeiam na minha memória os últimos sussurros das palavras e suas sinalizações e naquele pedaço de papel que fica vazio delas, os desenhos dominam o sertão do branco sem linhas. Não há mais nada além do branco. Os desenhos já não alteram o conteúdo e apenas adornam o resto da folha de papel como carros alegóricos sem sentido algum ou de um sentido muito bem escondido. O homenzinho verde do sinal se acende e contra todas as luzes dos faróis, atravesso a rua, tomando o cuidado de pisar exatamente sobre as bandas brancas da faixa de pedestre. Os letreiros em neon dos bares e hotéis me dão boas sensações luminosas e disparam cruéis feixes de laser sobre a nuvem do meu caminhar amplamente ofegante e contido. Sou empurrada pela pressa de um grupo de ternos que conversa gritado, rugindo aos quatro cantos da avenida a sua virilidade verbal; com suas vozes retumbantes, seus casacos suspendidos pelas pontas dos dedos peludos apoiados nos ombros largos e seus passos extensos de pernas ligeiramente abertas, eles perfazem uma manada de touros engravatados numa tourada urbana e vil. São os carrascos que fazem de vítimas as pobres e frágeis mulheres que, por infortúnio da necessidade, andam também apressadas no sentido oposto, com suas curvas e sinuosidades à mostra. E elas deslizam pelas calçadas, passando intocáveis por mim, em seus caminhares quase cambaleantes e suas pernas em zigue-zague sob os saltos agulhas que trincam o chão por onde passam – e a neblina que desprende do corpo delas encobre todo o ar e só consigo abrir os olhos o suficiente para ver a rachadura no chão, momentos depois da passagem delas. A manada taurina passa, bufando e baforizando os hormônios e elas, ignorando em partes a bestialidade dos comentários berrados, não são capazes de esconder o inflar de ego: é o nascimento do sublime dentro do grotesco.

Acalantos que transitam dentro de mim, pulando de chakra em chakra, vão causando o formigamento das extremidades dos dedos e do nariz, o que facilmente é mascarado pelo frio dos ventos urbanos. Essa insensibilidade é o que mantém os joelhos angulados sempre à frente, num caminho desabilitado de orientação. Penso nela, ou melhor dito, tento pensar nela. Sempre que os contornos daquele rosto delicado, desenhado na minha alma com a ponta de um lápis de saudade – os lábios de coração levemente vermelhos, o nariz arredondado na ponta, as sobrancelhas grossas, o olhar amendoadíssimo, as orelhas cobertas por voltas e cachos do cabelo negro – ... sempre que esses traços desembaçam aquela névoa de pretensões que eu crio para o momento com ela, uma forte dor abortiva me joga contra uma escuridão feroz, um buraco negro severo que não me permite precipitar a imagem dela nem mais um segundo sequer, ainda que essa formação seja apenas o resto do avesso de um sentimento e justamente por ela, ainda alcanço novos quarteirões.

Retiro as mãos dos bolsos do moletom, experimentando o correr do ar gelado nas frestas suadas dos dedos. E penso: e se doer? E se quando formos nós, passarmos a não ser mais nada?, e se o que eu tenho é exatamente esse não-ter e tê-la, finalmente, seria, fatalmente, perdê-la? E se doer de novo, quando, em minhas mãos, ela se for, sem que eu saiba capturá-la de volta do ar?, e se, então, eu capturar e deixá-la presa para sempre a um "nós" que nem chega a ser meu e nem dela? E se doer e, doendo, eu jamais possa ver a beleza de estar, enfim, nos braços que tanto desejei e por medo de tanta ou mais dor, eu também for embora, com as mãos suadas dentro dos bolsos e os dedos presos uns nos outros, sem nada entre eles? E se doer? Se doer – diz uma voz mansa no lado direito dos meus hemisférios -, será porque você amou demais. E se doer, então, está tudo bem.



Referências às fotos: "Lisboa"; autora: Ana Franco, site disponível em link da foto. "A caminho..."; autor: Avelino Oliveira, site disponível em link da foto. Fonte: Olhares.com

Sunday, September 09, 2007

Notícias Mínimas (continuação)


Chaves, corredor, elevador, andar, andar, andares. Passos, porta, porteiro, portão, rua. Passo rápido pelos antros do prédio, sem despistar a minha insatisfação perene com o alheio. Desço o último lance de escadas contando os degraus com as pontas dos pés, com o sabor de criar uma distância concreta entre o meu mundo e esse mundo de cá. Já na calçada, deslizo a mão sobre a calça jeans, conferindo o isqueiro e o telefone celular dentro dos bolsos, enquanto a outra mão vaga apóia-se sobre o peito, averiguando se eu também levo um pouco de coragem; ajeito alguns fios de cabelo, limpo as lentes dos óculos com a beirada da blusa branca de malha desajeitadamente encoberta pelo moleton azul-marinho, no qual, em seguida, enfio as mãos dentro dos bolsos laterais, apertando com os cotovelos as laterais do meu corpo. Uns pêlos se eriçam com um sopro mais forte provocado pelo passar apressado de um carro. Uma das mangas do agasalho, durante seu vestimento, fica presa à altura do antebraço, o que deixa o relógio à vista: divido meu olhar entre as horas e os pêlos eriçados. Esqueço-me do primeiro e esfrego a mão sobre os últimos, recolocando a manga no seu comprimento adequado.

Os joelhos vão, lentamente, se articulando e alavancando as pernas à frente, levando-me para longe da frente do meu prédio. Um caminhar que se desenvolve pesado e sem pressa, completamente alheio aos outros corpos que correm pelas calçadas, com suas sacolas marrons abarrotadas de enlatados, sonhos vendidos e angústias empacotadas. Eu não tenho pressa de chegar, repito com o queixo colado ao peito, aproveitando o hálito quente que adentra o moletom pela gola da blusa; só consigo não pensar e repetir cegamente uma frase ou o trecho de uma música, que toca entre uma padaria e um bar, ou aquele certo trecho daquele certo poema que ficou guardado para aquele certo momento. Não há tempo, aqui dentro, para pensar. Só há esse vazio doloroso que quer acelerar os passos e lançar meu corpo contra um carro, contra um outro corpo ou contra mim mesma: são opções de um mesmo destino; há um leve desespero que entala na garganta e promove o leve fechar das pálpebras, entre um cruzamento e outro, quando a respiração se faz pausada e intensa, no exato segundo em que o perfume daqueles cachos negros do moleton rosa, por crueldade do ocaso, margeia meus sentidos e penetra a minha superfície fria, recordando a verdadeira precisão de me trazer desse estágio letárgico de vida. Parada com esse leve inspirar durante a espera do passar dos carros e de seus faróis ofuscantes, relembro uma das várias folhas brancas que jaziam no apartamento; singularmente, ela abraça umas frases perdidas, geradas quando ainda havia brasa no cigarro. Esforço a memória e, inspiradas por essa minha energia, as palavras e os pontos saltam do papel e lançam suas asas velozes e veludas sob o ar inóspito da noite desta cidade, plainando sobre os prédios, dobrando ruas e edifícios, dando piruetas e fazendo acrobacias, culminando-se com um mergulho acentuado, quando, então, pousam ordenadamente, como um bando que vem chegando numa certa hierarquia, sobre os meus ombros, onde, enfim, criam mãos brilhantíssimas e com elas, aproximam-se dos meus ouvidos e me cochicham suave o que vieram assobiando:

“Há muito sufoquei a vontade de dizer o quanto eu quis. E ainda quero. Como se não olhar para esse meu desejo me libertasse dele, evitei todas as maneiras de relembrar os calafrios que outrora me desnortearam, colocaram-me à beira de uma verdade tão pungente que a minha única saída foi afastar sem precedentes. Hoje, com as lembranças em pedaços, como um espelho recém quebrado pela força de um soco descontente, eu me desfaço em reminiscência e me deixo lá, no mesmo quarto, com o mesmo incenso de cereja, com a mesma insensatez, com os exatos olhos inquietos que fogem à procura dos outros olhos. Jamais voltará, eu sei. Ela é tudo o que me restou de intocável e só me resta viver à custa de uma memória afetiva. Ainda ergo a mão até a altura dos cabelos, desembaraço-os com as pontas dos dedos penetrantes e faço fé de que ainda, um dia, ontem ou amanhã, serei capaz de deixá-la a cargo da minha memória apenas, e não dos meus sentidos, do meu corpo, do meu desejo e do meu arrependimento. Acreditei, por tanto tempo, que ir é sempre a melhor escapatória. Ela me deu o xeque-mate: posso dar quantos passos forem para longe dela, estarei sempre ali, com os dedos entrelaçados nos dedos dela, na eminência da minha felicidade; em nós atados, muito bem atados.”

(...)

Friday, August 31, 2007

Notícias Mínimas

"A cidade é muito grande
E eu sou praticamente invisível
Temos nossas canções
E alguns recados na porta
Promessa de dias melhores"
Notícias para Honey - Dinartes (composição André Zitto/Rodrigo Chaise)










À meia-luz: uma tosse seca arranhando a garganta, meia dúzia de livros jogados pelos sofás e mesas, canetas e lápis espalhados sobre as folhas brancas e impacientes. A ponta preta de um cigarro enterrado em meio às suas próprias cinzas, enquanto o isqueiro transparente brinca nos meus dedos, de um lado para o outro; um calendário sobre a geladeira da cozinha, com seus números indistinguíveis e seus feriados marcados em caneta marca-texto rosa. A escuridão sem estrelas de um tapete negro sobre os prédios fugidos ao alcance da minha visão. Diálogos privados numa esquina distante e passos indiferentes na rua à frente revelados pelo silêncio das ruas pacatas de um feriado; o box preto de um cigarro, no qual a réstia de luz amarelada de um abajur muito mal posicionado ao canto da sala se reflete. Um copo sujo de café próximo aos pés do sofá que atrai minúsculas formigas no seu trabalho fabril de achar alimento. Deitada com o rosto colado ao tecido sintético do estofado, deixo que o peso da minha mão a mantenha próxima ao chão e com a ponta do isqueiro preso entre os dedos indicador e polegar, mato uma a uma todas as pequenas formigas, desenhando no chão um círculo de morte ao redor da base redonda do copo de vidro transparente. Acendo e apago a chama do isqueiro, alguns centímetros do meu rosto, iluminando as órbitas oculares úmidas e ricas em vasos dilatados e avermelhados. Observo a chama intensa e brilhante, até que a ponta do meu dedo polegar se exaure, e então a labareda regride para dentro do corpo translúcido do isqueiro. Fecho os olhos e a luminosidade dela ainda é visível no tapete escuro sob minhas pálpebras.

Vozes do andar de cima anunciam uma chegada noturna de algum lugar muito alegre e risonho. Palavras povoadas de uma alegria fugaz e de uma ansiedade tremenda aceleram o diálogo e acentuam as risadas, deixando essas últimas à beira do nervosismo. Barulhos de saltos e sapatos contra o piso de madeira. Uma voz rouca e grave, outra adocicada e aveludada, ambas amortecidas pela largura do concreto que separa o meu apartamento do apartamento de cima. Elogiam-se... silenciam-se. Ligam o chuveiro e a energia que exala do meu abajur envelhecido ameaça desequilibrar, cochila, diminui de intensidade, mas volta a si rapidamente, como se lutasse contra um sono irrecusável. Ligam também o som, na exata mesma rádio do meu rádio-relógio, mas com uma intensidade muito maior: acaba por sufocar o chiado do meu simplório aparelho. Olho pro teto, para o bulbo esférico que protege a lâmpada e para os fios metálicos que escapam de suas redondezas e um desconforto se precipita da minha conveniente morbidez. Ajeito o travesseiro entre as pernas, alongo o pescoço, estralando-o de um lado para o outro. Levo um novo cigarro à boca e tomo-o entre os dentes sem acendê-lo. A brincadeira com o isqueiro é divertida e o cigarro permanece intacto, apoiado nos meus lábios secos e trincados.

Então, eu penso e paro. E penso tanto e paro tão pouco que construo lendas e capítulos de uma história pitoresca e onírica: assino com a memória e as promessas. Surgem apáticas teorias de evolução e frases construídas entre soluços sequiosos; medito sobre um encontro acidental, numa avenida longínqua, num dia cinzento e frio: ela vem caminhando em minha direção, dentro de um agasalho rosa claro, com os cadernos abraçados ao peito. Uma pequena presilha adorna os cabelos escuros e abundantes que se derramam da cabeça às costas, deixando algumas mexas onduladas suspensas no ar, ao sabor do embaraço. Um vento leve revolta os cachos e eles se revelam no ar, desbravando o princípio do precipício de uma nuca delicada... enquanto eu, com os cabelos presos num rabo-de-cavalo impecavelmente preso, observo-a se aproximar, por cima dos óculos; ensaio um movimento com a sobrancelha, seguido de um leve levantar dos olhos à altura dos olhos dela. Ela sorri, exatamente como sempre sorriu, com a clareza do desejo que eu julgo palpitante – porque assim também se configura em mim. O pensamento se espanta com a intensidade e foge, me jogando contra a realidade suada do meu rosto colado ao sofá. A moça dos cabelos ondulados e do moleton rosa acena, no nosso último momento, ofuscada pela luz real do abajur, com seus dedos longos, acompanhada pelo sorriso adimensional que se estampa no seu rosto pálido pela minha imaginação em retirada, cantando o último trecho do mais recente bolero. De volta à realidade mundana, o cigarro ainda permanece sem fogo, preso entre os dentes.

“Não quero falar – e se for possível nem pensar - as coisas que não sei dizer (ou daquelas que não ouso). Não sei mais datar os acontecimentos numa escala clímax de sensações, para que ao final, sem fôlego, ainda me reste um sopro de saudade – e isso é isto: mergulhos profundos em piscinas de saudades para ver se acordo molhada de coragem de procura-la dentro e fora de mim. Já se foram horas e maços numa busca completamente interior de chegar a algum lugar ao menos próximo do meu algo-maior... chega! Houve tempo em que precisei de tempestuosas palavras e descrições megalomaníacas para ameaçar a sensatez cega dos bons tempos, tudo por um momento misericordioso de loucura criativa e desperta. Lancei olhares significativos e nada. Haja o que houver, sou sempre eu e termino assim. Nada além...” – eu medito mentalmente, sem aproximar, um centímetro se quer, cigarro e isqueiro...

“Desde que me descobri incansável, corro atrás do abatimento. Noites sem dormir, madrugadas adentro e fora de mim: cigarros amiúde, taças sujas, lençóis intactos, televisões acesas, livros grifados, chamadas perdidas, cadernos rabiscados, telefonemas inventados, diálogos imaginários” – retumbam no meu tímpano idéias silenciosas que eu grito dentro do vazio do meu apartamento. Então, por um segundo, eu deixo que o rádio-relógio preto, de números vermelhos e geométricos e de vozes teatrais e músicas antigas, me conte uma história banal, uma notícia de realidade, um despropósito publicitário, um acontecimento invisível. Escuto e brinco com as palavras e com as asas das palavras, que ainda as mantêm no ar, ao alcance da minha imaginação, caçoando do meu desespero comedido. Com o flash de luz que faço com isqueiro, ainda posso ver umas últimas réstias e restos dos pensamentos que deixei há pouco e uma nuvem dourada de brocal paira cintilante sobre minha cabeça, onde antes flutuavam, à deriva, os pensamentos... a ponta do cigarro ainda marrom do fumo...

Sei que é noite pelos algarismos vermelhos no painel digital do rádio-relógio e pelos locutores que se revezavam na brincadeira teimosa e covarde de me dizer que as horas se passam e eu continuo aqui. Oito e alguma coisa. Bato o isqueiro contra o chão no número de vezes igual ao dos minutos. Na última batida, interrompo o movimento no ar, levo a mão à boca: tomo o cigarro entre dos dedos e coloco-o sobre a pequena mesa que sustenta o abajur. Salto do sofá já calçando os tênis e colocando o isqueiro no bolso da frente da calça. Atravesso a porta do meu apartamento-mundo-casulo, batendo-a fortemente contra as paredes de selecionado tom “branco gelo”. O estrondoso barulho é apenas um aviso às vozes do andar superior de que existe vida (ou sobrevida) sob os pés deles.

(...)




(Dados sobre a foto: Yun fotografias de ação grátis)




Friday, August 17, 2007

Se vis pacem, para bellum

Há silêncios preciosos.

Friday, August 10, 2007

Orange's flow




Juro: apertei os olhos tão forte que foi difícil recobrar a visão. Esfreguei-os com as pontas dos dedos, impedindo uma lágrima de se despencar, molhada de lucidez, enquanto o resto do corpo se estremecia no desespero da lembrança de você, inquieta em mim. Ainda de olhos abertos, era tudo tão escuro... há dias inteiros a sua espera, uma paciência mentirosa de quem espera o telefone tocar. Qualquer torpor de ouvir sua voz entre cinco e seis da tarde, quando o céu se entristece e me leva com ele. Observei, de cá, as minúsculas estrelas laranjas se acenderem dependuradas nos postes das ruas vizinhas. Juro: quis tanto. Prometo: quero, ainda e pra sempre, mais.

Saturday, August 04, 2007

Lisa, uma história felina (e verídica)




- Miaaaaaau...

Pensei ser da televisão.

- Miaaaaaaaaaaaaaaaau... – insistiu, pedindo a atenção.

Coloquei a televisão em mudo. Repetiu-se do lado de fora do prédio.

- Miaaaaaaaaaaaaaaaaaau... – agora mais irritado, quase gritando.

Corri até a janela, sem me preocupar em calçar os chinelos, apenas debruçando-me sobre a armação da janela. Esperei o próximo chamado.

- Miaaaaaaau....

Foi quando a silhueta saiu de baixo de um dos carros, já dentro da minha garagem. As patas que tocavam o chão acimentado, dando a ele a impressão de um carpete de veludo. Quando caminhava, os ossos e os músculos de suas costas se projetavam; alternavam-se nos movimentos flutuantes de subida e descida, elegantemente decorando o caminhar que se desenhava com tranqüilidade. As orelhas brancas e pontudas, mirando o céu, moviam-se de tempos em tempos, indicando-me que estava atenta, ainda que aparentasse uma certa indiferença ao lugar.

- Miaaaau... – disse, lançando o olhar riscado pra cima e mostrando os dentes pontiagudos na boca entreaberta – miaaaau.

Olhei o pequeno corpo branco da janela do meu segundo andar. Não disse nada, não me dirigi a ele, não estalei os dedos, não gastei meu humor fazendo onomatopéias: nada. Apenas observei-o daqui, gritando o mesmo “miau” repetidas vezes, com os olhos claros seteiros e apontados para cima. Pensei que implorasse qualquer coisa, um pouco de comida, quem sabe. Ameaçei descolar o corpo da janela e ir buscar-lhe um pedaço de carne. Na possibilidade de não me ver livre daquele som depois, permaneci, imóvel, apenas enquadrando aquele pequeno corpo branco numa fotografia mental. Era uma noite fria, a primeira noite fria de um inverno atrasado que chegava ao final de Julho. Uma corrente de ar entrou pela janela lateral e eriçou-me os pêlos das pernas. Fechei as janelas e em seguida as parnesianas, sem titubear. Sorri cansada, respirando lânguido pelas narinas, enquanto voltava para o sofá, ainda morno pelo contato prolongado do meu corpo. Gisele perguntou-me o que era. Respondi sem olhá-la, calculando os passos até ela. Sentei-me no exato lugar que havia abandonado, com a cabeça sobre o colo dela, entre as horas perdidas e abandonadas em frente da telinha azul colorido.

Apertei “play” e continuamos o filme. Na televisão 40 polegadas da Semp Toshiba, todas as cores de Almodóvar em “Carne Trêmula”. Na cena, Davi, o ator principal-sem-clichês: em óculos de armações pesadas e grossas, dentro de um carro vermelho fosco, com uma máquina fotográfica em mãos, transparecendo a ansiedade-raiva de estar fotografando momentos indiscretos de um casal adúltero, como se adquirisse a maior munição dos tempos contra os seus males e transtornos. Gisele comentou alguma coisa, soltando da boca falante bufadas de fumaça que se lançavam como cogumelos no ar. Não dei a devida atenção, mas sei que comentei qualquer coisa de volta, tomando o cigarro dos dedos dela e dando um trago longo. Desfiz das cinzas, batendo na lateral do cinzeiro que Gisele segurava com a mão parada no ar e, então, levantei o corpo, postei-me boca-a-boca e, quando nossos lábios se tocaram selados, devolvi o trago roubado para boca dela. Ela sorriu com os olhos apertados daqueles cílios-cortinas: expirou aquela língua cinza gasosa, iluminada de azul pelo aparelho de TV e que aos poucos se dissolvia no ar. O miado insistiu. Aumentamos o som do televisor, enquanto Davi se preparava para sair com o carro.

De sangue a sangue, de vida em vida, o filme terminou. O olhar de Gisele se cruzou com o meu, naqueles momentos seguintes do término da película, enquanto os créditos ainda passavam, nuns segundos inenarráveis de reciprocidade e proximidade. Afagou-me, já se levantando do sofá e espreguiçando o corpo a minha frente. O moleton azul subiu pouco acima do umbigo e revelou-o para mim, como se a própria Gisele me ofertasse um beijo ou uma mordida molhada naquele pedaço de corpo moreno. Ainda com a boca escancarada dos dentes grandes e milagrosamente alvos (haja visto tanto cigarro), com os braços angulados para cima, pilares das mãos que também se espreguiçavam, olhava para baixo, enrugando a pele sob o queixo. De novo: o sorriso ocular – em nós duas. Concertei o corpo. Fiquei à frente dela, já a abraçando pelas presilhas para cinto da calça jeans e, com as mãos presas nas voltas glúteas donde nádegas viram pernas, beijei-lhe redondezas do umbigo, mordendo suave, uma hora ou outra, para delírio e prazer, meu e dela, dela e meu, respectiva e reciprocamente. Ao final do último gemido, Gisele abaixou os braços e com as mãos já descansadas, carinhou minhas orelhas, dando um beijo superficial na minha testa descoberta pelo cabelo preso. Alguns passos para trás, dois à direita e caminhou para o banheiro, sem qualquer palavra. A televisão ainda insistia nos infinitos créditos, com tantos nomes e cargos e funções e importâncias. Refiz o rabo de cavalo dos meus cabelos, já abandonando a temperatura do sofá e adentrando o frio da sala, agora escura pela cor negra de pano de fundo das letras em movimento da televisão. Do lado de fora, pela janela, os retângulos e quadrados iluminados de vida, longe e perto. O prédio vizinho, com algumas janelas fechadas, outras abertas e ainda aquelas que expunham a vida alheia na vitrine urbana da cidade. Foi quando o miado vociferou do lado de fora, pela última vez. Uma réstia de vontade de descer as escadas e ficar vis-à-vis com aquele (ou seria aquela?) felino (ou felina) esquadrinhou a sola dos meus pés presos nos chinelos. Não houve movimento, nem menção. Continuamos os três corpos, separados por muitos obstáculos.

Gisele voltou do banheiro, com o rosto e alguns fios de cabelo ainda molhados, segurando a toalha amarelo-vivo nas mãos. Dois botões da sua camisete branca abertos, revelações de um colo que eu tanto beijei e tanto desejava beijar. Olhei o contorno dos seios enleados por um sutiã justo. Olhei sem de(i)scrição. Mordida de lábios, meu e dela. Jogou a toalha sobre a mesa de vidro pela qual passou enquanto caminhava na minha direção, já com as mãos sobre o terceiro botão, prenúncios do meu deleite. Próxima, jogou as mãos sobre o apoio do sofá, imediatamente atrás de mim, à altura dos meus ombros. Beijou molhado a ponta da minha orelha: morna e segura língua que brincou com os lóbulos, deixando os lábios para abraçar o resto. Desceu ao pescoço, até quase o ombro e sentou-se sobre meu colo, encaixando sua anca sobre a minha. Das pernas longas, senti a atenção e tensão das coxas, embora elas me apertassem pelas laterais. Sobranceira, soltou as mãos do apoio do sofá e atarracou-as na minha nuca, despreocupada se arranhava ou doía. Não houve movimento, nem menção minha. O único desbrave foi o da porta da sala se abrindo e por entre a fresta mal iluminada que aparecia, abandonava-me o prazer do corpo de Gisele e entrava o - outro - corpo felino e mais branco, nos seus poucos centímetros acima do chão. Saindo rápido de cima de mim e jogando-se rapidamente já sentada no sofá e de pernas cruzadas, Gisele abandonou seus dedos, deixando as marcas ardidas e - que eu supunha-vermelhas na minha nuca e voltou para sua suavidade suspeita, embora alguns fios de desejo invisíveis ainda atavam seu corpo ao meu. Todo esse movimento dela feito com o meu olhar ainda imóvel na fresta escura da porta da sala, de onde apenas a parte posterior daquela pouca silhueta alva aparecia. Do negro de lá de fora, veio a curiosa gata (sim, era uma gata, eu me certificava visualmente), inquiridora no seu andar ritmado e logo atrás, minha mãe, com suas sacolas brancas de supermercado, com seu olhar antropológico sobre a felina que ela mesma acabara de convidar a entrar.

- Quê isso, mãe? – eu gritei e, no tom, misturou-se alegria e dúvida.

Não respondeu. Continuou sorrindo, com as sobrancelhas arqueadas de uma menina sapeca na sua primeira década de vida.

- Uma gata! – respondeu por fim, a contragosto.

- Que é uma gata, eu sei!, – e corri até perto das duas recém-chegadas – até já tinha a visto há algum tempo, saindo de baixo de um dos carros da garagem. Miava demais. Mas, mãe! Você não gosta de gatos! – argumentei, por fim.

Não respondeu novamente. Colocou as compras sobre o balcão da cozinha, alheia a presença da gata que, àquela altura, já havia caminhado até os pés de Gisele e enroscava-se por entre as canelas dela. Acompanhei os movimentos absurdamente normais de minha mãe, na sua tarefa recreativa e terapêutica de providenciar o lugar certo de todas as coisas. Meus olhos mais abertos do que o normal, inquietos pelo movimento horizontal da minha cabeça insatisfeita.

- Você nem gosta de gatos!... ela vai ficar aqui? Imagina! Vai rasgar todos os sofás. Eles transmitem toxoplasmose!... – minha mãe enchia uma tigelinha laranja de leite, ausente das minhas súplicas por explicação -... me dá aqui essa tigela.

Com o pote sobre a palma da minha mão, caminhei alguns passos cautelosos até próxima a gata, próxima a Gisele. Sentei sobre os calcanhares e busquei a atenção do pequeno animalzinho pelo qual, inadvertidamente, todos já criávamos afeição (ou talvez só eu criasse e construísse um sentimento inexistente nas outras pessoas). Perto assim, notei que era uma gata extremamente branca, quase albina. As bordas dos olhos, das quais os cílios também claros saiam, eram róseas. O nariz unido a boca arqueada também apresentava manchas rosas claríssimas, como um batom borrado. Um derrame quente de carinho desceu da garganta e aqueceu-me o peito, fazendo com que colocasse a tigela no chão e lançasse as mãos para tocá-la. Parei a centímetros dela e, por medo da rejeição ou de uma bela mordida, apenas ofertei-lhe as costas da minha mão para que ela, a gata, se decidisse se eu poderia acariciá-la mais e melhor. Enfurnou sua cabeçinha sob a minha mão e deu um passinho feminino, para que a palma deslizasse, delicada, sobre seu pêlo branco e organizado. Abri a boca num sorriso de graça e olhei, logo acima, para Gisele, que também sorria - de deboche ou de ternura ou ambos.

Passou a noite em minha casa. Bailou por todos os quartos, subindo nas camas vez ou outra, dando voltas sobre o próprio corpo e deitando logo em seguida. Bebia o leite com a ponta de sua língua minúscula e rosa, fazendo círculos no líquido também branco. Recebia um afago e aproximava as pálpebras gostosamente, saboreando aqueles momentos de contato. Trançava entre as pernas humanas e das cadeiras, adentrava cantos apertados entre os sofás e móveis. Fazia da minha casa o seu universo particular. Gisele foi embora, oferecendo-se para levar a gata para a rua. Perguntei à minha mãe.

- Abra a porta e deixe que ela mesma se decida. Se sair, leve-a embora. Se não, arrume um cobertor e faça-lhe uma cama. - respondeu sonolenta, já debaixo das cobertas.

Gisele escancarou a porta, já pronta para tomar a gata no colo e irem embora juntas. Risonha, a gata caminhou com suas patas de algodão até o vão: olhou as escadas, o corredor e eu supus que também olhou para Gisele. Deu de ombros e, meia-volta, caminhava para dentro do apartamento de novo. Despedi-me com um beijo na bochecha de Gisele, enquanto ela me dava uma lista de coordenadas para o dia seguinte, onde nos encontraríamos, que horário eu iria buscá-la, em que lugares iríamos comer, fazendo-me prometer que ligaria logo que acordasse. Consenti a tudo, com uma das mãos repousadas sobre a maçaneta. Ainda perto da escada, mandou-me um beijo. Peguei-o no ar e mantive a mão fortemente fechada até que ela desapareceu no segundo lance de escadas. Abrindo lentamente cada um dos dedos, olhei para o nada da mão, justamente ali sobre as linhas da vida desenhadas na palma. Observei o sangue voltar às extremidades e enrubescer as pontas dos dedos e das unhas que, imediatamente antes, estavam amarelados. Com a mesma mão, reajeitei a armação dos óculos e fechei a porta.

Voltei ao sofá, sem notícias do paradeiro da gata. Fui até o quarto da minha mãe e ela e meu irmão se divertiam fazendo perguntas a gata que, sentada no chão, talvez também fizesse perguntas ininteligíveis a eles. Desliguei o aparelho de DVD, recoloquei nos canais normais e acabei por adormecer assistindo a um jornal qualquer, um desses de altas horas da noite. Acordei com o miado da gata, dessa vez, falado ao pé do meu ouvido. Com o corpo posudo sobre as quatro brancas patas, ela me fitava. Imóvel, mais um miado. Franzi a testa, sem entendê-la. Não miou mais. Apenas esperou que eu me levantasse, desligasse a televisão e rumasse para minha cama. Do sofá a cama: em transe e desmemoriado. A última cena que ficou foi a do seu corpo quadrúpede na porta do meu quarto, sentada perto da armação da porta. A luz amarela da sala atravessava os corredores e iluminava as costas da gata, projetando sua sombra no chão de taco envernizado do meu quarto escuro. Seu rabo dançava, de um lado para o outro, desenhando esse's no ar, como se, sendo um braço, me dava adeus. Ainda forcei as pálpebras, para não adormecer. Não houve movimento, nem menção. Foi a última vez que a vi.

Acordei pela manhã e o sol já se colocara bem alto no céu. Perambulei pelos cômodos da casa, na esperança matutina de encontrá-la ainda lá, no cobertor xadrez em vermelho e preto que eu havia preparado para seu repouso. A arrumadeira avisou que ela já havia ido embora. Logo que acordou, minha mãe saiu para o trabalho e consigo, levou aquele corpo branco e carente para fora, disse a mulher, sem a adjetivação, que é própria de quem sente e não de quem apenas conta. Houve sim, um alívio triste. Eu não precisaria prender a gata e nem a gata a mim. Foi a primeira que me deixou, pensei. Dói? Acho que não, é tranqüilizante. É melhor partir ou ficar? Não soube responder.

Voltava para cama quando o celular tocou e no visor, o nome Gisele piscava incansável e irritadiço, enquanto o réquiem de Mozart berrava do aparelho. Balbuciei alguns monossílabos enquanto ela desperdiçava opiniões naquela hora da manhã. Eu ri. Ela indagou. Reafirmei o riso e disse “bom dia, meu bem”. Ela acalmou-se e, com um sorriso telefônico propriamente silencioso, continuo o discurso. Busquei-a pela tarde e foi-se embora novamente pela noite. Numa noite, aliás, sem miados.

Dias depois, quando chegava ofegante a minha casa, vinda de suas voltas pela cidade, Gisele respondeu sincopada, entre um fôlego e outro:

- Acabou de passar um carro de propaganda por aqui, você não ouviu? Dizia assim:
“procura-se uma gata adulta de pêlos brancos, perdida no dia 26 de julho, no bairro da Graça. Atende pelo nome de Lisa. É muito dócil e afável. Informações pelo contato...” – terminou, vitoriosa, a fala.






Sunday, July 29, 2007

Nada para mim (reborn)


Olhei no relógio do canto direito inferior do meu computador quase obsoleto. 23:25h. Como um ato que não pede explicação, conferi o mesmo horário no meu relógio digital no punho. Religiosamente no mesmo horário. Passei a mãos pelos cabelos presos com um prendedor metálico prateado, reajeitei a armação dos óculos. O celular completamente imóvel. E é assim que você me coloca no mesmo lugar.


Perdi meu tempo há muito tempo. Quando? Não sei mais. Sinto um vazio estranho num espaço que não me pertence. Vou voltar, mas é na volta que as amarguras da ida latejam dolorosamente mais evidentes. Queria não precisar, queria não ter a necessidade de. Sempre preciso; nada tenho. Só a possibilidade do meu amanhã.


É. Você não apareceu e essa vai ser só mais uma noite, entre eu, meu travesseiro e o rádio ligado até de manhã.


Se eu acordar durante a madrugada, que meus pensamentos não despertem. Costumo passar alguns minutos - há dias em que eles se transformam em horas - deitada, imóvel, apenas sob o controle da minha respiração. Penso em você, é óbvio. Penso nos seus sussurros, na sua voz quase rouca que me acordava de manhã. O cheiro dos seus cabelos, as curvas do seu corpo. Num mar de nostalgia, eu me pego embriagada de você. Aí, eu olho o relógio (de novo) e vejo que mal cinco minutos passaram e você ainda em mim. Queria que você precisasse mais de mim. Queria poder ir embora, jogar as suas fotos fora, deletar seus telefones da minha agenda eletrônica. Queria ir embora para você me querer mais. Se hoje eu lhe vejo e fingo (espero que bem) que não se passa de situação comum, é porque quero que você deseje. Não que eu me renda aos jogos, mas é que fica doloroso entregar os dados na sua mão.


Reviro os lençóis e os meus dois grandes travesseiros. Sinto um calor diferente que aquece e umidece meu corpo sob o lençol. Eu saio da cama, sento à frente do computador e espero não-sei-o-quê. Penso em rendição. Tomo um café esquecido na garrafa térmica vermelha. Amargo, ácidos, mas assim mesmo o tomo. Pergunto-me se preciso aprender a aceitar sua ausência. Aí então é que vejo que sempre estive adaptada a ela. Não sei se dói saber mais da minha consciência ou da sua indiferença.
(O primeiro post pós Anjo Caído. Por que há uma certa saudade de antes... só uma saudade.)

Tuesday, July 17, 2007

No Jardim das Hespérides (por fim)


Caiu a noite. De repente, como se o céu tivesse fechado as pálpebras, a noite despencou de qualquer lugar sobre nós duas. Havia um peso pouco discreto, o qual não se alivia com uma boa inspiração, ou um cigarro e ou uma boa desculpa. Era severo, constante e pálpavel. Contudo, abreviava a nossa intensidade, que tomava contornos quase visíveis. Sentamos-nos a bons
metros da fogueira e dos amigos que eu acabara de conhecer, de maneira que eles voltavam a ser apenas vultos escuros e alegres, circundando a língua alaranjada de fogo que nada iluminava. Ela se sentou primeiro, cruzando as pernas em forma de "borboleta", como se fizesse um laço com elas; fui logo depois, tomando o cuidado antes de retirar a mochila e colocá-la logo atrás de mim. Paralelas e simétricas, posto que eu também havia cruzado minhas pernas do mesmo jeito, fitávamos o mar, revolto e rotineiro, no seu vai-e-vem de ondas. Ela apoiou um dos braços sobre o joelho e, com o outro, anunciou a pequena mão que desenhava na areia da praia círculos, elipses, infinitos. Cruzei os braços sobre o peito e fechei os olhos junto com o céu, que dava boas-vindas à noite. Eu dava boas-vindas a ela.

Apoiei uma das mãos sobre a areia que começava a ficar fria, naquele princípio de noite, esperando que o calor da outra mão viesse, intrépido, aquecê-la e apertá-la, enquanto as palavras invadiriam meus ouvidos dizendo as frases pausadas e quase roucas, como eu esperava que fossem ditas, segredadas. Plenitude. Aproximei meu corpo, discreta, para não quebrar a bolha de tempo e espaço que havíamos criado e habitávamos naqueles instantes. Um bravio frio soprou do mar em nossa direção, desajeitando alguns fios de cabelo, secando a lágrima alforriada de algum canto de olho marejado. “Você...”, eu pensei sem desviar o olhar das ondas que vinham e voltavam, harmonizando um som em dó menor, dor menor:“...você”.