Terra de Vera Cruz, 11 de setembro de 2007
Eu sabia que era você quando seu corpo cansado despontou de dentro da Mercedes preta e recebeu das mãos do sargento este envelope amassado e sujo de sangue. Perdoe-me a bagunça – mas você bem sabe que eu nunca fui ou soube fingir ser uma mulher muito organizada, o que me desbancou da elite feminina sou-frágil-sou-delicada-sou-mulher -, mas, meu amor, no nosso último contato, eu não haveria de desfazer todo esse quadro que você pintou sobre mim: a tinta sempre foi esta, vermelho-rubro, cor sanguinolenta, visceral. Talvez o cheiro esteja desagradável, esse odor metálico absorvido pela celulose do papel deve lhe dar ânsia de vômito e, ainda sem os antigos olhos, posso vislumbrar o rasgado da sua boca com asco desta carta. Fique com o seu nojo e a minha indiferença, pois só mesmo agora, nesta pausa antes da morte, é que sou capaz de perceber a inutilidade dessa fútil espécie humana e seus hobbies made in USA. Ojeriza, agora, é o melhor que lhe posso oferecer: herança inalienável sem testamenteiros.
Ah, eu dizia que sabia que era você que faria a questão mórbida de ler minhas últimas palavras. Sei por que você tem gosto gótico pela morte. Todo mundo estará lá: platéia plácida e a certeza do aplauso morto. No enterro, cogito, já sei: passará minutos sonolentos proliferando esses vocabulozinhos patética e religiosamente aprendidos nas aulas de latim da faculdade de Direito; terno preto, camisa social branca por dentro da calça, todos os botões sisudamente fechados até o caroço na sua garganta, elegantemente triste com a morte de tão-querida-amiga, que-Deus-a-tenha e outros momentos epifânicos arroz-de-festa. Poupe-nos o desconforto. Apenas diga “um dia a conheci, era bonita, mulher feita de vistosas ancas, morena brasileira, fruto telúrico do nosso solo pátrio. Morreu por teimosia, nos deixou de castigo pela eternidade”. Martinha irá chorar e o lenço preto dançará nos dedos enrugados. Contudo, ninguém perceberá, pois botox é feito fralda e vai absorver as lágrimas e os suores. Ela dará entrevistas aos jornais, consolada no peito estufado e malhado do mais novo gigolô da novela barata do canal Roupa Suja, dizendo coisas agradabilíssimas copiadas-coladas de qualquer outro velório, relatando happy-hours dos quais nunca participei, talvez até memorando, com faixa de melhor amiga, um coquetel inventado na casa de um amigo em comum, de preferência nome de estrangeiro impronunciável pela segunda vez. No enterro, meu caixão fechado, lá dentro o resto de mim, catados com tanto zelo pelos bombeiros. Pedaços de um pouco corpo espatifado contra o gris do asfalto, emendados como pedaços de boneca e enfeitados com rosas brancas e amarelas para ninguém ver; do lado de fora, sete coroas coloridas, com faixas esperançosas, fotos minhas, anos 60, 70 e 80, punk, pop e rock: decoração de um mau gosto justificável e perdoável apenas pelo momento funesto. Você chamará alguém para tocar? Uma orquestra e o Réquiem, de Mozart? Não, meu querido, chame a mais popular banda de axé, com direito a atabaque, negro um-e-noventa, cabelo dread, sorriso branco... Mozart morreu só: eu quero minha morte a toque de tambor africano, marcha-grave, congado. Morri no Brasil dos brasileiros, não no universo paralelo e pseudotropical dos nossos amigos engravatados.
Agora, eu sei, suas lágrimas secaram. Talvez você confira um tremor na mão trepidar a folha de papel, tapando a boca com os dedos assustadoramente inertes. Pensa por que eu escolhi você. Mas, sabe? Foi você quem sempre me escolheu. Ou, melhor dito, a você sempre coube a minha não-escolha e é justamente agora, na pausa antes da passagem, que sou capaz de tomar-lhe as rédeas do jogo e colocá-lo, surpreso, sob o meu arbítrio. Calma, não há nada delatado aqui: seus segredos se esmagaram com o meu corpo no meio do asfalto da Avenida Brasil. Ninguém saberá limpar meu sangue deles; estão, pois, muito bem guardados. Respire outra vez: você está a salvo e eu estou morta, relaxe.
Quem sabe - eu indago, minutos antes de subir no parapeito desse prédio – você esteja interessado no meu último momento de vida. Meu caro, trejeitos para metafísico nunca lhe cumprimentaram, já que o máximo ao qual você se aproximou de alguma filosofia foi quando leu Karl Marx e ficou excitadíssimo com a mais-valia. Entretanto, se sua vontade inconsciente o fez atravessar o último ponto final e o encaminhou até esta presente linha, acho viável dar-lhe meu último comentário não-político, como aqueles os quais você me fazia parar de dizer, já no quinto Martini da noite. Sou mulher, meu senhor, sem as dores do parto, mas com as mesmas mazelas miseráveis da alma. Não se decepcione agora com minhas epifanias póstumas: você bem sabe que tentou me engravatar, me socou num terninho à lá Condoleezza Rice, me fez trepar com altos executivos duas três vezes na noite, até com mais de um homem, para ver se eu criava essa carapaça de indiferença que você ostenta com pose e poder. Para ser sincera, sempre que voltei ao meu apartamento pela manhã, corpo destruído e alma morta, havia ainda em mim um tesão descabido pelo sagrado, instinto rousseauniano, não querendo ser corrompido. Lavei os cabelos, o corpo e o caráter com xampu barato e embebi de álcool e água sanitária as roupas fedidas da fumaça do seu charuto. Pentei as madeixas setecentas e setenta e sete vezes; por baixo do edredom, de roupa, me toquei carinhosamente, gemendo em sussuro para um rapazinho musculoso e de cachos dourados, membro endurecido que não me penetrava: apenas caminhávamos de mãos dadas numa dessas pracinhas de cidade pequena, feito Itabira de Drummond. É isso: sob o coque da mulher-moderna, havia também uma Amélia emocionada e à espera do próximo capítulo da novela das oito, mulher com a qual você nunca trepou e jamais trepará. Elas estão morrendo: saltarei, em alguns instantes, com a minha Amélia nos braços, como amazonas no embate do sertão, um seio a menos pelo filho que não tive. Pereceremos eu, ela e – principalmente – um pouco mais de você.
Você ficará bem! Trate de não convulsionar esse choro. Sua maquiagem metrossexual irá desmanchar e as putas-tristes de García e Copacabana irão ver quão velho você está. Limpe as lágrimas com o lenço de cetim italiano; aproveita e também limpa as mãos sujas do meu sangue que, muito provavelmente misturado ao seu suor, criou uma gosma incômoda. Ou não limpe agora e, quando acabar de ler esta carta, limpe-se nela mesma, já que é capaz de ver tanta sujeira aqui, reflexo do espelho da sua alma. No meu último impulso, ainda quero você limpo e impecável por fora, posto ser impossível por dentro. Além do mais, não lhe quero ver novamente nos seus poucos momentos byronistas, tomando dois Prozac e meio com um copo de whiskie on the rocks. Nós dois já sabemos que você apagará em meia-hora, baba branca escorrendo do canto do lábio, sonhará com o Schwasnegger, sendo a primeira dama do governador-do-fututo, peruca loira à lá Monroe com esse bigode Jânio Quadros. Acordará excitado, corpo estranho latejando dentro da calça de linho. Irá se aliviar na ducha pensando na enteada, tomando outro Prozac mais um Johnnie Walker. Livre-se desse espírito, pois hoje é dia de festa – ainda que seja fúnebre. Invadirão sua casa no nosso – perdão, digo: - meu velório. Você se achará tão importante e imponente como antes: “meus pêsames” retumbaram no ouvido do seu ego como “meus parabéns”. Celebre: hoje é tarde para mim e festa para você.
Presa, aqui dentro desse apartamento de pouco luxo que você me deu, prestes a lançar meu fraco corpo em queda livre pela janela, tenho de me respeitar: reconhecer que passei as primaveras como invernos, sem jamais experimentar a sinestésica sensação do pôr-do-Sol na beira da praia, sem nunca ter sentado numa gangorra de play-ground, como este aqui, no piso do condomínio, de onde ecoam vozes de criançada serelepe, antes insuportáveis, agora o embalo angelical dos meus últimos suspiros. Eles não irão se assustar com meu corpo espatifado no chão, pois, há pouco, no momento exato em que nasceram, reconheceram de imediato o outro extremo: a morte. Reconheça, em meu respeito, a beleza da minha morte livre; imagine o vento nos meus cabelos soltos, meu corpo de peso sem balança para medir, Quintana cantando “eles passarão, ela passarinho”. Você pode até ejacular com o Arnold, darling, mas sou eu quem vai para a Califórnia nesse verão.
Meu querido, não faça meu epitáfio e nem chore copiosamente. Deixe uns otários se lamentarem e sentirem o desgosto do meu caixão fechado, sem cena e sem céu. Apenas escreva na minha lápide, com corretivo escolar, quando não houver mais fotógrafos e coveiros: aqui jaz a minha pior amiga e melhor inimiga: Ética.
Bom final de tarde e não se esqueça da sua reunião, amanhã, com aquela empresa construtora: negócio de primeiro mundo, corrupção tupiniquim.
Com amor,
Ética
















