Monday, October 08, 2007

Infinita Highway



Menvolve...
Desenvolve, em mim, revolta.
Da distância, que não permite resolver.
Sempre: "Volver".
Vou ver. Sem devolver-te esse você em mim(...envolve).


Passariam horas ao telefone, um tremia e o outro falava, e passaria a eternidade de uma distância que chegava a doer. Talvez fosse azul lá fora, no céu uma lua de prata, uma e outra estrela discutindo as disposições dos astros. Mas, estavam de olhos fechados, pêlos eriçados, corpos no limiar da plenitude. As palavras tomavam formas engraçadas no jeito de falar de um, no jeito de rir do outro: e eles sonhavam como era bom se encontrar, por fim e enfim. Falavam sobre a praia, sobre os outros, mas em cada história, falavam mais de si mesmos, um para o outro, outro para um, se deixando mergulhar naquela correnteza que flui pela linha, que ficava suspensa por um fio. E se deixavam tocar, respirando em largo, quando não havia mais voz no telefone, mas só uma respiração desajeitada e umas interjeições suspiradas. Ah, eles se falavam e sobretudo se achavam. Um precisava dormir, o outro tinha que estudar. Mas, era ad infinitum aquele momento: e era deles. Um rio desaguou de um rosto; o outro segurava a testa com a mão aberta, olhando para os pés descalços e imaginava aqueles pequenos grãozinhos de areia entre os dedos. Eram maior do que o lugar, eram o próprio sertão e o vasto mundo. O outro olhava a tecla sete no telefone com as três letrinhas "prs" embaixo e tentava fazer frases com ela. Havia o silêncio também, o silêncio em persona, que eram bem maior do que se dizia, segredava. Um deles disse:
- Como é que se faz quando se treme por dentro?
- Abraça...
Eles hastearam a bandeira, ao mais azul do céu e o sol, durante os dias seguintes, dourado como ele só, flamejou no desenho que ninguém mais podia ver, só eles dois: por que era para eles e por eles aquele desenho, que não era só desenho, mas estava tatuado. Estava instaurada uma... independência? República? 'Mon'arquia? Não sabiam dizer. Aqueles dois naquele dia fizeram o que sempre deveriam ter feito.
Uma ligação veio ao fim, e uma outra conexão, mais forte e mais bela, nasceu e passou a conectar os dias, como pérolas num colar, pérolas essas que se catam no fundo de um rio, de águas muito azuis.


"Nós Dois
Tadeu Franco
Composição: Celso Adolfo

E nós que nem sabemos quanto nos queremos
Que nem sabemos tudo que queremos
Como é difícil o desejo de amar
Você que nem me soube quanto eu quis
Que não coube, não me viu raiz
Nascendo, crescendo nos terrenos seus
Eu da janela olhando a lua, perguntando a lua
Onde você foi amar?
E nós que nem soubemos nos querer de vez
Estamos sós, laçados em dois nós
Um que é meu beijo o outro é o lábio seu
Não sei sair cantando sem contar você
Que eu sei cantar, mas conto com você
Que eu vou seguir, mas vou seguir você
Queria que assim sabendo se a gente se quer
Queria me rimar no seu colo mulher
Vencer a vida donde ela vier
Ganhar seu chegar no chegar meu
Dar de mim o homem que é seu"


Saturday, October 06, 2007

Notícias mínimas: ad eternum (juro que agora acabou!)


Tomo um trago longo, com os olhos semi-cerrados, segurando o cigarro entre dedos indicador e médio, jogando a cabeça levemente para trás. Ela me assiste, mordendo a ponta do dedo mindinho da mão que segurava o cigarro; com o box ainda em mãos, ela o apalpa, olhando-o algumas vezes e me olhando nos intervalos.

- Restou isso: uma marca de cigarro e de alma – ela diz sem perturbar o olhar sereno da caixa preta do Black -... sobre a do cigarro, já nem sei dizer quantas vezes me castiguei por comprar mais de um box por vez. Desnecessariamente... sempre que o via reluzente e negro, nessa certa escuridão completa que não chega a ser sinistra, mas é hipnótica. Ela fala, tragando e soltando a fumaça que volta à atmosfera mais branca: – passei minutos na fila do caixa da padaria num estúpido “confessionário” – e as aspas que aqui se encontram são também desenhadas por ela no ar da noite, com as duas mãos suspensas no ar – interior. Cochichei a ouvintes imaginários minha admiração por este cigarro... falava do fumo, da densidade, do sabor mentolado com traços quase insensíveis de canela, que escapa dos lábios. Acho até mesmo que um dia, alguém, nem sei mais quando, comentou que também gostava dele. Me senti injuriada, estranha. Não queria mais ninguém para gostar dele como eu gosto. Retruquei dizendo que o melhor era beijar alguém que o tivesse fumado. Vê, daí, como as coisas tomaram rumos irreconhecíveis, ir-remediáveis – ela sorri pela última palavra, impulsionando o meu sorriso também – estática, lá, olhando o box.... – e baixa os olhos à altura dos pés, encobrindo a boca pelo joelho flexionado – observando a marca externa e tateando a interna, desenhada no meu... – rouba o olhar dos pés e o oferece a mim, sem concluir a frase – é isso. Restou você nos vinhos baratos comprados no sábado à noite, naquele supermercado 24 horas, quando passávamos horas sem decidir absolutamente nada, vagando Alices pelas prateleiras, trombando propositadamente uma na outra... tanto de você ainda nos comerciais entre filmes da televisão, quando eu já esperava aquele seu cochicho, rouco pelo silêncio, tramando e intertextualizando todas as idéias possíveis, dando razões a uma única razão só: estar aqui. Acho que você não precisa – ela se corrige a tempo, confundindo os tempos verbais e o meu tempo – não precisava se justificar tanto. Só a Loucura salva – ela fecha a fala com uma risada sarcástica.

- Eu só queria... – tento, mas ela interrompe. Os olhos despejam as pálpebras pesadas que, agora, parecem dar licença às palavras que virão:

- Ainda... ainda e para sempre ... – ela se pausa - isso porque eu descobri que a interseção entre “sempre” e “nunca” é um “ainda” infiel a qualquer uma das anteriores... enfim... – ela dá um novo trago no cigarro -... ainda é teu jeito de tocar a campainha: uma, duas, prolongamento, três, que me coloca com o ouvido a postos e ansiedade à flor da pele.

Ela volta o olhar para as nuvens e, antes de encostar o cigarro nos lábios, ela sussurra, bem próxima a ele, uma última sentença: “há tanto de você”.

Daqui, senta na posição de Lótus, minha vontade é de levantar e abraçá-la por trás, aprisionando-a nos meus braços que se fariam infinitos; beijar o imediato-abaixo de sua orelha, (re)pousando a ponta do meu nariz no seu ombro descoberto pela camiseta. Contudo, é pouca vontade para tanto receio, e o que me resta é beber um outro gole do vinho, que começa a ficar quente, dando mergulhos na admiração delicada, pulando do alto da torre de marfim dentro da qual a observo.

Ela permanece, sem dizer nada, insuspeita dentro de sua fumaça. Eu:

- Era ou é melhor colar os lábios numa coisa silenciosa, como o Black, do que me render às vontades e promessas que passavam ou passam pela minha cabeça. Planos coloridos de uma viagem para a Serra do Cipó, São Tomé das Letras, Milão, Rio, tanto faz o lugar, foram tantos mesmo; EZ Special tocando, os incensos de cereja camuflando minha-ou-sua-ou-nossa ansiedade mútua; meditações budistas – aponto o desenho do Ohm no meu anel de prata, no anular esquerdo - que terminariam frustradíssimas com os corpos muito mais próximos do Nirvana... vontades e inquietudes que eu queimava ou queimo na ponta do cigarro acesa, porque não sabia ou sei, ao certo, se poderia ou posso realizá-las.

Ainda que a semi-escuridão do quarto embace os contornos das formas, vejo o pequeno furo que resplandece na bochecha dela, vizinho íntimo de um sorriso branco. Ela não diz nada e apenas apaga a ponta do cigarro no cinzeiro marrom sob o criado-também-mudo. Levanta-se do sofá, sem calçar os chinelos, e caminha a passos cansados na direção da cama. Enquanto se levanta, provoca um distúrbio nas molas do sofá, excitando-as e me deslocando, o que faz com que a taça bamboleie em minhas mãos e ameace derramar o vinho. Desfaço o enlace das minhas pernas e estico a mão até o criado-mudo do outro lado do sofá, depositando a taça ao lado do cinzeiro, do qual ainda nasciam fracas linhas cinza da fumaça do cigarro. Quando termino de colocá-la ali e retorno ao meu lugar e olho para ela, deitada na cama, projeta atrás dos meus olhos um curta com todas as cenas de outrora que, embora minhas, habitavam este quarto, à minha espera, e só estando aqui é que elas podem me visitar, convidadas pela minha retina mediante a visão do corpo dela estendido ali, sobre o lençol branco da cama, com os braços cruzados atrás da cabeça:

... as pernas nuas, a blusa de botões - sem nada por baixo – abotoada displicentemente, as auréolas que colocavam em alto relevo a lisura da blusa, com suas duas pontinhas salientes, o cabelo solto que erotizava todo o resto, os violentados lábios avermelhados e brilhantes pela saliva da língua molhada, os arredondamentos que desfaziam a geometria retangular da blusa...

Corre nas minhas têmporas uma gota de suor recém-formada que eu não ouso limpar. Ela bate com a mão espalmada sobre a cama duas vezes, me convidando a deitar. Eu obedeço: sento à beirada da cama, retiro os tênis e ela me ajuda a retirar o moletom, quando então desliza os dedos longos no meu pescoço. É breve, mas o suficiente para que ela sinta o úmido suor que desgruda do meu corpo. Ela se deita e vou com ela logo em seguida, afundando a maciez do colchão com nossos pesos. Fitamos o teto do quarto, com suas estrelas fosforescentes amarelo-esverdeadas coladas na superfície pintada de branco. Ouço um chiado vindo do lado dela, uma inspiração rouca, aparentemente molhada. Viro meu corpo de lado, no sentido dela, e vejo uma gota também salgada escorrer do canto agudo do olho: outra a qual eu não posso impedir. Percebendo-me atenta à lágrima, ela a recolhe com as costas da mão, de um lado e do outro do rosto. Assim, se vira também no meu sentido.

Ficamos algum tempo com os corpos paralelos estendidos sobre o lençol branco que começa a amarrotar, desenvolvendo mapas anatômicos da dela-boca-minha; rotas sinuosas que infringem as leis e os limites das roupas, cultivando jardins à flor da pele. Vezoutra, os percursos se cruzam na indução de um olhar que recomeça do finápice: os olhos. No último entroncamento, ela se levanta:

- Do que adianta isto agora? – ela se encaminha para o espaço vazio que o guarda-roupa faz com a parede, próximo à porta. Leva a mão ao pescoço e o contorna, terminando-a volta na nuca.

- Isto? – atravesso a cama e me sento sobre a beirada do lado no qual ela estava. Observo-a se distanciar e encostar naquele espaço limpo da parede.

- É. E não finja que não sente. Não hoje e nem agora.

- Eu sinto isso... – e caminho até o corpo dela, abandonando a cama, enlaçando-a pela cintura, infiltrando minhas pernas entre as pernas dela, colocando minha boca no imediato-abaixo da sua orelha, pressionando meu corpo contra o dela em um abraço térmico- laços.


Sunday, September 23, 2007

Notícias Mínimas: ad eternum


Nos acordes do pensamento, os passos se constroem rápidos e, em instantes, eu chego à porta do lugar onde ela mora. Abandonando as desengonçadas avenidas, adentro ruas menores, que vão se estreitando à medida que me aproximo. As calçadas, antes tão geometricamente paralelas e indiferentes, já dão impressões de curvas e parábolas, tremem na proximidade do infinito dos bairros e se escondem na quebrada de um bar na esquina, na circunferência de uma praça ou na carroçaria de um carro estacionado. Alguns metros e a memória aciona aquele lóbulo da lembrança acalentada e reconheço-o: é um prédio pequeno, de quatro andares colabados e empilhados uns sob os outros, como se cada um estivesse cansadíssimo de suportar os outros superiores. Em cada nível, um conjunto de janelas de vidro rodeando o paralelepípedo de concreto, nas quais, por vezes, surge uma violeta roxa ou rosa debruçada sobre os metros que separam-na do chão; em alguma daquelas janelas pende um pedaço de uma mão, fazendo sua sombra contra a luz amarela que foge do teto imediatamente acima. Posso ver daqui apenas antebraço e mão, que leva um cigarro negro aceso, liberando raios cinzas na atmosfera de ar parado e velho das redondezas: a fumaça não vai longe e faz pequenos cogumelos cinzas no vão do quarto. Minha mão desliza sobre o bolso da calça e identifica o isqueiro: de uma cor verde enjoativa e de tamanho menor do que a palma aberta. Com ele preso entre os dedos e apontado para o prédio, vou contando os andares até aquele de onde surgira, há pouco, o resto de mão apoiado no parapeito da janela... um, dois, três, quatro. Ela mora no quarto andar, eu tenho certeza. Da última vez que estive aqui, desci as escadas devagar, numa manhã de sexta-feira cinzenta, apoiando nos corrimãos pretos com o resto de energia que sobrava, sentando entre um lance e outro de escadas, quando então engolia uma náusea dolorida que amargava a boca, fruto da madrugada anterior àquela manhã. É ela de novo, diz meus sentidos, mas advoga meu corpo no sentido contrário, refutando o choque de imagens. Mas, aquele pedaço de mão, aquelas unhas pintadas e principalmente aquele cigarro aceso... não pode, não é ela. Ainda com o isqueiro verde, aperto o botão do 402 e a campainha ressoa dentro da exata janela do cigarro negro. A mão lança o resto do cigarro ainda aceso pela janela aberta, fechando-a logo depois. E o que era apenas um pedaço de um corpo toma os contornos velhos, ainda que embaçados pelo vidro fosco; o desenho tão familiar e tão doloridamente perdido no tempo e na distância fulgura-se na moldura da janela e da minha memória. Dos minúsculos pêlos da minha nuca, nasce uma desordenação de sentimentos inquietos que impedem o movimento dos membros em qualquer direção. A iluminação de lá de dentro do apartamento, que chega até aqui, próximo à calçada, é interrompida pelo corpo que se levanta e aos poucos encobre toda a possibilidade de iluminação, caminhando em direção à luz e para longe da janela. O vulto, antes de sumir, pára alguns minutos no que eu suponho ser o vão de uma porta; dança com os braços no ar sobre a cabeça, construindo um coque desajeitado às pressas. Logo que o balé das madeixas se dá por terminado, ela abandona meu campo de visão, adentro o além da porta e da luz, deixando-me com os olhos enrugados pela luminosidade que agora, cruel, se lança numa briga contra minhas pálpebras. Meus olhos se fecham com uma certa força, mirando o chão apenas para evitar a claridade de cima. Guardo as minhas mãos e o isqueiro nos bolsos do moletom e, lá dentro, dou estalos de pulga com as pontas das unhas. O interfone cinza toma uma vida colorida com a surpresa da voz que brota dele:


- Alô?


E antes da consciência ou do arrependimento, eu verbalizo meu nome. Não respondo ao alô, não dou boa-noite, não me anuncio. O que sai é meu nome, dito assim, cru e vomitado, como se naquele caminho todo - que, afinal, duraram meses - , eu estivesse ruminando-o e fosse ele o grande resumo de tudo. Ela não diz nada e o que se ouve é o colocar do interfone no gancho, seguido de um barulho metálico, que abria o portão da frente do prédio. Empurro-o e fecho-o com uma leveza de jeitos que não é compatível com o pesar do caminhar até ali. Agora, os movimentos são anti-gravitacionais, pausados ao ponto de transbordarem uma fragilidade que antes não era possível se observar. O corredor acimentado corta o meio de um jardim florido e nas bordas do trajeto alguns arbustos de pingo-de-ouro me indicam o caminho. Até chegar à outra porta de vidro - a que me leva para dentro do prédio, vou andando com os braços caídos e as palmas das mãos abertas, tateando o verde frio das folhas na noite, ansiosas pelo orvalho da manhã.


Daqui, já é possível ouvir os passos jogados de chinelos contra a ardósia dos degraus. Uma sonoridade que não deixa dúvidas quanto a precisão do corpo. Do outro lado da porta, sua figura vem tomando contornos mais palpáveis, ainda que profundamente distorcidos pela porta de vidro, na qual hexágonos tortos tomam lugar e disvirtuam as trajetórias dos raios-de-luz. O perfume do cabelo recém-lavado contorna as frestas e brinca de pique-esconde com minha memória. A porta é aberta por ela com a mesma delicadeza dos meus passos e só depois de ter a certeza de que ela me olha, com aqueles mesmos olhos amendoadíssimos, é que desfaço a expressão forçosa das rugas contra a luminosidade e, de trás das lentes, sorrio o mais amplo dos suspiros. Ela move os lábios, não para falar, mas para lentamente os separar com a ponta da língua que concomitantemente molha os lábios e oferece a visão dos dentes brancos e grandes dentro da boca. Quando a língua se recolhe ao céu da boca entreaberta, os dentes roçam e mordiscam o lábio inferior, enquanto o corpo dela me dá passagem, convidando-me para entrar.


- Estranho... - ela diz, rodando a chave dentro da fechadura da porta, sem olhar para mim -... você chegou.


- Cheguei? - eu repito espantada, sem entender o motivo da escolha do verbo "chegar".


- Sonhei que você viria.


- De ontem para hoje?


- Sempre... - ela diz depois de um leve balançar da cabeça de um lado para o outro, negativamente.


Quando esta última sílaba é dita, confundi-se com ela o som da chave que tranca a porta. Passamos uns momentos silenciosos, nos nossos silêncios que se fundiam naquele último fonema. Ela é quem toma a iniciativa e sobe as escadas, impedindo qualquer precipitação do meu corpo sobre o dela. E, como sempre, inevitavelmente, vou atrás.


- Sei que é tarde... - eu falo para desembaraçar as vontades que se engalfinharam na garganta.


- Nunca é tarde - ela diz no espaço de tempo entre a subida de um degrau e outro -, ou talvez seja. Não faz mal, não faz mal. Gosto dessas visitas noturnas... - e ela diz, aproveitando o encontro entre duas escadas num patamar plano - me lembra um certo conto que um dia você me mostrou: Rubem Fonseca - e volta a retumbar o chinelo contra o piso.


- "Passeio Noturno"... - eu deixo que um sorriso escape.


Ela responde com um "hmrrum" amarrado em outro sorriso fugitivo, repetindo o título "passeio noturno", já emendando "é isso? Você está fazendo um passeio noturno?".


- Não... se passeio pressupõe que estar aqui é um acaso, não. - eu respondo enquanto ela escolhe a chave para abrir a porta sob o "402" entre as demais presas num chaveiro em forma de coração.


- Se não é um acaso, é o que então? - ela diz, sem desviar os olhos das chaves.


- Um caso - e me encosto na parede ao lado dela, olhando também para as chaves, para os dedos, para os braços, para...


Ela não me olha de volta, dissimulando uma seriedade em achar a chave. Quando a encontra, demora algum tempo para encaixá-la da maneira correta na fechadura, titubeando duas ou três vezes até destrancá-la. A porta se abre, rangendo as dobradiças que a mantêm presa à parede e ela, minha anfitriã, se encosta na parede ao lado, apontando com a mão aberta o interior da casa. Vou me descolando da parede, devagar, olhando para as pontas dos meus pés enquanto caminho e, quando chego no meio da sala, retenho os passos e espero o barulho da porta se fechando atrás de mim.


- Tempos que não venho aqui... - meu olhar em radar recapitulando todos os móveis de longas datas e eternas lembranças.



- Dois meses - ela quase exclama, repetindo agora num tom mais baixo, menos agressivo - dois meses ou algo assim. Quer beber alguma coisa? - e dá uma risada adentrando a cozinha, me deixando sozinha e estática no centro da sala - vinho?



Eu balanço a cabeça da esquerda para direita, repetidas e ligeiras vezes, contente não só com a lembrança da outra noite, mas com a lembrança dela, expressa pelo convite ao vinho. O movimento ainda existe quando ela volta da cozinha com a taça preenchida numa mão e a garrafa na outra.



- Cadê a sua? -recebo a taça da mão dela, tomando o cuidado de esbarrar meus dedos nos dedos dela.

- Ali - e aponta para o quarto semi-escuro no fim de um corredor pequeno.



Ela caminha à minha frente, acendendo as luzes que viriam, enquanto eu apago aquelas que deixamos para trás. A luz do quarto, contudo, ela não acende; há a claridade discreta de um aquário de um azul límpido, colocado sobre uma armação de madeira pregada na parede, dentro do qual peixes de um laranja vivo passeam margeando os limites impostos pelo vidro. No quarto: uma cama de casal com grandes travesseiros desorganizados, um sofá vermelho encostado à parede, imediatamente abaixo da janela; ao lado, um criado-mudo, celular, cinzeiro, chaves, isqueiro e o maço negro do cigarro; uma mesa abarrotada de livros e cadernos, um deles, em especial, aberto, no qual eu observo linhas escritas sem poder distinguir uma palavra sequer. Ela se encaminha em direção ao sofá e senta sobre uma das pernas, sem olhar em qualquer momento para mim, parada perto da porta. Ela pega o box, escolhendo um cigarro e colocando-o na boca. Antes que ela pudesse pegar o isqueiro, me lanço dentro do quarto e ofereço a chama do meu isqueiro. Ela se surpreende, forçando as pálpebras e me olhando hipnoticamente, enquanto aproxima o cigarro da chama e num só trago, acende em vermelho brasa a ponta do cigarro.



- Senta aqui... - ela retira uma almofada do outro lugar vago do sofá.



- Não sabia que você tinha começado a fumar... - eu olho atenta para os gestos que ela desenha com o cigarro na mão, terminando por apoiá-la no parapeito da janela.



Ela olha para o cigarro, com os olhos semi-cerrados devido à fumaça:



- Faz mal, eu sei...



- Não, não é isso... - eu interrompo com medo de intimidá-la e perder o prazer de observá-la naquele exercício que era meu também.



-... mas, é bom. Você bem sabe. Você quem me ensinou...



- É... eu sei. Só não esperava te ver fumando assim... sozinha.



Ela traga devagar, deixando a ponta do cigarro vermelhíssima, fechando os olhos dos cílios tão negros.



- Às vezes... - ela solta a fumaça rala pela boca-... fumo me olhando no espelho. Não é tão só assim, se você pensar bem...



- Gosto de fumar com você, você sabe - acomodo o corpo na maciez do sofá.



Ela me oferece o próprio cigarro aceso preso entre os dedos da mão. Acompanho o seu movimento e quando projeto minha mão para perto da mão dela, ela recua o braço e trocando o cigarro de sentido, ela se aproxima de mim e coloca o cigarro nos meus lábios. Espero que ela retorne ao lugar, para então aspirar o ar mentolado que o atravessa e impregna a boca. Ela observa a cena e me espera devolver a fumaça ao ar, em forma de um pequeno cogumelo de fumaça que, com as pontas dos dedos pintados, ela agarra e desmancha. O box é novamente aberto e, dessa vez, ela mesma se encarrega de acender o cigarro.

Sunday, September 16, 2007

Notícias Mínimas: ad eternum



Ainda posso visualizar algumas figuras rabiscadas no espaço branco que sobra da página da qual os vocábulos saltaram agora há pouco. Relampeiam na minha memória os últimos sussurros das palavras e suas sinalizações e naquele pedaço de papel que fica vazio delas, os desenhos dominam o sertão do branco sem linhas. Não há mais nada além do branco. Os desenhos já não alteram o conteúdo e apenas adornam o resto da folha de papel como carros alegóricos sem sentido algum ou de um sentido muito bem escondido. O homenzinho verde do sinal se acende e contra todas as luzes dos faróis, atravesso a rua, tomando o cuidado de pisar exatamente sobre as bandas brancas da faixa de pedestre. Os letreiros em neon dos bares e hotéis me dão boas sensações luminosas e disparam cruéis feixes de laser sobre a nuvem do meu caminhar amplamente ofegante e contido. Sou empurrada pela pressa de um grupo de ternos que conversa gritado, rugindo aos quatro cantos da avenida a sua virilidade verbal; com suas vozes retumbantes, seus casacos suspendidos pelas pontas dos dedos peludos apoiados nos ombros largos e seus passos extensos de pernas ligeiramente abertas, eles perfazem uma manada de touros engravatados numa tourada urbana e vil. São os carrascos que fazem de vítimas as pobres e frágeis mulheres que, por infortúnio da necessidade, andam também apressadas no sentido oposto, com suas curvas e sinuosidades à mostra. E elas deslizam pelas calçadas, passando intocáveis por mim, em seus caminhares quase cambaleantes e suas pernas em zigue-zague sob os saltos agulhas que trincam o chão por onde passam – e a neblina que desprende do corpo delas encobre todo o ar e só consigo abrir os olhos o suficiente para ver a rachadura no chão, momentos depois da passagem delas. A manada taurina passa, bufando e baforizando os hormônios e elas, ignorando em partes a bestialidade dos comentários berrados, não são capazes de esconder o inflar de ego: é o nascimento do sublime dentro do grotesco.

Acalantos que transitam dentro de mim, pulando de chakra em chakra, vão causando o formigamento das extremidades dos dedos e do nariz, o que facilmente é mascarado pelo frio dos ventos urbanos. Essa insensibilidade é o que mantém os joelhos angulados sempre à frente, num caminho desabilitado de orientação. Penso nela, ou melhor dito, tento pensar nela. Sempre que os contornos daquele rosto delicado, desenhado na minha alma com a ponta de um lápis de saudade – os lábios de coração levemente vermelhos, o nariz arredondado na ponta, as sobrancelhas grossas, o olhar amendoadíssimo, as orelhas cobertas por voltas e cachos do cabelo negro – ... sempre que esses traços desembaçam aquela névoa de pretensões que eu crio para o momento com ela, uma forte dor abortiva me joga contra uma escuridão feroz, um buraco negro severo que não me permite precipitar a imagem dela nem mais um segundo sequer, ainda que essa formação seja apenas o resto do avesso de um sentimento e justamente por ela, ainda alcanço novos quarteirões.

Retiro as mãos dos bolsos do moletom, experimentando o correr do ar gelado nas frestas suadas dos dedos. E penso: e se doer? E se quando formos nós, passarmos a não ser mais nada?, e se o que eu tenho é exatamente esse não-ter e tê-la, finalmente, seria, fatalmente, perdê-la? E se doer de novo, quando, em minhas mãos, ela se for, sem que eu saiba capturá-la de volta do ar?, e se, então, eu capturar e deixá-la presa para sempre a um "nós" que nem chega a ser meu e nem dela? E se doer e, doendo, eu jamais possa ver a beleza de estar, enfim, nos braços que tanto desejei e por medo de tanta ou mais dor, eu também for embora, com as mãos suadas dentro dos bolsos e os dedos presos uns nos outros, sem nada entre eles? E se doer? Se doer – diz uma voz mansa no lado direito dos meus hemisférios -, será porque você amou demais. E se doer, então, está tudo bem.



Referências às fotos: "Lisboa"; autora: Ana Franco, site disponível em link da foto. "A caminho..."; autor: Avelino Oliveira, site disponível em link da foto. Fonte: Olhares.com

Sunday, September 09, 2007

Notícias Mínimas (continuação)


Chaves, corredor, elevador, andar, andar, andares. Passos, porta, porteiro, portão, rua. Passo rápido pelos antros do prédio, sem despistar a minha insatisfação perene com o alheio. Desço o último lance de escadas contando os degraus com as pontas dos pés, com o sabor de criar uma distância concreta entre o meu mundo e esse mundo de cá. Já na calçada, deslizo a mão sobre a calça jeans, conferindo o isqueiro e o telefone celular dentro dos bolsos, enquanto a outra mão vaga apóia-se sobre o peito, averiguando se eu também levo um pouco de coragem; ajeito alguns fios de cabelo, limpo as lentes dos óculos com a beirada da blusa branca de malha desajeitadamente encoberta pelo moleton azul-marinho, no qual, em seguida, enfio as mãos dentro dos bolsos laterais, apertando com os cotovelos as laterais do meu corpo. Uns pêlos se eriçam com um sopro mais forte provocado pelo passar apressado de um carro. Uma das mangas do agasalho, durante seu vestimento, fica presa à altura do antebraço, o que deixa o relógio à vista: divido meu olhar entre as horas e os pêlos eriçados. Esqueço-me do primeiro e esfrego a mão sobre os últimos, recolocando a manga no seu comprimento adequado.

Os joelhos vão, lentamente, se articulando e alavancando as pernas à frente, levando-me para longe da frente do meu prédio. Um caminhar que se desenvolve pesado e sem pressa, completamente alheio aos outros corpos que correm pelas calçadas, com suas sacolas marrons abarrotadas de enlatados, sonhos vendidos e angústias empacotadas. Eu não tenho pressa de chegar, repito com o queixo colado ao peito, aproveitando o hálito quente que adentra o moletom pela gola da blusa; só consigo não pensar e repetir cegamente uma frase ou o trecho de uma música, que toca entre uma padaria e um bar, ou aquele certo trecho daquele certo poema que ficou guardado para aquele certo momento. Não há tempo, aqui dentro, para pensar. Só há esse vazio doloroso que quer acelerar os passos e lançar meu corpo contra um carro, contra um outro corpo ou contra mim mesma: são opções de um mesmo destino; há um leve desespero que entala na garganta e promove o leve fechar das pálpebras, entre um cruzamento e outro, quando a respiração se faz pausada e intensa, no exato segundo em que o perfume daqueles cachos negros do moleton rosa, por crueldade do ocaso, margeia meus sentidos e penetra a minha superfície fria, recordando a verdadeira precisão de me trazer desse estágio letárgico de vida. Parada com esse leve inspirar durante a espera do passar dos carros e de seus faróis ofuscantes, relembro uma das várias folhas brancas que jaziam no apartamento; singularmente, ela abraça umas frases perdidas, geradas quando ainda havia brasa no cigarro. Esforço a memória e, inspiradas por essa minha energia, as palavras e os pontos saltam do papel e lançam suas asas velozes e veludas sob o ar inóspito da noite desta cidade, plainando sobre os prédios, dobrando ruas e edifícios, dando piruetas e fazendo acrobacias, culminando-se com um mergulho acentuado, quando, então, pousam ordenadamente, como um bando que vem chegando numa certa hierarquia, sobre os meus ombros, onde, enfim, criam mãos brilhantíssimas e com elas, aproximam-se dos meus ouvidos e me cochicham suave o que vieram assobiando:

“Há muito sufoquei a vontade de dizer o quanto eu quis. E ainda quero. Como se não olhar para esse meu desejo me libertasse dele, evitei todas as maneiras de relembrar os calafrios que outrora me desnortearam, colocaram-me à beira de uma verdade tão pungente que a minha única saída foi afastar sem precedentes. Hoje, com as lembranças em pedaços, como um espelho recém quebrado pela força de um soco descontente, eu me desfaço em reminiscência e me deixo lá, no mesmo quarto, com o mesmo incenso de cereja, com a mesma insensatez, com os exatos olhos inquietos que fogem à procura dos outros olhos. Jamais voltará, eu sei. Ela é tudo o que me restou de intocável e só me resta viver à custa de uma memória afetiva. Ainda ergo a mão até a altura dos cabelos, desembaraço-os com as pontas dos dedos penetrantes e faço fé de que ainda, um dia, ontem ou amanhã, serei capaz de deixá-la a cargo da minha memória apenas, e não dos meus sentidos, do meu corpo, do meu desejo e do meu arrependimento. Acreditei, por tanto tempo, que ir é sempre a melhor escapatória. Ela me deu o xeque-mate: posso dar quantos passos forem para longe dela, estarei sempre ali, com os dedos entrelaçados nos dedos dela, na eminência da minha felicidade; em nós atados, muito bem atados.”

(...)

Friday, August 31, 2007

Notícias Mínimas

"A cidade é muito grande
E eu sou praticamente invisível
Temos nossas canções
E alguns recados na porta
Promessa de dias melhores"
Notícias para Honey - Dinartes (composição André Zitto/Rodrigo Chaise)










À meia-luz: uma tosse seca arranhando a garganta, meia dúzia de livros jogados pelos sofás e mesas, canetas e lápis espalhados sobre as folhas brancas e impacientes. A ponta preta de um cigarro enterrado em meio às suas próprias cinzas, enquanto o isqueiro transparente brinca nos meus dedos, de um lado para o outro; um calendário sobre a geladeira da cozinha, com seus números indistinguíveis e seus feriados marcados em caneta marca-texto rosa. A escuridão sem estrelas de um tapete negro sobre os prédios fugidos ao alcance da minha visão. Diálogos privados numa esquina distante e passos indiferentes na rua à frente revelados pelo silêncio das ruas pacatas de um feriado; o box preto de um cigarro, no qual a réstia de luz amarelada de um abajur muito mal posicionado ao canto da sala se reflete. Um copo sujo de café próximo aos pés do sofá que atrai minúsculas formigas no seu trabalho fabril de achar alimento. Deitada com o rosto colado ao tecido sintético do estofado, deixo que o peso da minha mão a mantenha próxima ao chão e com a ponta do isqueiro preso entre os dedos indicador e polegar, mato uma a uma todas as pequenas formigas, desenhando no chão um círculo de morte ao redor da base redonda do copo de vidro transparente. Acendo e apago a chama do isqueiro, alguns centímetros do meu rosto, iluminando as órbitas oculares úmidas e ricas em vasos dilatados e avermelhados. Observo a chama intensa e brilhante, até que a ponta do meu dedo polegar se exaure, e então a labareda regride para dentro do corpo translúcido do isqueiro. Fecho os olhos e a luminosidade dela ainda é visível no tapete escuro sob minhas pálpebras.

Vozes do andar de cima anunciam uma chegada noturna de algum lugar muito alegre e risonho. Palavras povoadas de uma alegria fugaz e de uma ansiedade tremenda aceleram o diálogo e acentuam as risadas, deixando essas últimas à beira do nervosismo. Barulhos de saltos e sapatos contra o piso de madeira. Uma voz rouca e grave, outra adocicada e aveludada, ambas amortecidas pela largura do concreto que separa o meu apartamento do apartamento de cima. Elogiam-se... silenciam-se. Ligam o chuveiro e a energia que exala do meu abajur envelhecido ameaça desequilibrar, cochila, diminui de intensidade, mas volta a si rapidamente, como se lutasse contra um sono irrecusável. Ligam também o som, na exata mesma rádio do meu rádio-relógio, mas com uma intensidade muito maior: acaba por sufocar o chiado do meu simplório aparelho. Olho pro teto, para o bulbo esférico que protege a lâmpada e para os fios metálicos que escapam de suas redondezas e um desconforto se precipita da minha conveniente morbidez. Ajeito o travesseiro entre as pernas, alongo o pescoço, estralando-o de um lado para o outro. Levo um novo cigarro à boca e tomo-o entre os dentes sem acendê-lo. A brincadeira com o isqueiro é divertida e o cigarro permanece intacto, apoiado nos meus lábios secos e trincados.

Então, eu penso e paro. E penso tanto e paro tão pouco que construo lendas e capítulos de uma história pitoresca e onírica: assino com a memória e as promessas. Surgem apáticas teorias de evolução e frases construídas entre soluços sequiosos; medito sobre um encontro acidental, numa avenida longínqua, num dia cinzento e frio: ela vem caminhando em minha direção, dentro de um agasalho rosa claro, com os cadernos abraçados ao peito. Uma pequena presilha adorna os cabelos escuros e abundantes que se derramam da cabeça às costas, deixando algumas mexas onduladas suspensas no ar, ao sabor do embaraço. Um vento leve revolta os cachos e eles se revelam no ar, desbravando o princípio do precipício de uma nuca delicada... enquanto eu, com os cabelos presos num rabo-de-cavalo impecavelmente preso, observo-a se aproximar, por cima dos óculos; ensaio um movimento com a sobrancelha, seguido de um leve levantar dos olhos à altura dos olhos dela. Ela sorri, exatamente como sempre sorriu, com a clareza do desejo que eu julgo palpitante – porque assim também se configura em mim. O pensamento se espanta com a intensidade e foge, me jogando contra a realidade suada do meu rosto colado ao sofá. A moça dos cabelos ondulados e do moleton rosa acena, no nosso último momento, ofuscada pela luz real do abajur, com seus dedos longos, acompanhada pelo sorriso adimensional que se estampa no seu rosto pálido pela minha imaginação em retirada, cantando o último trecho do mais recente bolero. De volta à realidade mundana, o cigarro ainda permanece sem fogo, preso entre os dentes.

“Não quero falar – e se for possível nem pensar - as coisas que não sei dizer (ou daquelas que não ouso). Não sei mais datar os acontecimentos numa escala clímax de sensações, para que ao final, sem fôlego, ainda me reste um sopro de saudade – e isso é isto: mergulhos profundos em piscinas de saudades para ver se acordo molhada de coragem de procura-la dentro e fora de mim. Já se foram horas e maços numa busca completamente interior de chegar a algum lugar ao menos próximo do meu algo-maior... chega! Houve tempo em que precisei de tempestuosas palavras e descrições megalomaníacas para ameaçar a sensatez cega dos bons tempos, tudo por um momento misericordioso de loucura criativa e desperta. Lancei olhares significativos e nada. Haja o que houver, sou sempre eu e termino assim. Nada além...” – eu medito mentalmente, sem aproximar, um centímetro se quer, cigarro e isqueiro...

“Desde que me descobri incansável, corro atrás do abatimento. Noites sem dormir, madrugadas adentro e fora de mim: cigarros amiúde, taças sujas, lençóis intactos, televisões acesas, livros grifados, chamadas perdidas, cadernos rabiscados, telefonemas inventados, diálogos imaginários” – retumbam no meu tímpano idéias silenciosas que eu grito dentro do vazio do meu apartamento. Então, por um segundo, eu deixo que o rádio-relógio preto, de números vermelhos e geométricos e de vozes teatrais e músicas antigas, me conte uma história banal, uma notícia de realidade, um despropósito publicitário, um acontecimento invisível. Escuto e brinco com as palavras e com as asas das palavras, que ainda as mantêm no ar, ao alcance da minha imaginação, caçoando do meu desespero comedido. Com o flash de luz que faço com isqueiro, ainda posso ver umas últimas réstias e restos dos pensamentos que deixei há pouco e uma nuvem dourada de brocal paira cintilante sobre minha cabeça, onde antes flutuavam, à deriva, os pensamentos... a ponta do cigarro ainda marrom do fumo...

Sei que é noite pelos algarismos vermelhos no painel digital do rádio-relógio e pelos locutores que se revezavam na brincadeira teimosa e covarde de me dizer que as horas se passam e eu continuo aqui. Oito e alguma coisa. Bato o isqueiro contra o chão no número de vezes igual ao dos minutos. Na última batida, interrompo o movimento no ar, levo a mão à boca: tomo o cigarro entre dos dedos e coloco-o sobre a pequena mesa que sustenta o abajur. Salto do sofá já calçando os tênis e colocando o isqueiro no bolso da frente da calça. Atravesso a porta do meu apartamento-mundo-casulo, batendo-a fortemente contra as paredes de selecionado tom “branco gelo”. O estrondoso barulho é apenas um aviso às vozes do andar superior de que existe vida (ou sobrevida) sob os pés deles.

(...)




(Dados sobre a foto: Yun fotografias de ação grátis)




Friday, August 17, 2007

Se vis pacem, para bellum

Há silêncios preciosos.

Friday, August 10, 2007

Orange's flow




Juro: apertei os olhos tão forte que foi difícil recobrar a visão. Esfreguei-os com as pontas dos dedos, impedindo uma lágrima de se despencar, molhada de lucidez, enquanto o resto do corpo se estremecia no desespero da lembrança de você, inquieta em mim. Ainda de olhos abertos, era tudo tão escuro... há dias inteiros a sua espera, uma paciência mentirosa de quem espera o telefone tocar. Qualquer torpor de ouvir sua voz entre cinco e seis da tarde, quando o céu se entristece e me leva com ele. Observei, de cá, as minúsculas estrelas laranjas se acenderem dependuradas nos postes das ruas vizinhas. Juro: quis tanto. Prometo: quero, ainda e pra sempre, mais.

Saturday, August 04, 2007

Lisa, uma história felina (e verídica)




- Miaaaaaau...

Pensei ser da televisão.

- Miaaaaaaaaaaaaaaaau... – insistiu, pedindo a atenção.

Coloquei a televisão em mudo. Repetiu-se do lado de fora do prédio.

- Miaaaaaaaaaaaaaaaaaau... – agora mais irritado, quase gritando.

Corri até a janela, sem me preocupar em calçar os chinelos, apenas debruçando-me sobre a armação da janela. Esperei o próximo chamado.

- Miaaaaaaau....

Foi quando a silhueta saiu de baixo de um dos carros, já dentro da minha garagem. As patas que tocavam o chão acimentado, dando a ele a impressão de um carpete de veludo. Quando caminhava, os ossos e os músculos de suas costas se projetavam; alternavam-se nos movimentos flutuantes de subida e descida, elegantemente decorando o caminhar que se desenhava com tranqüilidade. As orelhas brancas e pontudas, mirando o céu, moviam-se de tempos em tempos, indicando-me que estava atenta, ainda que aparentasse uma certa indiferença ao lugar.

- Miaaaau... – disse, lançando o olhar riscado pra cima e mostrando os dentes pontiagudos na boca entreaberta – miaaaau.

Olhei o pequeno corpo branco da janela do meu segundo andar. Não disse nada, não me dirigi a ele, não estalei os dedos, não gastei meu humor fazendo onomatopéias: nada. Apenas observei-o daqui, gritando o mesmo “miau” repetidas vezes, com os olhos claros seteiros e apontados para cima. Pensei que implorasse qualquer coisa, um pouco de comida, quem sabe. Ameaçei descolar o corpo da janela e ir buscar-lhe um pedaço de carne. Na possibilidade de não me ver livre daquele som depois, permaneci, imóvel, apenas enquadrando aquele pequeno corpo branco numa fotografia mental. Era uma noite fria, a primeira noite fria de um inverno atrasado que chegava ao final de Julho. Uma corrente de ar entrou pela janela lateral e eriçou-me os pêlos das pernas. Fechei as janelas e em seguida as parnesianas, sem titubear. Sorri cansada, respirando lânguido pelas narinas, enquanto voltava para o sofá, ainda morno pelo contato prolongado do meu corpo. Gisele perguntou-me o que era. Respondi sem olhá-la, calculando os passos até ela. Sentei-me no exato lugar que havia abandonado, com a cabeça sobre o colo dela, entre as horas perdidas e abandonadas em frente da telinha azul colorido.

Apertei “play” e continuamos o filme. Na televisão 40 polegadas da Semp Toshiba, todas as cores de Almodóvar em “Carne Trêmula”. Na cena, Davi, o ator principal-sem-clichês: em óculos de armações pesadas e grossas, dentro de um carro vermelho fosco, com uma máquina fotográfica em mãos, transparecendo a ansiedade-raiva de estar fotografando momentos indiscretos de um casal adúltero, como se adquirisse a maior munição dos tempos contra os seus males e transtornos. Gisele comentou alguma coisa, soltando da boca falante bufadas de fumaça que se lançavam como cogumelos no ar. Não dei a devida atenção, mas sei que comentei qualquer coisa de volta, tomando o cigarro dos dedos dela e dando um trago longo. Desfiz das cinzas, batendo na lateral do cinzeiro que Gisele segurava com a mão parada no ar e, então, levantei o corpo, postei-me boca-a-boca e, quando nossos lábios se tocaram selados, devolvi o trago roubado para boca dela. Ela sorriu com os olhos apertados daqueles cílios-cortinas: expirou aquela língua cinza gasosa, iluminada de azul pelo aparelho de TV e que aos poucos se dissolvia no ar. O miado insistiu. Aumentamos o som do televisor, enquanto Davi se preparava para sair com o carro.

De sangue a sangue, de vida em vida, o filme terminou. O olhar de Gisele se cruzou com o meu, naqueles momentos seguintes do término da película, enquanto os créditos ainda passavam, nuns segundos inenarráveis de reciprocidade e proximidade. Afagou-me, já se levantando do sofá e espreguiçando o corpo a minha frente. O moleton azul subiu pouco acima do umbigo e revelou-o para mim, como se a própria Gisele me ofertasse um beijo ou uma mordida molhada naquele pedaço de corpo moreno. Ainda com a boca escancarada dos dentes grandes e milagrosamente alvos (haja visto tanto cigarro), com os braços angulados para cima, pilares das mãos que também se espreguiçavam, olhava para baixo, enrugando a pele sob o queixo. De novo: o sorriso ocular – em nós duas. Concertei o corpo. Fiquei à frente dela, já a abraçando pelas presilhas para cinto da calça jeans e, com as mãos presas nas voltas glúteas donde nádegas viram pernas, beijei-lhe redondezas do umbigo, mordendo suave, uma hora ou outra, para delírio e prazer, meu e dela, dela e meu, respectiva e reciprocamente. Ao final do último gemido, Gisele abaixou os braços e com as mãos já descansadas, carinhou minhas orelhas, dando um beijo superficial na minha testa descoberta pelo cabelo preso. Alguns passos para trás, dois à direita e caminhou para o banheiro, sem qualquer palavra. A televisão ainda insistia nos infinitos créditos, com tantos nomes e cargos e funções e importâncias. Refiz o rabo de cavalo dos meus cabelos, já abandonando a temperatura do sofá e adentrando o frio da sala, agora escura pela cor negra de pano de fundo das letras em movimento da televisão. Do lado de fora, pela janela, os retângulos e quadrados iluminados de vida, longe e perto. O prédio vizinho, com algumas janelas fechadas, outras abertas e ainda aquelas que expunham a vida alheia na vitrine urbana da cidade. Foi quando o miado vociferou do lado de fora, pela última vez. Uma réstia de vontade de descer as escadas e ficar vis-à-vis com aquele (ou seria aquela?) felino (ou felina) esquadrinhou a sola dos meus pés presos nos chinelos. Não houve movimento, nem menção. Continuamos os três corpos, separados por muitos obstáculos.

Gisele voltou do banheiro, com o rosto e alguns fios de cabelo ainda molhados, segurando a toalha amarelo-vivo nas mãos. Dois botões da sua camisete branca abertos, revelações de um colo que eu tanto beijei e tanto desejava beijar. Olhei o contorno dos seios enleados por um sutiã justo. Olhei sem de(i)scrição. Mordida de lábios, meu e dela. Jogou a toalha sobre a mesa de vidro pela qual passou enquanto caminhava na minha direção, já com as mãos sobre o terceiro botão, prenúncios do meu deleite. Próxima, jogou as mãos sobre o apoio do sofá, imediatamente atrás de mim, à altura dos meus ombros. Beijou molhado a ponta da minha orelha: morna e segura língua que brincou com os lóbulos, deixando os lábios para abraçar o resto. Desceu ao pescoço, até quase o ombro e sentou-se sobre meu colo, encaixando sua anca sobre a minha. Das pernas longas, senti a atenção e tensão das coxas, embora elas me apertassem pelas laterais. Sobranceira, soltou as mãos do apoio do sofá e atarracou-as na minha nuca, despreocupada se arranhava ou doía. Não houve movimento, nem menção minha. O único desbrave foi o da porta da sala se abrindo e por entre a fresta mal iluminada que aparecia, abandonava-me o prazer do corpo de Gisele e entrava o - outro - corpo felino e mais branco, nos seus poucos centímetros acima do chão. Saindo rápido de cima de mim e jogando-se rapidamente já sentada no sofá e de pernas cruzadas, Gisele abandonou seus dedos, deixando as marcas ardidas e - que eu supunha-vermelhas na minha nuca e voltou para sua suavidade suspeita, embora alguns fios de desejo invisíveis ainda atavam seu corpo ao meu. Todo esse movimento dela feito com o meu olhar ainda imóvel na fresta escura da porta da sala, de onde apenas a parte posterior daquela pouca silhueta alva aparecia. Do negro de lá de fora, veio a curiosa gata (sim, era uma gata, eu me certificava visualmente), inquiridora no seu andar ritmado e logo atrás, minha mãe, com suas sacolas brancas de supermercado, com seu olhar antropológico sobre a felina que ela mesma acabara de convidar a entrar.

- Quê isso, mãe? – eu gritei e, no tom, misturou-se alegria e dúvida.

Não respondeu. Continuou sorrindo, com as sobrancelhas arqueadas de uma menina sapeca na sua primeira década de vida.

- Uma gata! – respondeu por fim, a contragosto.

- Que é uma gata, eu sei!, – e corri até perto das duas recém-chegadas – até já tinha a visto há algum tempo, saindo de baixo de um dos carros da garagem. Miava demais. Mas, mãe! Você não gosta de gatos! – argumentei, por fim.

Não respondeu novamente. Colocou as compras sobre o balcão da cozinha, alheia a presença da gata que, àquela altura, já havia caminhado até os pés de Gisele e enroscava-se por entre as canelas dela. Acompanhei os movimentos absurdamente normais de minha mãe, na sua tarefa recreativa e terapêutica de providenciar o lugar certo de todas as coisas. Meus olhos mais abertos do que o normal, inquietos pelo movimento horizontal da minha cabeça insatisfeita.

- Você nem gosta de gatos!... ela vai ficar aqui? Imagina! Vai rasgar todos os sofás. Eles transmitem toxoplasmose!... – minha mãe enchia uma tigelinha laranja de leite, ausente das minhas súplicas por explicação -... me dá aqui essa tigela.

Com o pote sobre a palma da minha mão, caminhei alguns passos cautelosos até próxima a gata, próxima a Gisele. Sentei sobre os calcanhares e busquei a atenção do pequeno animalzinho pelo qual, inadvertidamente, todos já criávamos afeição (ou talvez só eu criasse e construísse um sentimento inexistente nas outras pessoas). Perto assim, notei que era uma gata extremamente branca, quase albina. As bordas dos olhos, das quais os cílios também claros saiam, eram róseas. O nariz unido a boca arqueada também apresentava manchas rosas claríssimas, como um batom borrado. Um derrame quente de carinho desceu da garganta e aqueceu-me o peito, fazendo com que colocasse a tigela no chão e lançasse as mãos para tocá-la. Parei a centímetros dela e, por medo da rejeição ou de uma bela mordida, apenas ofertei-lhe as costas da minha mão para que ela, a gata, se decidisse se eu poderia acariciá-la mais e melhor. Enfurnou sua cabeçinha sob a minha mão e deu um passinho feminino, para que a palma deslizasse, delicada, sobre seu pêlo branco e organizado. Abri a boca num sorriso de graça e olhei, logo acima, para Gisele, que também sorria - de deboche ou de ternura ou ambos.

Passou a noite em minha casa. Bailou por todos os quartos, subindo nas camas vez ou outra, dando voltas sobre o próprio corpo e deitando logo em seguida. Bebia o leite com a ponta de sua língua minúscula e rosa, fazendo círculos no líquido também branco. Recebia um afago e aproximava as pálpebras gostosamente, saboreando aqueles momentos de contato. Trançava entre as pernas humanas e das cadeiras, adentrava cantos apertados entre os sofás e móveis. Fazia da minha casa o seu universo particular. Gisele foi embora, oferecendo-se para levar a gata para a rua. Perguntei à minha mãe.

- Abra a porta e deixe que ela mesma se decida. Se sair, leve-a embora. Se não, arrume um cobertor e faça-lhe uma cama. - respondeu sonolenta, já debaixo das cobertas.

Gisele escancarou a porta, já pronta para tomar a gata no colo e irem embora juntas. Risonha, a gata caminhou com suas patas de algodão até o vão: olhou as escadas, o corredor e eu supus que também olhou para Gisele. Deu de ombros e, meia-volta, caminhava para dentro do apartamento de novo. Despedi-me com um beijo na bochecha de Gisele, enquanto ela me dava uma lista de coordenadas para o dia seguinte, onde nos encontraríamos, que horário eu iria buscá-la, em que lugares iríamos comer, fazendo-me prometer que ligaria logo que acordasse. Consenti a tudo, com uma das mãos repousadas sobre a maçaneta. Ainda perto da escada, mandou-me um beijo. Peguei-o no ar e mantive a mão fortemente fechada até que ela desapareceu no segundo lance de escadas. Abrindo lentamente cada um dos dedos, olhei para o nada da mão, justamente ali sobre as linhas da vida desenhadas na palma. Observei o sangue voltar às extremidades e enrubescer as pontas dos dedos e das unhas que, imediatamente antes, estavam amarelados. Com a mesma mão, reajeitei a armação dos óculos e fechei a porta.

Voltei ao sofá, sem notícias do paradeiro da gata. Fui até o quarto da minha mãe e ela e meu irmão se divertiam fazendo perguntas a gata que, sentada no chão, talvez também fizesse perguntas ininteligíveis a eles. Desliguei o aparelho de DVD, recoloquei nos canais normais e acabei por adormecer assistindo a um jornal qualquer, um desses de altas horas da noite. Acordei com o miado da gata, dessa vez, falado ao pé do meu ouvido. Com o corpo posudo sobre as quatro brancas patas, ela me fitava. Imóvel, mais um miado. Franzi a testa, sem entendê-la. Não miou mais. Apenas esperou que eu me levantasse, desligasse a televisão e rumasse para minha cama. Do sofá a cama: em transe e desmemoriado. A última cena que ficou foi a do seu corpo quadrúpede na porta do meu quarto, sentada perto da armação da porta. A luz amarela da sala atravessava os corredores e iluminava as costas da gata, projetando sua sombra no chão de taco envernizado do meu quarto escuro. Seu rabo dançava, de um lado para o outro, desenhando esse's no ar, como se, sendo um braço, me dava adeus. Ainda forcei as pálpebras, para não adormecer. Não houve movimento, nem menção. Foi a última vez que a vi.

Acordei pela manhã e o sol já se colocara bem alto no céu. Perambulei pelos cômodos da casa, na esperança matutina de encontrá-la ainda lá, no cobertor xadrez em vermelho e preto que eu havia preparado para seu repouso. A arrumadeira avisou que ela já havia ido embora. Logo que acordou, minha mãe saiu para o trabalho e consigo, levou aquele corpo branco e carente para fora, disse a mulher, sem a adjetivação, que é própria de quem sente e não de quem apenas conta. Houve sim, um alívio triste. Eu não precisaria prender a gata e nem a gata a mim. Foi a primeira que me deixou, pensei. Dói? Acho que não, é tranqüilizante. É melhor partir ou ficar? Não soube responder.

Voltava para cama quando o celular tocou e no visor, o nome Gisele piscava incansável e irritadiço, enquanto o réquiem de Mozart berrava do aparelho. Balbuciei alguns monossílabos enquanto ela desperdiçava opiniões naquela hora da manhã. Eu ri. Ela indagou. Reafirmei o riso e disse “bom dia, meu bem”. Ela acalmou-se e, com um sorriso telefônico propriamente silencioso, continuo o discurso. Busquei-a pela tarde e foi-se embora novamente pela noite. Numa noite, aliás, sem miados.

Dias depois, quando chegava ofegante a minha casa, vinda de suas voltas pela cidade, Gisele respondeu sincopada, entre um fôlego e outro:

- Acabou de passar um carro de propaganda por aqui, você não ouviu? Dizia assim:
“procura-se uma gata adulta de pêlos brancos, perdida no dia 26 de julho, no bairro da Graça. Atende pelo nome de Lisa. É muito dócil e afável. Informações pelo contato...” – terminou, vitoriosa, a fala.






Sunday, July 29, 2007

Nada para mim (reborn)


Olhei no relógio do canto direito inferior do meu computador quase obsoleto. 23:25h. Como um ato que não pede explicação, conferi o mesmo horário no meu relógio digital no punho. Religiosamente no mesmo horário. Passei a mãos pelos cabelos presos com um prendedor metálico prateado, reajeitei a armação dos óculos. O celular completamente imóvel. E é assim que você me coloca no mesmo lugar.


Perdi meu tempo há muito tempo. Quando? Não sei mais. Sinto um vazio estranho num espaço que não me pertence. Vou voltar, mas é na volta que as amarguras da ida latejam dolorosamente mais evidentes. Queria não precisar, queria não ter a necessidade de. Sempre preciso; nada tenho. Só a possibilidade do meu amanhã.


É. Você não apareceu e essa vai ser só mais uma noite, entre eu, meu travesseiro e o rádio ligado até de manhã.


Se eu acordar durante a madrugada, que meus pensamentos não despertem. Costumo passar alguns minutos - há dias em que eles se transformam em horas - deitada, imóvel, apenas sob o controle da minha respiração. Penso em você, é óbvio. Penso nos seus sussurros, na sua voz quase rouca que me acordava de manhã. O cheiro dos seus cabelos, as curvas do seu corpo. Num mar de nostalgia, eu me pego embriagada de você. Aí, eu olho o relógio (de novo) e vejo que mal cinco minutos passaram e você ainda em mim. Queria que você precisasse mais de mim. Queria poder ir embora, jogar as suas fotos fora, deletar seus telefones da minha agenda eletrônica. Queria ir embora para você me querer mais. Se hoje eu lhe vejo e fingo (espero que bem) que não se passa de situação comum, é porque quero que você deseje. Não que eu me renda aos jogos, mas é que fica doloroso entregar os dados na sua mão.


Reviro os lençóis e os meus dois grandes travesseiros. Sinto um calor diferente que aquece e umidece meu corpo sob o lençol. Eu saio da cama, sento à frente do computador e espero não-sei-o-quê. Penso em rendição. Tomo um café esquecido na garrafa térmica vermelha. Amargo, ácidos, mas assim mesmo o tomo. Pergunto-me se preciso aprender a aceitar sua ausência. Aí então é que vejo que sempre estive adaptada a ela. Não sei se dói saber mais da minha consciência ou da sua indiferença.
(O primeiro post pós Anjo Caído. Por que há uma certa saudade de antes... só uma saudade.)

Tuesday, July 17, 2007

No Jardim das Hespérides (por fim)


Caiu a noite. De repente, como se o céu tivesse fechado as pálpebras, a noite despencou de qualquer lugar sobre nós duas. Havia um peso pouco discreto, o qual não se alivia com uma boa inspiração, ou um cigarro e ou uma boa desculpa. Era severo, constante e pálpavel. Contudo, abreviava a nossa intensidade, que tomava contornos quase visíveis. Sentamos-nos a bons
metros da fogueira e dos amigos que eu acabara de conhecer, de maneira que eles voltavam a ser apenas vultos escuros e alegres, circundando a língua alaranjada de fogo que nada iluminava. Ela se sentou primeiro, cruzando as pernas em forma de "borboleta", como se fizesse um laço com elas; fui logo depois, tomando o cuidado antes de retirar a mochila e colocá-la logo atrás de mim. Paralelas e simétricas, posto que eu também havia cruzado minhas pernas do mesmo jeito, fitávamos o mar, revolto e rotineiro, no seu vai-e-vem de ondas. Ela apoiou um dos braços sobre o joelho e, com o outro, anunciou a pequena mão que desenhava na areia da praia círculos, elipses, infinitos. Cruzei os braços sobre o peito e fechei os olhos junto com o céu, que dava boas-vindas à noite. Eu dava boas-vindas a ela.

Apoiei uma das mãos sobre a areia que começava a ficar fria, naquele princípio de noite, esperando que o calor da outra mão viesse, intrépido, aquecê-la e apertá-la, enquanto as palavras invadiriam meus ouvidos dizendo as frases pausadas e quase roucas, como eu esperava que fossem ditas, segredadas. Plenitude. Aproximei meu corpo, discreta, para não quebrar a bolha de tempo e espaço que havíamos criado e habitávamos naqueles instantes. Um bravio frio soprou do mar em nossa direção, desajeitando alguns fios de cabelo, secando a lágrima alforriada de algum canto de olho marejado. “Você...”, eu pensei sem desviar o olhar das ondas que vinham e voltavam, harmonizando um som em dó menor, dor menor:“...você”.

Friday, July 13, 2007

No Jardim das Hespérides (continuação...)







O silêncio do meu sorriso.



Andamos algum tempo com os pés descalços sobre a areia, assistindo ao últimos raios de sol que, de poucos, não iluminavam, apenas desenhavam retas borradas de luz no céu azul. Lentamente, acendiam-se luzes laranjas, amarelas e brancas pela calçada, nos apartamentos dos prédios que circundavam a enseada e em algumas casas mais próximas da praia. A insipiente iluminação, que aos poucos tomava espaço, contrastava com as tonalidades azuis intensas, róseas e alaranjadas daquele anoitecer especialmente frio. Não nos importávamos para aonde íamos ou de onde vínhamos, pois estar ali já era a chegada de algo muito menos direcional. Deixamos os sorrisos e as vozes dos amigos dela para trás e íamos nos afastando do barulho que eles faziam, nos camuflando sob o ocaso. Alguns transeuntes passavam, inertes, com fones presos às orelhas, completamente alheios a nossa presença; outros se arriscavam a correr, ritmando uma velocidade que contrastava com a atemporalidade do nosso momento e desacelerava o nosso andar. Enquanto caminhava sob passos lentos, completamente desprovidos de pressa e sem um destino distingüível, notei que meus pés se afundavam na areia e alguns grãos invadiam as reentrâncias dos dedos sem, contudo, tornarem-se desagradáveis. Distingui uma alegria grave no olhar dela que, em conjunto aos cabelos dourados que flutuavam no vento, não me aliviava o torpor e a ansiedade de estar à espera. Andamos um bom tempo assim, despedindo-nos do mundo e adentrando esse universo paralelo recém descoberto. O céu estava aberto e eu podia identificar uma ou outra constelação com facilidade, o que me fez lembrar dos signos. Olhei para ela, entusiasmada, deslocando a língua para dizer-lhe qualquer idéia roubada de recorte de jornal sobre signos. Parei. Seu ombro direito estava descoberto pela blusa de alça que ela usava e era incontrolável não o olhar. Não era um ombro que impunha presença, largo e notório; era delicado, desenhado em suaves curvas que terminavam não só nos braços e nas costas, mas também subiam sintuosos pelo pescoço e nuca. Pensei "seria bonito se ela tivesse uma tatuagem aqui", inclinei levemente a cabeça. "Talvez uma tatuagem de escorpião... uma tatuagem de Sol!", eu finalizei com um aperto contente no peito, atravessando a atenção do ombro para a face dela. Foi quando, propositadamente ou não, ela esbarrou todo seu lado direito no meu esquerdo. Com a mão que lhe ficava mais próxima, tentei apoiá-la e sem a consciência da fala, pedi desculpas. Abruptamente, ela consertou o corpo, voltou-se para mim, com um olhar alucinante, me fazendo repensar nas minhas desculpas, e segurou minha mão. Não disse nada. Apertou-a e, ainda sem soltar, continuamos andando.

Tuesday, July 10, 2007

No Jardim das Hespérides



Meu relógio de pulso ameaçava marcar seis e meia de uma tarde não muito friorenta de inverno, quando chegamos à praia. Olhei-o, despreocupada, mais interessada em agarrar-me a algo concreto, norteador. Havíamos caminhado todo o percurso do hotel no qual eu me instalara, passando por ruas e ruelas, bares e lojas, uns que fechavam, outros que se alegravam com o ocaso, até a grande avenida que margeava o litoral. Durante o percurso tentei, em vão, gravar os nomes dos lugares pelos quais passavámos, como se sabendo o nome deles, eu pudesse rememorar posteriormente todas as sensações que me ocorriam naquele tempo, como fotos que eu jamais tirei. Lembro-me de que estava ligeiramente dormente e incrédula de estar ali, ainda com um ou outro calafrio teimoso que persistiu desde que havíamos nos encontrado. Talvez fosse uma quinta-feira - sob resguardos de Oxossi e regência de Júpiter - pois há sempre um clima diferente neste dia, – quinta-feira é um “quase”, alegre e ansioso pela promessa do fim de semana -, ou talvez fosse mesmo uma sexta-feira, com toda sua pretensão e boemia. Caminhávamos, era certo. Ela me guiava, ora ou outra esbarrando sua mão na minha, visivelmente excitada pela possibilidade de ser minha grande anfitriã nesse mundo novo, no qual eu mal pisara. Enquanto falava, gesticulava expansivamente, apontando e explicando um detalhe ou outro que, na rapidez do cotidiano passa despercebido e sem ela, ali, eu não os veria com os olhos, entre marejados e sorridentes, que vi. O olhar dela, arisco e enérgico, examinava a paisagem a nossa volta, e os dedos, delicadamente pequenos e ágeis, estavam prestes a focar a minha atenção perdida e espalhada naquele novo lugar, uma desatenção ingênua que, eu sabia, ela tinha certo prazer em consertá-la . Enquanto ela apontava os edifícios e construções daquela cidade miraculosamente linda, percebi que até mesmo eles, estátuas e esculturas do mundo moderno, se curvavam a ela, solenes, tão interessados quanto eu, valsando na valsa que ela, regente, conduzia, numa sinfonia inaudível. Quando se cansava ou talvez achasse conveniente se calar, ela lançava os olhos à calçada a nossa frente. Mas, eu sabia: era uma maneira discreta de averiguar a minha atenção e captar qualquer sorriso-evidência da alegria simétrica que, mutuamente, nos invadia. Eu sorria, irremediavelmente consciente de estar sob observação dos audaciosos olhos dela, que se encerravam castanhos, mas apresentavam a inigualável suavidade feminina, talvez pelo tom dourado das sobrancelhas ou pela delicadeza dos traços que desenhavam, graciosos, nariz, bochechas e queixo. Sorri amplo, dando a ela a sincera e entregue sensação de que estava, completa e finalmente, ali. Nesses instantes de quietude, nos quais ela silenciava a voz e os braços, as casas e os prédios, respiravam, recuperavam o fôlego, entre um ato e outro, ainda absortos pelo comando dela. Segundos depois, ela avistava algo interessante ou simplesmente uma lembrança boa de algum lugar ou algo lhe acometia, e ela, então, reiniciava o ballet e a paisagem se movia, no ritmo das reminiscências e da voz inigualável dela.

Acompanhamos a avenida que tangenciava a praia durante bons minutos. Não posso dar noção melhor do tempo, pois naqueles passos letárgicos que dávamos, arrastando os chinelos sobre o chão, o tempo não se instalou. Nem ele, nem a monotonia, nem o cansaço, nem a pressa, nem o menor desequilíbrio. A cidade ia gradualmente perdendo a euforia do dia ensolarado para dar espaço a inadvertida noite que, embora um pouco fria, chegava sorrateira, embalando as intenções estampadas nas caras dos corpos morenos, nus ou quase nus, que transitavam e nos orbitavam. Ela evitava sorrir, embora constantemente eu a enxergasse abrir a boca, de lábios nem grossos nem finos, libertando um suspiro ou um pretexto duvidoso de molhar os lábios ressecados pela brisa que se chocava contra nós duas; quando sorria, entretanto, desviava o olhar para o lado oposto ao meu, de maneira que eu não lhe podia mirar a expressão. E era bonito vê-la assim, levemente desconcertada, certamente curiosa e atenta. Era belo, embora fosse assustador, pois havia dentro de mim um turbilhão de vontades e impulsos encarcerados e a presença dela me deixava assim, observadora e passível, sem saber se era tão bom para ela quanto era para mim. Segurei as alças da minha mochila, que começava a incomodar os ombros, quando ela, repentina, virou o rosto em direção ao mar, esticou o braço direito e apontou para um pequeno foco de luz em meio ao começo de escuridão azul da noite. De onde estávamos, ainda na calçada, parecia ponto luminoso de fogo no qual alguns vultos o circundavam. Faíscas de um alaranjado intenso subiam ao azul ciano do céu, desengonçadas e sem direção. Forçei a visão, espremendo os olhos atrás das lentes dos óculos, aproveitando para reajeitá-lo, ato que sei que dá a minha testa rugas pequenas de uma sabedoria desacreditada. Ela me olhou, eu a olhei de volta. Segurou-me a mão, pulamos o pequeno muro que separava o passeio da praia, retiramos os chinelos e reiniciamos a caminhada.

Andei ao lado dela, olhando para o mar, para as ondas que quebravam quando próximas da praia, espumando a poucos metros de meus pés. A maresia tem um odor e uma certa umidade que desperta qualquer coisa de desatino em mim - como se num passado inexistente na consciência desperta, algo de muito bom tivesse ocorrido ali, às margens do Atlântico Sul... uma despedida ou um reencontro ou outra epifania qualquer - e, naquele dia, havia mais pretextos para tanto. Do meu "mineirismo" inalienável, veio a sensação de pequenez diante da grandeza do oceano; em seguida, experimentei a sensação de "pertencer", como se mar e eu fôssemos um só e nessa hora eu quis correr o máximo possível e me atirar contra as ondas. Continuei caminhando, hipnotizada, seguindo os passos da minha guia. Foi preciso que ela disesse algo para me resgatar e quando percebi, já estávamos a poucos metros do local que ela havia apontado há pouco, quando ainda estávamos na calçada. Alguns dos vultos se clarearam e entre eles, alguns olhavam insistentes para mim. Intimidaram-me, confesso. Não havia me preparado para tanto e nem sei dizer se estava preparada para ela. Magistralmente, ela acelerou o passo e, enquanto buscava minha mão e segurava-a forte, já foi logo bradando meu nome e, mais divertidamente, minha naturalidade. Orgulho e diversão se misturavam na fala dela; ela soletrava o nome de minha cidade, numa afronta a minha tranqüilidade, mas era inútil, pois eu também sorria. Falseou um sotaque mineiro para alegria dos "convivas" e eu terminei o comentário com um "uai", dando o toque final. Eu apertava as mãos dos antes-vultos-agora-pessoas com uma certa alegria, pois sabia que eles também, assim como o lugar e as construções, me narrariam fatos e observações interessantíssimos, permeados pela voz soberana de todo carioca. Ou talvez ficassem gravados na memória daquele dia de inverno, como peças de um quebra-cabeça maior, do quebra-cabeça que ela era e do qual, eles faziam parte e eu apenas tinha começado a montá-lo. Ela, logo atrás de mim, entre uma repetição do meu nome e outro comentário com alguém mais distante, aquecia-me com a presença, como se me dissesse que estava ali, que cuidaria de mim. Ouvi alguns risos amigáveis, outros comentários sobre tempos passados com outros mineiros e a verdade era que me divertia, pois era tudo muito acolhedor. Nunca fui dada ao contato físico e sempre tive extrema dificuldade de aproximar fisicamente das pessoas embora, naquela atmosfera aconchegante, eu me atreveria a tocá-la, abraçá-la novamente, envolver-lhe pela cintura, prender meus dedos nos cabelos encaracolados dela, na lentidão morna de quem finalmente chega, apoiando a ponta do meu nariz na curva dos ombros dela. Naqueles momentos, aquecida não só pelo círculo magnético dela, mas pela fogueira à minha frente, deixei-me tocar. Toques leves nos ombros de uns, ora pesados e desatentos de outro; um braço ou outro que se prendia a minha cintura, me levando a um outro alguém que se aproximaria, beijando-me as bochechas e assim repetidas vezes até conhecer a todos. Ao final da apresentação, uma idéia lançou-se veloz para ponta da língua e eu sussurrei pra mim mesma, já que ela estava distante: cariocas são carentes, carinhosamente carentes, irresistivelmente carentes. Quando abandonei o pensamento, ela já estava do meu lado. Aproximou-se de mim, reajeitou uma mecha do meu cabelo, recolocando-a atrás da orelha, quando falou num tom de voz pausadamente grave e convidativo: "vem cá, tenho um lugar pra te mostrar". Ofereci a ela minha mão e ela tomou-a, como se tivesse abraçado o corpo inteiro.

Saturday, June 30, 2007

Por onde andará Lily Braun?


(Ainda está inacabado. O texto me pede mais e mais. Como o Bruxo soube fazer tão bem inúmeras vezes e é legado - ou seria feitiço? - dele em mim, "Por onde andará Lily Braun?" me escraviza, me cobra a continuação-satisfação, pois eu sou, além de narradora-voyeurista - prefiro ao simplório observador e sobre isso, escrevo depois -, uma leitora borbaniana* e, como minha cara Bárbara, também estou esperando, olhando pra tela, que é minha porta, com as pontas dos dedos também trêmulos, lábios dela. Estamos esperando o texto que virá me dilatando, catársico, independente, abortivo. Será ele por ele e, maternalmente, morrerei depois, anestesiada e sabe-se-lá se satisfeita.)






(E o leitor ficou desanimado, haja visto dois preâmbulos. Pensou, categórico, segurando a língua e ameaçando fechar o site, que este ser que vos fala é desnecessariamente explicativo, será leitura enfadonha. Se assim for, seja meu convidado à saída. Veja bem, se eu não introduzir certas perguntas e desmascarar a leitura inútil, logo agora, você terminará como Lily Braun, "nunca mais romance". Considere estas poucas linhas a âncora que dará sustentabilidade. Entrarás engatinhando nos terrenos de Bárbara e eu já estou crescida e enraizada lá. Pense, leitor atento, com seus dourados botões, por que será que toda boa história termina com um ponto de interrogação, visível ou não?)





Enquanto apertava com uma das mãos o gargalo da garrafa verde-escura de vinho tinto, levava, entre os dedos da outra mão, a taça arredondada ainda marcada com o batom que acabara de passar: um vermelho intenso, vulgar e barato, marcado na borda, sombra dos lábios trêmulos; o desenho avermelhado não se deixava confundir com o roxo do vinho, que sujava o interior da taça, indicando que a bebiba ficara ali tempo suficiente para impregnar o vidro. Bárbara encheu mais uma vez a taça, até um quarto do recipiente e tomou-o um gole só, deixando escorrer uma gota atrevida pelo canto da boca. Segurou o líquido na boca durante algum tempo, o que deixava as bochechas inchadas e, aos poucos, deixava que fios quentes da bebida escorressem garganta abaixo. Quando se deu por terminada, apoiou garrafa e a taça em cima da mesa de madeira, bem ali no canto esquerdo da sala, justaposta à porta que dava na cozinha. Olhou-as - sem as ver - por um breve segundo, para em seguida fechar fortemente os olhos e perceber que os pés se despediam do assoalho e o corpo ameaçava tombar; balançou a cabeça, desorganizando algumas mexas do cabelo castanho claro, sem desajeitar as idéias que, poucas, ainda tinham algum lugar. Um olhar despistado contra o relógio de pulso, numa batalha silenciosa de quem-vence-quem pelo cansaço, pela silenciosa espera, pela inafiançável esperança, pela infinitude milimetrada. Já se passaram vinte e três minutos e teimosos segundos do horário previsto para a chegada e, inevitavelmente, os olhos de Bárbara voltam inquietos para a porta. Será que viria? Tornava a encher outra taça até um quarto do conteúdo e tomava o vinho num gole único, sedento e descompassado, que levantava seu colo ao ritmo dos goles ferozes. O afastar dos lábios agora molhados da taça, imprimiu, em outro lado da borda, o mesmo desenho de tom vermelho, entretanto mais claro; os olhos que, perdidos, perambulavam entre garrafa, porta, relógio, garrafa, porta. Os ouvidos estavam especialmente sensíveis a qualquer ruído externo e acabavam por criar ondulações alegria-raiva, quando alguma porta de carro se fechava do lado de lá da porta da frente, e ela se retocava, felina, olhando para o espelho que, distraído, olhava também para ela.

Ameaçou levar os dedos à boca e roer-lhes as unhas, mas ao aproximá-las do rosto e ainda com uma dificuldade visual causada pelo álcool, viu como estavam bem-feitas e delicadas: os contornos visualmente uniformes, o brilho do esmalte cintilante contra a pouca iluminação da sala. Lembrou-se de que levara tempo até mantê-las de um tamanho adequado, posto que passara tempo demais roendo-as, ao ponto de se ferir e acabava por adicionar um pouco de diversão ao pouco de sangue que saia e ardia. Silenciosa até para os pensamentos – como se o desejo assumido despertasse um azar e quebrasse qualquer possibilidade de felicidade futura, ela sonhava pouco e breve, anestesiada, acolhendo tenra, o que de bom podia e se permitia ter nos suspiros dos seus devaneios–, torcia para que suas mãos, especialmente as unhas, fossem notadas. Acreditava num carinho recôndito daquele que lhe prestasse essa atenção e, se alguém, então, assim o fizesse, poderia visualizar a áurea feminina de Bárbara cruzar as pernas primeiro e então os braços sobre o peito, esboçar um sorriso senhor da sedução dissimulada, no canto do lábio, plenamente satisfeito; abandonaria-o apenas para balbuciar falácias para si mesma, com a boca entreaberta, na qual podia se ver a língua rósea inquieta e viscosa.
Ainda de pé e ligeiramente desequilibrada, apoiou-se na mesa de madeira, forçando o corpo sobre ela e ela, a mesa, forçava o seu sobre a parede e assim, mulher, mesa, parede tornavam-se um só ser, estático. Fitava as pontas dos dedos longos e alvos como se ali residisse todo seu empenho em mudar. Riu-se, levemente histérica, provocando algum abalado no equilíbrio da mesa, enquanto olhava para as mãos. Um outro gole de vinho, agora já da garrafa, que começava a se esvaziar.






(...)
* veja Quincas Borba, obra de Machado de Assis.

Thursday, June 28, 2007

Sabedoria enlatada faz seu pout-porri



Você diz coisas bonitas compradas em qualquer loja de conveniência, enlatadas e industrializadas, organizadas num caderno em espiral e espera que nessa insipidez haja algo belo e formidável, que talvez, você diz para parecer filosofia, você estampe numa camisa, anote no celular, tatue nas costas, vire seu mantra matinal. Está tudo podre, eu digo. Não adianta, não tem gosto, não tem sabor e nem é seu. Mas, para você, é tão bonito o ato de tomar essa garrafa de pensamentos alheios e se dizer sábio, recontando histórias que eu estou pouco me lixando. Você é colecionador e eu tenho horror a coleções porque, meu caro amigo, elas perdem o sentido assim que são atingidas. Só a caça pelo exemplares especiais e reluzentes é que faz essa patologia de compilar as coisas menos vaga. Vai fazer o quê? Guardar tudo num armário, na estante e olhar para isso como se fosse seu, orgulhoso da ausência de si? Isso é quase roubo. Eu digo: joga fora, vai lá fora e cria algo seu, ainda que de mau gosto. Incendeie tudo o que é barato, universalmente barato. Está tudo tão podre ultimamente, contaminando o que resta de proveitoso nas pessoas, tornando toda criação duvidosa e toda leitura um sufocante teste de qualidade. A gente precisa lutar, amigo, lutar contra o fantasma da praticidade, da pseudo-cultura descartável. Sejamos complicados, sejamos espirais num mar de retas. Pra quê?, você diria com a testa larga franzida, chateado pela crítica. Pra quê se no final tudo se perde e morre pra mim e, afinal, toda criação não passa de uma releitura? Por que simplesmente não ser observador, colecionador, como você diz? E eu responderia, negando com a cabeça e o dedo indicador, bailarino no ar: cara, já disse, fique longe de mim com esses enlatados literários-culturais mofados. Meus escritores de cabeçeira morreram, não estão por aí para brigarem por seus direitos autorais, escreveram pelo mesmo obscuro e incerto motivo ou motivos que eu também escrevo e, numa forma egoísta-heróica, eu escrevo para eles, como se saldasse uma dívida inalienaválel de conhecimento e perspectiva. Vou criar os meus textos com os meus temperos e, se ninguém apreciar, vou comê-los, ávida de mim mesma, auto-antropofágica, porque lá – e eu diria com os olhos marejados, apontando para uma paisagem invisível que se desabrocharia pra mim – até lá, meu amigo, há coisas que eu preciso comer, absorver, transformar. E você ficaria irritado, andaria de um lado para o outro, com as mãos presas, uma na outra, atrás de si, com o óbvio pensamento de coletar na sua memória uma passagem bonita, pra me contradizer e depois, lustroso, se vangloriar. Não vê que a glória não é sua, se é que há glória e não uma dor de quem acaba de parir, uma mãe cega e anestesiada pela felicidade de conceber? Escrever é segredar, desconstruir e construir, constantemente – pode ser doloroso, amigo. Eu desconstruo Caio, Clarice, Chico, Machado... e das pequenas partes deles, eu me remonto. E você diria, apontando agora seu indicador no meu peito: não vê que és também cópia, faz coleção deles? E eu diria sorridente, segurando a ponta do seu dedo parado no ar: sou eles, mas também sou eu, porque sou eu a cola que une tudo, sou a forma e as pinceladas. Dou um exemplo fácil: as cores são fixas, encontrará as mesmas cores em todos os quadros. Mas, Dalí é Dalí e você não o confundiria com Tarsila, muito menos Renoir. E as cores são as mesmas! Todos somos matéria-prima de uma mesma essência e sou, essencialmente, Caios, Clarices, Chicos, Machados e todos os outros que não cito por pressa de me fazer entender. Quem é que pode dizer que no que escrevo não estão todos eles ou se em todos eles, não estou eu também? É espelho-reflexo, amigo. Você não saberia identificar, muito menos com os seus enlatados - descarte-os! E você ficaria mais apressado, acuado, veias saltariam à testa, trincaria as arcadas dentro da boca. E eu já não diria mais nada, porque até sua reação, daí pra frente, seria ready-made. Deixo você se divertir com as suas compilações laicas e inóspitas, dou de ombros, enquanto vou aprendendo e me divertindo com as pedras do meu caminho; caminho esse que só reconheço depois de caminhar.
[créditos da foto: http://www.digitaldrops.com.br/drops/design/ - releitura do quadro The Persistence of Memory (1931), SALVADOR DALÍ]

Monday, June 18, 2007

Na madrugada em que Mercúrio se alinhou com Urano

Urano:
- Você dá a data, eu dou o vinho.
Mercúrio:
- Oh yes! Oh baby come on!
Minutos depois...
Mercúrio:
- Daqui a pouco estarei sobre os seus domínios...
Urano:
- Sempre esteve, não?
(...)
"Uma vez que Virgem se delicia em levar a ordem ao caos e que Aquário se delicia em levar o caos à ordem, estes dois signos solares deveriam representar o desafio final um para o outro.

Os aquarianos insistem no direito de serem individualistas e se recusam a levar os outros ou a si mesmos a sério, encarando a vida com agradável e descuidado alheamento.

Naturalmente, tudo isto fascina o virginiano de mente metódica e inclinado à ordem, o qual não ousaria profetizar ou predizer o futuro (vivem muito ocupados analisando o passado e esmiuçando o presente), que levam a si mesmos e tudo o mais a sério e não encaram coisa alguma com descuidado alheamento.

Um aquariano quase nunca se desculpa por falhas ou excentricidades, ao passo que o virginiano típico, graciosa e sedutoramente, diz "perdão" a cada vez que comete a mais insignificante ofensa contra a tradição ou idéias populares de comportamento.

Os aquarianos são as criaturas mais motivadas pela curiosidade que conhecemos.

O mesmo vale para os virginianos, porém estes em geral se dividem entre a cautela e a curiosidade.

Eles se impacientam, analisam e refletem sobre um assunto cuidadosamente antes de agir, assim se privando da espontaneidade..

um dom que terão de aprender com Aquário, o qual está aprendendo a muito necessária lição de discernimento com Virgem.

A perspicácia e clareza de pensamento virginiano, combinadas à inventividade e gênio de Aquário, poderão ser a exata alquimia mágica de que precisamos, mais a inata gentileza e preocupação pelos outros, características destes dois signos solares. "

Wednesday, June 13, 2007

Ao sabor da correnteza

(créditos da foto ao blog: Mulher de 50 a 60)


As palmas das mãos apoiadas nos respectivos joelhos e os dedos, inquietos, datilografando cartas imaginárias e poesias não declamadas sobre o azul do jeans. E não olhava para os dedos: olhava para os lados, ansiosa; pro relógio branco de ponteiros negros sustentado no teto da rodoviária, impaciente; para as caras sem expressão ambulantes pelo saguão, curiosa. Em meio ao mar de cinzas metálicos visualmente cansativos, eu movimentava apenas cabeça e vez ou outra o braço esquerdo, conferindo as horas, duvidando até mesmo da boa vontade de ambos senhores do tempo. Fitei meus pés semi-nus, numa sandália bege claro e "só ri" alguns segundos devido ao tamanho dos saltos. Somei a minha altura aos quase dez centímetros da plataforma do meu calçado e forcei a memória para lembrar-me da altura dela: “seriam 1,57, 1,55?”. Indignada, percebi que ficaríamos distantes na hora do abraço – e era a hora mais importante, porque todos aqueles meses, que se converteram, teimosos, em anos e em desejos, confabulavam histórias mágicas do poder do círculo magnético dela sobre o meu, quando finalmente fôssemos só um orbital, elíptico, bilobulado e especialmente brilhante, quente e simétrico. Retornei a ambos relógios, pedindo um conselho gratuito, deveria ou não trocar os sapatos? Uma das malas estava cheia deles e, salvo o embaraço de retirá-los em local tão público, nada mais parecia tão adequado – porque eu queria os braços dela ao redor do meu corpo, paralelo aos meus, entregues e apertados. Alguns minutos perdidos, reavaliando meus próprios pés, os dedos, as unhas tão delicadamente cuidadas e pintadas na cor renda... e ver aquele carinho todo traduzido até ali acabou por me convencer de que não haveria de mudar nada: “não vou mudar nada”, eu repetia sorrindo, sem me importar com os rostos sem expressão que transitavam e que jamais entenderiam a ternura do meu momento antes-dela físico.

E era irremediável não pensar nisso: no antes-dela. Desde que ela, magistralmente, entrou na minha vida, algo em mim se tornou menos óbvio, mais encaracolado, dual, bivalente, poderosamente interpretativo. Antes: eu poderia medir, com réguas e dias, a minha existência pacífica. Como se eu acordasse depois de uma noite de pouco sono e tantas perguntas, ela apareceu, luminosa e indescritível, segurando minha mão e recontando as coisas, refazendo minhas perguntas e refletindo as respostas (e insisto no prefixo "re" justamente porque é um começo, "é tudo novo de novo", como ela mesma, certo dia, colocou). Nasceu para mim, então? Caoticamente enumerando: pensava, pensei, pensaria e penso sempre: no poderoso, expansivo, espontâneo e escorpiano existir dela. E eu insistia em teimar, com as pernas inquietas, se ela entenderia; em seguida, balançava a cabeça num movimento de amplitude pequena, livrando-me desse agouro, segredando aos relógios e concluindo “ela sente”. E um vento agressivo e docemente frio abandonou a Afonso Pena, cortou a Praça da Estação, revolvendo flores e folhas para entrar suave na rodoviária e me lembrar de que ainda era inverno. E mais que imediato, eu respondi “seu bobo, nunca é inverno no Rio”.

Verifiquei que alguns minutos ainda me separavam do horário de embarque. Havia decidido ir de ônibus, para dar tempo de ouvir todas as músicas que meticulosamente coloquei no iPod, enquanto ensaiava, como se morasse dentro de uma lata de felicidade contrabandiada dos meus sonhos, os momentos que passaríamos, as risadas que dividiríamos, as pequenas epifanias pintadas de azul e encontradas ao seu tempo, como pequenas conchinhas recolhidas ao longo da praia. O coração acelerava diante da possibilidade dos detalhes, de todos os traços que eu anotaria mentalmente, (a)provando a proximidade que antes era apenas possibilidade. No espaço de tempo que ainda me separava da jornada, puxei uma das malas para próxima de mim; abri um de seus zipers e conferi o sólido geométrico cuidadosamente embalado num papel de presente azul, bem azul. Tomei-o no colo e, com uma das mãos espalmadas sobre sua superfície, alisava-o, com os olhos fixos em seus contornos e o olhar semi-cerrado, por trás das lentes dos óculos que, lentamente, se umedeciam. E eu me lembrava de quando havia surgido a idéia, de ter imprimido a foto, em toda sua essência azul e laranja, chegado próximo de mamãe, pedido carinhosamente, enquanto brincava com seus cabelos loiros e ondulados, tão parecido aos dela. E, na sua áurea tão reluzente e compreensiva, mamãe tomou o desenho em mãos, me ouviu e desenhou, com algumas distorções e outros detalhes, a mesma paisagem, em tons parecidos. Calmo e profundo, o rio foi sendo pincelado, dividindo e misturando azul e laranja em suas águas. E agora, com o quadro já pronto em mãos, a alegria da entrega era estupenda e eu só poderia esperar com os olhos, que os olhos dela, que eu imaginava ligeiros e astutos, entendessem o que de mim ficaria com ela, assim que o recebesse em mãos. E a boca? Bem, a boca saberia se expressar ligeiramente melhor do que os olhos e seriam, por assim dizer, mais contundentes.