Wednesday, April 16, 2008

A noite

"Sunrise, sunrise
Looks like morning in your eyes
But the clock's held 9:15 for hours
Sunrise, sunrise
Couldn't tempt us if it tried
'Cause the afternoon's already come and gone"

(Norah Jones - Sunrise)


O hotel ficava a três quadras da boate e elas vieram contando os postes: treze no total; no último, compartilharam o lance de olhar sobre uma coruja empoleirada sobre os fios que uniam dois deles: sete fios paralelos. Antes de dar seu grito gutural à noite, a ave girou, em alguns graus discretos, sua cabeça de olhos esbugalhados na direção de onde vinham aqueles retumbares de salto-alto contra o chão de paralelepípedos, mas não as pode ver contornar a esquina que dava dentro da ruela do hotel: a noite tão escura e aquelas silhuetas tão imprecisas, extensões do negro de outras ruas e sombras borradas. A noite parecia ter se fixado entre aquelas duas calçadas da ruela tão estreita, que dava impressões de que os prédios estavam tortos, prestes a desabar sobre os pedestres. Mas, ninguém transitava ali naquelas horas ermas. Apenas elas duas tomavam aquela direção imprecisa de pedras lascadas entre os edifícios adormecidos – um táxi passou cantando pneus na rua recém abandonada; os botões da camisa de uma delas abertos até a linha alba entre os seus seios e os cabelos, da outra, presos pelo próprio cabelo num coque no limiar de sua sustentação: ambas entretidas com o pequeno soluço embriagado de coragem que as levavam até o hotel.

Foram felinas em sua entrada à recepção. Não desviaram o olhar da decoração e apenas Débora se retocou no espelho de dentro do elevador: viu não só o batom descolorido, mas, mordendo o lábio inferior, viu também bordas de um rosa violentado ao redor da boca. Moveu o rosto, mas encontrou apenas o reflexo espelhado dos cabelos anelados da outra, se desembaraçando, castanhos, pelas costas até quase a cintura. Esboçava um sorriso para seu próprio reflexo, quando o elevador deu sinal de que parava no andar certo. Laura segurou a porta com a palma da mão, dando passagem a outra que, antes de sair, retirou os sapatos com as pontas dos pés. Quando Débora abandonou o elevador, a outra pode, então, olhá-la por trás: a nuca tão desprevenida e a coluna que se sulcava a lombar, separando os dois hemisférios do corpo.

Laura veio brincando com o chaveiro do hotel, rodando-o entre os dedos. Parou a três passos da fechadura; ergueu o braço no ar, ao lado do corpo, segurando as chaves com o mínimo de tensão necessária. Débora ainda se demorou no caminhar, alongando todas as falanges cansadas dos pés; uma das mãos adiantou o corpo e cobriu a cintura de Laura, enquanto a outra se encarregava de cuidar das chaves oferecidas. Deixou que seu lado esquerdo se escorregasse, como num esbarrão delicadamente embriagado, no lado direito da antiga dona das chaves e, como nos movimentos de entrada no hotel, foi parcimoniosa com a abertura da porta. Toda a pressa ficara restrita aos olhos e a alguns movimentos involuntários das bocas, ainda distantes. Débora recostou-se à parede justaposta à porta, com as mãos atrás do corpo, servindo de apoio. Laura começara uma caminhada pausada até a outra, já erguendo as mãos para apoiá-las sobre a parede ao redor do rosto de Débora. Os narizes se cumprimentaram, cordialmente, durante um leve subir do rosto de uma, como se estivesse capturando uma essência - um perfume de vida e de desejo - que ficava retida ali, nas vizinhanças da boca. Chaves no apartamento do fim do corredor as sobressaltaram e risadinhas de quem escapa, com triunfo e por um triz, coloriram, durante alguns momentos, a ante-sala do apartamento na penumbra das luzes de letreiros lá fora, até todo riso se esvaziar, em ambos os rostos acuados, e ficar encabulado com a presença do olhar da outra que desafiava a falta de luz.

Laura acendeu as luzes na sua caminhada até o centro do quarto: a mão apenas deslizou para baixo sobre o interruptor na parede clara que dividia os antros. A cama ficava num patamar acima, mais ao fundo do apartamento, rodeada por paredes de janelas que iam do teto até o rodapé, escondidas por pesadas cortinas de pano. Débora seguiu os passos de Laura, pisando sobre as impressões que os sapatos da outra haviam causado ao carpete branco de pelúcia. Apenas algumas lâmpadas laterais, duas ou três, se acenderam sobre um pequeno balcão de madeira encostado à parede da direita, para o qual Laura agora se encaminhava: o rosto apontado para as mãos à frente do corpo. O verniz do móvel refletia o amarelo pálido das luzes e, embora Débora tenha pensado que a outra fosse servir-lhes uma taça do vinho guardado numa garrafa sobre o balcão, Laura buscou um isqueiro prateado, guardando-o no bolso; apontou um stereo na outra parede, para que a convidada pudesse escolher um ritmo. Débora apenas apertou o botão sob a pequena luz vermelha de stand-by e a voz de Norah Jones voou, cálida, sobre os ambientes.

Ela ficara ali, presa nas teclas do piano tocado tão distante e tão frio, como se estivesse num realejo lá dentro do aparelho, lamentando por aqueles que não o pudessem ouvir; o tempo que Débora perdera na música ficou registrado no visor eletrônico azulado, poucos minutos mas longos o suficiente para que um som concomitante tomasse lugar: o barulho de água caindo sobre água inquieta, numa banheira bem mais próxima do que aquele realejo. Débora caminhou na direção daquele som e, à porta do banheiro, cruzou com Laura que, agora sem sapatos, movia-se silenciosa para dentro do quarto. Sorriram-se. A primeira adentrava o banheiro tão bem decorado em branco e preto, sentindo os aromas dos sais que já borbulhavam dentro da banheira, enquanto a segunda tomava dos bolsos o isqueiro e ia acendendo velas que estavam já à sua espera, sobre uma das mesas do apartamento. As luzes da parede mais à direta atravessavam o quarto e se repousavam sobre os azulejos e vidros da decoração no banheiro, dispensando o acender do lustre grandioso que descia do centro do teto; havia, ainda, algumas nesgas de luz amarela que se dissolviam na água descoberta entre os amontoados brancos na banheira que ocupava o centro do cômodo.

Por que caminhava com os olhos baixos, atentos à parafina das velas que derretia, quando entrou no banheiro, Laura viu apenas as roupas da outra sobre o degrau que levava à banheira. Foi, então, que o brilho das velas iluminou a espuma branca que cobria o busto de Débora que, afundada na banheira, sobrevoava as nuvens de sabão com a mão, arrancando pequenas conchas de espuma e depois as soprando no ar. Uma pequena pluma cheirosa, soprada pelo hálito da convidada, caminhou no ar e veio tocar a bochecha desprotegida de Laura. Débora viu: primeiro, a marca branca nas bochechas rosadas da outra e, em seguida, viu, naqueles olhos vizinhos, a mesma amarelada luz que, encontrada em todos os pequenos quadrados das paredes do banheiro, se refletia no cristalino úmido e concentrado. Laura pôs a primeira vela na outra borda da banheira, à frente de Débora; sobravam duas velas, e, então, ela caminhou no perímetro da banheira, colocando as outras restantes a distâncias simétricas de onde as costas da outra haviam tomado lugar. Contra todas as expectativas, o coque de Débora ainda estava suspenso e, um pouco abaixo da nuca, terminava o limite das águas, deixando à mostra um pescoço cuja penugem se arrepiava com a diferença de temperatura.

Débora estava de olhos fechados, relembrando do realejo onde o pianista tocava sua sinfonia solitária, quando, de repente, deparou-se com o silêncio mais agudo da outra. Endireitou o corpo na banheira, criando um espaço entre suas costas e a borda; já se aprontava para olhar para trás, quando sentiu as coxas de Laura deslizando ao redor de sua cintura até se acomodaram ao redor dos seus quadris. Débora, num suspiro gemido, sentiu as curvaturas do corpo da outra lhe acolher como se tivessem sido feitas para o seu tamanho, para que o seu corpo coubesse, tétrico, no dela, como num quebra-cabeça. Laura curvou seus dedos, em ambas as mãos, em formato de concha e, jogava sobre Débora pequenos amontoados de água quente que buscava na banheira. Água que escorria na pequena fresta que dividia os corpos e aquecia a ambas. Despejou algumas vezes sobre as suas próprias costas as pequenas conchas e, nas últimas, com as duas mãos transbordantes, deixou que um fio de água escorresse dos pés das orelhas até os ombros de Débora, quando então averiguou os aromas dos sais no corpo da outra: deslizou a ponta do nariz sobre a pele molhada, fazendo o mesmo percurso dos pequenos rios que lhes escaparam pelos dedos: com uma espontânea leveza, redescobriu o caminho descendente que a curva dos ombros de Débora fazia desde o lóbulo da orelha até os pequenos ossos expostos da clavícula. As mãos submergiram e foram buscar, embaixo da água, a sinuosa silhueta tão fiel à forma do S aliterado. Débora sentia que o pianista talvez não estivesse mais tão longe, já que a música parecia ser tocada na sua pele: todas as notas prolongadas sob sua derme; as pálpebras relaxadas não traduziam a tensão que despertava no seu corpo, a começar pela respiração de Laura que soprava um ar sobre os pêlos do começo do seu couro cabeludo, quando ela silabava os versos que Norah Jones cantava.

Os roupões foram buscados dentro do armário sob a pia e ficaram preenchidos de gotas ainda quentes da água e de intenções, desejos e ousadias expectadoras. Laura foi a primeira a retornar ao quarto; as pontas do cabelo ondulado ainda estavam molhadas quando ela preencheu, pela metade, as taças de vinho. Terminava de derramar a bebiba no segundo cálice, quando as mãos de Débora se apoiaram sobre seus ombros; seguiram pelas costas, desceram quadril e aquietaram-se presas aos ossos pronunciados da pélvis. E foram eles que, funcionando como alavancas do movimento, permitiram que elas se apertassem, uma contra a outra, numa ânsia mesurada de se fundirem, de invadirem o recôndito da outra, fazendo moradia interna, estadia eterna. Os tecidos dos roupões se roçavam e afagavam a pele que eles próprios escondiam ouriçadas. Débora dedilhava o alto relevo do quadril da outra, quando essa, com as taças em mãos, se virou de rosto para ela. Dividiram as taças, mas Laura bebericava, enquanto Débora engoliu todo o conteúdo numa tragada só. Uma gota do vinho derrapou nos lábios da última e despencou até a ponta do queixo, dando a deixa. Laura colocou a taça sobre o balcão e, encostando-se nele, buscou as cordas que fechavam o roupão da outra. Esperou que a gota estivesse na eminência da queda e, quando o fio menos visível do líquido roxo que segurava a gotícula estava prestes a se arrebentar, Laura aproximou sua boca do queixo de Débora e, segurando-a pela corda do roupão, garantiu que ela ficasse inteiramente presa. A língua recolheu o sabor envelhecido do vinho e difundiu-o pelos lábios e o céu da boca.

As mãos de Débora massagearam sua própria nuca, relaxando-a enquanto movia a cabeça de um lado para o outro, os olhos fechados; mal terminaram a massagem e as pontas dos dedos vieram, acompanhando a borda do roupão, desenhando o decote em “V”, sublinhando não só a linha que dividia a pele clara do tecido escuro, mas o relevo que oscilava durante a descida até as cordas que o mantinham o chambre fechado. Laura infiltrou o dedo dentro do nó mal-feito para desfazê-lo e, com a ajuda da outra, fez com que o vértice do decote se abrisse em duas linhas paralelas que, alguns centímetros distantes do abdômen, terminavam nos joelhos, o único lugar no qual voltavam a ter contato com a pele ainda quente do banho. Foi a vez dos dedos de Laura desenharem o limite da borda do roupão sobre a pele de Débora, como naquelas brincadeiras na qual se coloca a mão sobre um papel e, com uma caneta, faz-se o contorno dos dedos, de um lado do punho até outro. Entretanto, nessa brincadeira de tato entre as duas, o desenho que se formava não se definia por fora da forma, mas sim averiguando suas trepidações por dentro. Laura havia chegado até próximo ao umbigo e já sugava os lábios para dentro da boca, anunciando covinhas, quando a outra se afastou dando alguns passos para trás. As mãos deixaram que o cordão escorregasse pelos dedos até o último centímetro, como se não reconhecesse força para segurá-lo. Débora sorriu, indicando que voltava, mas Laura sorriu pedindo para ficar. Com o longo indicador no ar, Débora apontou a cama e, com o movimento, a manga do roupão subiu acima do cotovelo e revelou um braço magro, sobre o qual uma penugem escura não conseguia esconder a delicadeza das articulações. Antes de subir ao patamar da cama, Laura desprendeu segundos de atenção na pequena saliência óssea do punho de Débora: um pequeno monte que desconfigurava a retidão do antebraço e que passeou pelos interruptores do quarto, deslizando alguns e acendendo outros.

As luzes, escondidas nas frestas do teto de gesso, piscaram duas vezes, hesitantes, até se estabilizarem. A cor azul esbranquiçada, das lâmpadas de mercúrio escondidas nas valetas, trombavam contra a parede e morriam aos pés da cama, deixando os lençóis e os travesseiros seguros em sombra. Laura estava sentada sobre a beirada da cama quando, ao meio do cômodo, Débora elevou os ombros e deixou que o roupão caísse atrás de si. A travessa iluminação conseguia captá-la ainda longe da cama, desenhando no carpete do quarto um rastro de luz que desaparecia sob os pés de Laura. Cada passo que ela dava em direção à cama, Laura podia sentir o coração errante palpitar no começo da garganta. Os pés de Débora galgaram os dois degraus e só descansaram quando abandonaram o chão: com a ponta dos dedos sobre colo de Laura, Débora, lentamente, a deitou sobre a cama e, em seguida, sentou-se sobre ela, afastando as pernas e colocando-as, uma por vez, ao redor do quadril da outra. Agora, Laura podia ver o detalhe dos pequenos ossinhos a centímetros do seu olhar deslumbrado. Com suas duas mãos livres, buscou a nuca de Débora que, imediatamente, roubou-lhe o gesto, prendendo, com os dedos entrelaçados nos dela, os braços de Laura contra o lençol. Ela se ergueu sobre a outra, acomodando a púbis sobre o ventre de Laura, e subiu as mãos atrás da cabeça e com um movimento preciso, desprendeu o coque e deixou os cabelos despencarem para as costas e sobre os seus seios. Mechas longas e douradas que ficavam escurecidas sob a penumbra, e cujos reflexos amarelados, entretanto, brilhavam com mais intensidade sob a escassa iluminação da luz de mercúrio que, refletida na parede, era capturada pelo loiro vivo. O cheiro de xampu de camomila veio até as narinas de Laura que, num impulso nascido de dentro do seu corpo, conseguiu se sentar, posicionando seu rosto no caminho entre os dois seios pontiagudos de Débora, tocando a ponta de seu nariz na pele fina da outra. Suas mãos ascenderam joelhos, coxas e quadril, até se contentarem com o afunilamento da cintura, quando então se reencontraram, às costas. Agora, desfeito o próprio coque, Débora precisava se desfazer de algo em Laura: com a ponta dos dedos, segurou o queixo da sua prisioneira de pernas e levantou-o até deixar-lhe o rosto exposto; segurou a gola do roupão de Laura e, enfiando-lhe as mãos por baixo, experimentava a temperatura das costas e ombros dela, enquanto lhe retirava o roupão, abandonado ao lado do corpo, revelador.

Confundiram-se a noite inteira e criaram labirintos inimagináveis, dos quais nenhuma queria mais sair. Provaram sabores, palavras, olhares e sensações. As luzes dos letreiros começavam a apagar e, mais ao longe, os postes já iniciavam seu descanso da vida noturna; o dia amanhecia lá fora e, sob a tutela das pesadas cortinas que não deixavam a luz do sol entrar, elas dilataram a noite durante duas manhãs e uma tarde.

Saturday, April 12, 2008

Jano

"A porta do barraco era sem trinco
E a lua furando nosso zinco
Salpicava de estrelas nosso chão
Tu pisavas nos astros distraída"
Os Mutantes - Chão de Estrelas

Dormiu muito pouco, por que acordou à noite, antes do outro dia: algo entre onze e meia e meia-noite. Sentiu o gosto na boca de noite perdida na cama quando os primeiros foguetes explodiram no céu e iluminaram a superfície gelada do vidro da janela, ainda molhada da chuva que acabara de cair. Nas minúsculas gotas que escorriam meticulosamente, enxergou tons de azul, vermelho e branco, refazendo-lhes o trajeto oposto ao imaginá-los se irradiando em círculos concêntricos no céu da América do Sul, sob a guia do Cruzeiro, que indicava, a anos-luz daquele Ano Novo, uma nebulosa escura à espera do calor de luz de supernovas distraídas. Ele gostava de estrelas, constelações e todos os mistérios espaciais que não podia tocar; gostava tanto mais do espaço sideral do que aqueles quinze minutos ao redor da meia-noite do dia 31 de dezembro, no qual todos – menos ele - concentravam suas crenças e depositavam uma perfídia de fé de que seriam outros, no minuto seguinte, no ano que vem; e isso nem quer inferir que ele não desejasse, também como uma religião abortiva, mudar aquilo que era: aquele jeito de inconseqüente deliberadamente preso nas apreensões de um ancião. Entretanto, ele acreditava que a mudança estava no espaço externo, no outro, no além-de ou, quem sabe, nas estrelas. Por isso, ele palmilhava sua casa, primeiro desenhando-a em papel vegetal, como um arquiteto; em seguida, movia todos os móveis de lugar, retirava tapetes, limpava lustres, colocava os colchões e almofadas ao sol, em trabalho laborioso de inseto, para então, reordenar a nova geografia da casa que, em essência uma mudança física, despertaria dentro dele aquela errada verdade de que o simples reposicionamento do interior do lar se constituiria num novo, sensível e cotidiano, capaz de impulsionar uma mudança maior, aquela que ele não podia desenhar com réguas e transferidores, pois exigia um deslocamento de sentimentos. Para ele, o Ano Novo era sempre mais velho do que o anterior, pois seria responsável por doses de felicidade e paz que ele jamais teria e, assim, ele mesmo desencarregava-o de tamanho fardo, esquecendo-se daquela alegria branca. Talvez fosse ele o único que fizesse do mês de janeiro um tempo completamente novo de vida, como numa página em branco ou uma agenda sem números de telefones, pois todos os outros preenchiam o mês do deus Jano com complexas aspirações e esperanças tão dolorosamente reanimadas do ano passado e dos anos passados atrás desses que, de inédito naqueles trinta e um dias, só se notariam os quilos a mais das ceias de Natal, as rugas da idade, um hematoma qualquer, umas olheiras pesadas e, numa hipótese grotesca de renovação, uma gravidez.

O stereo ainda tocava o mesmo CD de antes do sono, mas já nas últimas faixas, nos derradeiros sopros de vinte semínimas dos saxofones sopranos.

Sobre sua paixão pelas estrelas, tudo remontava a outro Reveillon, o primeiro que passou oficial e fisicamente separado de Soraia – e que aqui só cabe como explicação, pois, logo que acordara, ele se lembrou do porquê daquele CD de jazz: um presente dela às vésperas da tragédia, um cavalo de Tróia musical. Abrindo as portas da memória, atravessando as salas dos cinco anos seguintes e passando por baixo dos quatro portais de tempo – os Reveillons -, ele pode rever a primeira vez em que se viu escrito nas estrelas. Com os pés enfiados na areia da praia e as barras da calça dobradas à canela, ele fitava as ondas que se projetavam grandes no firmamento escuro da madrugada e desciam até a baía, reverenciando a cidade que crescia à sua margem; ondas atenuadas chegavam aos pequenos grãos de areia por baixo da planta de seu pé, como um leve vento, um afago molhado de lembranças entesouradas no sal do mar, um sal de outros tempos que guardava histórias de outros homens, daqueles que se jogaram ao mar e não mais voltaram e daqueles que chegaram, para não mais sair. Movediça, a areia se gracejava, escapando entre os dedos do pé daquele homem que já não mais sabia se ia ou voltava, muito menos de onde. Estava de olhos fechados, quando uma amiga veio ao seu lado, tomando lugar vagarosamente, de um jeito manso e ressabiado, à maneira de quem queria entendê-lo, sem amedrontá-lo:

- Vê aqueles caminhos escuros? - ela disse apontando rachaduras negras nas pinceladas brilhantes da Via Láctea.

Ele precisou recolocar os óculos, que estavam suspensos pela haste no bolso da sua camisa impecavelmente branca. “Aqueles?”, ele também pincelou com o dedo no céu, mostrando que já conhecia aquelas falhas de brilho no espaço.

- Aqueles, ela riu e bebeu da taça que ele levava suspensa entre os dedos das mão estendida ao lado do corpo, aqueles rios negros no céu são nebulosas escuras e você só pode enxergá-las porque elas não lhe deixam ver o que você realmente olha.

Ele virou o rosto para ela, com um sorriso exclusivo dos lábios, e acentuou todas as interrogações que pronunciava no rosto.

- Eu explico – ela disse, arranhando a garganta -. Nebulosas escuras são amontoados de poeira do espaço que se concentram, como uma nuvem entre as galáxias. Sabe quando você bate o pano sobre os móveis e uma coluna de sol bate no meio da sala e você só pode ver aquela poeira suspensa no ar porque um astro rei, lá fora, a ilumina? Algo assim. Entende?

Ele consentiu, sem jeito, com a cabeça, inclinando-a de lado, enquanto suspendia os ombros acima de sua posição natural. Insatisfeita e curiosa, ela tomou a taça dele, definitivamente e, deu-lhe às costas, afastando. Contudo, deu-lhe uma última explicação complacente e astronômica; como Austerlitz, para ela e Waterloo, para ele:

- São as nuvens noturnas, meu querido. Sem estrelas, só adensados de poeira molecular. E elas só existem porque, no nosso desejo mundano de ver a grandiosa Via Láctea, nos deparamos com esses escorreres de escuridão nos impedindo de contemplar o brilho mitológico da nossa galáxia-mãe. Um tapa-olho sideral, por assim dizer.

Ele baixou os olhos aos pés que, na regressão do mar, podiam ser vistos afundados na areia escura da praia; conferiu o relógio quando os primeiros fogos de artifício explodiram na esquina da enseada e ouviu um “feliz ano novo” já distante, mas reconhecivelmente vindo daquela mulher que lhe roubara a taça. Como numa miopia de sentimento, no instante em que re-conheceu as nebulosas escuras, ele quis muito desejar algo maior que ele. Tão maior que ele se contentaria em apenas desejar e, desejando, se tornasse, ele próprio, na coisa desejada, o objeto do desejo. Com tanta força de mudança, com tanta revolução claustrofóbica, querendo ser outro, querendo ser melhor, querendo qualquer coisa, os fogos explodindo no céu, as nebulosas resignadas, os amigos que vinham correndo fazer oferendas a Iemanjá, no meio daquele Ano Novo, ele apenas pediu que fosse pequeno o suficiente para amar as coisas que, maiores que ele, mais o amariam do que ele poderia conter; ali, com os pés cultivados no sal de tanto outros homens e na água de tantas ofertas, ele ficou só: ele e seu desejo, ele e ele mesmo. E, de repente, as estrelas, as nebulosas e o Cruzeiro do Sul. Tudo oferecido a ele, como nas pequenas barcas de flores brancas que partiam para o oceano distante.

Foi, a partir de então, que, sem Soraia e com desejo, ele dispensou o Reveillon à beira da praia regado a champagne e passou a noite do dia 31 para o dia primeiro dos anos seguintes lendo enciclopédias e especiais sobre o espaço, sobre as constelações, astrofísica, supernovas e tudo aquilo que estivesse a, no mínimo, cinco anos-luz dele. Naquele Ano Novo, a iniciar no primeiro track do CD de jazz, ele passara das sete às dez da noite revisitando os esquemas de constelações da Larousse, logo antes de ser pego num sono mortal, justamente quando as nuvens se adensavam para chover e limpar o céu, deixando a Via Láctea nua e brilhante, acima dos fogos de artifício.

“Mas, é carnaval/ não me diga mais quem é você/ amanhã tudo volta ao normal/ deixa a festa acabar, deixa o barco correr...”: e não era carnaval, embora na mente dele, contra o desespero do sax, a marchinha na voz do Chico vibrasse com intenções alegres de lhe despertar. Virou o corpo de lado, dobrando as pernas em posição fetal e o travesseiro em “U” ao redor da cabeça, quando reparou o telefone sobre o criado fora do gancho. O quarto estava vazio da mesma maneira como o havia deixado antes de cair nos braços de Morfeu: a toalha sobre a cadeira da escrivaninha num ângulo do quarto, três copos e uma xícara de café aos pés da cama e um amontoado de CDs sobre tapete à frente da estante, mais à direita. Devido às janelas fechadas, um vapor humano impedia que o ventilador no teto arejasse o cômodo e, assim, aquele seu próprio cheiro de vida, ainda sonâmbulo, pairava nebuloso entre as paredes. As mãos largas, abandonando o peso que exerciam sobre as abas do travesseiro, permitiram que esse se espreguiçasse, voltando à forma natural; a cabeça sentiu o primeiro latejo nas têmporas quando tentou esticar os braços e colocar o telefone de volta ao gancho; comprimiu os olhos entre as sobrancelhas e as bochechas, como se a face quisesse engoli-los. Contudo, antes que pudesse reiterar o brinquedo de Graham Bell ao seu lugar, sentiu no meio das pernas um pulsar sangüíneo tão contundente que todo seu lado direito contorceu-se, jogando a cabeça para o ombro do mesmo lado. Sentiu-o, imperador, sob a vigia do edredom. A samba-canção estava congestionada; sua folga havia sido preenchida com aquele crescido conteúdo que parecia se asfixiar sob a seda preta. Os nervos nascidos nas pernas e nos ventres, cujas terminações se evadiam para as virilhas e vizinhos, seguravam com cordas e correntes o prisioneiro de pano entre as pernas e ele sentia que, em breve, elas sucumbiriam e cansadas, deixariam que ele fugisse. Tentou amaciá-lo com suaves apertões e massagens paliativas, mas aquela projeção toda se retesava no imediato seguinte, ainda mais empenhada em se livrar dos carrascos nervos. Por fim, deitou-se de barriga para baixo, jogando, contra a fúria do rebelde, todo o peso do seu corpo recém desperto. Reviu o telefone fora do gancho e, agora, com o interstício entre as músicas do CD no stereo, pode ouvir os sons espaçados e eletrônicos que vinham de uma das partes da estrutura em forma de alteres. Puxou-o pelo fio em espiral que ficara suspenso numa das quinas do criado-mudo e, tomando-o entre os dedos, conferiu o barulho de “ocupado” ao pé da orelha, que ardia e queimava, avisando-lhe de que havia interrompido o fluxo de sangue para ela durante o tempo em que permaneceu, com o peso de sua cabeça, sobre sua cartilagem delicada. Colocava-o no gancho, já virando a cabeça em sentido contrário, quando uma dúvida amarga impossibilitou o retorno ao sono. Duas explosões, mais próximas à parede da janela, coloriram o quarto de amarelo ouro, enquanto ele trincava as duas arcadas na boca, provando o primeiro gosto da dúvida: o da possibilidade; deslizou a mão sobre as bochechas e coçou o queixo, baixando o movimento até o pomo de Adão, a projeção vitoriosa dos níveis exorbitantes de testosterona. Os pêlos da barba de dois dias por-fazer já perfuraram a pele e, às vezes irritados, anunciavam os primeiros brilhos de grisalho precoce, num rosto sem marcas ou rugas, mas desenhado com traços vigorosos ao redor de olhos fundos, cujas olheiras contornavam a orla das pálpebras, com seus cílios longos, quase femininos. Não se lembrava de ter atendido ou ligado para ninguém, mas, quem sabe?, ele mesmo sabia que falava à noite e algumas vezes acordou com suas próprias falas, complicadíssimas e sem sintaxe. Soraia sabia disso e até, algumas vezes, divertia-se velando o sono do, então, amante. O barulho pontilhado que ele ouvira não testemunhava nenhuma das hipóteses e, com um remorso grave, ele se arrependeu de não ter trocado a relíquia telefônica por um sem-fio com opção rediall. Provou, em seguida, o segundo sabor da dúvida: o da raiva. Bateu o telefone sobre o aparelho e resmungou muxoxos fracos pelo recente despertar. E se tivesse ligado? Para quem, Meu Deus? Para quem ele ligaria em pleno Ano Novo, quem merecia um pouco daquele seu desejo? Desconcentrado e, agora, com o sono espantado, ele se sentou sobre a beirada da cama, segurando, por baixo da samba canção, o desprendimento febril do corpo. Gingou-o entre os dedos de uma mão, enquanto fitava, apreensivo, uma possível chamada vinda do telefone. O coração acelerou o ritmo do sangue e do badalar da mão, enquanto o ventre começava a se inquietar dentro de uma respiração que faltava. As estrelas: ele se arrepiou observando-as tilintar. Uma pausa: dentro e fora. O ritmo se corrompeu, alguém do lado de fora gritou “feliz ano novo” ao mesmo tempo em que um carro berrava sua buzina e ele se jogava de costas à cama, exausto e desesperançoso, sem olhar o telefone, sem segredar nada às estrelas, sem buscá-las nos fogos de artifício, apenas reencontrando-as, também exaustas, sob as pálpebras.

Deitado sobre a cama, com o corpo já relaxado, ele podia rever as amantes noturnas, agora no céu, que se divertiam com a fantasia dos homens daquele pequeno planeta que, inutilmente, tentavam colorir aquele seu pequeno ângulo do universo com explosões ínfimas, de cores mórbidas. A cada novo estrondo no céu, elas cochichavam entre si, zombeteiras, sem se moverem no escuro do infinito – afinal, eram estrelas e não asteróides. E esse era um dos motivos pelos quais ele se prendera a elas - embora não pudesse conscientemente assumi-lo -, pois por mais que elas, as estrelas, pudessem ter morrido, tão longe em outras galáxias, a sua luz chegaria aos olhos dele, refletindo-se no cristalino e voltando ao espaço, como num telegrama de boas vindas sem data de chegada e sem destinatário. Seriam fiéis companheiras de madrugadas adentro, desde a primeira estrela no céu, solitária e saudosa, que o levaria de volta a casa, até a última, que perduraria até ser afogada no azul límpido de um céu estuprado pela estrela dona daquele sistema, o Sol. Assim, ele jamais estaria só: dividiria com as estrelas a sua solidão-exaustao, mesmo que elas jamais pudessem o ver, naquele planeta sem luz própria, mas do qual – e disso, elas sabiam – vinham olhares curiosos que as faziam se sentir observadas, estrelas de um universo infinito.

Wednesday, April 02, 2008

Cabra-cega




"Como um conto de fada tem sempre uma bruxa pra apavorar


O dragão comendo gente e a bela adormecida sem acordar


Tudo que o mestre mandar e a cabra cega roda sem enxergar


E você se escondeu, e você esqueceu..."


(Jardins da Infância - Elis Regina)




A última semana de férias na casa da vovó Marta. Lembro-me, como se fosse o café da manhã de hoje, do cheiro antigo que se desprendia das manchas verdes das paredes mofadas, principalmente no teto, onde o esverdeado se alastrava até o lustre transparente e, em algumas de suas expansões, ganhava colorações preta, branca ou cinza; os cobertores xadrezes cheirando a naftalina me faziam espirrar convulsivamente durante a noite, fazendo sempre com que eu jogasse-o em cima da minha companheira de cama, a Andréia, a filha do primeiro casamento do meu tio Juca, irmão mais velho de papai. Naquelas noites de férias, numa outra cidade longe da minha - a pequena cidade onde vovó havia crescido, casado, enterrado o marido e, depois de nove décadas de existência teimosa no mundo, morrido -, quando me via livre do cobertor, subia às pontas dos pés para alcançar a tranca de ferro da porta de madeira pesada do quarto de hóspedes, rodava-a vagarosamente para não deixar que o barulho do trinco cedendo acordasse os outros cinco primos que, como eu, dividiam as camas dos beliches; pé ante pé, subia as escadas, me apoiando no corrimão envernizado, arregalando os olhos para ajustá-los à nova escuridão. O coração batia ligeiro com medo das figuras do escuro, dos monstros que me esperavam dentro dos quartos e ao final de cada corredor; só descansava quando visualizava a luz de lampião da pequena varanda no andar superior acesa, entre as frestas da porta de madeira, onde vovó despendia algumas horas da sua noite fumando o palheiro e ouvindo boleros de décadas remotas.

Aquele mais recente antro da casa fora construído, há anos, pelas mãos já enrugadas de vovô que, prevendo a morte em alguns meses, dedicou-se a cortar algumas árvores do quintal para não só usar daquele espaço como sua sepultura, mas também aproveitar a madeira para construir aquela pequena projeção da casa, na qual, nos anos seguintes a sua morte, vovó Marta, religiosamente, sentava-se ao mais tarde da noite com seu pequeno rádio de pilha ligado na rádio que vovô Zezinho costumava ouvir. Certas vezes, ainda de dia, entre o cuidar dos bichos e o ordenamento das compras na quitanda, ela sintonizava o rádio na estação de esportes e deixava-o tocando durante o jogo de futebol inteiro – até os comentários finais – sobre a mesa de bar de metal improvisada sobre aquela espécie de sacada rudimentar. Numa daquelas noites da última semana de férias na casa de vovó Marta, ainda posso me lembrar do frio brilhante do corrimão amarronzado e o cheiro do cigarro de palha que me guiava na escuridão mansa do casarão. Lá fora, o barulho da estação de rádio e a voz aveludada do seu locutor, que, entre os silvos dos grilos que habitavam a vegetação rasteira entre as àrvores e o quase imperceptível ranger da madeira do balanço de vovó, anunciava mensagens de outros mundos, além de onde meu olho conseguia distinguir vida: recado de um tal de Batista para um outro Joãozinho-da-hora, avisando que os bezerreiros chegariam logo ao amanhecer no sítio do Nhô Durval ou, às vezes, um convite público para a festa na praça da cidade, a mando do prefeito Pedro. Com os ombros recolhidos num xale tricotado, vovó se badalava como um sino de igreja na cadeira, com os olhos cansados, que pareciam contar estrelas em busca das cadentes, apertados atrás das fumaças do cigarro amarelo, como se estivesse sentindo algum presságio nas pitadas de fumo ou lendo um destino nas constelações. Do jardim que ficava a nossa frente, escapava cheiros de manjericão, alfazema, laranja-da-terra, do solo molhado ao redor do córrego que cortava aos fundos a propriedade, com seu leito de água maior que três passadas de pernas de gente-grande; mas de todos eles, eu especialmente me lembrava mais de dois: o da dama-da-noite, que nascia rente ao muro lateral; e o do manacá, não só pelo cheiro, mas pela música que Dona Geralda cantava sempre que passávamos correndo pela cozinha, perguntando apenas para ouví-la cantar com aquela voz adocicada nascida do centro dos seus seios fartos e negros: “Dona Gê, de quê que é esse pé?”. E ela respondia enquanto mexia com a colher de pau nas panelas de ferro no fogão à lenha, mostrando os dentes mais brancos entre os lábios mais grossos que eu já vi:



Lá de trás daquele morro


tem um pé de manacá.


Nóis vai casá e vai prá lá. Cê qué?


Eu quero te beijá, eu quero te agradá,


eu quero me casá e te levá prá lá


Cê vai?Eu panho toda a flor do pé de manacá


e faço uma coroa prá te enfeitá. Cê qué?





Já mais velha, ainda na faculdade, recebi a notícia de que vovó Marta falecera naquela mesma sacada. Encontraram-na, sorridente, no mesmo balanço; disseram que a cadeira continuava a balançar quando Dona Gê deu notícias do seu óbito; entretanto, o rádio estava desligado. Durante o velório, nenhum dos convidados pode negar o cheiro quase enjoativo que o manacá liberava, como se também chorasse odores pela morte de vovó. O perfume grudava nas ventas, envenenava o sabor da comida e, os mais alérgicos, nem ao menos conseguiram ficar perto demais do caixão. Fui à primeira a sair ao quintal, onde coveiros já haviam cavado a vala de vovó ao lado da pequena cruz na qual se lia “José Martins”, em caligrafia do próprio defunto. Recuei dois passos quando vi que todas as flores do pé de manacá estavam roxas, intensamente roxas, sem que um minúscula flor branca existisse. Pela noite, foi a vez da dama-da-noite derramar seu pranto e quase ninguém na casa conseguiu dormir. Dona Gê deixou o rádio ligado em cima da mesa de metal durante a inteira semana que se passou, até a missa de sétimo-dia.


Mas, de volta àquela última semana, nos báus dos meus verdes anos, na noite em que subi as escadas até o segundo andar e de lá me encaminhei para varanda, lembro-me da voz gutural de vovó, que acompanhava um bolero argentino com um castelhano impecável. Sentada numa das vigas de madeira a sua frente, vovó viu que eu acompanhava o ritmo batendo no chão com o pé preso num chinelo velho e num número de calçado muito maior. Eu a olhava de baixo para cima, imaginando para onde teriam ido a cor e o brilho do cabelo dela, tão branco e tão opaco; ela também me olhava, levantando ou baixando a sobrancelha delgada com a entonação da música, que ela fazia traduzia para o meu português bambo pela interpretação dos seus gestos; com as pontas das unhas, batia na mesa de metal, regendo o meu compasso no pé e, eu, assim, respeitava seu dote de maestro e sorria quando nossos retumbares coincidiam com a pancada mais forte do bumbo no alto-falante do rádio. Quando o intervalo cortou nossa sinfonia de caixotes, vovó desligou o rádio e disse “Carol, já ouviu a história do cachorro chamado Plutão?”. Apenas neguei com a cabeça, já me levantando e, em seguida, me acomodando no colo fofo dela. “Então, eu vou contar para você. E você aprende e conta para os seus netinhos quando eles vierem te visitar. Você promete?”. Eu prometi, deitando meu rosto no ombro dela e experimentando aquele cheiro antigo que ela levava, de alguma água de cheiro dos velhos tempos de moça soleira. Dama-da-noite.


Negro, com os olhos em brasa,


Bom, fiel e brincalhão,


Era a alegria da casa


o corajoso Plutão.




Fortíssimo, ágil no salto,


Era o terror dos caminhos,


E duas vezes mais alto


Do que o seu dono Carlinhos.




Jamais à casa chegara


Nem a sombra de um ladrão;


Pois fazia medo a cara


Do destemido Plutão




Dormia durante o dia,


Mas, quando a noite chegava,


Junto à porta se estendia,


Montando guarda ficava.




Porém Carlinhos, rolando


Com ele às tontas no chão,


Nunca saía chorando,


Mordido pelo Plutão...



Plutão velava-lhe o sono,


Seguia-o quando acordado:


O seu pequenino dono


Era todo o seu cuidado.




Um dia caiu doente


Carlinhos.. junto ao colchão


Vivia constantemente


Triste e abatido, o Plutão.




Vieram muitos doutores,


Em vão. Toda a casa aflita,


Era uma casa de dores,


Era uma casa maldita.




Morreu Carlinhos... a um canto;


Gania e ladrava o cão;


E tinha os olhos em pranto,


Como um homem, o Plutão.




Depois, seguiu o menino,


Seguiu-o calado e sério;


Quis ter o mesmo destino;


Não saiu do cemitério.




Foram um dia à procura


Dele. E, esticado no chão,


Junto de uma sepultura,


Acharam morto o Plutão


Chorei compulsivamente, segurando o pescoço de vovó com os dois braços já fracos. Ela abandonou no cinzeiro de estanho o toco do cigarro que já havia se apagado há muito tempo e também me confortou com seus dois grandes braços e, assim que o fez, eu chorei ainda mais, dando soluços entre um fôlego e outra lágrima. Tentei segurar o peito convulsionado controlando a respiração, mas vovó dizia que eu podia chorar, que fazia bem chorar. Eu perguntei se a história era verdadeira, esperando que ela negasse e a minha dor pelo Plutão se esvaziasse. “Todas as histórias são verdadeiras, minha menina encarolcolada”.


Naquela noite, adormeci aquecida no colo de vovó e acordei já com os meninos dobrando seus cobertores cheirando a naftalina. Andréia, a mais velha de 10 anos, se impunha puxando o cobertor por baixo de mim. “Bom dia, flor do dia”, ela dizia imitando a vó. Tomávamos café numa mesa no centro da grande cozinha e chegávamos até lá atraídos pelo cheiro de bolo de cenoura, de bolo de fubá e de pudim de pão que Dona Gê fazia. A rechonchuda negra, à lá Aretha Franklin, preparava tudo com carinho, como pequenas obras de arte; buscava nos pés ao fundo do quintal os cachos de banana mais maduros; catava no chão as goiabas amareladas e maduras, transformando-as na mais apetitosa goiabada; conversava com a galinha escolhida para um almoço, tratando-a por “vossa senhoria” e rezava uma Ave-Maria em voz alta enquanto dilacerava o pescoço da ave e deixava seu sangue pingar na terra marrom do quintal. Fazia leite-queimado como ninguém e brigava com vovó Marta a respeito da saúde dessa. “Dona Marta, a senhora vai ter que um dia sair daqui. Viva ou morta. O falecido não vai mesmo a lugar nenhum. Melhor ir procurar um médico lá na cidade. Meu Jorge leva a senhora lá e traz de volta quando vier com a feira”. Vovó relutava apenas para desfrutar, nos minutos seguintes, a atenção que Dona Gê repousava sobre ela, enquanto escaldava o café.


Éramos seis: eu, a filha mais nova do filho mais novo; Andréia, a filha mais velha do filho mais velho e a capitã-vilã de todas nossas peripécias; Denise, que se ausentava de brincadeiras ao ar livre, preferindo sempre brincar com suas bonecas de pano e seus jogos de chá em miniatura; Tomás, o único loiro da família que, por isso, passava por maus bocados quando todos nós caçoávamos da sua origem “lata de lixo”; André, o irmão e escudeiro óbvio de Andréia e com a qual nutria relações oscilantes de admiração e ódio; e por fim, Joaquim, o Quinzinho, que andava com as calças curtas á altura da canela e sonhava em ser pirata, o que justificava sua mania de andar com olho esquerdo fechado, simulando um tapa-olho. Na tarde do último dia de férias na casa de vovó Marta, depois de travarmos uma guerra de mamonas no quintal, nadar no córrego com o auxílio de uma câmara de ar de pneu de caminhão e passarmos um par de horas trepados no pé de goiaba, a noite caminhou no céu escondido atrás da mata do córrego sem que nos déssemos conta do tempo. Estávamos sentados nos degraus de concreto da área de serviço, iluminados pela chama amarela do candelabro preso à parede, observando Denise com suas xícaras e bules minúsculos quando Tomás deu a idéia de brincarmos de cabra-cega. Houve uma animação espontânea em todos nós e até mesmo Denise empurrou, desleixada, as quinquilharias para dentro de um saco e concertou a saia no corpo, já se aprontando para a brincadeira.


Dona Gê havia, há pouco, preparado café e derretia torrões de rapadura em duas xícaras brancas de porcelana oriental. Quase derrubamos sua bandeja na nossa entrada tempestuosa na casa, à procura do quarto ideal. Ela bradou: “seus cambada! Vai que eu queimo ocês tudo!”, mas logo consertou as xícaras e subia as escadas, tomando seu lugar ao lado de Vovó Marta, quando elas então ouviriam a novela pela rádio. Andréia ia à frente, abrindo portas e acendendo luzes, dando impressões sobre os quartos e os obstáculos. Andamos o corredor do primeiro andar inteiro e, por fim, concluímos que o melhor lugar seria na sala de entrada, bastando apenas retirar as peças quebráveis, alguns tapetes escorregadios e mover alguns móveis para distante da parede, a fim de se criar esconderijos. Buscamos sorrateiramente um pano de prato limpo nas gavetas do armário abaixo da pia da cozinha. Quando voltávamos à sala, Andréia fez um gesto para que formássemos um círculo; as mãos rodeavam os pescoços do primos vizinhos pela esquerda e pela direita. Baixando o tom de voz, Andréia ameaçou: “quem chegar por último é a cabra-cega”. O círculo se desfez e a algazarra tomou lugar. Saímos batendo os pés contra o assoalho, o que fez com que Dona Gê, do segundo andar, saísse da varanda e apontasse seu corpo lá em cima, gritando “olha a levadeza! Nada de rapa de angu com açúcar amanhã, hein?”.


Déia, na dianteira, chegou primeiro. Eu, Tomás, André e Quinzinho chegamos em seguida, ofegantes, mas Denise, com seus sapatos de boneca, embora tenha tentado correr, chegou apenas segundos depois, já com as mãos presas à cintura, insatisfeita. Ameaçou dar as costas e voltar às pacatas bonecas, quando Quinzinho, agora com os dois olhos abertos, em posse do pano de prato, vendou-a e puxou-a para dentro da sala, fechando a porta logo depois. Foi Déia quem puxou, já se distanciando de Denise:


- Cabra-cega, de onde vieste? – disse entre risos.


- Eu não quero ser a primeira – ouvi Denise dizer com a voz fina e baixíssima.


- Cabra-cega, de onde vieste? – entoamos todos aqueles que enxergavam, ainda que pouco no começo da escuridão da noite.


A cabra-cega até tentou se desfazer do pano de prato, mas interrompeu as mãos a caminho do rosto e, expulsando um ar cansado das narinas, jogou-as para frente, com os dedos abertos, apreensiva, e com um esboço de sorriso desafiador, que só se configurou completo depois de três passos às cegas. Foi a primeira vez que vi Denise sorrir de um jeito sincero, sem que seu pai lhe tivesse pedido a graça. De repente, ela ficou mais leve, o rosto mais corado abaixo do pano branco que lhe cobria os olhos. Não conseguia me mexer logo atrás do sofá; bastava me agachar para esconder, mas qualquer coisa me manteve estática, à espera de que aquele sorriso recém descoberto, de repente, nascesse também em mim. Ela veio caminhando em minha direção, ainda mais lenta dentro dos meus olhos. “Do quartel”, ela respondeu, por fim, gritando em alívio. Os outros quatro corresponderam “o que trouxeste: ouro ou prata?”. “Prata”, ela quase não terminou a palavra em meio a tantas risadas.


- Coma casca de barata! – gritaram todos, com todo o ar dos pulmões, menos eu, que só pude abrir a boca, como em um grito para dentro.


- Anda, Carol, você está mais perto: bate nas costas dela! – Déia forçosamente modificou a voz para evitar ser perseguida pelo som que emitia.

Ao redor de Denise, o barulho era geral e intenso. Quinzinho batia a mão contra as paredes, Tomás entoava uma canção para desnorteá-la, esforçando a garganta nas notas mais agudas e André corria atrás da irmã onde quer que ela fosse, acabando por discutir em voz alta os irmãos. Contudo, foi para o silêncio da região onde eu me escondia que Denise caminhou. Algum menino gritou para que eu saísse de lá, veio até as costas de Denise e deu-lhe um puxão pelo rabo de cavalo, mas ela nem se abalou. "Vai procurar quem te bateu!", Andrezinho berrou logo atrás dela. Ela ignorou: veio até o sofá, apoiou os joelhos sobre o assento e aproximou o corpo do encosto. Fiquei a centímetros do seu toque revelador. “Cabra-cega, cabra-cega, você vai fazer de mim a sua cabra-cega”, eu balbuciei sem som, cantando para dentro do silêncio e de mim que, para ela, naquele exato momento, eram a mesma existência. Minha mão estava apoiada sobre o sofá, quando a mão dela veio exatamente sobre a minha. Meus lábios se separaram ainda um pouco mais. Ela não tardou a me oferecer o sorriso que eu esperava e, assim, acabei trocando o lado da mão que se encostava à superfície do móvel; dei às costas de minha mão ao sofá e ofereci a ela a palma cheia de linhas, como a da sorte e do amor, que ela acabou aceitando e apertando. Foi ela quem se pronunciou, revelando os pequenos dentes brancos no rosto que reproduzia a coloração azulada do começo da noite:


- Cabra-cega, de onde vieste? – ela fechou os dentes na boca rósea, mantendo, porém, o sorriso.


Denise empurrou o sofá e, num impulso, voltou a ficar em pé, levando as mãos atrás da cabeça e desfazendo os dois nós que prendiam o pano de prato à sua nuca. Guardei minha mão no bolso do short jeans, tocando as pontas dos dedos umas nas outras, como se percebesse uma matéria delicada que ficou na minha pele. Seus olhos estavam fechados quando a venda lhe caiu do rosto. As pálpebras, em calmaria, foram se descortinando. As beiradas brancas dos olhos estavam um pouco vermelhas e eu lembrei de mim mesma, na noite anterior, porque sabia que meus olhos também estavam com seus cantos vermelhos, cheios de veias irrequietas, quando vovó Marta terminara a história. Denise contornou o sofá e, ajeitando o pano de prato, vendou-me os olhos, apertando com força excessiva os nós que dava atrás da minha cabeça. Pensei que, sentindo-a assim, logo atrás de mim, ela teria invadido meu olhar e habitava, agora, a minha cabeça, modificando à sua maneira todo o lado de dentro dos meus olhos. Enquanto me tocava, eu pensava, já com medo de que ela pudesse ler a minha mente: “cabra-cega, cabra-cega, você quer saber de onde eu vim?”.


- Cabra-cega, de onde vieste? – ela repetiu para que todo mundo a ouvisse.


- Do quartel... – eu disse, enquanto contraía as pálpebras sobre o pano.


- O que trouxeste: ouro ou prata? – eu podia ouvir a voz de todos, mas a voz fina que eu distinguia a alguns metros de mim era a que ecoava, vinda de dentro.


- Prata – apertei os dedos da mão, novamente, no bolso do short.


- Coma casca de barata! – riram-se todos.


Recomeçara a folia. Agora, jogavam travesseiros em mim e aqueles socos de plumas vindos do ar me desorientaram. Eu dava voltas sobre meu corpo, contornava móveis, dilatava as habilidades de audição e vazava os braços no ar numa coreografia agonizante. Não a reencontrei em nenhum dos cantos e esconderijos que eu lembrava em mente, redesenhando arquitetonicamente a sala na minha imaginação. Por fim, consegui pegar pelo pé o André, que tentava pular o sofá para se esconder junto à irmã.


Brincamos o entardecer inteiro até o momento em que na sala já não se podia mais ver nada, nem uma fresta de luz das lâmpadas dos vizinhos. E durante todo o tempo, acidentalmente eu me esbarrava por Denise, no meu caminho de fuga ou de mudança de esconderijo. Foi Andréia que sugeriu e foi acatada imediatamente:


- Agora é a brincadeira do “gato mia”!


- ‘Tá com você, Denise!


- Eu de novo? – ela tentou parecer zangada, mas na sua voz havia uma tranqüilidade que não deixava suspeitas.


- Você foi a última cabra-cega!


Gritamos, em coro, com gargalhadas e guizos alvoroçados. Mas, de repente, nos calamos, como uma orquestra que interrompe os tambores para dar louvor às clarinetas. Cada qual já havia se escondido no lugar estratégico. Com manias de pirata, Quinzinho equilibrou-se com um pé numa das poltronas e outro na cristaleira, fazendo um vão em “V” com as pernas, de maneira que, Denise, se passasse por ali, atravessaria o meio da suas pernas, sem percebê-lo. Andréia, seguida de perto por André, se escondia na quina entre duas paredes da sala, perto da porta. Tomás trocava de posição constantemente, desviando a atenção que Denise poderia prestar a nossos esconderijos. No escuro, eu tateava os móveis e procurava um lugar para mim que não fosse muito óbvio, mas nem muito complicado, pois desejava, também às cegas, que ela me tocasse. Avaliando a sala, parei no centro dela onde não havia nenhum móvel e nenhum movimento. Percebi Tomás ziguezagueando ao meu redor, como uma mosca, e temi contente que ela estivesse por perto. A primeira coisa que senti me tocar fora seu cabelo, roçando no meu rosto; ela havia caminhado de costas até onde eu estava e encaixou-se com uma precisão de peças de quebra-cabeça. Eu poderia ter corrido, afastado, gargalhado, puxado seu cabelo, mas permaneci imóvel, o único móvel estático no centro da sala. Com as mãos estendidas ao lado do meu corpo, busquei nos dedos a prata que ela havia deixado na brincadeira anterior e consegui ouvir o barulho das peles dos meus dedos roçando uma na outra. Ela poderia ter se virado bruscamente, dado um pontapé, feito um escândalo, mas ela também ouviu o barulho da minha mão, como num tilintar de taças ou choque de peças metálicas e, no meio da escuridão, ela também buscou meus dedos. E ficamos as duas imóveis. Agora, atrás dela, eu pensava: "será que sou quem entrou na cabeça dela?".

Bateram na porta. Dei dois passos para trás, acompanhando o som das batidas, no instante em que achei que aquelas pancadas vinham de dentro de mim. “Agora, dentro de mim, ela quer sair? E se a porta emperrar, e se eu não deixar? Ela vai destruir as minhas paredes? Ou vai ficar para sempre?”, eu respirei com sofreguidão. Dois murros seguidos da voz impaciente de Dona Gê que, do outro lado da porta, com medo do silêncio que havíamos deitado sobra a casa, agourou má criação. Senti o vestido de Denise se afastar de mim, movendo o ar ao meu redor, espantando o calor que ela própria me dava e que agora, tomava de volta. Acenderam a luz e a fotofobia foi lancinante, custando-me a contração imediata das pálpebras. Hoje, nos dias de verão, é só fechar os olhos e colocar a cara ao sol que posso refazer a coloração vermelha que assisti nas minhas pálpebras trespassadas pela luz naquela última noite de férias. Abri os olhos com a mesma paciência com que vi Denise levantar suas pálpebras. Um pouco mais distante agora, ela continuava de costas para mim e, à nuca, levava dois nós apertados feitos com o pano de prato, indicando que, ainda no escuro, ela havia mantido a venda da cabra-cega. Eu me lembro de ter memorizado “cabra-cega, cabra-cega, porque é que você não me vê?”, enquanto a ajudava a se livrar do pano de prato. Os outros quatro saíram da sala sob o comando enérgico de Dona Gê, mais redimidos, mas ainda insaciáveis. Andréia e o irmão, Tomás e Quinzinho dominaram a cozinha de ligeiro, certos de que havia uma travessa de doces à espera deles ou lascas de rapadura para que ficassem amolecendo debaixo da língua. À luz inteira, apenas eu e Denise contra os nós do pano de prato.


O pano caiu sobre o chão de madeira da sala. Dobrei os joelhos para pegá-lo no assoalho de madeira envernizada e, olhando para aqueles sapatos negros de Denise, percebi que ela os fazia dar meia-volta, ficando de frente para mim. Subi à posição ereta com alguma demora e o queixo grudado no peito. Medi minha altura com a dela pela distância de nossas mãos. Quase alcancei, com os ouvidos, o barulho de seus olhos que me desvendavam inteira, perguntando talvez “cabra-cega, de onde viestes?”. Das cenas seguintes, lembro-me apenas de abandonar a sala e jogar o pano sobre o sofá, correr pela cozinha, tomar o quintal e seguir o caminho de chão batido até a beirada do córrego. Escuridão: eu queria de novo viver a escuridão e, entre os pés de manga e as trepadeiras da parreira, tudo que eu podia sentir era a escuridão. Lembrei da pequena ponte onde, mais cedo, havíamos brincado de pular para dentro do córrego e, comecei a acelerar os passos em direção a pequena passagem sobre a água. Os meus olhos , depois de alguns minutos dentro do breu, já distinguiam uma coloração prateada que a lua perfazia sobre todas as plantas e sobre a água que corria sem presa entre os dois barrancos de terra. “Prata”, eu disse assim que sentei sobre a beirada da ponte, deixando os pés soltos e descalços no ar; olhei para cima, acima das serras que existiam a leste da casa de vovó Marta, num pedaço de céu negro onde só aquele astro imperava, e pensei “cabra-cega, cabra-cega, então você veio da lua?”.

A lua deslizou no céu e eu a acompanhei se afastar dos morros durante bons e largos minutos. Até que ouvi o quebrar de galhos e o esmagar de folhas vindos do caminho de onde eu havia chegado. Já sem os sapatos, Denise estava de um lado do córrego e começa a caminhar para perto de mim. Puxou a barra do vestido para baixo das coxas antes de se sentar ao meu lado. Senti que ia cair nas águas do córrego e me sujaria inteira de prata ou me dissolveria em prata e, quando fosse amanhã de manhã, eu já teria vaporizado e voltado a ser a lua, do outro lado do mundo, enquanto a lua que agora despencava do céu, se derreteria nas águas, nas plantas e nas mãos das pessoas que morassem no mais distante do mundo além daqueles morros, no mundo onde era preciso mandar mensagens e convites para quem se gostava. Denise tocou minha mão, como se não pretendesse e, enquanto eu olhava as águas prateadas que passavam por baixo de nossos pés, ela levantava o queijo e fitava a lua, como se pudesse calcular a distância de nós duas até lá.


- Se eu morasse na lua, você ia até lá brincar comigo? – eu disse depois de severos cortes nas frases que criava mentalmente para falar alguma coisa com ela.


- Se você morasse na lua, eu viajava num cometa para brincar com você – e, dessa vez, ela buscou a minha mão e virou-a para ela: palma com palma. E ficamos assim, até voltar à casa, quando Dona Gê já uivava sobre nosso paradeiro.


Dormimos na mesma cama, fitando a Lua que, agora, nem parecia tão distante.


Denise foi embora antes que eu acordasse, deixando sentada em cima do criado do quarto de hóspedes uma de suas bonecas, que embora tivesse o rosto direcionado para a janela, tinha os olhos vendados pelo mesmo pano de prato.


Foi a última noite daquela semana de férias. E a primeira de uma vida inteira.

Tuesday, March 25, 2008

Sob o céu de Gibeon (continuação)


Porque uma conversava deselegantemente ao telefone ou porque a outra brincava com o palitinho de picolé no fundo do novo copo de caipirinha, revolvendo o açúcar branco entre as pedras de gelo e as rodelas verdes de limão, ou porque estavam tão distantes – embora estivessem centímetros uma da outra, poderiam estar em mesas separadas. Mas, naquela tarde de sexta-feira de em julho friorento, elas se colocaram e se encontraram no mesmo lugar, cada uma do seu lado da mesma mesa. Isabela terminou a ligação, retirando os óculos de sol, dobrando suas hastes e colocando-o ao lado do seu copo, ainda cheio, de caipvodka. “Eu te ligo de volta” e ela fechou o flip do celular; mostrou-o a Débora, balançando a cabeça negativamente de um lado para outro, porém com um sorriso calmo nos lábios. Isabela não entendeu quando a outra parou de remexer o palito no copo e fitou, silenciosa, primeiro o celular desligado e, levantando a sobrancelha esquerda, fitou-a também. Débora abandonou o laborioso exercício de dissolver o açúcar e recostou-se no assento da cadeira, apoiando seus ombros na proteção de madeira. Entrelaçou os dedos e apoiou-os sobre o abdômen.

- Lembra da primeira vez que a gente veio aqui? – Isabela permanecia com o sorriso diáfano, colocando o celular ao lado dos óculos e do copo, - não tinha aquele ambiente ali em cima, nem esse balcão enorme aqui do lado, mas as cadeiras eram as mesmas e as mesas continuam tão sujas quanto.

Débora tentou sorrir, mas apenas ensaiou um movimento de boca. Há quase dois anos, ela disse olhando para a avenida lá embaixo, parece que é mais recente quando você está por perto. Isabela consentiu com a cabeça, tornando a buscar o celular que, desta vez, não tocou. Apenas o abriu e brincou com as teclas, colocando-o entre o olhar de Débora e o seu. Demorou alguns minutos entre os barulhos eletrônicos e completou: “faz um ano, onze meses, cinco dias e quinze minutos”; bateu as duas partes do celular e devolveu-o à mesa. “Só posso ser tão específica porque o celular ainda é o mesmo”. “E o mesmo toque chato também”, Débora retorquiu com os dentes brancos à mostra. E, pela primeira vez na tarde, elas compartilharam o mesmo sorriso nostalgicamente doce e, assim, diminuíram a dimensão da mesa daquele restaurante.

A avenida que margeava o restaurante tinha pistas largas em suas duas mãos, o suficiente para caber três carros paralelos em sua dimensão de largura. Havia faixas de sinalização pintadas de branco em linhas pontilhadas e em linhas contínuas também brancas que acompanhavam o passeio e o canteiro central, no qual um jardim de flores vermelhas e luzes amarelas de postes mais baixos preenchiam o vazio entre os movimentos dos carros em direções opostas. Apenas ameaçava cair a tarde, mas já se podiam ver os primeiros globos de luz se acenderem ao longo do canteiro, especialmente porque era inverno e anoitecia mais cedo, além do fato de a noite durar insuportavelmente mais. Embora houvesse nuvens, como Isabela poderia descrever, havia estrelas prematuras no céu que ainda era azul claro. Débora quase fez um pedido quando avistou a primeira delas, mas enxergou uma outra pequena estrela, apenas um ponto de luz distante daquela primeira, e o pedido retornou da garganta ao centro do peito. A avenida, ao contrário das demais da cidade, não se interrompia em cruzamentos, apenas se pausava em sinais e em faixas de pedestre; era extensa e entrecortava toda a pequena cidade que havia crescido ao seu redor, com suas lojas, bancos, bancas, prédios, cinemas. Por ser sexta-feira, o movimento rotineiro estava mais alegre; os comerciantes baixavam as portas de suas lojas sorrindo e contando anedotas, os transeuntes diminuíam a rapidez dos passos e a atmosfera, por assim dizer, ficava inebriante, como se estivessem às vésperas de uma grande festividade. Das calçadas laterais, podia se ver as copas das várias árvores que se tocavam sobre o canteiro central, durante o percurso extenso e longínquo da avenida. O tronco nascia como uma insuperável natureza, chegando até mesmo a trincar o concreto das calçadas, e seus galhos iam se espalhando para cima e para os lados, primeiro sutis, mas depois se engrossavam e se sublinhavam, ficando cada vez mais finos à medida que se distanciavam do chão; quando a mancha verde de uma árvore de um lado da avenida tocava a mancha verde da outra árvore na outra calçada, um portal de sombra e folhas se formava, sob o qual, o prefeito atento, eventualmente, resolveu colocar pequenos bancos feitos também de concreto, nos quais cabiam duas ou três pessoas e onde se podia ler as propagandas das empresas dos seus familiares e comensais. O restaurante onde elas estavam se encontrava numa esquina entre um arco verde de duas árvores e um semáforo, sob o qual havia uma faixa de pedestre. Nas outras três esquinas havia uma loja de roupas com suas vitrines de vidro e modelos de plástico, um prédio moderno de quatro andares no qual um banco se instalara e uma pequena reentrância da calçada que se expandia como se fosse uma praça retangular, na qual havia um busto de homem e uma legenda ilegível pelos desenhos pixados dos jovens rebeldes da classe média. Nessa espécie de largo, iluminados por vários postes em disposição de passarela, semelhantes ao do canteiro central, havia quatro jardins circulares arquitetonicamente separados e ao redor desses, bancos que acompanhavam o círculo florido, com as já citadas propagandas coladas nos seus encostos. De onde Débora estava, numa espécie de sacada a céu aberto do restaurante, ela podia ver as pessoas gesticulando entre os diálogos, um homem que se precipitou sobre uma mulher, a qual recuou no banco, fugindo do rosto dele. Terminou o segundo copo da bebida para começar a falar:

- Achei estranho você me ligar quinta-feira à noite da sua casa, – disse pausadamente buscando a bolsa que estava dependurada na cadeira - se tivesse ligado do celular, do trabalho, tudo bem – e completou levando à pequena bolsa de mão à mesa-, mas você quase nunca fica em casa, muito menos às quintas-feiras e à noite! - quando terminou o discurso, já tinha o maço de cigarros e o isqueiro em mãos.

Isabela virou o rosto de lado, escondendo um sorriso em fuga, como numa pose próxima a de Vênus de Milo. Débora podia enxergar com a clareza da proximidade o risco do maxilar de Isabela, logo acima do pescoço. Era um rosto levemente quadrado, no qual uma linha geométrica cheia de ângulos saia do labirinto da orelha, se redescobrindo entre mechas de cabelo ruivo, curvava-se na mandíbula e caminhava solenemente até a pequena suspensão à altura do queixo, onde descansava no primeiro traço dos lábios que, embora não fossem carnudos, eram marcantes e, naqueles instantes, estavam separados pelos dentes que não se podia esconder.

- Estava encaixotando algumas coisas para a mudança. É incrível o tanto de inutilidades esquecidas que se pode encontrar num armário – disse rabiscando o forro da mesa com o palito da capivodka – e achei um perfume seu entre umas blusas minhas. Pensei que tinha lhe entregado, mas na confusão... – e moveu os ombros como se eximisse de uma culpa.

Débora franziu o cenho e recuou ligeiramente a cabeça, tomando uma distância para enquadrá-la numa visão maior. “Qual perfume?”, indagou. Isabela forçou o lábio inferior um pouco para fora e apenas balançou negativamente a cabeça.

- Não sei. Quando eu o retirava do meio das blusas, isso é, ele estava enrolado naquela minha blusa preta, se lembra? Pois bem, quando peguei a blusa, o frasco caiu no chão e se espatifou – Débora ouvia a explicação mais interessada em lembrar da blusa preta -. O resto do perfume que tinha derramou no tapete do meu quarto. Eu trouxe apenas a tampinha. Vê se você lembra do cheiro.

Isabela retirou do bolso da calça uma tampinha cúbica prateada com um furo no meio, no qual a outra parte da embalagem se encaixaria. Era pesada, como se fosse de metal, mas era feita de algo magnético, talvez um ímã, pois Isabela a usara como enfeite da sua geladeira por um tempo, entre pequenas réplicas de cachos de bananas e propagandas de farmácia e tele-entrega de comida chinesa, segurando uma foto contra a brancura limpa do eletrodoméstico. Antes de entregá-la a Débora, entretanto, levou-a até o nariz e lembrou com exatidão da foto que ela segurava. No retrato, também era junho, um outro junho menos frio, no inverno anterior; atrás dos dois vultos, um mar esverdeado e sem ondas maiores e um céu colorido em tons rosa e sem nuvens ao fim do dia; no espelho inquieto de água que o oceano fazia, o céu se refletia, se desmanchando em todas as cores na maré que trazia até a praia algumas algas flutuantes. Ao canto direito da foto, sobre o ombro felpudo de um casaco de frio, via-se o braço de terra da enseada que tentava abraçar um pedaço de mar para si. Isabela apertou, uma última vez, a tampinha do perfume quebrado nas mãos, antes de entregá-la a Débora.



Sobre a foto: originada do Site Olhares; autor: Paulo A.

Tuesday, March 04, 2008

Sob o céu de Gibeom


“(Josué 10:12) - Então Josué falou ao Senhor, no dia em que o Senhor deu os amorreus nas mãos dos filhos de Israel, e disse na presença dos israelitas: Sol, detém-te em Gibeom, e tu, lua, no vale de Ajalom.

(Josué 10:13) - E o sol se deteve, e a lua parou, até que o povo se vingou de seus inimigos. Isto não está escrito no livro de Jasher? O sol, pois, se deteve no meio do céu, e não se apressou a pôr-se, quase um dia inteiro.

(II Reis 20:11) - Então o profeta Isaías clamou ao Senhor; e fez voltar a sombra dez graus atrás, pelos graus que tinha declinado no relógio de sol de Acaz.”

Isabela achava que iria chover em breve; as nuvens se amontoavam no lado oeste do céu da cidade e, embora completamente brancas, eram muitas; por isso, Isabela as olhava com a astúcia de quem sabe que aquele branco se converteria, pela noite, em cinza, depois laranja e se precipitaria sobre os telhados das casas, escorrendo pelas calhas e bueiros. Emburrava-se e não compartilhava sua opinião com Débora sobre o tempo naquela tarde; mais do que isso: acreditava que ninguém, muito menos Débora, gostaria de ouví-la. Os cabelos presos no alto da cabeça começavam a incomodar e ela constantemente os reajeitava, balançando, assim, as mechas de cabelo ruivo pintado de um lado para o outro, num movimento largo de desconforto. Assim que viu a primeira camisa social branca adornada por uma gravata borboleta preta passar, levantou o braço no ar e ergueu o indicador.

O bar começava a encher, mas elas haviam chegado cedo e pegaram uma das melhores mesas, com vista para a avenida movimentada. Os carros iam se estacionando ao lado do passeio e deles surgiam outros rostos, outras roupas, outras vozes. Umas caminhonetes mais à frente, quase na esquina, revezavam entre si em quem colocava o som mais alto; com o ressoar dos altos falantes, se podia sentir o corpo entrando em ressonância com as notas mais graves dos funks e axés que eram espirrados para fora das caixas de som, instaladas nas carrocerias. O garçom, sorridente, se aproximou da mesa segurando a bandeja metálica junto ao avental preto, à altura do peito. Lançou olhares simpáticos às duas mulheres que se vestiam tão sobriamente e se encontravam sentadas tão distantes uma da outra. Ele achou engraçado, pois duas ou mais mulheres sentadas numa mesa de um bar como aquele, em plena tarde de sexta-feira, geralmente tocam-se nos braços repousados sobre as mesas e cochicham, nos ouvidos das outras, risadinhas e frases marcadas de ironia. Não elas duas. Desfazendo-se do sorriso, ele baixou a bandeja e revelou um cardápio sobre a circunferência metálica. Ofereceu-o a Isabela, porque ela lhe parecia mais velha, talvez pelo batom vermelho quase grosseiro que lhe sujava os lábios ou, talvez, apenas porque por trás daqueles óculos de sol ele imaginasse rugas escondidas. Tomou do bolso um bloco de papel com a beirada vermelha de adesivo, como desses que se vendem barato pelas papelarias. Da orelha, buscou a caneta azul sem tampa e esperou silencioso que elas fizessem o pedido. Mordia a ponta da Bic quando elas terminaram de fazer os pedidos; repetiu “duas caipvodkas com açúcar e uma travessa de frios”, num tom audível apenas para os três. Ele se despediu com um sorriso de boca fechada acima do queixo mal barbeado, levando a bandeja debaixo do braço.

Débora tentava fazer origame com os guardanapos de papel, enquanto, na verdade, ouvia a conversa dos vizinhos de mesa. Qualquer desculpa para evitar a desatenção calculada que Isabela fingia repousar sobre ela, por trás dos óculos, escondida, olhando para além da silhueta inclinada sobre o saleiro. As pontas dos cabelos curtos de Débora, cortados logo abaixo da orelha, raspavam, suave, sobre suas bochechas e cócegas lhe faziam levar a mão ao rosto. Insistia em tentar prender o cabelo atrás das orelhas, mas logo que baixava o olhar para a mesa, a fim de continuar o passatempo inútil de construir um barco de papel com os guardanapos ou equilibrar o saleiro sobre o porta-palitos, pequenos fios iam se desprendendo, contornando a beirada da orelha, até que grande número de fios pretos se rebelasse e voltasse a esbarrar na bochecha. Seus cotovelos, com certo asco, não se encostavam no pano de mesa vermelho sujo de farelos de torrada, palitos de dente e guardanapos amassados e ela mantinha os cílios longos e pintados à frente dos olhos semi-cerrados, evitando qualquer eye contact com Isabela que, embora fitasse o céu a oeste da cidade, com suas nuvens brancas e suspeitas, passeava o olhar pelas sobrancelhas quase grossas de Débora, uma vez que os olhos estavam escondidos atrás dos cílios e das pálpebras tímidas.

- Vai chover – Isabela lançou as palavras para ar, como fumaça de cigarro, apertando os olhos.

Débora ainda demorou alguns segundos conferindo a última dobradura e passando a ponta da unha sobre o guardanapo, mas olhou para cima, para o céu no lado leste da cidade, que ficava à sua frente e às costas da outra.

- Acho que não... – e, antes de se voltar para o projeto de barco que começara, parou alguns instantes. Observava os lábios de Isabela que, embora pintados, estavam desenhados com pequenas trincas verticais, como se estivessem secos. E estavam. Olhava com precisão, como se algo estivesse prestes a saltar daquela boca. O garçom se aproximou e cortou a visão de Débora com o movimento de seu braço até a mesa, onde depositou os copos de caipvodka, um por vez. Isabela rapidamente tomou o primeiro gole, molhando os lábios com a vodka quase pura e, só então, com o movimento brusco de Isabela foi que Débora deu atenção ao seu copo. Tomou o palitinho de madeira entre os dedos e remexeu o fundo do copo, onde montes de açúcar branco começavam a se dissolver na transparência da bebida.

O telefone de Isabela tocou e fez vibrar a mesa, provocando ondas irregulares sobre a superfície da vodka de Débora. Assim que o telefone atendeu, o copo se esvaziou. Restaram apenas cubos de gelos mal derretidos e rodelas de limão que ainda resguardavam sabor. Passou as mãos sobre os cabelos e, durante alguns instantes, eles se mantiveram suspensos, acima das orelhas; mas, rapidamente desabaram sobre as bochechas, roçando ainda mais contra a pele clara de Débora. O “alô” da outra trincou a atmosfera silenciosa, ao mesmo tempo em que ela levantou o indicador no ar e, atendida pelo garçom, apontou para o copo quase vazio.

Em neon

O que se segue são, mais do que correspondências, explicações e epifanias. Explicações, aliás, parcas e complicadas que nem explicam nada. Ao leitor, recomendo não ler, sinceramente.

14/11/07

Confesso não saber fazer uma quase dissertação sobre teu nome. "Ana" é um nome comum, embora desperte (pres)sentimentos distintos em diferentes pessoas - Ana quase sempre é um pre(con)texto, Ana nunca é neutra, é lembrança ou saudade, ódio ou remorso, paixão ou desilusão. Posso afirmar que Ana é um personagem-autor: jamais saberia se desvencilhar do ato de escrever sobre alguém/algo, mas, como qualquer escritor, também não conseguiria, dentro de seus dizeres-confissões, não falar de si mesma. Então, Ana nunca é singular, é sempre pluralidade, a unidade destrinchada em várias realidades. Clarice escreveu, sim, sobre Ana e o título do conto, fazendo jus ao nome da personagem, também é "simples", breve e facilmente silabado, mas infinitamente maior do que o significante: "Amor". Aqui lhe transcrevo um trecho do conto de Lispector:

"No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado."

Mas, como leitora-escritora-personagem-contexto (gostei muito de ler suas palavras "hifenizadas". Como Freud teorizou, é um unheimliche: estranhamente familiar, pois eu também faço muito isso), não poderia não aproveitar a deixa e falar do conto de Caio F. que mais se aproxima de uma Ana qualquer, mas que também é a minha Ana (já não sei responder se é personagem ou autor): "Sem Ana, Blues". Você me ofereceu o poema "Mapa"; eu lhe ofereço o meu conto favorito. Podia colocar aqui o link, mas a procura pela Ana do Caio lhe fará bem, porque o conto começará na procura por ele(a) (conto ou personagem-Ana), já que o próprio personagem da obra procura por Ana (e assim, eu te coloco menos como leitora e mais como personagem).

Teu nome (andei procurando) de origem anglo-saxônica que significa "é dotada de um temperamento impulsivo, que não cede diante de nenhum tipo de pressão. Luta para alcançar suas metas. Sempre investe com sabedoria e precaução". Então, mais uma vez fazendo o uso das interrogações (que já são personagens dos nossos "depoimentos"), eu indago se você é o sujeito da sentença acima. Pela maneira como se sentiu estranhamente familiar com as minhas palavras sobre você - personagem ou autora, não importa -, acredito que o temperamento impulsivo é apenas adendo da bagunça transcendente, da sua não linearidade que nos traz até esta exata linha. Posso concordar com a sabedoria, ou melhor dito, posso admirar-concordar com a sabedoria. Sobre a precaução, deixarei para você mesma me falar.

Sobre a sua manhã chuvosa... gostaria de conhecer esta Ana. A filha e o pretexto do conto ou do eu-lírico. Acredito que, lendo -o, conhecerei um pouco mais de você: personagem-e-autora. O aparecimento da Ana, há dois ou três anos, é mais uma das realidades das Ana's: destino ou coincidência. Não se preocupe. Sempre responderei suas interrogações. Algumas não precisam de respostas, porque no exato momento em que são construídas, vislumbram a resposta dentro delas mesmas (como um autor que não necessita entender um personagem, já que ele é criação e reflexo próprio).

Não sei dizer se sou realmente pisciniana ou aquariana. Nasci no limiar dos signos, nas últimas horas do dia 19 de fevereiro em que o universo abandona a solidão de Aquário e adentra a incompreensão de Peixes. Ascendente em Escorpião é fato. Sobre a bela cena da sua vida, eu poderia, aqui, retomar a nossa discussão sobre personagem-autor, e utilizar da metáfora da água caindo dentro de mais água, ou seja, o escritor se diluindo no personagem (ambos são a mesma matéria, água, logo são o mesmo princípio-fim). Todo autor se precipita sobre o personagem, como toda chuva cai sobre um lago numa manhã cinzenta e nublada. É sempre nublado o ato de escrever. Sabe-se que se escreve-chove, mas nunca se sabe ao certo a vazão das letras e dos lagos. Bom, acho que abusei demais.

Será sintonia astral? Bom, não sei. Compartilhamos uma paixão. Mais do que isso: compartilhamos perguntas.

É. Talvez seja uma sintonia astral.

Tenha uma boa semana, com manhãs chuvosas e ensolaradas.

26/01/08

Eu demorei muito, eu sei, para responder. Mas, foram os contratempos da vida, principalmente. Mas, agora, que essa fase veio ao fim, eu reservo esses minutos para escrever com calma a alguém com quem eu quero tanto conversar e, especialmente, alguém para o qual não se pode simplesmente escrever em contratempos.

Como anda a bagunça transcendente? Virou "quadrilha" agora ou se organizou numa "quadrilha"? No nosso último contato - se você assim me permite colocar o seu último "testimonial" - você falava sobre a vida ser um "carrossel bêbado" e falava que essa frase surgia em neon na sua mente. Achei engraçado você dizer isso - um sentimento unheimliche, como Freud disse -, exatamente porque certos momentos, na minha vida, certos pensamentos vinham escritos com letras luminosas em neon. O próprio layout do meu blog é feito em luzes azuis de neon. Curiosa fico para saber do neon em você. Quero que você sempre escreva sem se preocupar. E escreva sempre. O que nos aproximou foi o acaso (ou outro caso qualquer) e o próprio acaso é algo espontâneo, ainda que possa ser premeditado.

Não ser inteira seria negar os laços que estamos construindo. Por isso, seja inteira como eu também serei (parodiando Lispector em "perca-se como eu me perdi").

Você faz Letras. Como é fazer Letras? Em que você pretende se especializar? Ainda penso em fazer Letras, como um bem para mim mesma. Medicina é a esposa; Letras a amante.

Sobre os três objetivos da sua vida. Falar espanhol é interessante, é uma das línguas mais faladas no mundo (além de ser charmoso). Mas, eu tenho preferências pelo inglês e pelo italiano. Sobre o violão, eu endosso o objetivo. Toco violão desde os cinco anos e não há nada mais terapêutico do que passar horas com ele, os dedos já calejados nem reclamam mais. Você tem preferência por algum estilo ou banda, quando toca? At last, but not least, nunca fui à Petrópolis.

Como mineira, só coloquei os pés no estado do Rio, até hoje, em Cabo Frio. O que em Petrópolis que te faz querer ter uma casa lá? Gostaria de saber mais da garota parabólica. De como foi o Natal, o Reveillon, a correria que deve estar enfrentando nesse começo de ano. Queria saber, ainda, porque a garota parabólica deu uma das mãos na quadrilha, mas ficou com a outra mão solta no ar: "quae ardebat neminem". Queria que nossa distância não fosse mesmo separabólica e, se precisar de uma outra mão, para dançar a quadrilha, em latim, espanhol ou francês, cá estou. Por isso, lhe ofereço meu e-mail, caso algum dia, você possa mandar alguma coisa, dividir uma bagunça transcendente que toma contornos literários, idéias que giram no carrossel da vida, ou mesmo sem motivo algum, apenas para saber que está dado o passo.

Hasta la vista!

(sem data)

Bagunça transcendente define mais do que nunca a minha vida no momento! Trabalhando muito-muito-muito-muito! Só vou ter folga depois do Natal...

“A vida é um carrossel bêbado”, um amigo poeta disse-me uma vez... E desde então, sempre que eu fico de ressaca ou quando a vida se mostra loucamente cíclica ou quando tudo é novo de novo essa frase surge em néon em minha mente. Queria escrever com mais tempo, com mais cuidado, mas acho que ser inteira talvez nos aproxime mais do que tentar sempre medir tudo o que eu escrevo, com a busca por uma perfeição inexistente de quem faz um poema. Faço Letras. Pretendo me formar no bacharelado no ano que vem. Trabalho numa livraria. Adoro trabalhar com livros!

Falando em língua, acho espanhol um idioma lindíssimo! Li um livro uma vez (travessuras de menina má, do Mário Vargas Lhosa) em que o objetivo de vida do protagonista era morar em Paris. Posso dizer que três dos meus objetivos de vida são: aprender espanhol, dominar completamente o meu violão e ter uma casa em Petrópolis. Gosto de várias formas de arte e de seus diferentes tipos de linguagem. Gosto de dominar linguagens... de aprender coisas novas, de viver coisas novas... posso dizer que o novo me assusta e me encanta. Fiquei curiosa para saber quais serão os objetivos de vida da senhorita...

Garota parabólica... não conhecia, mas já passei a conhecer...

– Então...Proponho um brinde a nossa distancia não separabólica!

Tudo de bom para você, menina-Ana!

03/03/08

"Ouça: respeite mesmo o que é ruim em você - respeite, sobretudo, o que você imagina que é ruim em você - pelo amor de Deus, não queira fazer de você mesma uma pessoa perfeita - não copie uma pessoa ideal, copie você mesma - é esse o único meio de viver.Juro por Deus, que se houvesse um céu, uma pessoa que se sacrificou por covardia - será punida e irá para um inferno qualquer. Se é que uma vida morna não será punida por essa mesma mornidão.Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo aquilo que sua vida exige. Parece uma vida amoral.Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma. Espero em Deus que você acredite em mim. Isso seria uma lição para mim. Ver o que pode suceder quando se pactua com a comodidade de alma."

Como uma personagem Clarice-Ana em um intenso processo de aprendizagem... sinto-me assim. Ainda procuro equilíbrio entre a busca pelo melhor que posso ser e a aceitação do que sou. Equilíbrio entre a vontade e o que a contraria. Se render a uma vontade, fazer acontecer ou esperar que o universo siga o seu ritmo sem insensatas interferências ? Bagunça transcendente, carrossel bêbado, quadrilha... procuro sempre em vão desatar nós de fios invisíveis. Eis o que me lança nos becos da literatura. Eis o motivo pelo qual eu faço Letras.

Compartilhamos o pensar/sentir em néon e os contratempos da vida que resultam em longos espaços entre um escrito e outro. Confesso que só agora começo a me recuperar do trauma de guerra do período de vendas de livros didáticos. Período do ano sem nenhuma poesia para mim. Um mar de problemas! Tenho planos de fazer mestrado em literatura portuguesa. Pessoa, Florbela, Cesário Verde... Adoraria estudá-los mais! Gosto de tocar o que costuma ser rotulado como MPB: Kid abelha, Jorge Vercilo, Leoni, Cazuza, Djavan, Paulinho Moska... mas não posso dizer que toco sem me sentir culpada, já que a minha mão direita não colabora muito com a esquerda.

Fiquei curiosa para conhecer o seu blog... Menina-Ana que tem como amante a literatura, que decifra o que eu escrevo em latim e ainda toca violão... Um dia eu gostaria muito de conhecer os seus defeitos( Claro, se houver algum...).Creio que se um dia eu chegar a conhecê-los, será por termos alcançado uma intimidade própria das pessoas que se conhecem bem e se gostam e se respeitam ainda assim. Adorei a sua ultima mensagem! Sempre é muito bom receber mensagens suas, mas a última foi de uma delicadeza rara. Pena que você não fez prova aqui para o Rio! Ia adorar encontrar-te acaso em um dos campus...

São três e vinte e nove da manhã... peço desculpas pelos tropeços de coesão e coerência. Comprei finalmente “Morangos Mofados” do Caio e não pude deixar de te escrever. Que você tenha uma semana linda!

Tudo de bom, Ana! Com sincero carinho,

04/03/08

"Só depois desse primeiro momento, nenhum segundo, nem uma fatia mínima de tempo: um instante ínfimo em sua pequenez, máximo na sua amplitude e incompreensão, porque só o incompreensível é infinito -só depois desse primeiro momento é que te dobrarias para ti mesmo, a palavra latejando na memória, no corpo inteiro, nas mãos contidas, e te perguntarias lúcido -aéreo? Alado, talvez. Pensarias outras palavras, buscando já sonoridades, ressonâncias, ritmos, mas nenhuma delas, por mais lapidada que fosse, seria maior que aquela primeira. Nenhuma. Todo perdido dentro do nascido involuntário dentro de ti caminharias confuso pisando o cascalho." (Caio)

Fiquei procurando a palavra. Procurei a minha, a da Clarice, a da Lygia, do García, mas só a do Caio caiu. E só veio, assim, porque até ela também não se encontra. Queria dizer “obrigada”; pelas palavras, pela delicada raridade que é você, pelo momento em que me mandou uma coisa que eu precisava ter. Você nem sabe, provavelmente não irá saber, mas fez um bem muito maior para mim. Nem dizendo isso, nem lhe deixando ciente do bem, você não conseguiria vê-lo todo, nas suas expansões menos prováveis.

Acho que me atrevo a dizer que entendo um pouco do seu carrossel bêbado, da quadrilha de mãos vazias, da bagunça transcendente. É a eterna guerra entre o caos e o cosmos. O poder revolucionário e superador do caos contra a aceitação e a paz seqüestrada do cosmos. Tomara que nenhum deles nunca vença. É o abismo entre eles que, creio, nos leva para o que é o melhor de nós, o único meio de viver.

A notícia de que você comprou “Morangos Mofados” é um bom sintoma de que você está superando o mar didático no qual ficou mergulhada.

É sua mão direita que não colabora? Diferente... geralmente os “violeiros” reclamam mais da esquerda. Mas, é uma boa notícia. Dando mais atenção para ela significa que teremos bons dedilhados vindo do seu violão, em breve, seja tocando Djavan ou Vercilo.

Meus defeitos estão por aí e acho que só eles medem o que eu realmente sou. Pelo que eu perco com um defeito, o que fica ou resta de mim é sempre essencial, quase destilado. Mas, se você continuar falando tão bem assim de mim, é bem possível que eles diminuam. Brincadeiras à parte, se a intimidade um dia chegar, ela será tão bem-vinda como você sempre é.

Como na música do Paralamas: “como é importante o que o vento traz ao acaso/ não vê que a casualidade é uma força inesgotável”. Que não seja num campus... seja em Petrópolis, com neblina, frio e lareira.

Uma semana menos didática para você.

Com carinho,

Thursday, January 24, 2008

Três tempos

"Essa semana eu te encontrei
Você estava tão bem
Nem parece que a pouco tempo atrás
Fomos algo muito além
Seu telefone, a minha voz
Tudo, agora, é diferente
Um quarto frio, cama, cartas, lençóis
E a decisão é permanente
Estamos livres
Hoje a noite eu vou sair
Quero dançar
Estamos livres
Só vou chegar após o sol raiar
Estamos livres
Hoje a noite vou sair
Quero dançar.
Preciso confessar:
Queria tudo de volta
E o coração, no seu lugar
Queria tudo de volta no seu lugar"


(Anjos de Metrópole - Três Minutos Pra Voltar)

Antes que ela desligasse ou mesmo antes que eu desligasse, naqueles três minutos que restavam antes que a ligação viesse ao fim, antes que eu jamais pudesse novamente ligar para ela com aquela mesma intensidade, sem dizer alô, sem dizer tchau, apenas despedindo com alguns silêncios, apenas cumprimentando com uma risada, apenas dizendo que sentia saudades com metáforas escandalosamente discretas, antes daqueles três minutos finais, eu deveria ter dito muitas coisas. Antes de deitar o telefone azul no seu aparelho também azul, antes de sair de casa batendo a porta atrás de mim, antes de andar de carro pelas ruas ocas da cidade em plena madrugada, antes de perdê-la e me perder, deveria ter dito as coisas que eu não calculava, coisas que eu não saberia escrever, deixar nas folhas brancas de um livro como dedicatória ou num guardanapo como lembrança para sua gaveta de recordações, coisas que talvez ela esqueceria com o passar dos dias, coisas que não caberiam num cartão postal, coisas que não se sustentariam no painel de um celular e nem na página de um blog: coisas do além de mim. Deveria ter dito que durante muito tempo o meu silêncio foi o meu crime velado; a gaveta onde tudo ficou guardado, se remexendo, se debatendo, desestabilizando o resto todo do móvel, coisas que aprenderam a dizer não dizendo, que aprenderam a cantar com rimas. E ali, com a mão no puxador da gaveta, sem ser capaz de movimentá-lo, apenas sentindo o tremor da sua inquietude nos meus dedos, os mesmos que, então, apertaram o botão de desligar do telefone. Deveria ter corrido mais, pegado um ônibus, um avião, outro ônibus, um táxi. Naqueles três minutos contados no visor do identificador de chamadas, não deveria haver o silêncio, não novamente o silêncio perturbador de quem se cala por não saber o que dizer ou não saber como dizer. Queria ter dito que, naqueles últimos três dias e nos três dias antes daqueles e nos três dias anteriores a esses, o silêncio que ela conhecia pela mudez da ligação tomou contornos diários e se disfarçava na leitura de um livro ou na exibição de um filme. Nem sempre em choro. O choro só aparecia no banho quando a água da lágrima se fundia a água dos minúsculos buracos da placa crivada do chuveiro. Nunca deixou de ser silêncio: antes e depois. Queria ter dito que errei algumas vezes pela pressa infantil de acertar poucas vezes, pela saudade que não suportava a microdistância longínqüa, pela insensatez da saudade daquilo que estava por vir, pela saudade que via, em tudo o que é dourado, uma sombra de luz daquilo que era pleno. Diria que passei algumas noites interrogando a memória, escrevendo na parede branca do quarto, encostada à cama com as pontas dos dedos; que fazia comentários sussurrados no escuro do quarto para ninguém ouvir, que olhava com dor para todas as janelas mais altas dos prédios, que todas as placas verdes de letras brancas pelas quais eu passava durante as viagens, que todas elas apontavam um familiar e estranho destino do qual, agressivamente, eu me abortei, para o qual eu não caminhei. Deveria ter dito que pensava na marca do xampu que usava e que deixava os cachos tão bem desenhados e, por isso, me divertia durante as compras no supermercado abrindo as tampas dos xampus especializados em loiro e cheirando aquele velho aroma guardado dentro das embalagens quase sempre amarelas. Com sorte, um dia, alguma delas, Palmollive ou afim, tinha um girassol impresso no rótulo e, ainda que soubesse que ela talvez nem conhecesse o maldito xampu, que quando estivéssemos lá, num supermercado da cidade dela, eu apontaria para a embalagem dele, controlando um sorriso envergonhado que aperta as bochechas e as torna levemente vermelhas. Deveria estar lá quando alugássemos “Volver” e eu segurasse a capa com as minhas mãos e acompanhasse o contorno das flores vermelhas que ornavam Penélope Cruz na capa. E perguntaria que flor era aquela? Aquela flor vermelha e cinza, eu repetiria, vermelha e cinza presa na orelha. Eu queria que fosse um girassol, mesmo que disforme, eu sabia que era um girassol, mesmo que a forma não fosse a de um girassol. Um girassol com pétalas vermelhas, será que ela entenderia? Um girassol que não é uma flor apenas. É uma inflorescência, um amontoado de flores menores e feias que unidas ali, entre as pétalas verdadeiramente amarelas, fazem o girassol. Um girassol vermelho com o miolo cinza. É um miolo cinza, vê?, eu diria batendo a ponta da unha sobre o centro da flor errada, como um jogo de sete erros entre o girassol vermelho e o girassol amarelo. Vou assistir ao filme, mas jamais serei capaz de vê-lo, envolvê-lo e me envolver nele. Tudo o que ele foi e jamais voltará a ser e tudo aquilo que deveria ter sido e não será. Never, for ever!, forever, never!.

Agora, depois daqueles três minutos, ainda estremecida pela proximidade dos fatos, agora, quando tudo está vazio, aqueles três minutos parecem preciosos. Parecem mais do que três minutos; são como uma caminhada de volta a qualquer lugar. Fico minutos pós-três-minutos, rabiscando com a caneta azul no papel da revista desenhos geométricos tridimensionais. Começa com um cubo e suas seis faces laterais; puxo triângulos de suas arestas e desenho pirâmides até que o rabisco no papel assemelha-se a uma estrela espacial. Entre os vértices das pirâmides puxo outros triângulos e, desses triângulos, outros triângulos, e outros triângulos até que o papel da revista esteja completamente coberto por um mosaico triangular e o cubo se camufle naquela confusão de três lados. A caneta escapa dos dedos e cai, exausta, sobre a folha da revista. Hoje: setenta e sete dias depois do dia oito, no qual os girassóis morreram. Vermelhos ou amarelos, morreram há setenta e sete dias, no dia oito de novembro, antes mesmo do verão chegar.

Haverá um porto seguro em algum lugar para ela, eu sinto. Qualquer coisa que está migrando na sua direção para lhe acalentar, lhe afagar as costas, lhe proteger. Uma pousada, como aquela pousada na qual fiquei sete dias quando também estava em Porto Seguro. A Pousada do Sol, com seus símbolos e cozinheiras chinesas e o cheiro de bolo de cenoura, que ela não gosta, feito logo pela manhã. Mas, talvez ela nunca conheça o porto seguro e jamais passe pela porta da Pousada do Sol e jamais sinta o cheiro do bolo de cenoura. Ficará ali, no litoral, nas águas rasas da praia, nas barracas de teto de palha, bebendo cerveja, fumando Sampoerna, falando de Bergman e das pernas-e-barrigas que passam pela tarde azul das praias nordestinas. Ela atravessará o mar que conhece tão bem e que eu conheço tão pouco. E beberá, fumará e falará de tudo e de nada, comandando a fala como quem rege uma sinfonia, como quem não precisa pedir atenção, como um gesto frente ao espelho. Talvez fale de mim. Três linhas com três pausas bem distrubuídas e nada mais, nem antes e nem depois. Três palavras. Falará no pretérito perfeito e no futuro do pretérito e, em último e terceiro caso, no presente. No papel de presente estampado com girassóis, na rosa vermelha, no envelope azul, na letra garrafal: não falará. Pressentirá qualquer coisa quando a brisa do mar desajeitar seus cachos espalhados pelo rosto: não ligará, recolocando-os desatenta atrás das orelhas. Aqui, a chuva de verão e o vento desajeitado que chega fraco depois de bater nas folhas da figueira à frente do meu prédio não irão refrescar o vapor dos dias e nem dissiparão as nuvens de fumaça do cigarro. Setenta e sete dias depois do dia oito, um vento que sopra lá não sopra mais aqui. O vento que é engolido no sumidouro do tempo. Setenta e sete dias depois do dia oito de novembro, quando os girassóis morreram, já no ante-princípio do verão.