Friday, December 14, 2007

Como uma primavera, em mim



"Eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfrentando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações - porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor."





(Para uma menina com uma flor - Vinícius de Moraes)





Roma me tem amoR (Pedagodia de simetrias e avessos)







Exatamente: falávamos de caracóis e era um (ou Sete?) silêncio muito grande. Naquela madrugada: desconhecidos -mas somente antes da plenitude. Um antes que, ad infinitum, não é nada muito além do depois e do agora. Amor e de-S-amor: inesperada, encarou-a pedindo (:) três vezes. Dentro do ônibus que corria para um destino com a segurança dos que sabem para onde vão (e ela tem a força de quem sabe que a hora certa vai chegar: quase noite, quase entardecer, quase tarde, quase nunca). Eu disse “é o mar mais longe que eu vejo, o sertão que já foi um mar, um amar de uma rosa” e comple(nitude)to “chove todos os dias aqui, não tenho relógio nem rádio, mas sei que deve ser por volta das três horas, porque é pouco depois que o sol está no meio do céu… é que eu também não tenho calendário, mas sei que era dia 08, de ou-outubro, e era quase noite no relógio do Sol”. Ela segredou como uma notícia mínima “estamos no horário de verão, o sol sempre se põe mais tarde”. Summer-time. Constelações: “menvolve”, e falávamos de mel, como naquele conto de Cortázar. “Fontes de mel”, disse tomando a xícara de chá de onde saiam línguas de vapor adocicado, como aqueles dos cigarros: "onda do mar do amor". Sampoerna, ela pediu três vezes. "Gosto de ver você no seu ritmo-rima", reconsertei os óculos. E de novo me vens e me contas do mar aberto das costas de tua terra, do vento (no sumidouro de qual espelho?) gelado soprando desde o pólo, nos invernos(inversos), sem nenhuma baía, nenhuma gaivota ou albatroz sobrevoando rasante o cinza(you know, grey is my favourite color), grau (diferenças, apenas diferenças)das águas para mergulhar, como certa vez, em algum lugar (num jardim, numa praia, quem sabe), rápido iscando um peixe no bico agudo, mas essas outras águas que lembro eram claras verdes, havia sol (…) e acho que também um reflexo (ou sombra?) de prata no bico da ave no momento justo do mergulho (na piscina, no mar aberto, então, me vens de novo)... e lentamente falho, e lentamente Caio cada vez mais fundo (para o fundo, profundo) e já não consigo voltar (as mãos não estão nos bolsos, mas nelas está algo maior, bem maior) à tona porque a mão que me estendes (and loving every minute) ao invés-inverso-inverno de me emergir me afunda mais e mais enquanto dizes e contas e repetes essas histórias longas, essas histórias tristes, essas histórias loucas como esta que acabaria aqui, agora, assim, se outra vez não viesses e me cegasses e me afogasses nesse Rio-mar aberto que nós sabemos que não acaba assim nem agora nem aqui.




Blue Skies
Caetano Veloso
Composição: Irving Berlin
blue skies

smiling at me
nothing but blue skies
do i see
bluebirds
singing a song
nothing but bluebirds
all day long
never saw the sun shining so bright
never saw things going so right
noticing the days hurryng by
when you're in love, my, how the fly
blue days
all of them gone
nothing but blue skies
from now on


Dados sobre a foto: http://olhares.aeiou.pt/foto1430610.html ; autor: António Lança

Friday, November 16, 2007

Ela é? (interrogação angariada)

"In every corner of my memory
There's no place you wouldn't be
lf anything, I wish I had
Another dream with you
Life was forever yesterday
Nothing in the world could take
Your love away, will I ever know
That time will ease the pain
For me someday"

(Scorpions - She Said)

"Fazia tudo de um modo metódico e parcimonioso, como se não houvesse nada que não estivesse previsto para ela desde seu nascimento."

(Gabriel García Márquez - O avião da bela adormecida )



Era quase meio-dia de sábado. Afonso Pena, Bahia, Augusto de Lima viraram corredores de hotel, cada prédio um quarto, cada porta uma promessa. O Maleta estava no seu louvor matinal, como se Hilda Furacão estivesse a momentos de chegar, na sua brancura felina e enigmática, saltando do livro e acalmando os ânimos: a rainha de volta ao seu castelo. Os mineiros se amontoavam, como formiga em volta dos doces, nas várias esquinas dos vários bairros avulsos de Belô e ninguém, se perguntado, saberia dizer o que faria ali, naqueles botecos boêmios de décadas, mal arejados e quase sempre escuros, com azulejos de decoração antiga, memórias de um tempo que nós, mineiros, temos o pavor de esquecer; amarelados e azulados quadradinhos brancos com desenhos florais colados nas paredes mofadas, esbranquiçados quase sempre pelo uso desses ácidos capazes de limpar a sujeira deixada pelas pessoas ali, um sujo humano demais encardido e infiltrado nas construções. Alguns quadros e fotografias pregadas em murais mofados e imundos por aquele vuco-vuco natural de quem tem sempre pressa nesses incontroláveis incentros urbanos, aquele vapor suado que exala do corpo cansado e perdido, como éteres de uma alma abandonada e passivamente sozinha. Mas, BH estava como sempre, senhora das melodias, de papo na janela com a Serra do Curral: violeiros que volatilizavam as vozes dos violões velados num bar de esquina, as palavras cantadas do sotaque sinfônico, o vento macio que aterrisava nas ruas, refrescando o calor da manhã quando vira tarde. Rodrigo e Daniel vinham comigo, caminhavam à frente, rebolando quando não havia mais ninguém para notar-lhes os traços de drag-enrustida-ansiosa-pelas-baladinhas-GLS e conversavam dando gargalhadas convulsionadas. Sem se entreolharem, sabiam exatamente para onde - e quem - olhar e o comentário seguinte era divido com muito louvor ou muita degradação e eles sempre preferiam quando podiam degradar o mundo todo, pois se sentiam terrivelmente degradados por essa cidade claustrofobicamente gay. Eu, mais atrás, rodava as listas dos telefones do meu celular, caminhando mais devagar, com meu salto plataforma-herança-da-convivência-com-dois-gays-altamente-cítricos-&-críticos, com apreço pela quantidade de figuras esquecidas e risos de canto de lábio pelas qualidades duvidosas das mesmas. No visor: Alexandre - aquela bicha oca, Ana Laura - aqueles olhos cansados de quem acabou de trepar seguidas-horas-seguidas, Aniele, Amanda – àquela que quase sempre ligava aos finais-de-semana, quando não havia mais ninguém avaiable na noite e ela precisava canalizar o impulso sexual freado durante a semana inteira no seu mundinho quadrado e hétero de secretária de escritório de advocacia (desses que ocupam o prédio inteiro e colocam os nomes dos doutores com letras maiores do que as portas), Beatriz – telefone discado só uma vez e jamais atendido, Bruno - outro veado incurável e byronista, com jeito de Quixote, sempre errante-e-errado, sempre crente de que a próximo caso ia ser definitivamente avassalador e o cara ia oferecê-lo uma passagem para Paris quando, finalmente, desenvolveria o francês de bar atrofiado e arriscado quando só haviam aquelas sapatões conhecidas e umas transas esquecidas sem remorso algum; de A a Z, nomes e nomes, com seus apostos explicativos mentalmente confabulados e vezoutra, uma memória de corpo que toca no meio do peito como sino de Igreja de cidadezinha pequena, com suas duas torres barrocas, pintadas de azul-e-branco e aquela porta imensa, sabe-se-lá se para o paraíso ou para o inferno. Rodrigo parou, deixando Daniel saltitar alguns passos a sua frente, e colocou a linha do ombro paralela à calçada, virando a cabeça como foto para a revista de fofocas, fitando-me com a sobrancelha arqueada metrossexualmente depilada – e disso ele tinha horror, homens com uma sobrancelha só. Esperou que eu me aproximasse sem tirar os olhos do vidro do celular.

- Pensando nas antigas ou nos “recalls”? – olhou curioso para o celular, enfiando o braço no laço que o meu braço fazia.

- Nem um, nem outro... – sorri dando um beijo na bochecha morena dele, livre de pêlos e com o adendo de uma covinha.

- Quero um cigarro. Gudan, de preferência. Só sei fumar assim: mentolado e antes do almoço – apalpou-me os bolsos da calça jeans e, como não achou nada, deu um tapa barulhento no meu bumbum – compra para mim, gata. Com essa bunda, você podia ser bicha. Bem – e o tom de voz desafinou cambaleante sobre o advérbio - passiva...

Pensei que seria bom fumar de novo. Havia parado há algum tempo, pois se tornara um vício terrível, coisa constante das noites úteis dos dias inúteis da semana. Entramos no primeiro bar aberto, desviando de umas pessoas que saiam em correria para o próximo bar, dando voltas nas cadeiras colocadas até no começo da rua asfaltada, essa mania galicista dos mineiros que ficaram presos no século XIX, crentes de que Belo Horizonte um dia será Paris (e a Torre Eifel, naturalmente, seria o Pirulito da Praça Sete, para felicidade descontrolada das lésbicas e gays, quando, então, a parada seria ao som da Marselhesa, com uma camisinha multi-colorida encobrindo o Pirulito enrijessidíssimo, como uma marcha dos mineiros sobre a França - gerais). Daniel - que a esta altura, já havia bebido três garrafas de Smirnoff e já se encontrava, somente por vontade própria, levemente bêbado – requebrava a anca entre as mesas e cadeiras, fazendo questão de esbarrar a bunda minguada dentro da bermuda branca de bolsos largos, o que não realçava em nada o pouco e magro corpo. Rodrigo sussurrou no meu ouvido de que ele, o Dani, acabaria se dando muito mal, d’onde já se viu bicha ativa ralar bunda em todo mundo? E eu ri divertidamente, apoiando minha mão sobre o ombro largo dele, seriamente travestido numa camisa social de cuidadosos dois botões abertos. Daniel foi o primeiro a chegar ao balcão e como de praxe, deu um tapa estrondoso na bancada. Alguns homens, sentados numa mesa do logotipo Skol, olharam-no com certa raiva, mas ele passou inerente e terminou a cena com um apoiar de mãos no quadril que tanto desejava ter mais largo: certas noites e certas taras. Um cara magro do rosto marcado pelo sofrimento, caminhou, com letargia, da pia de ardósia onde se encontrava até a figura andrógina do Dani apoiada no balcão, nos seus raquíticos um-metro-e-cinqüenta-e-Deus-ajuda, jogou o pano de prato quase marrom sobre o ombro. Não perguntou o que ele desejava, mas não foi preciso, já que o Dani se lançou imperativo:

- Oh garçom – e a voz saiu incrível e hipocritamente máscula – me vê um ice e um maço de Gudan.

O homem não disse nada, mas o olhou com as íris pretas furiosas e impacientes. Dani se virou para nós dois, apoiando as costas e as duas mãos sobre o balcão, rindo com os dentes brancos. “Voilà”, ele disse, concluindo como se estivesse sendo filmado pela câmera da curiosidade de todo mundo no bar. Rodrigo e eu balançamos a cabeça de um lado para outro, sorrindo e ironizando a atuação chinfrim do aspirante a Monroe. Dani fez um “pssssiu” e apontou, discreto, com o queixo, algum lugar à minha direita. Rodrigo não ouviu o chamado e foi ao encontro do garçom, para receber o ice e o maço, e pedir-lhe as desculpas, de quebra comprando a simpatia com uma gorjeta gorda. Esperei algum tempo para só depois olhar para trás, como quem procura as horas num relógio de parede. Era uma mulher aparentemente comum. Trajava uma calça jeans que afinava na canela e deixava à mostra o sapato de bico fino e preto, sem grande altura nos saltos. Desenvolvi o olhar clínico primeiro pelos pés, apertando com os olhos da imaginação a canela grossa que a calça desengolia. Mais acima, uma panturrilha pouco desenhada, mas arqueada, não sabia se pela posição das pernas ou por um hábito de academia. Panturrilha bonita que se alargava nas coxas com uma desenvoltura feminina, fazendo seus morros ligeiros nos devidos lugares. Como ela estava sentada, não soube dizer nada da anca, embora parecesse larga, como minha avó diria “boa parideira”. Uma blusa nem larga nem frouxa que, embora denotasse uma leve ondulação da barriga à frente, oferecia ao sabor e saber dos olhos, um colo resguardado pelo decote, forte e marcante, com o deltóide levemente trabalhado, os pequenos ossinhos do ombro que faziam um relevo misterioso, dando idéias fantasiosas do cheiro desprendido, do gosto por ser descoberto. Rosto quase quadrado, com um queixo proeminente, com desejos internos de ser um pouco mais furado. Maçãs do rosto coradas por um blush rosa, cílios pintados com a delicadeza renascentista, o tom do batom vermelho molhado do último gole na cerveja, os cabelos claros, castanhos suaves como vício de loiros. Uma inocência em se sentar com as canelas cruzadas por baixo da cadeira, como uma criança no banco da escola, esperando a mãe buscar no final do horário. Inocência que desaparecia com os trejeitos de mulher, quando jogava os cabelos sobre os ombros ou retirava-os dali, movimentando o ar ao seu redor. Era bonita, como qualquer outra beleza urbana. Muitos a olhavam, talvez até algumas também a tivessem notado. Quando terminei a primeira viagem visual ao corpo dela, nada havia acontecido. Ela não havia despertado nada além de um comentário silencioso de “é bem bonita e não é para o meu bico”. Olhei para o Dani sem expressão correspondente, não entendendo o motivo do “psiu” tão acentuado. Ele repetiu o movimento com o queixo, apontando-o na direção dela novamente. Meus olhos arregalaram-se exclusivamente para ele e bati a mão no ar para baixo, três vezes, silabando “menos, menos”. Teimoso como o próprio, tampou um dos lados da boca com a mão espalmada e falou baixo, embora fosse fácil para qualquer um ouvir o que ele dizia:

- Não olha agora, mas está te olhando – e virou o corpo de volta para o balcão, dando outro tapa sonoro, para desconcerto de Rodrigo que, a esta hora, já havia arrancado uma simpatia do garçom.

Incomodada com o comportamento do Dani, busquei o celular no bolso, por pura falta de onde colocar as mãos. Abri o flip do celular e, por descuido, apertei a tecla de “câmera” e no visor apareceram os tênis brancos do Dani. Apontei a câmera para mim, colocando o dedo no botão de tirar a foto; levantei o rosto um pouco, ensaiei um sorriso de revista e coloquei o telefone a alguns centímetros acima de mim. Foto tirada. Tornei a olhar o visor, mas a câmera não havia me focalizado: apareceu uma parte do meu rosto, a argola do meu brinco na orelha direita e no grande vazio da foto, ela reapareceu, dessa vez olhando com afinco para câmera, como se a foto fosse dela e por ela. She’s suddenly beautiful, eu pensei na música, enquanto passava o dedo sobre o painel do celular, sobre o exato lugar onde ela havia saído. Como um lapso provocado pela beleza astral dela, acreditei que naquela fotografia, eu a havia prendido no meu celular. Senti as veias das mãos pulsarem um sangue descompassado, o que afrouxou a intensidade com que segurava o celular. Não consegui fechar o flip e fui, devagar, virando o corpo na direção da mesa, sem me importar com qualquer fácil suposição de que eu me virava exatamente para olhá-la. Não, ela não me olhava e só então eu consegui fechar o celular mecanicamente, batendo as duas partes uma na outra com uma intenção sonora. Com o barulho, ela despertou de uma conversa com alguém que parecia especialmente cansativo; ela levou uma das mãos à nuca, como se massageasse uma dor no ápice da coluna e me olhou, ouvindo o que o outro falava. Olhou branco, primeiro, como se eu não estivesse lá. Pensei em desvencilhar, mas a foto no celular pedia para que eu ficasse, que agora seria minha memória quem tiraria a foto dela (ficaria presa nessa também?). Apertei o celular contra a palma da minha mão. Ela olhou ainda mais e eu vislumbrei naquele rosto claro um leve apertar das pálpebras, enrugando a pele ao redor dos olhos, como interrogações de uma fala não-verbalizável. Hipnose por livre arbítrio, não soube abandonar os olhos castanhos que me fitavam incógnitos; permaneci porque sentia que ela iria, de alguma forma, me dizer alguma coisa inaudível, uma mensagem da alma no espelho dos olhos, ou talvez apenas porque aquele olhar era muito mais uma afronta do que um convite. Mas, ela só olhou e olhou muito. E eu só olhei e olhei mais. Ela deu uma risada que começou com um sorriso quase infantil. Ainda olhava nos meus olhos quando a gargalhada nasceu, mas voltou a atenção e o motivo do riso para a companhia cinza que lhe atrapalhava a órbita. Ela tocou as costas da mão do colega de mesa, como se valesse de uma cumplicidade pela risada. Neste exato momento, Rodrigo me pegou pelo braço e fomos andando enquanto ele abria o box do Gudan, lutava contra a dificuldade de retirar um cigarro e colocava um na boca e, em seguida, um outro na minha boca. Caminhei para fora do bar, com quase todos sentidos lá dentro, preso na mulher das canelas grossas e do sapato de bico-fino; levei comigo só o doce do cigarro preso nos lábios, que também se tornou uma memória dela. Rodrigo chamava a atenção do Dani, que fosse mais discreto, desse menos bandeira, já mataram viados a doidado nessa cidade, com essa onda de vamos-jogar-os-bebês-no-Arrudas irão jogar teu pouco corpo morto lá. Daniel riu como se a risada fosse a grande resposta e o marco do seu triunfo no monólogo chato do Rodrigo. Respondeu “continuo comendo mais que você, enrustido”. Já havíamos nos distanciado do bar, quando eu percebi que não havia fogo para acender os cigarros. Rodrigo disse que compraríamos um isqueiro no próximo bar, mas eu precisava voltar e a desculpa do fogo era essencialmente válida. Desvencilhei das tentativas dos dois de me bloquearem o retorno. Apressando os passos, entrei de novo no bar, lutando contra a enxurrada de corpos que se movimentavam na porta do lugar. O olhar foi rápido em achar a mesa, mas nela, só restaram um cinzeiro cheio, dois copos e latas vazias. Um sentimento desanimado de estupidez maciça me correu o corpo e as pernas foram menos concisas em alcançar o balcão. Os olhos não entendiam o desassossego do coração, mas sabiam que precisam procurá-la. A foto n’alma e a alma da foto: possibilidades do imaginário e da imaginação. Apenas os vestígios dos dois ficaram consolados na mesa amarela encostada na parede. Do cinzeiro negro, restavam algumas guimbas apagadas dos cigarros, mas especialmente uma, não amassada, ainda estava parcialmente acesa e, sem qualquer pudor, lancei os braços na direção da mesa e tomei a pequena brasa nos dedos; aproximei-a do rosto, analisando em minúcias a coloração do batom que ficou marcada no papel branco do cigarro, e toquei a ponta da chama do cigarro na ponta escura e fria do meu Gudan. Um trago, dois e apenas no terceiro, instantaneamente, ambas pontas se fizeram rubras e a fumaça mentolada invadiu minha boca e narinas, reacendendo também a memória imediata do momento em que ela havia aparecido. Meus olhos se apertaram com a fumaça que irritava os olhos e, eu já ia me dirigindo ao balcão para pedir fósforos quando uma voz feminina, mas grave, ecoou:

- Se queria fogo, era mais fácil pegar o isqueiro, não?

Girei sobre os calcanhares. Ela estava de pé, agora, à minha frente e foi aí, então, que eu pude notar-lhe a altura de poucos centímetros medíocres maior do que a minha; as ondulações da barriga alisaram-se numa cintura afinalada entre o busto e a anca de um contorno curvilíneo. Meus calcanhares ameaçaram desprender-se do chão, quase jogando meu corpo na direção dela, como uma pequena tontura, não se sabe se pela presença dela ou pelo efeitozinho do cigarro. Enchi os pulmões de um novo ar e recobrei a tônus muscular das pernas, forçando os dedos do pé contra a sandália. Ela estava com os dentes à mostra quando tomou meu cigarro dos meus lábios: “esse cigarro, por direito, é meu”; e olhando para a guimba marcada do próprio batom, ela concluiu com a sentença mordida entre os dentes: “esse aí, então, é teu”. A dança dos braços dela à minha frente, em momento algum, me tocou, até mesmo quando, com as pontas dos dedos curtos, ela pegou o corpo do cigarro. Apenas exalou o perfume adocicado dos seus poros ao meu redor; aroma do Gudan e aquela fragrância dela fundiram-se, miraculosamente, como um par que se re-encontra numa dança e, junto ao foto do celular, passavam a ser os vestígios dela no meu sereno ser. Ela inclinou o corpo à esquerda, desviando a atenção do meu corpo, como se ele fosse um obstáculo opaco, e olhou para a mesa, dando a impressão de que conferia alguma coisa. Tomando da boca o cigarro e colocando-o entre os dedos, soprou a fumaça obediente pela boca, que desenhou uma faixa de gás dos lábios dela até o centro do meu peito. Nem ela e muito menos eu desfizemos o trajeto da fumaça, mas um terceiro sujeito cruzou o vazio entre nós duas e diluiu a retilínea nuvem cinza. Com o movimento do outro, acabei desconcentrando-me dela e fiquei alguns instantes com o olhar pausado sobra a mancha de batom vermelho no cigarro preso entre as minhas mãos. Sabia que ela ainda me olhava e esperava. Tragou algumas vezes o meu-cigarro-dela, vigiando os movimentos das minhas mãos em prol do cigarro-dela-meu. O tempo e o vento esforçavam-se para apagar a brasa da ponta do cigarro, mas, com delicadeza, eu protegia aquela ponta rubra entre a palma da minha mão e o meu corpo. Com a leveza do pouso de uma borboleta, peguei, com as pontas dos dedos, a parte manchada de batom vermelho e levei-a até meus lábios, aspirando com intensidade até que a brasa alcançou o círculo desenhado da logomarca do cigarro, extremamente próximo ao meu resto, tanto que podia sentir o calor da queima nos arredores da minha boca. Ela observou sem pausa e sem pressa e sorriu quando terminou o cigarro-momento. Durante todo tempo, eu também olhava para ela, mas não era um ato consciente de si próprio, era um agir ventrilocado pela presença dela, um efeito dela em mim. Sorri de volta, pela primeira vez, mostrando a guimba do cigarro agora completamente absorvida. Com o cigarro nos lábios, ela espremeu os olhos: sorriso ocular. Uma de suas mãos abandonou as laterais do corpo e apontou a mesa amarela logo atrás de mim. Virei para a mesa e vislumbrei o cinzeiro cheio de cinzas e outros cigarros. Compreendi que ela me sugeria que colocasse o meu junto aos demais e que, por conseqüência, havia entendido que eu a mostrara a ponta do meu cigarro para indicar que havia terminado. O sabor do batom invadira meus lábios e, embora não fosse agradável, já era íntimo da minha boca. De costas para ela, enterrei a ponta do cigarro no cinzeiro cheio de cinzas. Retirava minha mão, quando percebi que o isqueiro dela estava quase escondido atrás do próprio cinzeiro; como era fino, não poderia percebê-lo de longe, mas próxima, eu podia vê-lo repousar paciente atrás do muro negro do cinzeiro. Parei o retorno da mão e avancei-a mais uma vez em direção a mesa e tomei o isqueiro entre os dedos. Repentinamente, Daniel e Rodrigo apareceram reclamando da minha demora, perguntando se eu havia mandado fazer fogo... e ela não estava mais lá. Na massa de corpos que avolumavam o interior do bar, eu a havia perdido e, embora tenha tentado sair e procurá-la, os meninos me impediram e repetiam que precisávamos ir embora, já estávamos atrasados. Tentei, em vão, me justificar e dizer que precisava encontrá-la, devolver-lhe o isqueiro, o cigarro, o sabor, a fragrância, a foto. Mas, a verdade, é que jamais entregaria nada a ela. O sabor do batom permeou meu paladar a tarde seguinte inteira, o isqueiro acendeu muitos outros cigarros pela noite, a fragrância chocou-se com as demais fragrâncias durante a madrugada, descartando-as; e a foto ficou guardada no celular – e na alma - para sempre.

Wednesday, November 14, 2007

Causa cognoscitur ab effectu



- Há algum tempo, não sei quando, eu lhe dizia que essa nossa vontade de viver é uma vontade de viver dos outros. Por nós mesmo, ficaríamos trancafiados nos próprios quartos, ouvindo os mesmos CDs, bebendo a mesma água, ligando para as mesmas pessoas, criando raízes e teias sob o lençol. Ninguém quer viver muito, quer viver apenas o necessário – e necessários são os nossos mitos; ninguém se permite não-viver esta vida e con-viver com esta outra vontade que, nesses últimos tempos, ficou clandestina nos nossos afazeres domesticados. Acho que as pessoas crêem que viver é tomar posse de uma realidade, quando eu insisto em entender que viver, pelo contrário, é ser possuído por uma fantasia sincera. Mas, o mundo é muito exigente e até a vontade de viver ele nos imputa. Nós sabemos, você sabe: todos morrem cedo para os sonhos e tarde para as ilusões. Mas, só existe este disparate porque a vontade de viver não é nossa, é do outro. Que outro? Sei lá, o outro de Lacan, o outro do outro, jamais nosso. Deles. É, de mais eles: deles. Mas viver é sobressaltar-se, alguém disse isso. Viver é um murro na boca do estômago, toma a vida nas mãos e fecha a porta de casa com três chaves antes de sair. Viver é perigoso, o Rosa disse. Acho que viver não é nada disso. Ainda não estamos vivendo o nosso desejo (nem estamos desejando a nossa vida). Enquanto a “nossa” vida for a vida do outro, ainda estaremos vegetando, ouvindo a mesma música, bebendo a mesma água, reduzindo-se ao nada. Ah, eu já estava terminando o sexto cigarro quando você ligou e nós sabemos como eu fico depois do sexto cigarro. É, eu fico triste e blasé. Mas, tão bonito isso de você ligar agora. O sétimo cigarro está preso entre os dedos da outra mão que não segura o telefone. Posso acender? Você me deixa viver o meu sétimo cigarro?(...)Você sempre liga nessas horas incertas e eu fico susceptível a sua voz. É, susceptível e não volúvel, não comece com a palhaçada notívaga. Não, não venha aqui agora. Eu teria de levantar, tomar banho, passar aquele perfume, maneirar nos cigarros, abrir o vinho, parecer intocável. Hoje só quero que você me escute, que viva a voz, porque eu vivo a sua. Aquela tonturinha do cigarro começou, aproveita. Pára, não quero notícias dela. Onde? Pouco me importa se ela falou de mim. Falou para, por ou de mim. Nada preposicionado com ela. Claro que ela ainda liga. Mais que você, infelizmente. Se você ligasse mais... até isso não importa. É bom que não ligue sempre, porque quando liga é a única maneira que tenho de lhe oferecer minha solidão e, em troca, receber a sua. Não ficamos consolados, mas ficamos menos inconformados. Com você aqui, neste sofá com várias marquinhas dos nossos cigarros caídos no estofado, ficamos tão poeticamente tresloucados. Não, não, parei com o pó, odeio aquilo de ficar com o nariz escorrendo, me lembra demais aquelas crianças resfriadas, com uma merendeira à tira colo, os olhos fundos como poço. Lúcia não nos entende, acha que só rola tesão na cama e umas conexões baratas de aulinhas de filosofia que a gente dividiu na faculdade. Lúcia não nos entende e pronto. Oi? Sempre quando ela falava isso, eu a jogava contra o armário da cozinha ou a colocava de pernas abertas sobre a bancada e ia lentamente retirando a calcinha, oferecia meu dedo que ela chupava com vigor, molhando desde a base até a ponta e rodopiava em espiral dentro dela, sussurrando poeminhas em espanhol e inglês. Ela não entendia, mas gostava. E gozava. Sabemos que ela gosta de não entender. Meu dedo é o único entendimento para ela. É, é engraçado. A ignorância é uma benção. Por isso mesmo, pouco me importa se ela falou para-por-de mim: fala por fala, ela quer mesmo é sustentar uma conversa, como esta, por mais de cinco minutos, sem reclamar do cigarro ou sem ser vulgar. É... o cigarro queimou sozinho no cinzeiro. O seu também? Não sabia que você também estava fumando de novo. Mentolado? É bom, prefiro os mentolados. Nada light, não. A tonturinha me faz bem, não faz a você também não? É, eu sei que faz. Aposto que agora mesmo você está com a barra da calça dobrada em três volumes, os pés apoiados no braço do seu sofá intacto e sem marcas de cigarro, os olhos vigiando as sombras de quem passa pela rua e corta o fluxo luminoso dos faróis e postes lá de fora. Luz apagada, claro, ou talvez apenas aquele abajour amarelado do canto da sua sala, com um cinzeiro cheio de guimbas marcadas de batom de tanto tempo atrás, desleixe seu ou saudosismo seu, vá saber. Eu sei? Eu sabia que iria acertar. Como não acertar? Incerteiro, se lembra? Saudade? Sabe de uma coisa da qual tenho saudade? Quando você, depois da transa, ficava sem camisa e deitava-se de bruços sobre os meus lençóis, impregnando-os com seu suor, e eu ficava horas espremendo pequenos cravos, passando as pontas das minhas unhas nas suas costas em tatuagens cutâneas em espiral e tribais. Logo logo sua pele se eriçava em pêlos, nas costas da lombar até a nuca e, então, eu beijava a depressão que sua coluna desenhava no meio delas, até roçar meu nariz no princípio dos seus cabelos, quando eu então abria ligeiramente a boca e mordia com leveza o contorno da sua nuca descoberta. Sentava sobre o seu corpo, colocando-o aprisionado entre minhas coxas, tocando as pontas dos meus seios descobertos nas suas costas desprevenidas e recomeçando o desenhar cutâneo; escorregava as minhas mãos dos seus ombros até os seus dedos e, pelo avesso das palmas das mãos, emaranhava meus dedos nos seus, apertando as costas da sua mão que, como o resto do meu corpo, abraçava o resto do seu corpo. E ficávamos assim: eu lhe contava alguma história, falando um pouco rouca no seu ouvido ou roubava um beijo no lóbulo da sua orelha, apenas para recomeçar a brincadeira de arrepios visíveis na sua pele. Não precisávamos de sexo nem de senso, era apenas bom ficar ali, por que, exatamente ali, sobre você, eu sentia que poderia lhe proteger, como uma carapaça, um escudo protetor e não importava o quanto você se debatesse, eu estaria ali, protegendo, guardando, aguardando. Me conta, aonde chegamos? A uma ligação no começo da madrugada? Quero voltar para aquela cama, quero lavar os lençóis e quero que você os suje de você de novo. Não, não precisa chorar também. Percebe que eu falo isso com uma sombra de sorriso nos lábios? Eu sei que você não pode me ver, mas pode me sentir. Sente isso? Não há mais espaço para lágrimas entre a gente. Não, eu não sou insensível, só não quero chorar e não quero lhe fazer chorar, exatamente porque você não vai estar aqui para que eu lhe abrace e lhe proteja e diga que está tudo bem, porque não está, eu não estou lhe abraçando, você não está dentro da minha proteção. Vem, vamos desligar. Não, isso não vai passar, meu bem, isso não é passado. Eu sei que foi você quem ligou. Ainda estamos no meio da semana, já fumamos a cota de cigarros do feriado, sexta-feira vem vindo, já já é amanhã. Vem, vem... eu te coloco na cama. Você desliga primeiro.


Friday, November 09, 2007

Star's dust


“Depois foi cinza
Nódoa envenenada e mineral
Poeira de estrelas”

(Geraldo Eduardo Carneiro)
"Same old song
Just a drop of water in an endless sea
All we do
Crumbles to the ground,
Though we refuse to see"
(Scorpions)

Dani, eu estava agora há pouco me lembrando de nosso tempo de criança, de como corríamos com energia infindável pelos corredores brancos da escola, de como nos divertíamos com a insipiente ironia que nos era permitido ter naquela época, de como jogávamos vôlei na quadra do colégio de tardezinha, o sol fraco se pondo atrás da igrejinha da serra e o alaranjado colorindo a bola que pairava no ar. Hoje eu fumo, você é médica. Como seria diferente? Eu desconstruo, você constrói. E sempre nos demos tão bem. Eu tenho essa inconstância, esse leve desespero que embala meus dias; tenho também esse pensamento cancerígeno que só alastrou nos últimos anos. Uma vez Bárbara usou uma metáfora piegas, mas que me tocou em cheio “vi você renascer das cinzas, como fênix”. Bonito até. Mas, não mais bonito do que cuidar das pessoas e conseguir curá-las, como você faz. Terapia desse seu sorriso simpático e largo. Tenho saudade da sua saúde emocional, dessa leveza sentimental que você carrega no seu ascendente e principalmente da naturalidade com que você convertia meus problemas em piadas das quais eu conseguia rir, ainda que fosse uma risada pouca no intervalo do recreio.

Recordei, outro dia, da nossa aposta de quem transaria primeiro. Dinheiro fácil que você me levou. Pior de tudo, além do prejuízo financeiro, foi não ter entendido, quando você tentou me dizer, que havia transado com o “...” e me pedia ajuda psicológica para ir dormir sem achar que estava grávida. Ainda dou boas gargalhadas quando lembro das suas bochechas coradas logo que entendi o que tanto se esforçava para dizer. Espero que esteja “fazendo amor” (eu iria falar trepar, mas esse vocabulário o tempo me ensinou e você não conseguiria o ouvir) mais e melhor agora, explorando posições e lugares e desejo mais é que ele te faça gozar. Só assim para você se livrar do seu pudor mineiro.

O assunto que aqui entrará me fez postergar a conclusão desta carta. Dani, eu sei que você me viu quase morta. Jamais esqueço daquele dia em que lhe contei tudo, da consulta no dia anterior, da lista infinita de remédios, das advertências dos médicos, do desespero da minha família. Eu não olhava para os seus olhos, mas encostada na porta da sala, eu sabia que você também chorava com os cantos brancos dos olhos avermelhados, mordendo a mão, sem dizer nada, apenas olhando para o chão. Naquele dia, você me viu. Naqueles minutos em que você ficou parada, silenciosa, sem ação, você me viu e me sentiu. E chorou dolorido, como eu chorei. O momento ainda está em mim, como você ainda está em mim, embora haja essa distância maior do que os quilômetros. Lamento reconhecer que a doença não findou. O corpo deu vacilos, rodopiou na encruzilhada da vida, soergueu-se no abismo da cova, mas continuou até aqui, sobrevivendo como pode. Eu finjo que esqueço e assim também fazem a maioria das pessoas e, ao nosso favor, advoga apenas o meu sumiço – porque foi essa minha alternativa a dor. Já não sei mais quem sou, se sou a enferma ou a sobrevivente de mim mesma, se sou o que deveria ter sido ou o que nunca fui, ou talvez nada disso. Os anos estão passando para você. Estará se formando em breve, estetoscópio no peito, consultório cheio, dinheiro no bolso, três filhos, uma fazenda, um marido insaciável. Capa de revista, memória dos meus sonhos. Eu, cá dentro, ainda estou à espera de mim. Meu carma e meu coma.

Acabei de acender outro cigarro e você deve estar achando isso tudo muito poético. Sei que você gosta quando eu escrevo, pois você sabe que eu sinto e transbordo, você vê qualquer coisa em mim meio nostálgica – talvez seja culpa dos óculos e o jeito de falar pausado entre uma retórica e um aforismo. Você ainda tem aquela fita cassete que gravei para você, falando e fazendo sons eletrônicos com o teclado? Não, acho que não tem mais. Essas reminiscências pré-adolescentes devem ter sido encaixotadas e jogadas fora. Outras cartas e presentes vieram com o tempo e, inevitavelmente, velharias precisam sair para que a novidade entre. Creio que fez bem. É sua maneira de andar em frente e eu a admiro, ainda que eu faça parte do que fica para trás. Sobre meu cigarro, não se preocupe, doutora. Como todas as coisas (e receio fazer o adendo: e também pessoas), eventualmente, eu irei cansar de fumar, adotarei um outro vício, talvez volte para o alucinante mundo das academias e a saúde física agradecerá. Quem sabe? Sempre retorno ao ponto em que deixei algo para trás, certa de que encontrarei uma pista para onde eu fui. Quem sabe eu me encontrarei? Por enquanto: outro trago no cigarro. Não, por favor, não repare no meu jeito paradoxal de pensar as coisas. Já lhe disse que minha figura de linguagem predileta é o paradoxo. A vida imita a arte, fato. Com facilidade assombrosa, caminho pelo invisível imediato que une duas pontas de uma mesma realidade, de um mesmo universo. Evito sempre o trajeto mais óbvio-linear-concreto-inóspito pelo qual as pessoas sabem passar de um extremo ao outro, com a lucidez do drama urbano. O meu atalho abrupto contra a correnteza sempre me coube muito bem: minha pedagogia de avessos.

Não datei a carta, posto que sei que ela nunca irá chegar ou ser lida; será enterrada nas mesma lápide de alguns sonhos meus. Escrevo a você. Escrevo porque é inexorável. E não escrevo a mulher decidida e distante a qual você se transformou (ou sempre foi e eu me recusei a ver), mas me dirigo a menina de nariz grande que roubou meu relógio na quinta-série e o ofereceu a minha oposta (e não opositora) inimiga Letícia – atitude, aliás, de incrível sensibilidade sua. Creio que Lê foi meu primeiro “caso” (aqui não cabe a palavra amor, porque amá-la seria muito domesticável). Back then, eu costumava ouvir Losing my religion pensando naquele rosto moreno do nariz pequenino, na voz peculiar com a qual ela falava e ironizava meu jeito lunático de falar dos clips da Mtv. Letícia me desconcertava e, exatamente por isso, me prendia. Lembra-se de que eu e ela costumávamos correr, primeiro, uma atrás da outra e, depois, uma da outra? Naquele tempo eu não entendia o que me impelia a fugir e ao mesmo tempo estar perto. Hoje, com a vivência dos romances frustrados e das revelações sexuais, sei dizer que aquilo tudo era um turbilhão de sentimentos irritados com a própria profundidade. Com um sorriso saudosista nos lábios, ainda sinto o frio na barriga quando ela me olhava, aqueles olhos grandes atentos a tudo, espertos demais e sedutores demais para uma pré-adolescente em paranóia de descobrir o recém-inventado mundo “grande”. Jamais gostaria de uma mulher como gostei de Letícia. Cheguei a reencontrá-la nessas minhas andanças errantes pelos cursinhos belorizontinos. Bonita como antes, fiel à imagem que criei. Ela não soube me cumprimentar – como sempre -, embora me olhasse da mesma maneira íntima como sempre olhou: jeito de me tocar que carreguei na memória junto com o sabor das balas de maçã verde Lilith no intervalo das aulas. Sempre alimentei uma saudade de Letícia, até quando ela estava presente, sentada á minha frente com os cabelos cacheados esparramados na minha carteira. Pena ter perdido a carta a qual ela me mandou naqueles meses em que passei debilitada (seria bom relê-la agora, boas observações do que eu fui ou deveria ter sido). Talvez nela também tenha doído essa minha partida – que aqui toma um cunho mais de cisão do que de ida. Outra ocasião, encontrei com ela no ônibus. Letícia trocou de poltronas quatro vezes antes de se sentar á minha frente, jogar a mala pesada no bagageiro e me cumprimentar com pressa, quase gritando meu nome. Passamos a viagem espionando as conversas e os telefonemas da outra e não nos despedimos quando o ônibus chegou ao destino. Engraçado isso de relembrar: é como se redescobrir e perceber o tempo dentro do que chamamos de “eu”, um relógio incansável que nos permite sentir saudade, criar vínculos com o etéreo, acreditar que somos e existimos apenas porque há um resto de vida chamado lembrança. Talvez seja isto uma das poucas coisas que aprendi com o pêndulo do dia-a-dia, a única coisa que realmente posso lhe dar: existir e deixar existir, o restante do nada. A razão a gente encontra quando perde o controle. Paradoxo novamente.

Descobri que não sei de qual signo sou. Durante quase vinte anos, acreditei que fosse de Aquário e o simulacro da minha solidão parecia astrologicamente justificável. Mas, recentemente, uma estrela – ou qualquer outra coisa astral e solar – discutiu com as constelações e me roubou de Aquário, atirando-me à realidade pisciana. Será? Talvez realmente caiba a mim reunir as tristezas dos homens e envia-las a esse ser maior de vários nomes e poucas aberturas. Pretensioso da parte Dele acreditar que eu seria capaz de concluir a maior de suas tarefas e estúpido me dar o dom da compreensão, posto que nem entendo a mim mesma. Vá saber. Apenas sei que preciso me encontrar e justamente por isso lhe escrevo. Você me encontrou e me perdeu, assim como eu mesma me encontrei e me perdi. Estou de volta ao sem volta de mim, às pegadas que deixei, à poeira que restou dos cometas das minhas ilusões. Já sinto saudades de você, Dani. Fique com Deus e bem.
"Vou sair pra ver o céu
Vou me perder entre as estrelas
Ver daonde nasce o sol
Como se guiam os cometas pelo espaço
E os meus passos, nunca mais serão iguais
Se for mais veloz que a luz, então escapo da tristeza
Deixo toda a dor pra trás,
perdida num planeta abandonado no espaço
E volto sem olhar pra trás"
(Busca Vida - Os Paralamas do Sucesso)

Dados sobre as fotos: "Reflexos", por Dário M.F. Santos; site Olhares.

Friday, October 26, 2007

Aveszo


7

- Tenho essa pressa.
- Você tem mais do que pressa...
- O que eu tenho, então, se não é só pressa?
- É também e mais do que pressa – bebeu da cerveja esquecida no copo plástico, fazendo pausa mansa com sabedoria no sabor. Você anda em fuga, correndo não se sabe para onde, vai indo sem saber como... – e balançou a mão livre no ar, como se desanuviasse uma fumaça, empurrando-a para frente - se reunindo numa noite, se desmembrando pela manhã.
- Se andamos – observou-a, como quem se reinventa - saímos de um ponto. Se eu ando mais rápido – pausa e desvio de olhar para a boca da ouvinte - é por pressa desse próximo.
- Você anda não como quem saiu – resposta concisa no olhar de Maísa -, mas como quem quer chegar.
- Você quer chegar também, não quer? – palavras mínimas num momento largo de sentimentos no fundo do copo de cerveja nas mãos de Teresa.
- Eu não. Chegar é sempre amanhã e amanhã é nada, estrada de ferro para o seguinte sem chegada. Paradoxo do andarilho.
- Não andar é o mito da caverna de Platão, medo do desconhecido.

Não se entreolharam mais; Tereza se recostou no sofá, cruzando as pernas e reajeitando a roupa, não permitindo ao tecido ficar um centímetro a mais perto dos joelhos, limite da saia no ápice da coxa morena, enquanto Maísa separou as pernas e já apoiava as mãos sobre o joelho para se levantar. Dividia, uma, a atenção da outra com o movimento dos convidados na festa, alcançando com os aguçados ouvidos um murmúrio de conversa à direita, reconhecendo um casal abraçado no outro sofá verde à esquerda do lounge especialmente decorado para aquela solenidade GLS. Uns amigos em comum passavam e davam risadinhas com as bocas abertas e bêbadas, alternando com as pontas dos dedos uma reta invisível Maíza-Teresa-Tereza-Maísa. Elas sorriram e logo olhavam em sentidos opostos, pessoas opostas. Maísa se levantou, foi buscar algo como desculpa para abandonar o sofá. A outra, imóvel, procurou a bolsa atrás de umas almofadas e achou o cigarro amassado, sem encontrar o isqueiro. Uma terceira mulher se aproximou, fogo na ponta de um palito de fósforo: Teresa ofereceu o rosto com o cigarro preso nos lábios em “C” deitado, parábola com concavidade para cima; tragou duas vezes até acender o canudo branco. A dona do fogo balançou o fósforo no ar, jogou-o longe e, sem pedir licença, sentou-se ao lado direito dela, lado inverso de onde Maíza havia saído. Das caixas de som, saiu a voz rouca do Legend “we just don’t care, we just don’t”, as mulheres balançaram os cabelos soltos, os homens bateram os sapatos engraxados contra o piso marcando o tempo do bumbo. Embora soubessem o que John falava, ninguém entendeu o que ele realmente dizia. Iluminação decaiu, a noite se aproximou, foram acesas luminárias amarelas e vermelhas, pendentes do teto por um fio fino e os corpos naturalmente se aproximaram, boca com boca, inferno e céu. O sussurro das vozes amenizou a intensidade, só uma gargalhada ou tosses desmedidas rasgavam o zum-zum-zum velado das pessoas. Maísa, num dos apótemas do hexágono irregular inscrito num círculo de amigos, conversava com todos, mãos escondidas nos bolsos, ombros relaxados. Quando lhe perguntavam onde estava Tereza, desconversava dizendo que estava por aí, não suportava quando ela fumava descontroladamente, não sabia dançar, bebia demais, flertava insuportavelmente igual às vezes em que elas flertaram, lá naquele princípio e ante-princípio de tudo. Era suportavelmente doloroso vê-la exatamente igual, sem qualquer marca sua nela, tela em branco. Não disse nada, contudo. Apenas inclinou a cabeça e sorriu leve, sem graça, olhando Teresa sentada no sofá, mão estendida no encosto do móvel, com o terceiro cigarro nos dedos, cabelos constantemente jogados para trás ou preso atrás das orelhas dos brincos de duas argolas grandes; e a terceira pessoa com o corpo todo direcionado na direção da falante, olhos em faróis para o espetáculos da boca molhada de cerveja. Ciúmes? Alguns amigos do hexágono de comentários pensaram ser ciúmes, olharam para o sofá também sem mover músculo algum da face, desentendidamente atentos. Mas Maísa sabia que era só tristeza. Ciúmes e tristeza não se cumprimentam. Voltaram à discussão sobre a CPMF, destronamento de Plutão, cinema europeu, novela das oito, Tio Sam e Lenin, reencarnação.

6

Reencontraram-se, horas depois, no espelho do banheiro. Maísa saia de dentro de uma das cabines, ainda fechando a braguilha da calça, lutando contra a dificuldade do botão muito maior do que a casa. Tereza retocava o batom, espremendo os olhos, lutando contra a imprecisão proporcionada pelos milhares de mililitros de cerveja. Demorou um tempo até que se reconhecessem pelo espelho. Teresa observou que a outra tinha dificuldades com a calça, olhou com ironia para os braços magros de Maísa que tensionavam as veias contra a pele com força entusiasmada para abotoar a calça. Não parou de passar o batom, mas acelerou o ritmo; esfregou um lábio no outro e com a ponta do mindinho limpou as manchas que evadiam dos lábios. Guardou, com cautela, o batom de volta à bolsa, apoiou-se sobre a pia com as mãos na borda, batendo a unha pintada de vermelho no mármore preto.

- Vem cá – e, sem abandonar o corpo da pia, meteu os dedos dentro da calça ainda aberta de Maíza e puxou-a para perto de si. Fitava-a nos olhos e, com delicadeza, concluiu a tarefa de abotoamento da calça. Ainda deslizou as mãos do abdômen inferior de Maísa até a lateral dos seus quadris, sem encontrar uma mão na outra, apenas confortando-a no espaço preciso do corpo entre as palmas das mãos abertas. No reflexo do espelho, Maíza viu as costas expostas de Teresa, sem marcas de sutiã, apenas leves traços de um corpo magro e bonito, desvendado pela displicência da blusa cinza caída às costas. Posicionou, então, as duas mãos sobre os ombros desnudos de Tereza, massageando-os com leve pressão, caminhando com as pontas dos dedos curtos até o pescoço, escorregando e subindo o declive da nuca. Penetrou os dedos nos cabelos macios daquele corpo anestesiado pelo álcool que, agora, lançava as mãos para mais atrás do quadril dela, prendendo os dedos nas presilhas da calça feita para o cinto. Brincou com os cabelos escuros de Tereza até fazê-la fechar os olhos e mostrar a sombra clara pintada sobre as pálpebras dos cílios longos e também retocados. Era uma mulher tão bonita, Maísa pensava quase sorridente, imaginação transitória entre o “tão” e o “bonita”, embalada na embriagez que exalava do corpo entregue de Teresa. Era uma mulher tão envolvente, Teresa inspirava abrindo as narinas, memória mergulhada no “envolvente”, reconhecendo o perfume antigo do corpo. Alguém entrou no banheiro e o som do ambiente conturbado lá fora sulcou a atmosfera tépida do banheiro. Despertou-as da condição encantada em que estavam. Desenlaçaram-se. Uma buscou a bolsa sobre a pia, outra foi lavar as mãos e o rosto. A porta arranhou no chão, na saída da última.




5

Maíza dançava: corpo solto no ar, cabelo preso pelo próprio cabelo num coque em forma de caracol; silhueta brincando com as formas, boca aberta de onde saiam onomatopéias álibis de um sentimento bom. A música era trance, mas ela cantarolava:

Como fosse um par que
Nessa valsa triste
Se desenvolvesse
Ao som dos bandolins....

E como não?
E por que não dizer
Que o mundo respirava mais
Se ela apertava assim...

Seu colo como
Se não fosse um tempo
Em que já fosse impróprio
Se dançar assim

Ela teimou e enfrentou
O mundo
Se rodopiando ao som
Dos bandolins...

Esqueceu-se de Teresa, da dor, da CPMF, da decadência de Plutão, das contas, das correspondências, da idade, da identidade, do capitalismo, do comunismo, de ontem e de amanhã. Gingou no ar, maestra e regente da própria música: letra e melodia. Olhos fechados, alma aberta.

Tereza, de volta ao sofá: quarta pessoa, mesma anedota, quarta vítima, mesma técnica, quarto pedido, mesma recusa, quarto sentimento, mesma indiferença. Olhos abertos, alma fechada. Na memória, a polifonia da música e da gaita, com Blue e Elton John: “What do I gotta do if sorry seems to be the hardest word".


(Dados sobre a foto) Autor: Alexandre P. Site: Olhares.com

INDEZ

Suicidadãos: epifanias póstumas entre fragmentos de uma vida extraordinariamente desconhecida


Terra de Vera Cruz, 11 de setembro de 2007


Eu sabia que era você quando seu corpo cansado despontou de dentro da Mercedes preta e recebeu das mãos do sargento este envelope amassado e sujo de sangue. Perdoe-me a bagunça – mas você bem sabe que eu nunca fui ou soube fingir ser uma mulher muito organizada, o que me desbancou da elite feminina sou-frágil-sou-delicada-sou-mulher -, mas, meu amor, no nosso último contato, eu não haveria de desfazer todo esse quadro que você pintou sobre mim: a tinta sempre foi esta, vermelho-rubro, cor sanguinolenta, visceral. Talvez o cheiro esteja desagradável, esse odor metálico absorvido pela celulose do papel deve lhe dar ânsia de vômito e, ainda sem os antigos olhos, posso vislumbrar o rasgado da sua boca com asco desta carta. Fique com o seu nojo e a minha indiferença, pois só mesmo agora, nesta pausa antes da morte, é que sou capaz de perceber a inutilidade dessa fútil espécie humana e seus hobbies made in USA. Ojeriza, agora, é o melhor que lhe posso oferecer: herança inalienável sem testamenteiros.

Ah, eu dizia que sabia que era você que faria a questão mórbida de ler minhas últimas palavras. Sei por que você tem gosto gótico pela morte. Todo mundo estará lá: platéia plácida e a certeza do aplauso morto. No enterro, cogito, já sei: passará minutos sonolentos proliferando esses vocabulozinhos patética e religiosamente aprendidos nas aulas de latim da faculdade de Direito; terno preto, camisa social branca por dentro da calça, todos os botões sisudamente fechados até o caroço na sua garganta, elegantemente triste com a morte de tão-querida-amiga, que-Deus-a-tenha e outros momentos epifânicos arroz-de-festa. Poupe-nos o desconforto. Apenas diga “um dia a conheci, era bonita, mulher feita de vistosas ancas, morena brasileira, fruto telúrico do nosso solo pátrio. Morreu por teimosia, nos deixou de castigo pela eternidade”. Martinha irá chorar e o lenço preto dançará nos dedos enrugados. Contudo, ninguém perceberá, pois botox é feito fralda e vai absorver as lágrimas e os suores. Ela dará entrevistas aos jornais, consolada no peito estufado e malhado do mais novo gigolô da novela barata do canal Roupa Suja, dizendo coisas agradabilíssimas copiadas-coladas de qualquer outro velório, relatando happy-hours dos quais nunca participei, talvez até memorando, com faixa de melhor amiga, um coquetel inventado na casa de um amigo em comum, de preferência nome de estrangeiro impronunciável pela segunda vez. No enterro, meu caixão fechado, lá dentro o resto de mim, catados com tanto zelo pelos bombeiros. Pedaços de um pouco corpo espatifado contra o gris do asfalto, emendados como pedaços de boneca e enfeitados com rosas brancas e amarelas para ninguém ver; do lado de fora, sete coroas coloridas, com faixas esperançosas, fotos minhas, anos 60, 70 e 80, punk, pop e rock: decoração de um mau gosto justificável e perdoável apenas pelo momento funesto. Você chamará alguém para tocar? Uma orquestra e o Réquiem, de Mozart? Não, meu querido, chame a mais popular banda de axé, com direito a atabaque, negro um-e-noventa, cabelo dread, sorriso branco... Mozart morreu só: eu quero minha morte a toque de tambor africano, marcha-grave, congado. Morri no Brasil dos brasileiros, não no universo paralelo e pseudotropical dos nossos amigos engravatados.

Agora, eu sei, suas lágrimas secaram. Talvez você confira um tremor na mão trepidar a folha de papel, tapando a boca com os dedos assustadoramente inertes. Pensa por que eu escolhi você. Mas, sabe? Foi você quem sempre me escolheu. Ou, melhor dito, a você sempre coube a minha não-escolha e é justamente agora, na pausa antes da passagem, que sou capaz de tomar-lhe as rédeas do jogo e colocá-lo, surpreso, sob o meu arbítrio. Calma, não há nada delatado aqui: seus segredos se esmagaram com o meu corpo no meio do asfalto da Avenida Brasil. Ninguém saberá limpar meu sangue deles; estão, pois, muito bem guardados. Respire outra vez: você está a salvo e eu estou morta, relaxe.

Quem sabe - eu indago, minutos antes de subir no parapeito desse prédio – você esteja interessado no meu último momento de vida. Meu caro, trejeitos para metafísico nunca lhe cumprimentaram, já que o máximo ao qual você se aproximou de alguma filosofia foi quando leu Karl Marx e ficou excitadíssimo com a mais-valia. Entretanto, se sua vontade inconsciente o fez atravessar o último ponto final e o encaminhou até esta presente linha, acho viável dar-lhe meu último comentário não-político, como aqueles os quais você me fazia parar de dizer, já no quinto Martini da noite. Sou mulher, meu senhor, sem as dores do parto, mas com as mesmas mazelas miseráveis da alma. Não se decepcione agora com minhas epifanias póstumas: você bem sabe que tentou me engravatar, me socou num terninho à lá Condoleezza Rice, me fez trepar com altos executivos duas três vezes na noite, até com mais de um homem, para ver se eu criava essa carapaça de indiferença que você ostenta com pose e poder. Para ser sincera, sempre que voltei ao meu apartamento pela manhã, corpo destruído e alma morta, havia ainda em mim um tesão descabido pelo sagrado, instinto rousseauniano, não querendo ser corrompido. Lavei os cabelos, o corpo e o caráter com xampu barato e embebi de álcool e água sanitária as roupas fedidas da fumaça do seu charuto. Pentei as madeixas setecentas e setenta e sete vezes; por baixo do edredom, de roupa, me toquei carinhosamente, gemendo em sussuro para um rapazinho musculoso e de cachos dourados, membro endurecido que não me penetrava: apenas caminhávamos de mãos dadas numa dessas pracinhas de cidade pequena, feito Itabira de Drummond. É isso: sob o coque da mulher-moderna, havia também uma Amélia emocionada e à espera do próximo capítulo da novela das oito, mulher com a qual você nunca trepou e jamais trepará. Elas estão morrendo: saltarei, em alguns instantes, com a minha Amélia nos braços, como amazonas no embate do sertão, um seio a menos pelo filho que não tive. Pereceremos eu, ela e – principalmente – um pouco mais de você.

Você ficará bem! Trate de não convulsionar esse choro. Sua maquiagem metrossexual irá desmanchar e as putas-tristes de García e Copacabana irão ver quão velho você está. Limpe as lágrimas com o lenço de cetim italiano; aproveita e também limpa as mãos sujas do meu sangue que, muito provavelmente misturado ao seu suor, criou uma gosma incômoda. Ou não limpe agora e, quando acabar de ler esta carta, limpe-se nela mesma, já que é capaz de ver tanta sujeira aqui, reflexo do espelho da sua alma. No meu último impulso, ainda quero você limpo e impecável por fora, posto ser impossível por dentro. Além do mais, não lhe quero ver novamente nos seus poucos momentos byronistas, tomando dois Prozac e meio com um copo de whiskie on the rocks. Nós dois já sabemos que você apagará em meia-hora, baba branca escorrendo do canto do lábio, sonhará com o Schwasnegger, sendo a primeira dama do governador-do-fututo, peruca loira à lá Monroe com esse bigode Jânio Quadros. Acordará excitado, corpo estranho latejando dentro da calça de linho. Irá se aliviar na ducha pensando na enteada, tomando outro Prozac mais um Johnnie Walker. Livre-se desse espírito, pois hoje é dia de festa – ainda que seja fúnebre. Invadirão sua casa no nosso – perdão, digo: - meu velório. Você se achará tão importante e imponente como antes: “meus pêsames” retumbaram no ouvido do seu ego como “meus parabéns”. Celebre: hoje é tarde para mim e festa para você.

Presa, aqui dentro desse apartamento de pouco luxo que você me deu, prestes a lançar meu fraco corpo em queda livre pela janela, tenho de me respeitar: reconhecer que passei as primaveras como invernos, sem jamais experimentar a sinestésica sensação do pôr-do-Sol na beira da praia, sem nunca ter sentado numa gangorra de play-ground, como este aqui, no piso do condomínio, de onde ecoam vozes de criançada serelepe, antes insuportáveis, agora o embalo angelical dos meus últimos suspiros. Eles não irão se assustar com meu corpo espatifado no chão, pois, há pouco, no momento exato em que nasceram, reconheceram de imediato o outro extremo: a morte. Reconheça, em meu respeito, a beleza da minha morte livre; imagine o vento nos meus cabelos soltos, meu corpo de peso sem balança para medir, Quintana cantando “eles passarão, ela passarinho”. Você pode até ejacular com o Arnold, darling, mas sou eu quem vai para a Califórnia nesse verão.

Meu querido, não faça meu epitáfio e nem chore copiosamente. Deixe uns otários se lamentarem e sentirem o desgosto do meu caixão fechado, sem cena e sem céu. Apenas escreva na minha lápide, com corretivo escolar, quando não houver mais fotógrafos e coveiros: aqui jaz a minha pior amiga e melhor inimiga: Ética.

Bom final de tarde e não se esqueça da sua reunião, amanhã, com aquela empresa construtora: negócio de primeiro mundo, corrupção tupiniquim.


Com amor,
Ética

Friday, October 12, 2007

In n' In



"She eyes me like a pisces when I am weak
I've been locked inside your heart-shaped box
for weeks
I've been drawn into your magnet tar pit trap"


Nirvana
Heart-Shaped Box











Há dias que não conhecem o fim. São dias meus, principalmente, só meus, mergulhados no escuro do apartamento, porque é sempre de noite e é sempre demorado. O céu, às vezes lilás e triste, vai deixando o escuro se espalhar e infiltrar no atrás das nuvens, minguando até que o sol nem apareça mais no horizonte; os prédios recortam-no com seus vértices gritantes e, inerte pela noite, o céu aceita que o poder de suas estrelas fique ofuscado pela pretensão das luzes das casas e apartamentos. São dias estranhos dentro de sensações confusas que não passam com cigarros, não passam com garrafas de vodka inteiras, não desaparecem com a (re)leitura das várias mensagens no painel do celular, não aliviam mesmo depois de assistir horas de programas estúpidos nos canais abertos, não abandonam o âmago mesmo lendo livros e análises, fórmulas e teoremas, porque até na leitura é fácil achar motivos para voltar no exato instante em que tudo se explodiu com a precisão de um botão de rosas em plena primavera: a forma choca-se contra o pensamento. Fico minutos em baixo do chuveiro, deixando a água quente ou fria, cair sobre o rosto, a nuca, os ombros e deixo que ela suavize um corpo aprisionado dentro de seus próprios limites estranhos. Aperto os olhos com muita força, limpando-os com certa freqüência para evitar que a água entre e faça-os arder, contraindo as pálpebras até perder o equilíbrio e jogar a mão molhada contra o box do banheiro. Um box de vidro transparente onde, quando está esfumaçado, eu escrevo aquele mesmo nome, repetidas vezes e em inúmeras formas, como se fossem lado de uma mesma figura, um poliedro quem sabe. A cada novo traço, um sorriso ou um soluço quase sempre seco; em cursiva, itálico, negrito, riscado, sublinhado... várias vezes o pensamento toma a forma no vapor de água que cora o vidro e se transforma no meu painel, ou melhor dito, diário. Mas, é só aparecer três ou quatro vezes aquele mesmo nome (ou apenas algumas letras tão íntimas minhas capazes de conduzir aquele mesmo momento), que eu acabo por deslizar a mão do princípio ao fim do box, limpando-o daqueles projetos fugazes de sonhos e planos. Sento-me num canto do banheiro verde do meu apartamento, jogo a cabeça para trás, apoiando-a sobre uma das paredes, desligo o chuveiro e deixo o tempo correr com as últimas poças de água que se derramam pelo ralo. E é só mais um banho dentro dos infinitos dias que se passam desprezando os calendários e os relógios. E há esse sufoco entre a espera e o querer.

O corpo ficou indefinidamente naquele espaço, que era pouco e exato, naquele derradeiro momento em que algo se rompeu, como uma represa que não suporta mais a correnteza de um rio em época de cheia. Talvez aqueles instantes tenham durado segundos, minutos na mais longa hipótese. Mas, um tempo em que o corpo desprezou o mistério da gravidade e a alma observou-o como uma fênix num último vôo rasante, quando sabe que pela última vez sente aquele frio do ar em velocidade contra suas penas. Um momento que passaria despercebido, indolor, inconcebível, incontrolável, inenarrável, instigante, in n’ in, dentro e dentro. Talvez fosse só mais uma noite no conforto da paz insensível dos dias. Mas, era cedo e falávamos tanto e nos deixávamos ser tão inteiras que, entre voltar atrás ou não, agora estamos aqui dentro, como testemunhas de um mesmo crime, cúmplices de uma mesma história, lados do mesmo poliedro espelhado. Bem que tentei duas ou três vezes piscar os olhos, tomar um gole de água, rir para o ar, dissimular uma tranqüilidade auto-iludida... ainda que eu desvencilhasse a mente, o corpo e a alma estavam entregues e , embora eu tentasse correr deste destino ceifado há muito tempo, todos os sinais e os segredos acalentavam esse disparate e me faziam ansiar pelas palavras seguintes, que chegariam como balas de revólver matando um sem-volta de mim que há tempos esperava para ser morto. Sete palavras ficaram grudadas nos dias seguintes – ou talvez eu tenha ficado grudada a elas -, como se nada mais fizesse sentido e eu só conseguia repeti-las, no escuro do quarto de luzes apagadas, sobre o edredon, sentindo o próprio hálito; os ouvidos ensurdecerem e apenas ouviam o que vinha de dentro, como um canto de cisne, uma escala de blues. Os olhos se desfizeram em caleidoscópios que recombinavam as cores dos dias em imagens que só faziam sentido quando eu me voltava para aquele exato momento, quando tudo ficou muito mais complicado, ou até mesmo para antes, quando tudo era tão bonito, mas tão embaçado; as mãos rodopiavam pelas folhas pautadas dos cadernos, desobedecendo as ordens que eu enviava para que parassem: giravam e manchavam o papel com aquelas mesmas letras ou com alguns pensamentos naufragados de suas andanças. Naquele momento, quando então, tudo se explodiu e implodiu, acabei por juntar pedaços e imagens de tudo que se passara e guardei-os juntos às outras coisas nos bolsos, nem ao menos me importando se apertá-los entre os dedos provocaria um corte, dado suas arpas afiadas. Segurei-os violentamente com a necessidade de quem se despede e ainda sinto um vigor nas pontas dos dedos que ainda sabem deixar os pedaços livres para uma próxima ex-implo-são.

Acho estranho quando eu digo que não havia dor, antes daquele dia. E não havia. Existia um contentamento sonâmbulo com a alma completamente cega. Agora, há uma dor, sim, embora o instante tenha sido belo - e mais belo e doloroso ainda o pós-instante -. E é do mais alto dessa dor que nasce também a sobrevida que me faz levantar do canto do banheiro, secar os cabelos e passar horas procurando, debruçada sobre a janela, o cruzeiro do Sul, para achar qual ponto, cardeal-final-ou-triplo, que me leva para um pouco mais perto dela; a dor se contorce no peito-garganta e só depois, é que ela se alivia, pesada e com um outro nome que eu jamais sonhei em falar e sobre o qual ainda não escrevo, porque é – ainda – grande demais para mim.

(Dados sobre a foto em link na figura)
Para ouvir: In a Lifetime; Bonno Vox & Clannad;

Monday, October 08, 2007

Infinita Highway



Menvolve...
Desenvolve, em mim, revolta.
Da distância, que não permite resolver.
Sempre: "Volver".
Vou ver. Sem devolver-te esse você em mim(...envolve).


Passariam horas ao telefone, um tremia e o outro falava, e passaria a eternidade de uma distância que chegava a doer. Talvez fosse azul lá fora, no céu uma lua de prata, uma e outra estrela discutindo as disposições dos astros. Mas, estavam de olhos fechados, pêlos eriçados, corpos no limiar da plenitude. As palavras tomavam formas engraçadas no jeito de falar de um, no jeito de rir do outro: e eles sonhavam como era bom se encontrar, por fim e enfim. Falavam sobre a praia, sobre os outros, mas em cada história, falavam mais de si mesmos, um para o outro, outro para um, se deixando mergulhar naquela correnteza que flui pela linha, que ficava suspensa por um fio. E se deixavam tocar, respirando em largo, quando não havia mais voz no telefone, mas só uma respiração desajeitada e umas interjeições suspiradas. Ah, eles se falavam e sobretudo se achavam. Um precisava dormir, o outro tinha que estudar. Mas, era ad infinitum aquele momento: e era deles. Um rio desaguou de um rosto; o outro segurava a testa com a mão aberta, olhando para os pés descalços e imaginava aqueles pequenos grãozinhos de areia entre os dedos. Eram maior do que o lugar, eram o próprio sertão e o vasto mundo. O outro olhava a tecla sete no telefone com as três letrinhas "prs" embaixo e tentava fazer frases com ela. Havia o silêncio também, o silêncio em persona, que eram bem maior do que se dizia, segredava. Um deles disse:
- Como é que se faz quando se treme por dentro?
- Abraça...
Eles hastearam a bandeira, ao mais azul do céu e o sol, durante os dias seguintes, dourado como ele só, flamejou no desenho que ninguém mais podia ver, só eles dois: por que era para eles e por eles aquele desenho, que não era só desenho, mas estava tatuado. Estava instaurada uma... independência? República? 'Mon'arquia? Não sabiam dizer. Aqueles dois naquele dia fizeram o que sempre deveriam ter feito.
Uma ligação veio ao fim, e uma outra conexão, mais forte e mais bela, nasceu e passou a conectar os dias, como pérolas num colar, pérolas essas que se catam no fundo de um rio, de águas muito azuis.


"Nós Dois
Tadeu Franco
Composição: Celso Adolfo

E nós que nem sabemos quanto nos queremos
Que nem sabemos tudo que queremos
Como é difícil o desejo de amar
Você que nem me soube quanto eu quis
Que não coube, não me viu raiz
Nascendo, crescendo nos terrenos seus
Eu da janela olhando a lua, perguntando a lua
Onde você foi amar?
E nós que nem soubemos nos querer de vez
Estamos sós, laçados em dois nós
Um que é meu beijo o outro é o lábio seu
Não sei sair cantando sem contar você
Que eu sei cantar, mas conto com você
Que eu vou seguir, mas vou seguir você
Queria que assim sabendo se a gente se quer
Queria me rimar no seu colo mulher
Vencer a vida donde ela vier
Ganhar seu chegar no chegar meu
Dar de mim o homem que é seu"


Saturday, October 06, 2007

Notícias mínimas: ad eternum (juro que agora acabou!)


Tomo um trago longo, com os olhos semi-cerrados, segurando o cigarro entre dedos indicador e médio, jogando a cabeça levemente para trás. Ela me assiste, mordendo a ponta do dedo mindinho da mão que segurava o cigarro; com o box ainda em mãos, ela o apalpa, olhando-o algumas vezes e me olhando nos intervalos.

- Restou isso: uma marca de cigarro e de alma – ela diz sem perturbar o olhar sereno da caixa preta do Black -... sobre a do cigarro, já nem sei dizer quantas vezes me castiguei por comprar mais de um box por vez. Desnecessariamente... sempre que o via reluzente e negro, nessa certa escuridão completa que não chega a ser sinistra, mas é hipnótica. Ela fala, tragando e soltando a fumaça que volta à atmosfera mais branca: – passei minutos na fila do caixa da padaria num estúpido “confessionário” – e as aspas que aqui se encontram são também desenhadas por ela no ar da noite, com as duas mãos suspensas no ar – interior. Cochichei a ouvintes imaginários minha admiração por este cigarro... falava do fumo, da densidade, do sabor mentolado com traços quase insensíveis de canela, que escapa dos lábios. Acho até mesmo que um dia, alguém, nem sei mais quando, comentou que também gostava dele. Me senti injuriada, estranha. Não queria mais ninguém para gostar dele como eu gosto. Retruquei dizendo que o melhor era beijar alguém que o tivesse fumado. Vê, daí, como as coisas tomaram rumos irreconhecíveis, ir-remediáveis – ela sorri pela última palavra, impulsionando o meu sorriso também – estática, lá, olhando o box.... – e baixa os olhos à altura dos pés, encobrindo a boca pelo joelho flexionado – observando a marca externa e tateando a interna, desenhada no meu... – rouba o olhar dos pés e o oferece a mim, sem concluir a frase – é isso. Restou você nos vinhos baratos comprados no sábado à noite, naquele supermercado 24 horas, quando passávamos horas sem decidir absolutamente nada, vagando Alices pelas prateleiras, trombando propositadamente uma na outra... tanto de você ainda nos comerciais entre filmes da televisão, quando eu já esperava aquele seu cochicho, rouco pelo silêncio, tramando e intertextualizando todas as idéias possíveis, dando razões a uma única razão só: estar aqui. Acho que você não precisa – ela se corrige a tempo, confundindo os tempos verbais e o meu tempo – não precisava se justificar tanto. Só a Loucura salva – ela fecha a fala com uma risada sarcástica.

- Eu só queria... – tento, mas ela interrompe. Os olhos despejam as pálpebras pesadas que, agora, parecem dar licença às palavras que virão:

- Ainda... ainda e para sempre ... – ela se pausa - isso porque eu descobri que a interseção entre “sempre” e “nunca” é um “ainda” infiel a qualquer uma das anteriores... enfim... – ela dá um novo trago no cigarro -... ainda é teu jeito de tocar a campainha: uma, duas, prolongamento, três, que me coloca com o ouvido a postos e ansiedade à flor da pele.

Ela volta o olhar para as nuvens e, antes de encostar o cigarro nos lábios, ela sussurra, bem próxima a ele, uma última sentença: “há tanto de você”.

Daqui, senta na posição de Lótus, minha vontade é de levantar e abraçá-la por trás, aprisionando-a nos meus braços que se fariam infinitos; beijar o imediato-abaixo de sua orelha, (re)pousando a ponta do meu nariz no seu ombro descoberto pela camiseta. Contudo, é pouca vontade para tanto receio, e o que me resta é beber um outro gole do vinho, que começa a ficar quente, dando mergulhos na admiração delicada, pulando do alto da torre de marfim dentro da qual a observo.

Ela permanece, sem dizer nada, insuspeita dentro de sua fumaça. Eu:

- Era ou é melhor colar os lábios numa coisa silenciosa, como o Black, do que me render às vontades e promessas que passavam ou passam pela minha cabeça. Planos coloridos de uma viagem para a Serra do Cipó, São Tomé das Letras, Milão, Rio, tanto faz o lugar, foram tantos mesmo; EZ Special tocando, os incensos de cereja camuflando minha-ou-sua-ou-nossa ansiedade mútua; meditações budistas – aponto o desenho do Ohm no meu anel de prata, no anular esquerdo - que terminariam frustradíssimas com os corpos muito mais próximos do Nirvana... vontades e inquietudes que eu queimava ou queimo na ponta do cigarro acesa, porque não sabia ou sei, ao certo, se poderia ou posso realizá-las.

Ainda que a semi-escuridão do quarto embace os contornos das formas, vejo o pequeno furo que resplandece na bochecha dela, vizinho íntimo de um sorriso branco. Ela não diz nada e apenas apaga a ponta do cigarro no cinzeiro marrom sob o criado-também-mudo. Levanta-se do sofá, sem calçar os chinelos, e caminha a passos cansados na direção da cama. Enquanto se levanta, provoca um distúrbio nas molas do sofá, excitando-as e me deslocando, o que faz com que a taça bamboleie em minhas mãos e ameace derramar o vinho. Desfaço o enlace das minhas pernas e estico a mão até o criado-mudo do outro lado do sofá, depositando a taça ao lado do cinzeiro, do qual ainda nasciam fracas linhas cinza da fumaça do cigarro. Quando termino de colocá-la ali e retorno ao meu lugar e olho para ela, deitada na cama, projeta atrás dos meus olhos um curta com todas as cenas de outrora que, embora minhas, habitavam este quarto, à minha espera, e só estando aqui é que elas podem me visitar, convidadas pela minha retina mediante a visão do corpo dela estendido ali, sobre o lençol branco da cama, com os braços cruzados atrás da cabeça:

... as pernas nuas, a blusa de botões - sem nada por baixo – abotoada displicentemente, as auréolas que colocavam em alto relevo a lisura da blusa, com suas duas pontinhas salientes, o cabelo solto que erotizava todo o resto, os violentados lábios avermelhados e brilhantes pela saliva da língua molhada, os arredondamentos que desfaziam a geometria retangular da blusa...

Corre nas minhas têmporas uma gota de suor recém-formada que eu não ouso limpar. Ela bate com a mão espalmada sobre a cama duas vezes, me convidando a deitar. Eu obedeço: sento à beirada da cama, retiro os tênis e ela me ajuda a retirar o moletom, quando então desliza os dedos longos no meu pescoço. É breve, mas o suficiente para que ela sinta o úmido suor que desgruda do meu corpo. Ela se deita e vou com ela logo em seguida, afundando a maciez do colchão com nossos pesos. Fitamos o teto do quarto, com suas estrelas fosforescentes amarelo-esverdeadas coladas na superfície pintada de branco. Ouço um chiado vindo do lado dela, uma inspiração rouca, aparentemente molhada. Viro meu corpo de lado, no sentido dela, e vejo uma gota também salgada escorrer do canto agudo do olho: outra a qual eu não posso impedir. Percebendo-me atenta à lágrima, ela a recolhe com as costas da mão, de um lado e do outro do rosto. Assim, se vira também no meu sentido.

Ficamos algum tempo com os corpos paralelos estendidos sobre o lençol branco que começa a amarrotar, desenvolvendo mapas anatômicos da dela-boca-minha; rotas sinuosas que infringem as leis e os limites das roupas, cultivando jardins à flor da pele. Vezoutra, os percursos se cruzam na indução de um olhar que recomeça do finápice: os olhos. No último entroncamento, ela se levanta:

- Do que adianta isto agora? – ela se encaminha para o espaço vazio que o guarda-roupa faz com a parede, próximo à porta. Leva a mão ao pescoço e o contorna, terminando-a volta na nuca.

- Isto? – atravesso a cama e me sento sobre a beirada do lado no qual ela estava. Observo-a se distanciar e encostar naquele espaço limpo da parede.

- É. E não finja que não sente. Não hoje e nem agora.

- Eu sinto isso... – e caminho até o corpo dela, abandonando a cama, enlaçando-a pela cintura, infiltrando minhas pernas entre as pernas dela, colocando minha boca no imediato-abaixo da sua orelha, pressionando meu corpo contra o dela em um abraço térmico- laços.


Sunday, September 23, 2007

Notícias Mínimas: ad eternum


Nos acordes do pensamento, os passos se constroem rápidos e, em instantes, eu chego à porta do lugar onde ela mora. Abandonando as desengonçadas avenidas, adentro ruas menores, que vão se estreitando à medida que me aproximo. As calçadas, antes tão geometricamente paralelas e indiferentes, já dão impressões de curvas e parábolas, tremem na proximidade do infinito dos bairros e se escondem na quebrada de um bar na esquina, na circunferência de uma praça ou na carroçaria de um carro estacionado. Alguns metros e a memória aciona aquele lóbulo da lembrança acalentada e reconheço-o: é um prédio pequeno, de quatro andares colabados e empilhados uns sob os outros, como se cada um estivesse cansadíssimo de suportar os outros superiores. Em cada nível, um conjunto de janelas de vidro rodeando o paralelepípedo de concreto, nas quais, por vezes, surge uma violeta roxa ou rosa debruçada sobre os metros que separam-na do chão; em alguma daquelas janelas pende um pedaço de uma mão, fazendo sua sombra contra a luz amarela que foge do teto imediatamente acima. Posso ver daqui apenas antebraço e mão, que leva um cigarro negro aceso, liberando raios cinzas na atmosfera de ar parado e velho das redondezas: a fumaça não vai longe e faz pequenos cogumelos cinzas no vão do quarto. Minha mão desliza sobre o bolso da calça e identifica o isqueiro: de uma cor verde enjoativa e de tamanho menor do que a palma aberta. Com ele preso entre os dedos e apontado para o prédio, vou contando os andares até aquele de onde surgira, há pouco, o resto de mão apoiado no parapeito da janela... um, dois, três, quatro. Ela mora no quarto andar, eu tenho certeza. Da última vez que estive aqui, desci as escadas devagar, numa manhã de sexta-feira cinzenta, apoiando nos corrimãos pretos com o resto de energia que sobrava, sentando entre um lance e outro de escadas, quando então engolia uma náusea dolorida que amargava a boca, fruto da madrugada anterior àquela manhã. É ela de novo, diz meus sentidos, mas advoga meu corpo no sentido contrário, refutando o choque de imagens. Mas, aquele pedaço de mão, aquelas unhas pintadas e principalmente aquele cigarro aceso... não pode, não é ela. Ainda com o isqueiro verde, aperto o botão do 402 e a campainha ressoa dentro da exata janela do cigarro negro. A mão lança o resto do cigarro ainda aceso pela janela aberta, fechando-a logo depois. E o que era apenas um pedaço de um corpo toma os contornos velhos, ainda que embaçados pelo vidro fosco; o desenho tão familiar e tão doloridamente perdido no tempo e na distância fulgura-se na moldura da janela e da minha memória. Dos minúsculos pêlos da minha nuca, nasce uma desordenação de sentimentos inquietos que impedem o movimento dos membros em qualquer direção. A iluminação de lá de dentro do apartamento, que chega até aqui, próximo à calçada, é interrompida pelo corpo que se levanta e aos poucos encobre toda a possibilidade de iluminação, caminhando em direção à luz e para longe da janela. O vulto, antes de sumir, pára alguns minutos no que eu suponho ser o vão de uma porta; dança com os braços no ar sobre a cabeça, construindo um coque desajeitado às pressas. Logo que o balé das madeixas se dá por terminado, ela abandona meu campo de visão, adentro o além da porta e da luz, deixando-me com os olhos enrugados pela luminosidade que agora, cruel, se lança numa briga contra minhas pálpebras. Meus olhos se fecham com uma certa força, mirando o chão apenas para evitar a claridade de cima. Guardo as minhas mãos e o isqueiro nos bolsos do moletom e, lá dentro, dou estalos de pulga com as pontas das unhas. O interfone cinza toma uma vida colorida com a surpresa da voz que brota dele:


- Alô?


E antes da consciência ou do arrependimento, eu verbalizo meu nome. Não respondo ao alô, não dou boa-noite, não me anuncio. O que sai é meu nome, dito assim, cru e vomitado, como se naquele caminho todo - que, afinal, duraram meses - , eu estivesse ruminando-o e fosse ele o grande resumo de tudo. Ela não diz nada e o que se ouve é o colocar do interfone no gancho, seguido de um barulho metálico, que abria o portão da frente do prédio. Empurro-o e fecho-o com uma leveza de jeitos que não é compatível com o pesar do caminhar até ali. Agora, os movimentos são anti-gravitacionais, pausados ao ponto de transbordarem uma fragilidade que antes não era possível se observar. O corredor acimentado corta o meio de um jardim florido e nas bordas do trajeto alguns arbustos de pingo-de-ouro me indicam o caminho. Até chegar à outra porta de vidro - a que me leva para dentro do prédio, vou andando com os braços caídos e as palmas das mãos abertas, tateando o verde frio das folhas na noite, ansiosas pelo orvalho da manhã.


Daqui, já é possível ouvir os passos jogados de chinelos contra a ardósia dos degraus. Uma sonoridade que não deixa dúvidas quanto a precisão do corpo. Do outro lado da porta, sua figura vem tomando contornos mais palpáveis, ainda que profundamente distorcidos pela porta de vidro, na qual hexágonos tortos tomam lugar e disvirtuam as trajetórias dos raios-de-luz. O perfume do cabelo recém-lavado contorna as frestas e brinca de pique-esconde com minha memória. A porta é aberta por ela com a mesma delicadeza dos meus passos e só depois de ter a certeza de que ela me olha, com aqueles mesmos olhos amendoadíssimos, é que desfaço a expressão forçosa das rugas contra a luminosidade e, de trás das lentes, sorrio o mais amplo dos suspiros. Ela move os lábios, não para falar, mas para lentamente os separar com a ponta da língua que concomitantemente molha os lábios e oferece a visão dos dentes brancos e grandes dentro da boca. Quando a língua se recolhe ao céu da boca entreaberta, os dentes roçam e mordiscam o lábio inferior, enquanto o corpo dela me dá passagem, convidando-me para entrar.


- Estranho... - ela diz, rodando a chave dentro da fechadura da porta, sem olhar para mim -... você chegou.


- Cheguei? - eu repito espantada, sem entender o motivo da escolha do verbo "chegar".


- Sonhei que você viria.


- De ontem para hoje?


- Sempre... - ela diz depois de um leve balançar da cabeça de um lado para o outro, negativamente.


Quando esta última sílaba é dita, confundi-se com ela o som da chave que tranca a porta. Passamos uns momentos silenciosos, nos nossos silêncios que se fundiam naquele último fonema. Ela é quem toma a iniciativa e sobe as escadas, impedindo qualquer precipitação do meu corpo sobre o dela. E, como sempre, inevitavelmente, vou atrás.


- Sei que é tarde... - eu falo para desembaraçar as vontades que se engalfinharam na garganta.


- Nunca é tarde - ela diz no espaço de tempo entre a subida de um degrau e outro -, ou talvez seja. Não faz mal, não faz mal. Gosto dessas visitas noturnas... - e ela diz, aproveitando o encontro entre duas escadas num patamar plano - me lembra um certo conto que um dia você me mostrou: Rubem Fonseca - e volta a retumbar o chinelo contra o piso.


- "Passeio Noturno"... - eu deixo que um sorriso escape.


Ela responde com um "hmrrum" amarrado em outro sorriso fugitivo, repetindo o título "passeio noturno", já emendando "é isso? Você está fazendo um passeio noturno?".


- Não... se passeio pressupõe que estar aqui é um acaso, não. - eu respondo enquanto ela escolhe a chave para abrir a porta sob o "402" entre as demais presas num chaveiro em forma de coração.


- Se não é um acaso, é o que então? - ela diz, sem desviar os olhos das chaves.


- Um caso - e me encosto na parede ao lado dela, olhando também para as chaves, para os dedos, para os braços, para...


Ela não me olha de volta, dissimulando uma seriedade em achar a chave. Quando a encontra, demora algum tempo para encaixá-la da maneira correta na fechadura, titubeando duas ou três vezes até destrancá-la. A porta se abre, rangendo as dobradiças que a mantêm presa à parede e ela, minha anfitriã, se encosta na parede ao lado, apontando com a mão aberta o interior da casa. Vou me descolando da parede, devagar, olhando para as pontas dos meus pés enquanto caminho e, quando chego no meio da sala, retenho os passos e espero o barulho da porta se fechando atrás de mim.


- Tempos que não venho aqui... - meu olhar em radar recapitulando todos os móveis de longas datas e eternas lembranças.



- Dois meses - ela quase exclama, repetindo agora num tom mais baixo, menos agressivo - dois meses ou algo assim. Quer beber alguma coisa? - e dá uma risada adentrando a cozinha, me deixando sozinha e estática no centro da sala - vinho?



Eu balanço a cabeça da esquerda para direita, repetidas e ligeiras vezes, contente não só com a lembrança da outra noite, mas com a lembrança dela, expressa pelo convite ao vinho. O movimento ainda existe quando ela volta da cozinha com a taça preenchida numa mão e a garrafa na outra.



- Cadê a sua? -recebo a taça da mão dela, tomando o cuidado de esbarrar meus dedos nos dedos dela.

- Ali - e aponta para o quarto semi-escuro no fim de um corredor pequeno.



Ela caminha à minha frente, acendendo as luzes que viriam, enquanto eu apago aquelas que deixamos para trás. A luz do quarto, contudo, ela não acende; há a claridade discreta de um aquário de um azul límpido, colocado sobre uma armação de madeira pregada na parede, dentro do qual peixes de um laranja vivo passeam margeando os limites impostos pelo vidro. No quarto: uma cama de casal com grandes travesseiros desorganizados, um sofá vermelho encostado à parede, imediatamente abaixo da janela; ao lado, um criado-mudo, celular, cinzeiro, chaves, isqueiro e o maço negro do cigarro; uma mesa abarrotada de livros e cadernos, um deles, em especial, aberto, no qual eu observo linhas escritas sem poder distinguir uma palavra sequer. Ela se encaminha em direção ao sofá e senta sobre uma das pernas, sem olhar em qualquer momento para mim, parada perto da porta. Ela pega o box, escolhendo um cigarro e colocando-o na boca. Antes que ela pudesse pegar o isqueiro, me lanço dentro do quarto e ofereço a chama do meu isqueiro. Ela se surpreende, forçando as pálpebras e me olhando hipnoticamente, enquanto aproxima o cigarro da chama e num só trago, acende em vermelho brasa a ponta do cigarro.



- Senta aqui... - ela retira uma almofada do outro lugar vago do sofá.



- Não sabia que você tinha começado a fumar... - eu olho atenta para os gestos que ela desenha com o cigarro na mão, terminando por apoiá-la no parapeito da janela.



Ela olha para o cigarro, com os olhos semi-cerrados devido à fumaça:



- Faz mal, eu sei...



- Não, não é isso... - eu interrompo com medo de intimidá-la e perder o prazer de observá-la naquele exercício que era meu também.



-... mas, é bom. Você bem sabe. Você quem me ensinou...



- É... eu sei. Só não esperava te ver fumando assim... sozinha.



Ela traga devagar, deixando a ponta do cigarro vermelhíssima, fechando os olhos dos cílios tão negros.



- Às vezes... - ela solta a fumaça rala pela boca-... fumo me olhando no espelho. Não é tão só assim, se você pensar bem...



- Gosto de fumar com você, você sabe - acomodo o corpo na maciez do sofá.



Ela me oferece o próprio cigarro aceso preso entre os dedos da mão. Acompanho o seu movimento e quando projeto minha mão para perto da mão dela, ela recua o braço e trocando o cigarro de sentido, ela se aproxima de mim e coloca o cigarro nos meus lábios. Espero que ela retorne ao lugar, para então aspirar o ar mentolado que o atravessa e impregna a boca. Ela observa a cena e me espera devolver a fumaça ao ar, em forma de um pequeno cogumelo de fumaça que, com as pontas dos dedos pintados, ela agarra e desmancha. O box é novamente aberto e, dessa vez, ela mesma se encarrega de acender o cigarro.