"In every corner of my memoryThere's no place you wouldn't belf anything, I wish I hadAnother dream with youLife was forever yesterdayNothing in the world could takeYour love away, will I ever knowThat time will ease the painFor me someday" (Scorpions - She Said)"Fazia tudo de um modo metódico e parcimonioso, como se não houvesse nada que não estivesse previsto para ela desde seu nascimento."(Gabriel García Márquez - O avião da bela adormecida )Era quase meio-dia de sábado. Afonso Pena, Bahia, Augusto de Lima viraram corredores de hotel, cada prédio um quarto, cada porta uma promessa. O Maleta estava no seu louvor matinal, como se Hilda Furacão estivesse a momentos de chegar, na sua brancura felina e enigmática, saltando do livro e acalmando os ânimos: a rainha de volta ao seu castelo. Os mineiros se amontoavam, como formiga em volta dos doces, nas várias esquinas dos vários bairros avulsos de Belô e ninguém, se perguntado, saberia dizer o que faria ali, naqueles botecos boêmios de décadas, mal arejados e quase sempre escuros, com azulejos de decoração antiga, memórias de um tempo que nós, mineiros, temos o pavor de esquecer; amarelados e azulados quadradinhos brancos com desenhos florais colados nas paredes mofadas, esbranquiçados quase sempre pelo uso desses ácidos capazes de limpar a sujeira deixada pelas pessoas ali, um sujo humano demais encardido e infiltrado nas construções. Alguns quadros e fotografias pregadas em murais mofados e imundos por aquele vuco-vuco natural de quem tem sempre pressa nesses incontroláveis incentros urbanos, aquele vapor suado que exala do corpo cansado e perdido, como éteres de uma alma abandonada e passivamente sozinha. Mas, BH estava como sempre, senhora das melodias, de papo na janela com a Serra do Curral: violeiros que volatilizavam as vozes dos violões velados num bar de esquina, as palavras cantadas do sotaque sinfônico, o vento macio que aterrisava nas ruas, refrescando o calor da manhã quando vira tarde. Rodrigo e Daniel vinham comigo, caminhavam à frente, rebolando quando não havia mais ninguém para notar-lhes os traços de drag-enrustida-ansiosa-pelas-baladinhas-GLS e conversavam dando gargalhadas convulsionadas. Sem se entreolharem, sabiam exatamente para onde - e quem - olhar e o comentário seguinte era divido com muito louvor ou muita degradação e eles sempre preferiam quando podiam degradar o mundo todo, pois se sentiam terrivelmente degradados por essa cidade claustrofobicamente gay. Eu, mais atrás, rodava as listas dos telefones do meu celular, caminhando mais devagar, com meu salto plataforma-herança-da-convivência-com-dois-gays-altamente-cítricos-&-críticos, com apreço pela quantidade de figuras esquecidas e risos de canto de lábio pelas qualidades duvidosas das mesmas. No visor: Alexandre - aquela bicha oca, Ana Laura - aqueles olhos cansados de quem acabou de trepar seguidas-horas-seguidas, Aniele, Amanda – àquela que quase sempre ligava aos finais-de-semana, quando não havia mais ninguém avaiable na noite e ela precisava canalizar o impulso sexual freado durante a semana inteira no seu mundinho quadrado e hétero de secretária de escritório de advocacia (desses que ocupam o prédio inteiro e colocam os nomes dos doutores com letras maiores do que as portas), Beatriz – telefone discado só uma vez e jamais atendido, Bruno - outro veado incurável e byronista, com jeito de Quixote, sempre errante-e-errado, sempre crente de que a próximo caso ia ser definitivamente avassalador e o cara ia oferecê-lo uma passagem para Paris quando, finalmente, desenvolveria o francês de bar atrofiado e arriscado quando só haviam aquelas sapatões conhecidas e umas transas esquecidas sem remorso algum; de A a Z, nomes e nomes, com seus apostos explicativos mentalmente confabulados e vezoutra, uma memória de corpo que toca no meio do peito como sino de Igreja de cidadezinha pequena, com suas duas torres barrocas, pintadas de azul-e-branco e aquela porta imensa, sabe-se-lá se para o paraíso ou para o inferno. Rodrigo parou, deixando Daniel saltitar alguns passos a sua frente, e colocou a linha do ombro paralela à calçada, virando a cabeça como foto para a revista de fofocas, fitando-me com a sobrancelha arqueada metrossexualmente depilada – e disso ele tinha horror, homens com uma sobrancelha só. Esperou que eu me aproximasse sem tirar os olhos do vidro do celular.
- Pensando nas antigas ou nos “recalls”? – olhou curioso para o celular, enfiando o braço no laço que o meu braço fazia.
- Nem um, nem outro... – sorri dando um beijo na bochecha morena dele, livre de pêlos e com o adendo de uma covinha.
- Quero um cigarro. Gudan, de preferência. Só sei fumar assim: mentolado e antes do almoço – apalpou-me os bolsos da calça jeans e, como não achou nada, deu um tapa barulhento no meu bumbum – compra para mim, gata. Com essa bunda, você podia ser bicha. Bem – e o tom de voz desafinou cambaleante sobre o advérbio - passiva...
Pensei que seria bom fumar de novo. Havia parado há algum tempo, pois se tornara um vício terrível, coisa constante das noites úteis dos dias inúteis da semana. Entramos no primeiro bar aberto, desviando de umas pessoas que saiam em correria para o próximo bar, dando voltas nas cadeiras colocadas até no começo da rua asfaltada, essa mania galicista dos mineiros que ficaram presos no século XIX, crentes de que Belo Horizonte um dia será Paris (e a Torre Eifel, naturalmente, seria o Pirulito da Praça Sete, para felicidade descontrolada das lésbicas e gays, quando, então, a parada seria ao som da Marselhesa, com uma camisinha multi-colorida encobrindo o Pirulito enrijessidíssimo, como uma marcha dos mineiros sobre a França - gerais). Daniel - que a esta altura, já havia bebido três garrafas de Smirnoff e já se encontrava, somente por vontade própria, levemente bêbado – requebrava a anca entre as mesas e cadeiras, fazendo questão de esbarrar a bunda minguada dentro da bermuda branca de bolsos largos, o que não realçava em nada o pouco e magro corpo. Rodrigo sussurrou no meu ouvido de que ele, o Dani, acabaria se dando muito mal, d’onde já se viu bicha ativa ralar bunda em todo mundo? E eu ri divertidamente, apoiando minha mão sobre o ombro largo dele, seriamente travestido numa camisa social de cuidadosos dois botões abertos. Daniel foi o primeiro a chegar ao balcão e como de praxe, deu um tapa estrondoso na bancada. Alguns homens, sentados numa mesa do logotipo Skol, olharam-no com certa raiva, mas ele passou inerente e terminou a cena com um apoiar de mãos no quadril que tanto desejava ter mais largo: certas noites e certas taras. Um cara magro do rosto marcado pelo sofrimento, caminhou, com letargia, da pia de ardósia onde se encontrava até a figura andrógina do Dani apoiada no balcão, nos seus raquíticos um-metro-e-cinqüenta-e-Deus-ajuda, jogou o pano de prato quase marrom sobre o ombro. Não perguntou o que ele desejava, mas não foi preciso, já que o Dani se lançou imperativo:
- Oh garçom – e a voz saiu incrível e hipocritamente máscula – me vê um ice e um maço de Gudan.
O homem não disse nada, mas o olhou com as íris pretas furiosas e impacientes. Dani se virou para nós dois, apoiando as costas e as duas mãos sobre o balcão, rindo com os dentes brancos. “Voilà”, ele disse, concluindo como se estivesse sendo filmado pela câmera da curiosidade de todo mundo no bar. Rodrigo e eu balançamos a cabeça de um lado para outro, sorrindo e ironizando a atuação chinfrim do aspirante a Monroe. Dani fez um “pssssiu” e apontou, discreto, com o queixo, algum lugar à minha direita. Rodrigo não ouviu o chamado e foi ao encontro do garçom, para receber o ice e o maço, e pedir-lhe as desculpas, de quebra comprando a simpatia com uma gorjeta gorda. Esperei algum tempo para só depois olhar para trás, como quem procura as horas num relógio de parede. Era uma mulher aparentemente comum. Trajava uma calça jeans que afinava na canela e deixava à mostra o sapato de bico fino e preto, sem grande altura nos saltos. Desenvolvi o olhar clínico primeiro pelos pés, apertando com os olhos da imaginação a canela grossa que a calça desengolia. Mais acima, uma panturrilha pouco desenhada, mas arqueada, não sabia se pela posição das pernas ou por um hábito de academia. Panturrilha bonita que se alargava nas coxas com uma desenvoltura feminina, fazendo seus morros ligeiros nos devidos lugares. Como ela estava sentada, não soube dizer nada da anca, embora parecesse larga, como minha avó diria “boa parideira”. Uma blusa nem larga nem frouxa que, embora denotasse uma leve ondulação da barriga à frente, oferecia ao sabor e saber dos olhos, um colo resguardado pelo decote, forte e marcante, com o deltóide levemente trabalhado, os pequenos ossinhos do ombro que faziam um relevo misterioso, dando idéias fantasiosas do cheiro desprendido, do gosto por ser descoberto. Rosto quase quadrado, com um queixo proeminente, com desejos internos de ser um pouco mais furado. Maçãs do rosto coradas por um blush rosa, cílios pintados com a delicadeza renascentista, o tom do batom vermelho molhado do último gole na cerveja, os cabelos claros, castanhos suaves como vício de loiros. Uma inocência em se sentar com as canelas cruzadas por baixo da cadeira, como uma criança no banco da escola, esperando a mãe buscar no final do horário. Inocência que desaparecia com os trejeitos de mulher, quando jogava os cabelos sobre os ombros ou retirava-os dali, movimentando o ar ao seu redor. Era bonita, como qualquer outra beleza urbana. Muitos a olhavam, talvez até algumas também a tivessem notado. Quando terminei a primeira viagem visual ao corpo dela, nada havia acontecido. Ela não havia despertado nada além de um comentário silencioso de “é bem bonita e não é para o meu bico”. Olhei para o Dani sem expressão correspondente, não entendendo o motivo do “psiu” tão acentuado. Ele repetiu o movimento com o queixo, apontando-o na direção dela novamente. Meus olhos arregalaram-se exclusivamente para ele e bati a mão no ar para baixo, três vezes, silabando “menos, menos”. Teimoso como o próprio, tampou um dos lados da boca com a mão espalmada e falou baixo, embora fosse fácil para qualquer um ouvir o que ele dizia:
- Não olha agora, mas está te olhando – e virou o corpo de volta para o balcão, dando outro tapa sonoro, para desconcerto de Rodrigo que, a esta hora, já havia arrancado uma simpatia do garçom.
Incomodada com o comportamento do Dani, busquei o celular no bolso, por pura falta de onde colocar as mãos. Abri o flip do celular e, por descuido, apertei a tecla de “câmera” e no visor apareceram os tênis brancos do Dani. Apontei a câmera para mim, colocando o dedo no botão de tirar a foto; levantei o rosto um pouco, ensaiei um sorriso de revista e coloquei o telefone a alguns centímetros acima de mim. Foto tirada. Tornei a olhar o visor, mas a câmera não havia me focalizado: apareceu uma parte do meu rosto, a argola do meu brinco na orelha direita e no grande vazio da foto, ela reapareceu, dessa vez olhando com afinco para câmera, como se a foto fosse dela e por ela. She’s suddenly beautiful, eu pensei na música, enquanto passava o dedo sobre o painel do celular, sobre o exato lugar onde ela havia saído. Como um lapso provocado pela beleza astral dela, acreditei que naquela fotografia, eu a havia prendido no meu celular. Senti as veias das mãos pulsarem um sangue descompassado, o que afrouxou a intensidade com que segurava o celular. Não consegui fechar o flip e fui, devagar, virando o corpo na direção da mesa, sem me importar com qualquer fácil suposição de que eu me virava exatamente para olhá-la. Não, ela não me olhava e só então eu consegui fechar o celular mecanicamente, batendo as duas partes uma na outra com uma intenção sonora. Com o barulho, ela despertou de uma conversa com alguém que parecia especialmente cansativo; ela levou uma das mãos à nuca, como se massageasse uma dor no ápice da coluna e me olhou, ouvindo o que o outro falava. Olhou branco, primeiro, como se eu não estivesse lá. Pensei em desvencilhar, mas a foto no celular pedia para que eu ficasse, que agora seria minha memória quem tiraria a foto dela (ficaria presa nessa também?). Apertei o celular contra a palma da minha mão. Ela olhou ainda mais e eu vislumbrei naquele rosto claro um leve apertar das pálpebras, enrugando a pele ao redor dos olhos, como interrogações de uma fala não-verbalizável. Hipnose por livre arbítrio, não soube abandonar os olhos castanhos que me fitavam incógnitos; permaneci porque sentia que ela iria, de alguma forma, me dizer alguma coisa inaudível, uma mensagem da alma no espelho dos olhos, ou talvez apenas porque aquele olhar era muito mais uma afronta do que um convite. Mas, ela só olhou e olhou muito. E eu só olhei e olhei mais. Ela deu uma risada que começou com um sorriso quase infantil. Ainda olhava nos meus olhos quando a gargalhada nasceu, mas voltou a atenção e o motivo do riso para a companhia cinza que lhe atrapalhava a órbita. Ela tocou as costas da mão do colega de mesa, como se valesse de uma cumplicidade pela risada. Neste exato momento, Rodrigo me pegou pelo braço e fomos andando enquanto ele abria o box do Gudan, lutava contra a dificuldade de retirar um cigarro e colocava um na boca e, em seguida, um outro na minha boca. Caminhei para fora do bar, com quase todos sentidos lá dentro, preso na mulher das canelas grossas e do sapato de bico-fino; levei comigo só o doce do cigarro preso nos lábios, que também se tornou uma memória dela. Rodrigo chamava a atenção do Dani, que fosse mais discreto, desse menos bandeira, já mataram viados a doidado nessa cidade, com essa onda de vamos-jogar-os-bebês-no-Arrudas irão jogar teu pouco corpo morto lá. Daniel riu como se a risada fosse a grande resposta e o marco do seu triunfo no monólogo chato do Rodrigo. Respondeu “continuo comendo mais que você, enrustido”. Já havíamos nos distanciado do bar, quando eu percebi que não havia fogo para acender os cigarros. Rodrigo disse que compraríamos um isqueiro no próximo bar, mas eu precisava voltar e a desculpa do fogo era essencialmente válida. Desvencilhei das tentativas dos dois de me bloquearem o retorno. Apressando os passos, entrei de novo no bar, lutando contra a enxurrada de corpos que se movimentavam na porta do lugar. O olhar foi rápido em achar a mesa, mas nela, só restaram um cinzeiro cheio, dois copos e latas vazias. Um sentimento desanimado de estupidez maciça me correu o corpo e as pernas foram menos concisas em alcançar o balcão. Os olhos não entendiam o desassossego do coração, mas sabiam que precisam procurá-la. A foto n’alma e a alma da foto: possibilidades do imaginário e da imaginação. Apenas os vestígios dos dois ficaram consolados na mesa amarela encostada na parede. Do cinzeiro negro, restavam algumas guimbas apagadas dos cigarros, mas especialmente uma, não amassada, ainda estava parcialmente acesa e, sem qualquer pudor, lancei os braços na direção da mesa e tomei a pequena brasa nos dedos; aproximei-a do rosto, analisando em minúcias a coloração do batom que ficou marcada no papel branco do cigarro, e toquei a ponta da chama do cigarro na ponta escura e fria do meu Gudan. Um trago, dois e apenas no terceiro, instantaneamente, ambas pontas se fizeram rubras e a fumaça mentolada invadiu minha boca e narinas, reacendendo também a memória imediata do momento em que ela havia aparecido. Meus olhos se apertaram com a fumaça que irritava os olhos e, eu já ia me dirigindo ao balcão para pedir fósforos quando uma voz feminina, mas grave, ecoou:
- Se queria fogo, era mais fácil pegar o isqueiro, não?
Girei sobre os calcanhares. Ela estava de pé, agora, à minha frente e foi aí, então, que eu pude notar-lhe a altura de poucos centímetros medíocres maior do que a minha; as ondulações da barriga alisaram-se numa cintura afinalada entre o busto e a anca de um contorno curvilíneo. Meus calcanhares ameaçaram desprender-se do chão, quase jogando meu corpo na direção dela, como uma pequena tontura, não se sabe se pela presença dela ou pelo efeitozinho do cigarro. Enchi os pulmões de um novo ar e recobrei a tônus muscular das pernas, forçando os dedos do pé contra a sandália. Ela estava com os dentes à mostra quando tomou meu cigarro dos meus lábios: “esse cigarro, por direito, é meu”; e olhando para a guimba marcada do próprio batom, ela concluiu com a sentença mordida entre os dentes: “esse aí, então, é teu”. A dança dos braços dela à minha frente, em momento algum, me tocou, até mesmo quando, com as pontas dos dedos curtos, ela pegou o corpo do cigarro. Apenas exalou o perfume adocicado dos seus poros ao meu redor; aroma do Gudan e aquela fragrância dela fundiram-se, miraculosamente, como um par que se re-encontra numa dança e, junto ao foto do celular, passavam a ser os vestígios dela no meu sereno ser. Ela inclinou o corpo à esquerda, desviando a atenção do meu corpo, como se ele fosse um obstáculo opaco, e olhou para a mesa, dando a impressão de que conferia alguma coisa. Tomando da boca o cigarro e colocando-o entre os dedos, soprou a fumaça obediente pela boca, que desenhou uma faixa de gás dos lábios dela até o centro do meu peito. Nem ela e muito menos eu desfizemos o trajeto da fumaça, mas um terceiro sujeito cruzou o vazio entre nós duas e diluiu a retilínea nuvem cinza. Com o movimento do outro, acabei desconcentrando-me dela e fiquei alguns instantes com o olhar pausado sobra a mancha de batom vermelho no cigarro preso entre as minhas mãos. Sabia que ela ainda me olhava e esperava. Tragou algumas vezes o meu-cigarro-dela, vigiando os movimentos das minhas mãos em prol do cigarro-dela-meu. O tempo e o vento esforçavam-se para apagar a brasa da ponta do cigarro, mas, com delicadeza, eu protegia aquela ponta rubra entre a palma da minha mão e o meu corpo. Com a leveza do pouso de uma borboleta, peguei, com as pontas dos dedos, a parte manchada de batom vermelho e levei-a até meus lábios, aspirando com intensidade até que a brasa alcançou o círculo desenhado da logomarca do cigarro, extremamente próximo ao meu resto, tanto que podia sentir o calor da queima nos arredores da minha boca. Ela observou sem pausa e sem pressa e sorriu quando terminou o cigarro-momento. Durante todo tempo, eu também olhava para ela, mas não era um ato consciente de si próprio, era um agir ventrilocado pela presença dela, um efeito dela em mim. Sorri de volta, pela primeira vez, mostrando a guimba do cigarro agora completamente absorvida. Com o cigarro nos lábios, ela espremeu os olhos: sorriso ocular. Uma de suas mãos abandonou as laterais do corpo e apontou a mesa amarela logo atrás de mim. Virei para a mesa e vislumbrei o cinzeiro cheio de cinzas e outros cigarros. Compreendi que ela me sugeria que colocasse o meu junto aos demais e que, por conseqüência, havia entendido que eu a mostrara a ponta do meu cigarro para indicar que havia terminado. O sabor do batom invadira meus lábios e, embora não fosse agradável, já era íntimo da minha boca. De costas para ela, enterrei a ponta do cigarro no cinzeiro cheio de cinzas. Retirava minha mão, quando percebi que o isqueiro dela estava quase escondido atrás do próprio cinzeiro; como era fino, não poderia percebê-lo de longe, mas próxima, eu podia vê-lo repousar paciente atrás do muro negro do cinzeiro. Parei o retorno da mão e avancei-a mais uma vez em direção a mesa e tomei o isqueiro entre os dedos. Repentinamente, Daniel e Rodrigo apareceram reclamando da minha demora, perguntando se eu havia mandado fazer fogo... e ela não estava mais lá. Na massa de corpos que avolumavam o interior do bar, eu a havia perdido e, embora tenha tentado sair e procurá-la, os meninos me impediram e repetiam que precisávamos ir embora, já estávamos atrasados. Tentei, em vão, me justificar e dizer que precisava encontrá-la, devolver-lhe o isqueiro, o cigarro, o sabor, a fragrância, a foto. Mas, a verdade, é que jamais entregaria nada a ela. O sabor do batom permeou meu paladar a tarde seguinte inteira, o isqueiro acendeu muitos outros cigarros pela noite, a fragrância chocou-se com as demais fragrâncias durante a madrugada, descartando-as; e a foto ficou guardada no celular – e na alma - para sempre.