Queria, de novo, escrever coisas bonitas. Palavras-poemas, frases eternas e belas que, acima de tudo, me tocassem ou tocassem a quem as lesse. Aproximassem de mim, sutis, soprando uma melodia qualquer em lá menor, ao fundo de um ambiente em tons azuis em degrade. Ou, quem sabe, como diria Caio, esmurrassem a boca do meu estômago e me permitissem vomitar todo meu quase-sentimento guardado e mofado para hora nenhuma.
Ando com um gosto estranho na boca: amargo, seco, insípido. Verdade andei fumando mais do que estava acostumada, na pura e infantil ânsia de me achar suficientemente madura, com o canudo branco enfiado entre meus dedos indicador e médio. Ou quem sabe, para no meio daquela fumaça, permitir que uma ou duas lágrimas percorressem o triste caminho dos meus olhos até o queixo. Seja lá qual o motivo, longas baforadas cinzas foram perdidas entre uma e quatro da madrugada, entre copos de Coca-cola light e programas de TV a cabo. O gosto permanece indefinidamente e só agradeço a ele por ficar, pois a este mesmo amargo gosto deve-se essa vontade nova de escrever.
Escrever pra falar que eu não entendo. Que já cansei de tentar entender tudo que acontece(u), por quê acontece, como acontece. Estar ciente de que existe o acaso é fácil, chega a ser didático; aceitá-lo é bem diferente. Esse gosto que fica... que não exala, não destila... a sensação de deixar a festa antes do fim, quando tudo indicava pra ficar: os olhares, as bocas, os toques intencionados. Ter me levantado e ido embora, com as mãos guardadas nos bolsos, o cabelo que se rebelava num vento frio. Erguer a cabeça, tão certa disso, com os olhos que cintilavam uma vontade que chegava até a ser bonita: dentro e fora. Agora, é só amargo e seco. Voltar não é mais opção, a porta que se fecha do lado de dentro. Do lado de fora, aqui, ficou tão distante e frio e pálido e ausente e melancólico e quase febril, que já esqueci porque mesmo tinha ido embora? É quando se regurgita o gosto amargo pra nunca mais se extirpá-lo. Ali, completamente viva entre o querer ir e querer ficar, tão somente permaneço. Alguns breves segundos e desejo alucinantemente que alguém perceba a partida: olhe ao seu redor, procure, chame, chore, beba, ria-se e procure mais e mais; procure nas pessoas, nas coisas, nos perfumes, nos lábios, nos gostos. Sem jamais achar. Breves segundos e a vontade se convulsiona num choro fino, silencioso, no sopro do vento que corta a rua.
Wednesday, April 25, 2007
Friday, April 06, 2007
Você sabe o que eu quero dizer/ não tá escrito nos outdoors/ por mais que a gente grite/ o silêncio é sempre maior"
Aqui
Eu nunca disse que iria ser
A pessoa certa pra você
Mas sou eu quem te adora
Se fico um tempo sem te procurar
É pra saudade nos aproximar
E eu já não vejo a hora
Eu não consigo esconder
Certo ou errado, eu quero ter você
Ei, você sabe que eu não sei jogar
Não é meu dom representar
Não dá pra disfarçar
Eu tento aparentar frieza mas não dá
É como uma represa pronta pra jorrar
Querendo iluminar
A estrada, a casa, o quarto onde você está
Não dá pra ocultar
Algo preso quer sair do meu olhar
Atravessar montanhas e te alcançar
Tocar o seu olhar
Te fazer me enxergar e se enxergar em mim
Aqui
Agora que você parece não ligar
Que já não pensa e já não quer pensar
Dizendo que não sente nada
Estou lembrando menos de você
Falta pouco pra me convencer
Que sou a pessoa errada
Eu não consigo esconder...
Eu nunca disse que iria ser
A pessoa certa pra você
Mas sou eu quem te adora
Se fico um tempo sem te procurar
É pra saudade nos aproximar
E eu já não vejo a hora
Eu não consigo esconder
Certo ou errado, eu quero ter você
Ei, você sabe que eu não sei jogar
Não é meu dom representar
Não dá pra disfarçar
Eu tento aparentar frieza mas não dá
É como uma represa pronta pra jorrar
Querendo iluminar
A estrada, a casa, o quarto onde você está
Não dá pra ocultar
Algo preso quer sair do meu olhar
Atravessar montanhas e te alcançar
Tocar o seu olhar
Te fazer me enxergar e se enxergar em mim
Aqui
Agora que você parece não ligar
Que já não pensa e já não quer pensar
Dizendo que não sente nada
Estou lembrando menos de você
Falta pouco pra me convencer
Que sou a pessoa errada
Eu não consigo esconder...
(Ana Carolina, AQUI)
Wednesday, March 21, 2007
Uma carta para além do rio
Pensei em mil textos. Palavras, frases, pensamentos prontos, clichês sinceros. Nada. Dentro e fora: o seco se (con)funde com toda a dor, cegando-me, desorientando-me pro lado de lá, que é sempre distante e fugaz. As lágrimas, de tão poucas, caem pesadas; fecundam o improvável, alimentam o incerto. E aqui dentro: seco e amargo. Quero cuspir, balançar a cabeça, dar voltas sobre meus próprios pés até que não haja ponto fixo pra visão. Cansei de pensar e pensar parece agora tão distante. Já não é mais pensamento, é fuga. Diagonais que se aproximam, se observam, se entortam na proximidade do infinito, sem jamais se tocaram. E tudo parece mais abstrato, fora, dentro, único e desorganizado. E tudo parece menos eu.
Penso nas coisas que queria te dizer, nas coisas bonitas que me faz bem ouvir e falar pra você. Algo em mim se perdeu. Está tão dolorido que já não existe dor. Entende? Eu sei, você sente. Penso na sua desventura (ou seria aventura?) amorosa e nos inúmeros jogos que você anda aceitando-jogando-perdendo-ganhando. Vontade sincera de estapear tua cara, te levar pra longe, beber tanto, até você e eu sermos só essa fumaça opaca no meio da madrugada de uma noite de luar. Vou deixar a vontade guardada no bolso, apalpá-la sobre a calça, até que seja o momento certo de tomá-la entre os dedos e viver sua plenitude.
Elevo meu pensamento até sua rima, pra entender em que verso eu consigo te captar. Não duvido do amor, eu duvido dos amantes e do teatro deles; não duvido de você, duvido das circunstâncias. E você há de amar, sempre mais, acredite. Amor é virose. Acabei de crer.
Acabo por pensar em mim também. Pensar em mim é difícil de definir, posto que não sei o que realmente enxergo. Queria me ver pelos seus olhos, pela sua força, pela sua presença. O espelho da minha alma que corre por ai e talvez me dê respostas necessárias pra que minha existência não seja só seca e amarga...
Quero me perder. É tão natural. É tão óbvio. Preciso me perder, pra alguém certo me achar - se é que o certo existe, e só não é projeção ilusória da solidão. Até lá, me conta, pra onde eu vou?
(como eu entitulei: um cartão postal pra lá das minas, ou, a resposta dela)
Ainda guardo os pontos brilhantes daquela noite. A tela, os olhos, os olhos ao olharem para a tela. Foi como despertar para uma frase recém (re)lida em noite de insônia e nunca mais conseguir escapar de sorrisos. E, no horizonte, junto à tal esteira, a qual escapou e, independente, transfigurou-se em recurso estilístico, vejo ainda as faíscas. Não apagaram, nem apagarão, mesmo ao passarem pelo (R)rio.
Penso nas coisas que queria te dizer, nas coisas bonitas que me faz bem ouvir e falar pra você. Algo em mim se perdeu. Está tão dolorido que já não existe dor. Entende? Eu sei, você sente. Penso na sua desventura (ou seria aventura?) amorosa e nos inúmeros jogos que você anda aceitando-jogando-perdendo-ganhando. Vontade sincera de estapear tua cara, te levar pra longe, beber tanto, até você e eu sermos só essa fumaça opaca no meio da madrugada de uma noite de luar. Vou deixar a vontade guardada no bolso, apalpá-la sobre a calça, até que seja o momento certo de tomá-la entre os dedos e viver sua plenitude.
Elevo meu pensamento até sua rima, pra entender em que verso eu consigo te captar. Não duvido do amor, eu duvido dos amantes e do teatro deles; não duvido de você, duvido das circunstâncias. E você há de amar, sempre mais, acredite. Amor é virose. Acabei de crer.
Acabo por pensar em mim também. Pensar em mim é difícil de definir, posto que não sei o que realmente enxergo. Queria me ver pelos seus olhos, pela sua força, pela sua presença. O espelho da minha alma que corre por ai e talvez me dê respostas necessárias pra que minha existência não seja só seca e amarga...
Quero me perder. É tão natural. É tão óbvio. Preciso me perder, pra alguém certo me achar - se é que o certo existe, e só não é projeção ilusória da solidão. Até lá, me conta, pra onde eu vou?
(como eu entitulei: um cartão postal pra lá das minas, ou, a resposta dela)
Ainda guardo os pontos brilhantes daquela noite. A tela, os olhos, os olhos ao olharem para a tela. Foi como despertar para uma frase recém (re)lida em noite de insônia e nunca mais conseguir escapar de sorrisos. E, no horizonte, junto à tal esteira, a qual escapou e, independente, transfigurou-se em recurso estilístico, vejo ainda as faíscas. Não apagaram, nem apagarão, mesmo ao passarem pelo (R)rio.
Saturday, January 27, 2007
Like the desert misses the rain...
Ao som de: Take On Me – A-ha
Retirou a aliança prateada do dedo anular da mão direita. Colocou-a sobre a palma da mão molhada e fitou-a por longos minutos. Recolocou-a de volta ao dedo, sem contudo empurra-la até o final; ficou ali movendo-a da ponta do dedo até a base, com os olhos firmes e parados num ponto qualquer do tapete.
- Aceita? – a voz adocicada sobre o seu ombro esquerdo.
Ela ficou em silêncio. A dona da voz aproximou-se, com uma das mãos apoiadas sobre o ombro da outra, até que se assentou perigosamente próxima dela, de uma maneira que sua perna descoberta pela saia roçasse na calça jeans da de aliança nos dedos. Na outra mão, levava uma taça em formato oval preenchida até a metade com um líquido transparente com uma leve coloração amarelada. Ela aceitou.
- Não sei por que insistem tanto no vinho tinto. Existe um charme discreto no vinho branco demi séc que nenhum outro vinho conseguiria ter...– e lançou, orgulhosa, um olhar pra taça que estava entre as mãos da outra – espero que goste, Paula.
Enquanto o líquido descia a garganta de Paula, vagoroso e quente, Sílvia percorria, de lado, o olhar congelado da outra, no além da taça. Fez menção de abraçá-la e a vontade era tão maior que parecia aquecer o seio, o ventre. Era uma revolução dentro dela, que lhe inquietava e roubava a concentração. A perna trepidava e ela levava freqüentemente a mão à nuca, evitando que um arrepio qualquer lhe invadisse. Queria o abraço, o peso exato dos braços, a maciez dos seios de Paula contra os seus, mas se continha. Inclinava-se suavemente sobre o corpo dela conjeturando qual era o cheiro dos pequenos cachinhos que se perfaziam na nuca dela, qual era o sabor do lóbulo de sua orelha quando beijada, quais seriam seus gemidos, o sofrimento de suas lágrimas, o alívio de seu sorriso. Presa no próprio querer, assistia atentamente o engolir do vinho por Paula, sem conscientemente saber que desejava também ser parte daquele vinho. Queria tocá-la, colocar-lhe com o rosto apoiado sobre seus ombros enquanto brincava distraída com seus cabelos, mas não se atrevia; comedia-se, remediava sua loucura, seu desejo. Apertava mais e mais forte a nuca cada vez que o sentimento vinha mais intenso e mais capaz de criar movimentos. Sentia suas partes intumescerem, umedecerem apenas com a proximidade dos corpos. Sentia-se perdida nos pequenos centímetros que as separavam.
- Você tem razão – disse Paula, colocando a taça sobre a pequena mesa de vidro no centro da sala e voltando-se para Sílvia - tem sim seu charme.
Paula levantou os óculos com o dedo indicador, franzindo suavemente a testa, como se não entendesse, como se quisesse entender. Olhava, cuidadosa, os traços de Sílvia, que de tão bem elaborados intimidavam. A língua bateu no céu da boca, nervosa, mas Paula mordeu-a e logo a sensação se esvaziou.
- Já que você não fala nada... – começou Sílvia – eu preciso dizer algumas coisas.
O olhar de Paula correu de volta ao tapete e o irritante jogo do anel recomeçou.
- Sabe? Já não vou mais fingir que eu não quero. Que você não me faz estremecer, que não é você que me faz sorrir nos dias mais inóspitos da minha vida. Não adianta. Ainda guardo o ticket do nosso primeiro cinema juntas. Lembra de como você achou os atores falsos demais? Eu lembro. Aliás, pior que isso. Não esqueço. Não consigo, Paula.
O silêncio como grande pano de fundo. Sílvia esperou qualquer reação, mas a outra continuou com o olhar vago, sem qualquer expressão. Continuou, lutando contra a trepidação das pontas dos dedos:
- Da primeira vez que lhe vi naquele bar, de como seus olhos estavam cansados e pareciam sumir atrás dessas lentes. Desde então, a vontade em mim é sempre a mesma: descobrir quem é você. E não, nem venha me falar que “ela te conhece”. Não, meu bem, ela apenas lhe tem. E tendo você, esquece de quão delicioso poderia ser descobrir esse mistério que você guarda em si – e continuou, esfregando uma mão na outra. Lembro do seu olhar fugidio que tão pouco se esbarrava com o meu, como se fugisse, como um bicho arisco preste a dar o bote. Eu queria seus olhos, Paula. Eu quero ainda. E não adianta falar que passa porque eu sei que não vai passar. Esse tipo de coisa não nasceu pra ter fim: nem em mim e nem em você.
Levantou-se do sofá. A vista escureceu, sentiu uma das pernas um pouco dormente. Contudo, ensaiou um desfile quando passava a frente de Paula, com passos precisos e barulhentos contra o piso de taco, uma profundidade no andar tão longe da consciência da palavra. Alcançou o outro lado da sala, onde havia uma espécie de mini-bar e foi logo enchendo um copo de vinho branco meio amarelado, tomando-o num gole só e só então recomeçou:
- Entendo que você a ame e eu não lhe tiro esse direito. Afinal, é tanto tempo com ela que seria ilógico esperar que você a deixasse de amar para viver essa aventura comigo. Mas, também não vou negar que lhe desejo e é tanto que aceito o termo de “outra” – e deu uma risada pronta – justo eu, Paula... – e colocou mais um pouco de vinho dentro do copo- ... justo eu que xinguei tantos por aceitarem essa posição de... substituta – e com os olhos fixos no copo cheio -... substituta – e tomou-o num outro gole único.
Retirou a aliança prateada do dedo anular da mão direita. Colocou-a sobre a palma da mão molhada e fitou-a por longos minutos. Recolocou-a de volta ao dedo, sem contudo empurra-la até o final; ficou ali movendo-a da ponta do dedo até a base, com os olhos firmes e parados num ponto qualquer do tapete.
- Aceita? – a voz adocicada sobre o seu ombro esquerdo.
Ela ficou em silêncio. A dona da voz aproximou-se, com uma das mãos apoiadas sobre o ombro da outra, até que se assentou perigosamente próxima dela, de uma maneira que sua perna descoberta pela saia roçasse na calça jeans da de aliança nos dedos. Na outra mão, levava uma taça em formato oval preenchida até a metade com um líquido transparente com uma leve coloração amarelada. Ela aceitou.
- Não sei por que insistem tanto no vinho tinto. Existe um charme discreto no vinho branco demi séc que nenhum outro vinho conseguiria ter...– e lançou, orgulhosa, um olhar pra taça que estava entre as mãos da outra – espero que goste, Paula.
Enquanto o líquido descia a garganta de Paula, vagoroso e quente, Sílvia percorria, de lado, o olhar congelado da outra, no além da taça. Fez menção de abraçá-la e a vontade era tão maior que parecia aquecer o seio, o ventre. Era uma revolução dentro dela, que lhe inquietava e roubava a concentração. A perna trepidava e ela levava freqüentemente a mão à nuca, evitando que um arrepio qualquer lhe invadisse. Queria o abraço, o peso exato dos braços, a maciez dos seios de Paula contra os seus, mas se continha. Inclinava-se suavemente sobre o corpo dela conjeturando qual era o cheiro dos pequenos cachinhos que se perfaziam na nuca dela, qual era o sabor do lóbulo de sua orelha quando beijada, quais seriam seus gemidos, o sofrimento de suas lágrimas, o alívio de seu sorriso. Presa no próprio querer, assistia atentamente o engolir do vinho por Paula, sem conscientemente saber que desejava também ser parte daquele vinho. Queria tocá-la, colocar-lhe com o rosto apoiado sobre seus ombros enquanto brincava distraída com seus cabelos, mas não se atrevia; comedia-se, remediava sua loucura, seu desejo. Apertava mais e mais forte a nuca cada vez que o sentimento vinha mais intenso e mais capaz de criar movimentos. Sentia suas partes intumescerem, umedecerem apenas com a proximidade dos corpos. Sentia-se perdida nos pequenos centímetros que as separavam.
- Você tem razão – disse Paula, colocando a taça sobre a pequena mesa de vidro no centro da sala e voltando-se para Sílvia - tem sim seu charme.
Paula levantou os óculos com o dedo indicador, franzindo suavemente a testa, como se não entendesse, como se quisesse entender. Olhava, cuidadosa, os traços de Sílvia, que de tão bem elaborados intimidavam. A língua bateu no céu da boca, nervosa, mas Paula mordeu-a e logo a sensação se esvaziou.
- Já que você não fala nada... – começou Sílvia – eu preciso dizer algumas coisas.
O olhar de Paula correu de volta ao tapete e o irritante jogo do anel recomeçou.
- Sabe? Já não vou mais fingir que eu não quero. Que você não me faz estremecer, que não é você que me faz sorrir nos dias mais inóspitos da minha vida. Não adianta. Ainda guardo o ticket do nosso primeiro cinema juntas. Lembra de como você achou os atores falsos demais? Eu lembro. Aliás, pior que isso. Não esqueço. Não consigo, Paula.
O silêncio como grande pano de fundo. Sílvia esperou qualquer reação, mas a outra continuou com o olhar vago, sem qualquer expressão. Continuou, lutando contra a trepidação das pontas dos dedos:
- Da primeira vez que lhe vi naquele bar, de como seus olhos estavam cansados e pareciam sumir atrás dessas lentes. Desde então, a vontade em mim é sempre a mesma: descobrir quem é você. E não, nem venha me falar que “ela te conhece”. Não, meu bem, ela apenas lhe tem. E tendo você, esquece de quão delicioso poderia ser descobrir esse mistério que você guarda em si – e continuou, esfregando uma mão na outra. Lembro do seu olhar fugidio que tão pouco se esbarrava com o meu, como se fugisse, como um bicho arisco preste a dar o bote. Eu queria seus olhos, Paula. Eu quero ainda. E não adianta falar que passa porque eu sei que não vai passar. Esse tipo de coisa não nasceu pra ter fim: nem em mim e nem em você.
Levantou-se do sofá. A vista escureceu, sentiu uma das pernas um pouco dormente. Contudo, ensaiou um desfile quando passava a frente de Paula, com passos precisos e barulhentos contra o piso de taco, uma profundidade no andar tão longe da consciência da palavra. Alcançou o outro lado da sala, onde havia uma espécie de mini-bar e foi logo enchendo um copo de vinho branco meio amarelado, tomando-o num gole só e só então recomeçou:
- Entendo que você a ame e eu não lhe tiro esse direito. Afinal, é tanto tempo com ela que seria ilógico esperar que você a deixasse de amar para viver essa aventura comigo. Mas, também não vou negar que lhe desejo e é tanto que aceito o termo de “outra” – e deu uma risada pronta – justo eu, Paula... – e colocou mais um pouco de vinho dentro do copo- ... justo eu que xinguei tantos por aceitarem essa posição de... substituta – e com os olhos fixos no copo cheio -... substituta – e tomou-o num outro gole único.
Tuesday, January 09, 2007
Fim do dia
(Pausa no momento anterior. Prometo continuação... a falta de tempo me permitiu apenas esse pequeno rascunho. Às amigas blogueiras, que carinhosamente comentam aqui, peço desculpas e garanto abundantes visitas em breve.)
Você fechou a porta atrás de si. Recostou-se à porta, pausou a respiração e buscou pela sala qualquer epifania que lhe fizesse perceber quão viva estava. Conferiu os móveis, as cores, os pés, os joelhos. Fitou suas mãos, girando-as sobre o punho, contraindo-as fortemente para então relaxá-las e sentir o retorno do sangue as extremidades. Alguns passos em direção ao quarto sem desviar os olhos do chão, apenas tateando com a mão a parede que lhe guiava em meio à semi-escuridão daquele dia de inverno. Sentou-se à cama, arqueando os ombros para frente, uma estátua de desalento. A pouca luminosidade dos letreiros e postes passavam aquela sensação de fim, de desfecho, de final de linha. Você quis saltar, mas apenas abriu a janela. Enxergou os pequenos carros que, apressados, seguiam seu percurso; pensou nela. No carro dela. No cheiro exato de tutti-frutti que ele tinha. O lábio contorceu-se e um sorriso pálido aliviou a expressão. Pensou “quem sabe ela está por aí, em qualquer carro desse, retocando o batom num sinal desta cidade”. A imagem dela lhe fez bem e você inspirou o pouco ar que lhe parecia rodear. Voltou-se para a cama, sentando-se sobre uma das pernas, com o olhar atento ao lençol ainda desarrumado que revestia seu leito. Deslizou suavemente o dedo sobre ele, percorrendo um caminho imaginário que ia da cama até o corpo dela - onde quer que ele estivesse. Esforçou-se para conter uma risada triste, porque se lembrou dos cabelos molhados que ela insistia em não secar de noite e que deixavam o cheiro do shampoo no travesseiro - até agora sentido por mais de um sentido; você espremeu os olhos e algumas rugas se pronunciaram. Reteve a mão no ar, achando-se estúpida por tanta babaquice. Permitiu-se, entretanto, uma última aspiração e toda memória pareceu viva e latente, tão sua e tão inteira que seria difícil separar o que era apenas amor do que era necessidade. Você adormeceu minutos depois, agarrada no mesmo lençol.
Você fechou a porta atrás de si. Recostou-se à porta, pausou a respiração e buscou pela sala qualquer epifania que lhe fizesse perceber quão viva estava. Conferiu os móveis, as cores, os pés, os joelhos. Fitou suas mãos, girando-as sobre o punho, contraindo-as fortemente para então relaxá-las e sentir o retorno do sangue as extremidades. Alguns passos em direção ao quarto sem desviar os olhos do chão, apenas tateando com a mão a parede que lhe guiava em meio à semi-escuridão daquele dia de inverno. Sentou-se à cama, arqueando os ombros para frente, uma estátua de desalento. A pouca luminosidade dos letreiros e postes passavam aquela sensação de fim, de desfecho, de final de linha. Você quis saltar, mas apenas abriu a janela. Enxergou os pequenos carros que, apressados, seguiam seu percurso; pensou nela. No carro dela. No cheiro exato de tutti-frutti que ele tinha. O lábio contorceu-se e um sorriso pálido aliviou a expressão. Pensou “quem sabe ela está por aí, em qualquer carro desse, retocando o batom num sinal desta cidade”. A imagem dela lhe fez bem e você inspirou o pouco ar que lhe parecia rodear. Voltou-se para a cama, sentando-se sobre uma das pernas, com o olhar atento ao lençol ainda desarrumado que revestia seu leito. Deslizou suavemente o dedo sobre ele, percorrendo um caminho imaginário que ia da cama até o corpo dela - onde quer que ele estivesse. Esforçou-se para conter uma risada triste, porque se lembrou dos cabelos molhados que ela insistia em não secar de noite e que deixavam o cheiro do shampoo no travesseiro - até agora sentido por mais de um sentido; você espremeu os olhos e algumas rugas se pronunciaram. Reteve a mão no ar, achando-se estúpida por tanta babaquice. Permitiu-se, entretanto, uma última aspiração e toda memória pareceu viva e latente, tão sua e tão inteira que seria difícil separar o que era apenas amor do que era necessidade. Você adormeceu minutos depois, agarrada no mesmo lençol.
Sunday, December 24, 2006
Papo sério - parte I
- Oi Bruna.
- Ei Raquel.
- Você? Aqui?
- É... eu aqui.
- Gente, que mundo...
-... pequeno, né? Eu sei... eu sei... você aqui!
- ... é.
- Tanto tempo não nos falamos. Desde a última vez...
- Na academia, certo? Pois é, faz tempos.
- É, faz sim, faz sim. Saiu de lá faz muito tempo?
- Algum... estudando mesmo. E você, continua lá?
- Não, já saí também. Nossa! Tem mesmo muito tempo que não nos vemos. Acredita que lembrei muito de você depois que saiu?
- É? Eu duvido...
- É... verdade. Morando aqui em BH?
- Ahã.
- República?
- Sozinha, na maior parte do tempo. E você?
- Ainda no mesmo lugar de sempre.(...) Quem diria encontrar você aqui?! Não acredito...
- Eu quem digo! Você! Por aqui...
- Não sabia que você gostava de...
-... pois é. Gosto. Também não imaginava você...
- É.
- Que coisa!(...) Veio sozinha?
- Com um amigo.
- Homem?
- ... ou quase isso.
-(risos)
- E você?
- Uma turminha...
- Hmmm... turminha?
- É... alguns amigos.
- Algumas amigas?
-... também.
- Algumas com um prefixo de “ex”?
- Não. Ainda não... por quê? Você tem?
- ... quem sabe?
- (...) Ainda está namorando o...?
- Não, já terminei. E você?
- Terminei também. Faz algum tempo... logo depois eu descobri “isso”.
- Ah... (risos), aconteceu comigo assim também.
- Sério?
- Ahã.
- Já veio muito aqui?
- Algumas vezes, nada demais. Você?
- Primeira, já fui naquela outra boate, a Jô, mas prefiro essa aqui...
- É, também prefiro a Gis. Para quem gosta dessa “balada” mais feminina, é perfeito.
- (sorriso) Mesmo?
- (recíproca) É... é sim.
- Fala como se tivesse bastante experiência.
- Bastante? Não. Alguma. Você tem?
- Uma só.
- Sério? Faz muito tempo?
-... não.
- Ok. (...)
- E hoje? Sempre lhe vi acompanhada, sempre com alguém. Quem é o sortudo... melhor dito, ou seria sortuda de hoje?
- (sorriso) Esse copo de vodka. Aceita?
- Não, obrigada. Sozinha nessa balada abarrotada de gente?
- Às vezes é preciso estar suficientemente só para não fazer besteira.
- Uau, que momento poético (risos).
- Desculpa, vai ver é a vodka...
- Não... gostei, gostei. Também estou sozinha...
- Por opção.
- Por falta de opção.
- Você? (sorriso) Falta de opção? Corta essa...
- (sorriso) Por que disse "eu"? Insinua...
-... sem insinuações. Só acho que você não combina com o tipo de perfil que passa por falta de qualquer coisa.
- Mas, passo. Adianta ficar com qualquer um pra terminar a noite sem saber o nome?
- Verdade... o final, a noite sempre termina, não é? A diferença é se a gente termina junto com ela.
- É. (...) Está difícil lhe ouvir, quer vir mais pra cá, assim a gente foge do som. (...) Aqui.
- E como andam as coisas por lá?
- Bem... pensei em você depois que saiu da academia. Não deixou número, não entrou mais no ICQ...
- É... é bom hibernar um pouco...
- Um pouco? Acho que até demais. (...) Lembra das horas que passávamos na esteira conversando? Lembra?
- Claro, né? Como eu ia esquecer.
- Bruna...
-... oi?
- Você ainda tem o mesmo olhar.
- Mesmo olhar?
- É. Mas, antes parecia menina sapeca.
- (risos) Sapeca?
- É. Agora... (sorriso), não sei... mulher... me deixaria dizer sensual sem soar atrevida?
- (sorriso) Claro. (...) Posso dizer outra coisa, sem soar atrevida?
- (sorriso)
-... você continua com o mesmo sorriso.
-... desde quando repara no sorriso dos outros?
- No dos outros, nunca. No seu... (sorriso), já é outra história...
- Ahn... (sorriso). Que que tem demais meu sorriso?
- Chama a minha atenção. Sempre chamou. Quando você ficava lá horas na bicicleta, conversando com os instrutores... fazia caras e bocas.
- (sorriso)... prestava muita atenção...
- Nananinanão. Já disse: sua boca é a culpada.
- Está bom.
- Sua amiga está lhe chamando, olha lá...
(...)
- Uai, achei que fosse embora...
- Disse pra ela que queria ficar... eles já estavam indo embora, mas expliquei que tinha um bom motivo pra ficar...
- (sorriso) Você vai dormir aqui em BH essa noite?
- É... na casa de um dos meninos. Lá no Santa Efigênia...
-... hmmmm. Não é longe de onde moro. Se quiser, diga lá que você fica e, depois de um café, eu te levo em casa.
- (sorriso)... mas já me convidou pro café?
- (sorriso)...
- Ei Raquel.
- Você? Aqui?
- É... eu aqui.
- Gente, que mundo...
-... pequeno, né? Eu sei... eu sei... você aqui!
- ... é.
- Tanto tempo não nos falamos. Desde a última vez...
- Na academia, certo? Pois é, faz tempos.
- É, faz sim, faz sim. Saiu de lá faz muito tempo?
- Algum... estudando mesmo. E você, continua lá?
- Não, já saí também. Nossa! Tem mesmo muito tempo que não nos vemos. Acredita que lembrei muito de você depois que saiu?
- É? Eu duvido...
- É... verdade. Morando aqui em BH?
- Ahã.
- República?
- Sozinha, na maior parte do tempo. E você?
- Ainda no mesmo lugar de sempre.(...) Quem diria encontrar você aqui?! Não acredito...
- Eu quem digo! Você! Por aqui...
- Não sabia que você gostava de...
-... pois é. Gosto. Também não imaginava você...
- É.
- Que coisa!(...) Veio sozinha?
- Com um amigo.
- Homem?
- ... ou quase isso.
-(risos)
- E você?
- Uma turminha...
- Hmmm... turminha?
- É... alguns amigos.
- Algumas amigas?
-... também.
- Algumas com um prefixo de “ex”?
- Não. Ainda não... por quê? Você tem?
- ... quem sabe?
- (...) Ainda está namorando o...?
- Não, já terminei. E você?
- Terminei também. Faz algum tempo... logo depois eu descobri “isso”.
- Ah... (risos), aconteceu comigo assim também.
- Sério?
- Ahã.
- Já veio muito aqui?
- Algumas vezes, nada demais. Você?
- Primeira, já fui naquela outra boate, a Jô, mas prefiro essa aqui...
- É, também prefiro a Gis. Para quem gosta dessa “balada” mais feminina, é perfeito.
- (sorriso) Mesmo?
- (recíproca) É... é sim.
- Fala como se tivesse bastante experiência.
- Bastante? Não. Alguma. Você tem?
- Uma só.
- Sério? Faz muito tempo?
-... não.
- Ok. (...)
- E hoje? Sempre lhe vi acompanhada, sempre com alguém. Quem é o sortudo... melhor dito, ou seria sortuda de hoje?
- (sorriso) Esse copo de vodka. Aceita?
- Não, obrigada. Sozinha nessa balada abarrotada de gente?
- Às vezes é preciso estar suficientemente só para não fazer besteira.
- Uau, que momento poético (risos).
- Desculpa, vai ver é a vodka...
- Não... gostei, gostei. Também estou sozinha...
- Por opção.
- Por falta de opção.
- Você? (sorriso) Falta de opção? Corta essa...
- (sorriso) Por que disse "eu"? Insinua...
-... sem insinuações. Só acho que você não combina com o tipo de perfil que passa por falta de qualquer coisa.
- Mas, passo. Adianta ficar com qualquer um pra terminar a noite sem saber o nome?
- Verdade... o final, a noite sempre termina, não é? A diferença é se a gente termina junto com ela.
- É. (...) Está difícil lhe ouvir, quer vir mais pra cá, assim a gente foge do som. (...) Aqui.
- E como andam as coisas por lá?
- Bem... pensei em você depois que saiu da academia. Não deixou número, não entrou mais no ICQ...
- É... é bom hibernar um pouco...
- Um pouco? Acho que até demais. (...) Lembra das horas que passávamos na esteira conversando? Lembra?
- Claro, né? Como eu ia esquecer.
- Bruna...
-... oi?
- Você ainda tem o mesmo olhar.
- Mesmo olhar?
- É. Mas, antes parecia menina sapeca.
- (risos) Sapeca?
- É. Agora... (sorriso), não sei... mulher... me deixaria dizer sensual sem soar atrevida?
- (sorriso) Claro. (...) Posso dizer outra coisa, sem soar atrevida?
- (sorriso)
-... você continua com o mesmo sorriso.
-... desde quando repara no sorriso dos outros?
- No dos outros, nunca. No seu... (sorriso), já é outra história...
- Ahn... (sorriso). Que que tem demais meu sorriso?
- Chama a minha atenção. Sempre chamou. Quando você ficava lá horas na bicicleta, conversando com os instrutores... fazia caras e bocas.
- (sorriso)... prestava muita atenção...
- Nananinanão. Já disse: sua boca é a culpada.
- Está bom.
- Sua amiga está lhe chamando, olha lá...
(...)
- Uai, achei que fosse embora...
- Disse pra ela que queria ficar... eles já estavam indo embora, mas expliquei que tinha um bom motivo pra ficar...
- (sorriso) Você vai dormir aqui em BH essa noite?
- É... na casa de um dos meninos. Lá no Santa Efigênia...
-... hmmmm. Não é longe de onde moro. Se quiser, diga lá que você fica e, depois de um café, eu te levo em casa.
- (sorriso)... mas já me convidou pro café?
- (sorriso)...
Sunday, December 10, 2006
O final que eu prometi e o sem fim de mim...
" Elas se amavam e achavam que o mal
Tava no fundo do rio
Não se tocavam e achavam normal
Deixar seus corpos com frio
Mas exalavam o cheiro fatal
De todo corpo vazio
E era um amor assim medieval
Claro, num porão sombrio " (Oswaldo Montenegro)
Rodei a chave dentro da fechadura da porta, ainda um pouco tonta com as doses de whiskie, lutando contra o peso das pálpebras, o arder dos olhos das lágrimas recentes. Quando fiz menção de destrancá-la, percebi que já estava livre do ferrolho e apenas torçi a maçaneta. O clarão da luz do meu apartamento, contrastante com a semi-escuridão do corredor, cegou-me por alguns minutos e quando recobrei a visão, deparei-me com a silhueta de Letícia atirada num dos sofás com uma taça vazia nas mãos. Antes que eu a interpelasse com qualquer pergunta, ela se lançou:
- O vigia me deixou entrar - disse sem desviar o olhar da taça vazia - incrível o que um decote faz com os homens - e sorriu, consertando a cava da blusa que vestia.
- É... realmente.
Sem entender o propósito da visita noturna de Letícia e ainda sentindo latentes o calor de Ana e de Amanda no meu corpo, caminhei em direção ao sofá oposto aquele onde ela se sentava. Desamarrei as sandálias, tirei-as, alonguei os dedos enquando Letícia não despregava o olhar espremido da taça, que parecia enfeitiçá-la e, sabe-se lá, segredar-lhes conselhos. Franziu as sobrancelhas quando começou:
- Você apareceu na festa.
- Eu tinha que ir - um sorriso cínico nos lábios.
- É... - ela sorriu - tinha. - silêncio, inspiração profunda - gostou?
- Nada demais, nada de menos.
Ela sorriu novamente. Entretanto, desviou o olhar e fixou-os em mim. Largou a taça de lado, pegou a bolsa que estava encostada no braço do sofá, retirou um maço de Carlton e acendeu um cigarro e continuou:
- Quantas já dormiram aqui?
- Que pergunta sem...
- Quantas, eu perguntei.
- Não sei - eu franzi a testa, aproximando sobrancelhas - pra quê isso?
- Não te interessa.
- Me interessa a partir do momento em que você invade meu apartamento em plena madrugada...
- Como se você não tivesse feito isso comigo...
- Quando? - eu ironizei.
- ... quando invadiu a minha vida, meu corpo...
- Que papo é esse, Letícia? Você está bêbada?
- E se tivesse? Importa menos?
- Não, mas é o que parece...
- Não importa, Lisa... fica calada enquanto ainda não falou merda.
Por raiva ou simplesmente cansaço, atirei-me ao sofá. Cruzei as mãos atrás da cabeça e relaxei o abdômen; fitei o teto por longos minutos, dando poucos olhares de soslaio para Letícia, sentada ao meu lado direito no sofá do outro lado da sala, entretida com a fumaça de cigarro.
Subitamente, ela se levantou. Caminhou a passos calculados em minha direção. Contra o piso e contra o ar, ela andou aqueles metros pausadamente, como se silabasse uma sentença, forçando o salto de seu sapato contra o chão: um anúncio de chegada sonoramente sinalizado. Sentou-se sobre o meu ventre, pressionando o corpo contra o meu; inclinou-se sobre mim e me puxou ao encontro de seu corpo. Letícia encostou os lábios vermelhos nos meus. Por simples reflexo, eu acabava me envolvendo no beijo, invadindo a boca dela com a minha língua e deixando que ela invadisse também a minha boca, numa mistura amarga de diferentes gostos. Ela imprimiu um ritmo ao movimento das ancas e eu percorri o contorno das coxas dela com a palma da minha mão.
E sem que eu esperasse, ela me empurrou de volta ao sofá e desenvolveu um raivoso tapa na minha face. Acelerado, raivoso, pesado, sofrido... o tapa me deslocou, me desconcertou, ardeu, umedeceu os olhos. Arregalei os olhos, buscando o olhar dela e um bravio frio percorreu-me o ventre quando percebi que o olhar dela permanecia imóvel e estático, tão análogo à maneira como olhava a taça, fria e vazia.
Letícia se levantou, pegou a bolsa, saiu apressada do apartamento e, antes de fechar a porta atrás de si, deixou um papel sobre a mesa do centro. O barulho da porta é forte e ameaçou me alavancar daquela sensação de torpor e inconsciência do tapa. Cogitei buscar-lhe à força, perguntar-lhe retóricas idiotas e apenas fiquei ali - com a pretensão vermelha ardida no rosto. Alguns minutos mais tarde, e eu adormeçi encolhida no sofá preto, sem demonstrar qualquer pretenção de levantar e ler o papel.
No dia seguinte, lembro-me que levantei com uma terrível enxaqueca, o crânio que parecia fervilhar e latejava dolorido. No caminho para o banheiro, pego o papel que Letícia havia deixado sobre a mesa: uma foto. Alguém na festa havia tirado uma foto no momento genial; eu, com os olhos no copo; Roberta, ao meu lado, com a boca semi-aberta perto ao meu ouvido; Ana com os olhos brilhantes e oblíquos apontados para mim; Letícia, mordendo os lábios inferiores, com o olhar desmedido e guloso sobre mim; Amanda, com uma das mãos nos cabelos, com os olhos marejados e tímidos, que pareciam esconder-se de todos, mas revelavam a pupila teimosa que se lançava sobre mim.
Parei algum tempo com aquela fotografia entre os dedos e, naquele instante incerto e dolorido, uma história inteira de relacionamentos parecia desvendada e a maldição que caia sobre mim finalmente libertada. Meus olhos não eram de ninguém, nem mesmo de Ana, que parecia ser a que mais os marecia - ou era confortável, para mim, pensar que era ela quem os merecia, já que dificilmente ela iria aceitá-los de volta. Meu olhar, obscuro e melancólico, pairava sob meu próprio copo, sobre aquele amarelado líquido; amarelo e óbvio líquido, volátil e amargo, cuja forma depende unicamente do recipiente.
Joguei o papel sobre a mesa, de um jeito desajeitado. Caminhei pra banho em passos pesados e vagarosos, com o corpo trôpego e desamparado. Acendi a luz do banheiro e quando me foi possível enxergar no espelho, a imagem parecia distante da minha. Imagem fugidia e inverossímel, que conta uma história errada do meu fim. Um fim que é tão só meu que também termina só e absoluto, relembrando que não existe nada além da finitude e do inalcançável. Nada, além dessa certeza de que, eventualmente, a noite também tem seu fim, e as cabeças se vão entorpecidas, os corpos sedentos, os corações impermeabilizados, as caras e as almas marcadas de um vermelho sangrento e escuro. O grand finale que fecha as cortinas antes que alguém enxergue as lágrimas dos atores.
Tava no fundo do rio
Não se tocavam e achavam normal
Deixar seus corpos com frio
Mas exalavam o cheiro fatal
De todo corpo vazio
E era um amor assim medieval
Claro, num porão sombrio " (Oswaldo Montenegro)
Rodei a chave dentro da fechadura da porta, ainda um pouco tonta com as doses de whiskie, lutando contra o peso das pálpebras, o arder dos olhos das lágrimas recentes. Quando fiz menção de destrancá-la, percebi que já estava livre do ferrolho e apenas torçi a maçaneta. O clarão da luz do meu apartamento, contrastante com a semi-escuridão do corredor, cegou-me por alguns minutos e quando recobrei a visão, deparei-me com a silhueta de Letícia atirada num dos sofás com uma taça vazia nas mãos. Antes que eu a interpelasse com qualquer pergunta, ela se lançou:
- O vigia me deixou entrar - disse sem desviar o olhar da taça vazia - incrível o que um decote faz com os homens - e sorriu, consertando a cava da blusa que vestia.
- É... realmente.
Sem entender o propósito da visita noturna de Letícia e ainda sentindo latentes o calor de Ana e de Amanda no meu corpo, caminhei em direção ao sofá oposto aquele onde ela se sentava. Desamarrei as sandálias, tirei-as, alonguei os dedos enquando Letícia não despregava o olhar espremido da taça, que parecia enfeitiçá-la e, sabe-se lá, segredar-lhes conselhos. Franziu as sobrancelhas quando começou:
- Você apareceu na festa.
- Eu tinha que ir - um sorriso cínico nos lábios.
- É... - ela sorriu - tinha. - silêncio, inspiração profunda - gostou?
- Nada demais, nada de menos.
Ela sorriu novamente. Entretanto, desviou o olhar e fixou-os em mim. Largou a taça de lado, pegou a bolsa que estava encostada no braço do sofá, retirou um maço de Carlton e acendeu um cigarro e continuou:
- Quantas já dormiram aqui?
- Que pergunta sem...
- Quantas, eu perguntei.
- Não sei - eu franzi a testa, aproximando sobrancelhas - pra quê isso?
- Não te interessa.
- Me interessa a partir do momento em que você invade meu apartamento em plena madrugada...
- Como se você não tivesse feito isso comigo...
- Quando? - eu ironizei.
- ... quando invadiu a minha vida, meu corpo...
- Que papo é esse, Letícia? Você está bêbada?
- E se tivesse? Importa menos?
- Não, mas é o que parece...
- Não importa, Lisa... fica calada enquanto ainda não falou merda.
Por raiva ou simplesmente cansaço, atirei-me ao sofá. Cruzei as mãos atrás da cabeça e relaxei o abdômen; fitei o teto por longos minutos, dando poucos olhares de soslaio para Letícia, sentada ao meu lado direito no sofá do outro lado da sala, entretida com a fumaça de cigarro.
Subitamente, ela se levantou. Caminhou a passos calculados em minha direção. Contra o piso e contra o ar, ela andou aqueles metros pausadamente, como se silabasse uma sentença, forçando o salto de seu sapato contra o chão: um anúncio de chegada sonoramente sinalizado. Sentou-se sobre o meu ventre, pressionando o corpo contra o meu; inclinou-se sobre mim e me puxou ao encontro de seu corpo. Letícia encostou os lábios vermelhos nos meus. Por simples reflexo, eu acabava me envolvendo no beijo, invadindo a boca dela com a minha língua e deixando que ela invadisse também a minha boca, numa mistura amarga de diferentes gostos. Ela imprimiu um ritmo ao movimento das ancas e eu percorri o contorno das coxas dela com a palma da minha mão.
E sem que eu esperasse, ela me empurrou de volta ao sofá e desenvolveu um raivoso tapa na minha face. Acelerado, raivoso, pesado, sofrido... o tapa me deslocou, me desconcertou, ardeu, umedeceu os olhos. Arregalei os olhos, buscando o olhar dela e um bravio frio percorreu-me o ventre quando percebi que o olhar dela permanecia imóvel e estático, tão análogo à maneira como olhava a taça, fria e vazia.
Letícia se levantou, pegou a bolsa, saiu apressada do apartamento e, antes de fechar a porta atrás de si, deixou um papel sobre a mesa do centro. O barulho da porta é forte e ameaçou me alavancar daquela sensação de torpor e inconsciência do tapa. Cogitei buscar-lhe à força, perguntar-lhe retóricas idiotas e apenas fiquei ali - com a pretensão vermelha ardida no rosto. Alguns minutos mais tarde, e eu adormeçi encolhida no sofá preto, sem demonstrar qualquer pretenção de levantar e ler o papel.
No dia seguinte, lembro-me que levantei com uma terrível enxaqueca, o crânio que parecia fervilhar e latejava dolorido. No caminho para o banheiro, pego o papel que Letícia havia deixado sobre a mesa: uma foto. Alguém na festa havia tirado uma foto no momento genial; eu, com os olhos no copo; Roberta, ao meu lado, com a boca semi-aberta perto ao meu ouvido; Ana com os olhos brilhantes e oblíquos apontados para mim; Letícia, mordendo os lábios inferiores, com o olhar desmedido e guloso sobre mim; Amanda, com uma das mãos nos cabelos, com os olhos marejados e tímidos, que pareciam esconder-se de todos, mas revelavam a pupila teimosa que se lançava sobre mim.
Parei algum tempo com aquela fotografia entre os dedos e, naquele instante incerto e dolorido, uma história inteira de relacionamentos parecia desvendada e a maldição que caia sobre mim finalmente libertada. Meus olhos não eram de ninguém, nem mesmo de Ana, que parecia ser a que mais os marecia - ou era confortável, para mim, pensar que era ela quem os merecia, já que dificilmente ela iria aceitá-los de volta. Meu olhar, obscuro e melancólico, pairava sob meu próprio copo, sobre aquele amarelado líquido; amarelo e óbvio líquido, volátil e amargo, cuja forma depende unicamente do recipiente.
Joguei o papel sobre a mesa, de um jeito desajeitado. Caminhei pra banho em passos pesados e vagarosos, com o corpo trôpego e desamparado. Acendi a luz do banheiro e quando me foi possível enxergar no espelho, a imagem parecia distante da minha. Imagem fugidia e inverossímel, que conta uma história errada do meu fim. Um fim que é tão só meu que também termina só e absoluto, relembrando que não existe nada além da finitude e do inalcançável. Nada, além dessa certeza de que, eventualmente, a noite também tem seu fim, e as cabeças se vão entorpecidas, os corpos sedentos, os corações impermeabilizados, as caras e as almas marcadas de um vermelho sangrento e escuro. O grand finale que fecha as cortinas antes que alguém enxergue as lágrimas dos atores.
Saturday, November 25, 2006
Continuação...
Ainda com um sorriso vitorioso nos lábios, traguei uma outra dose do whiskie. Meus olhos encheram-se de lágrimas logo que o último gole percorreu garganta abaixo e através do fundo do copo de vidro, eu assisti aos olhos das quatros mulheres me fitarem inadvertidamente. Coloquei o copo de volta à mesa, sorri calma e quando já dava as costas para voltar pra qualquer lugar longe:
- Fica aí, Lisa! - pigarrou Ana - não faça essa desfeita à velhas amigas.
À medida que a voz foi se traduzindo em sentimento dentro de mim, um choque iniciou-se no ventre e arrepiou-me pêlos em diversas regiões. Ana havia se pronunciado pela primeira vez diretamente a mim. Olhei-a nos olhos sem disfarçar o espanto camuflado em surpresa e disse num suspiro tedioso e quase inaudível "velhas amigas a pinóia". Pelo incerteiro e delator comentário que elas não ouviram, apenas afirmei positivamente com a cabeça. Letícia, ainda tão brilhante quando à primeira vista, parecia divertir-se com a cena, esquecendo-se da presença de Ana colada no seu corpo, sob a protetora defesa dos seus braços; bebericava freqüentemente o copo de cerveja para ter um álibi de me olhar nos olhos. Ana, irremediavelmente deslocada, não parava o olhar em lugar algum, salvo raras vezes em que se perdia em alguns pontos luminosos que enfeitavam o ambiente. Amanda, agora já atirada ao colo de Roberta, brincava com os cabelos curtos e cacheados da minha amiga butch, que ainda atônita, pedia-me desculpas incoerentes com o olhar.
Ali parada, eu era caça de 4 caçadoras. Umas devorando, outras espreitando, outras apenas esperando a hora certa. Busquei por um cigarro no bolso, mas ao encontrar os olhos de Ana sobre os meus gestos, acabei por desistir. Arrisquei:
- Há quanto tempo estão juntas?
- Há, não faz muitos... - Ana começa.
- Longos meses - Letícia sorriu segurando o queixo de Ana e virando-o para si - não é, Aninha?
Ana mostrou os dentes e voltou os olhares novamente à atmosfera irradiante ao redor. Letícia encarou-me, perguntou se não iria me sentar. Amanda ofereceu o lugar que estava sentada e acabei por recusar todos. Para minha sorte, eis que aparece, milagrosamente, uma mulher que eu já conhecia há algum tempo, caso antigo e velado. Caminhou em minha direção trepidando os seios fartos aprisionados por debaixo de um decote em V abusivo e indiscreto.
- Lisaaaaaaaa... - e me envolveu num abraço apertado no qual seus seios pareciam me sufocar.
Tomei alguns minutos de conversa com a sensual mulher: relembrei de onde a conhecia, do que havíamos feitos juntas e cheguei a ganhar o novo número de telefone celular da donzela, não sem antes fornecer o meu por livre e espontânea pressão. Cordialmente, armazei o número no celular com o lembrete "não atender".
Quando voltei o olhar às meninas da mesa, todas elas pareciam ligeiramente enfurecida, a exceção de Roberta que a estava hora já desprendera-se da timidez inicial e aventurava-se a também brincar com cabelos de Amanda.
A noite transcorreu calmamente. Afastei-me um pouco dos casaizinhos, para evitar qualquer desentendimento, visto a visível pertubação que eu causara. Momentos antes do final da noite, eu acabo encontrando com Ana dentro do banheiro.
- Não sabia que você viria - ela inicia.
- Nem eu - e eu a olho pelo reflexo no espelho.
Ana dá uma risadinha de lado, lavando-as mãos. Como eu deveria passar muito próxima a ela para entrar na cabine do banheiro, acabei por roçar meu corpo contra o corpo dela e, ao olhar no espelho, eu a vi fechar os olhos e morder levemente os lábios inferiores. Atenta, eu reduzi a velocidade, atritando meu corpo contra o dela mais vigorosamente, até que ela cedeu: empurrou-me cabine a dentro, colocou-me sentada e sentou-se sobre mim, arranhando minhas costas, puxando enloquecida os meus cabelos, desprendendo todo o peso de seu corpo sobre meu ventre. Beijou, mordeu, lambou, mordiscou, chupou, beijou e beijou meus lábios. A cena e as sensações foram rápidas e logo que Ana recobrou os sentidos, acabou por sair de mim, empurrando-me de encontro a parede da cabine: empurrou a porta e ainda pude assistir a uma lágrima ensaiando arrependimento.
Sob o efeito do álcool e do som alto, eu fiquei alguns minutos sentada ali, onde Ana havia me deixado. Ainda anestesiada pela presença dela, fiz menção de levantar e correr ao encontro dela, mas a tontura foi maior e jogou-me de volta ao assento. Tão logo consegui tomar rumo para fora do banheiro feminino, pedi uma garrafa d'água e a tomei num gole só. Caminhei em direção à mesa e para meu discreto espanto, Ana não chorava, não protagonizava uma lágrima sequer: o mesmo sorriso oblíquo e cigano, quase capitolino. Estou indo embora, eu disse. Amanda deu um salto para fora do colo de Roberta, que a essa hora já não dava notícia de si, e me disse que precisava de carona e se eu não a podia levar. Entreolhei Ana, Letícia e Roberta, que embora parecessem alheias as cenas - disso eu sabia - estavam tão alertas como eu. Acabei por optar a dar-lhe a carona, sensibilizada pela beleza e pelos lábios de Amanda, confessado.
Entramos no carro em silêncio. Nem uma palavra trocada em todo percurso, apenas o rádio ligado numa emissora dessas que tocam músicas antigas. Amanda batia os pés sobre o assoalho do carro, sonorizava estalos de pulga com as pontas das unhas. Estacionei o carro à frente de seu prédio, mas ela me pediu que entrasse com o carro, pois não era aconselhável aos moradores entrarem tão desprotegidos. Sem qualquer pudor ou previsão, adentrei no estacionamento, parei à frente do elevador e antes que eu destravasse as portas do carro, Amanda pulou sobre mim, levantando-me o vestido, beijando-me o pescoço, num assédio sedento.
- Amanda! Mas você está com...
Entre fôlegos que ela dava e entre minhas tentativas de escapatória, ela conseguiu alcançar o meio das minhas pernas e com o leve toque de seus dedos pressionou meu corpo no ponto certo; tão certo que entreguei à vontade e ela acabou por invadir-me por inteira, gemendo junto comigo, segredando indecências no pé do ouvido. Instantâneo. Sem falar nada, ela se recompôs. Parecia tristemente satisfeita e naquele momento senti meu corpo à parte de mim, vendido e fútil. Ela fechou a porta do carro atrás de si e embarcou no primeiro elevador desocupado. Deixou-me ali, exposta ao sentimento auto-punitivo de ridículo, com a infinidade de possibilidades do silêncio e do abandono dela.
De volta à casa, ainda no estacionamento do meu prédio, liguei o som numa rádio oportunamente de blues: longas e pesarosas lágrimas venderam o peso dos copos de whiskie. Eu me sentia suja e usada e ao mesmo tempo dona do mundo. Ana e Amanda me tiveram e não souberam possuir - e àquela altura, eu já não saberia diferenciar se era eu quem não sabia pertencer ou elas que não saberiam cuidar. E talvez o mais triste fosse que nem a mim elas podiam pertencer: essa coisa fugidia que eu personifico. Enquanto os faróis passavam ofuscantes por mim, as imagens da noite, dos beijos, das roupas, das bocas, de Ana, de Ana, de Amanda e de Ana novamente se misturavam e se agrediam dentro de mim.
(...)
- Fica aí, Lisa! - pigarrou Ana - não faça essa desfeita à velhas amigas.
À medida que a voz foi se traduzindo em sentimento dentro de mim, um choque iniciou-se no ventre e arrepiou-me pêlos em diversas regiões. Ana havia se pronunciado pela primeira vez diretamente a mim. Olhei-a nos olhos sem disfarçar o espanto camuflado em surpresa e disse num suspiro tedioso e quase inaudível "velhas amigas a pinóia". Pelo incerteiro e delator comentário que elas não ouviram, apenas afirmei positivamente com a cabeça. Letícia, ainda tão brilhante quando à primeira vista, parecia divertir-se com a cena, esquecendo-se da presença de Ana colada no seu corpo, sob a protetora defesa dos seus braços; bebericava freqüentemente o copo de cerveja para ter um álibi de me olhar nos olhos. Ana, irremediavelmente deslocada, não parava o olhar em lugar algum, salvo raras vezes em que se perdia em alguns pontos luminosos que enfeitavam o ambiente. Amanda, agora já atirada ao colo de Roberta, brincava com os cabelos curtos e cacheados da minha amiga butch, que ainda atônita, pedia-me desculpas incoerentes com o olhar.
Ali parada, eu era caça de 4 caçadoras. Umas devorando, outras espreitando, outras apenas esperando a hora certa. Busquei por um cigarro no bolso, mas ao encontrar os olhos de Ana sobre os meus gestos, acabei por desistir. Arrisquei:
- Há quanto tempo estão juntas?
- Há, não faz muitos... - Ana começa.
- Longos meses - Letícia sorriu segurando o queixo de Ana e virando-o para si - não é, Aninha?
Ana mostrou os dentes e voltou os olhares novamente à atmosfera irradiante ao redor. Letícia encarou-me, perguntou se não iria me sentar. Amanda ofereceu o lugar que estava sentada e acabei por recusar todos. Para minha sorte, eis que aparece, milagrosamente, uma mulher que eu já conhecia há algum tempo, caso antigo e velado. Caminhou em minha direção trepidando os seios fartos aprisionados por debaixo de um decote em V abusivo e indiscreto.
- Lisaaaaaaaa... - e me envolveu num abraço apertado no qual seus seios pareciam me sufocar.
Tomei alguns minutos de conversa com a sensual mulher: relembrei de onde a conhecia, do que havíamos feitos juntas e cheguei a ganhar o novo número de telefone celular da donzela, não sem antes fornecer o meu por livre e espontânea pressão. Cordialmente, armazei o número no celular com o lembrete "não atender".
Quando voltei o olhar às meninas da mesa, todas elas pareciam ligeiramente enfurecida, a exceção de Roberta que a estava hora já desprendera-se da timidez inicial e aventurava-se a também brincar com cabelos de Amanda.
A noite transcorreu calmamente. Afastei-me um pouco dos casaizinhos, para evitar qualquer desentendimento, visto a visível pertubação que eu causara. Momentos antes do final da noite, eu acabo encontrando com Ana dentro do banheiro.
- Não sabia que você viria - ela inicia.
- Nem eu - e eu a olho pelo reflexo no espelho.
Ana dá uma risadinha de lado, lavando-as mãos. Como eu deveria passar muito próxima a ela para entrar na cabine do banheiro, acabei por roçar meu corpo contra o corpo dela e, ao olhar no espelho, eu a vi fechar os olhos e morder levemente os lábios inferiores. Atenta, eu reduzi a velocidade, atritando meu corpo contra o dela mais vigorosamente, até que ela cedeu: empurrou-me cabine a dentro, colocou-me sentada e sentou-se sobre mim, arranhando minhas costas, puxando enloquecida os meus cabelos, desprendendo todo o peso de seu corpo sobre meu ventre. Beijou, mordeu, lambou, mordiscou, chupou, beijou e beijou meus lábios. A cena e as sensações foram rápidas e logo que Ana recobrou os sentidos, acabou por sair de mim, empurrando-me de encontro a parede da cabine: empurrou a porta e ainda pude assistir a uma lágrima ensaiando arrependimento.
Sob o efeito do álcool e do som alto, eu fiquei alguns minutos sentada ali, onde Ana havia me deixado. Ainda anestesiada pela presença dela, fiz menção de levantar e correr ao encontro dela, mas a tontura foi maior e jogou-me de volta ao assento. Tão logo consegui tomar rumo para fora do banheiro feminino, pedi uma garrafa d'água e a tomei num gole só. Caminhei em direção à mesa e para meu discreto espanto, Ana não chorava, não protagonizava uma lágrima sequer: o mesmo sorriso oblíquo e cigano, quase capitolino. Estou indo embora, eu disse. Amanda deu um salto para fora do colo de Roberta, que a essa hora já não dava notícia de si, e me disse que precisava de carona e se eu não a podia levar. Entreolhei Ana, Letícia e Roberta, que embora parecessem alheias as cenas - disso eu sabia - estavam tão alertas como eu. Acabei por optar a dar-lhe a carona, sensibilizada pela beleza e pelos lábios de Amanda, confessado.
Entramos no carro em silêncio. Nem uma palavra trocada em todo percurso, apenas o rádio ligado numa emissora dessas que tocam músicas antigas. Amanda batia os pés sobre o assoalho do carro, sonorizava estalos de pulga com as pontas das unhas. Estacionei o carro à frente de seu prédio, mas ela me pediu que entrasse com o carro, pois não era aconselhável aos moradores entrarem tão desprotegidos. Sem qualquer pudor ou previsão, adentrei no estacionamento, parei à frente do elevador e antes que eu destravasse as portas do carro, Amanda pulou sobre mim, levantando-me o vestido, beijando-me o pescoço, num assédio sedento.
- Amanda! Mas você está com...
Entre fôlegos que ela dava e entre minhas tentativas de escapatória, ela conseguiu alcançar o meio das minhas pernas e com o leve toque de seus dedos pressionou meu corpo no ponto certo; tão certo que entreguei à vontade e ela acabou por invadir-me por inteira, gemendo junto comigo, segredando indecências no pé do ouvido. Instantâneo. Sem falar nada, ela se recompôs. Parecia tristemente satisfeita e naquele momento senti meu corpo à parte de mim, vendido e fútil. Ela fechou a porta do carro atrás de si e embarcou no primeiro elevador desocupado. Deixou-me ali, exposta ao sentimento auto-punitivo de ridículo, com a infinidade de possibilidades do silêncio e do abandono dela.
De volta à casa, ainda no estacionamento do meu prédio, liguei o som numa rádio oportunamente de blues: longas e pesarosas lágrimas venderam o peso dos copos de whiskie. Eu me sentia suja e usada e ao mesmo tempo dona do mundo. Ana e Amanda me tiveram e não souberam possuir - e àquela altura, eu já não saberia diferenciar se era eu quem não sabia pertencer ou elas que não saberiam cuidar. E talvez o mais triste fosse que nem a mim elas podiam pertencer: essa coisa fugidia que eu personifico. Enquanto os faróis passavam ofuscantes por mim, as imagens da noite, dos beijos, das roupas, das bocas, de Ana, de Ana, de Amanda e de Ana novamente se misturavam e se agrediam dentro de mim.
(...)
Saturday, November 18, 2006
When you look... (continuação)
(Demorou, mas chegou. Curto e breve, é verdade. É essa maldita falta de tempo. Prometo a continuação em breve. Para os que começam a leitura agora, caso queiram se contextualizar, o post "When you look around do you wonder..." é o início dessa história melo-dramática que eu insisto em recontar. Aos que já sabem, bom apetite.)
Os dois cubos de gelo dentro do copo de whisky insistiam em tilintar vigorosamente entre minhas mãos, embora eu me esforçasse para mantê-los menos barulhentos. Roberta lançou um sorriso zombeteiro sobre mim, dando duas palmadinhas no meu ombro esquerdo.
- Gostou da surpresa da noite, amiga? – Roberta me encarou
- Que surpresa filha da...
- Epa! Calma, mocinha. Ladies não falam palavrão! – e sorriu novamente, tomando-me uma das mãos e caminhando em direção à mesa – elas não mordem e, mesmo que mordessem, eu já sei que você gosta disso - deu ao "disso" uma entonação irônica, o que me fez olhá-la ferozmente em reprovação à brincadeira.
Minhas pernas resistiam ao movimento, mas algo tão mais interno e irresistível também me ajudou a aproximar das três figuras femininas. Amanda iniciou:
- Achei que você não vinha. Deixei recado na sua secretária eletrônica, mas você não respondeu...
- Pra variar – Letícia murmurou.
Olhei para Letícia, sentada bem próxima a Ana, que parecia tão assustada quanto eu. Armadilha ou não de sua parte, Letícia estava incrivelmente fascinante naquela noite: os lábios delineados, um batom suave acompanhado de um brilho chamativo que dava a sua boca um tom intocável e amplamente desejável, os olhos atentos e fixos, gulosos olhos, profundos e profanos. Ana, ao seu lado, ofuscava a minha memória, constrastando com a imagem que eu mantinha dela, da última noite em que ela inva diu meu corpo e meu apartamento; fechada num terninho preto e branco, não se moveu muito, mas percorreu sabe-se lá quantas vezes o meu olhar, os meus gestos, fitou o copo de whiskie nas minhas mãos e sempre que tocada por Letícia, eu quase podia sentir-lhe uma certa ojeriza.
- Sabia que, se fosse pra uma festa, você viria mesmo. – Letícia disse e se voltou para Ana, abraçando-lhe a cintura.
Fiquei algum tempo imóvel à frente delas, transpirando e conjeturando milhares de saídas estratégicas. Olhei para os meus sapatos, para meus joelhos nus, para o meu decote e me senti completamente exposta. Amanda arrastou a cadeira para trás e caminhou em minha direção. Pensei que fosse me abraçar, dar-me os cordiais três beijinhos, afinal já fazia algum bom tempo desde o nosso último encontro. Quando se aproximou o suficiente de mim, deu-me a volta e lançou-se aos braços de Roberta que estava imediatamente atrás de mim, que permaneceu estática, olhando nos meus olhos com os mesmos olhos piedosos de uma criança travessa recém-saída de uma mau-criação.
- Lisa...
Eu tentei não demonstrar a surpresa e levantei o copo, dando minhas reverências à cena. Amanda beijou furiosamente (e é esse o advérbio que descreve a cena: algo furioso) a boca de Roberta e quando finalmente se despregaram, uma mancha vermelha de batom corou queijo e lábios de Roberta, que com as bochechas rosadas – de álcool e de vergonha -, nem fez tanta questão de limpar. Ainda abraçadas, Roberta insistiu:
- Lisa, aconteceu de...
- Relaxa, Roberta. – eu sorri e nessa hora, um peso saiu dos meus ombros – só posso desejar que dê certo.
Os olhos de Amanda se encontraram com os meus e, caso ela estivesse jogando, a partida eu havia vencido. Tática ou não, meu sorriso e a minha tranqüilidade na fala atingiram em cheio o alvo e tão logo ferida, Amanda arregalou discretamente os olhos, enquanto desafrouxava a força com que havia abraçado Roberta. Tomei um gole no whisky, agora nem tão amargo.
Os dois cubos de gelo dentro do copo de whisky insistiam em tilintar vigorosamente entre minhas mãos, embora eu me esforçasse para mantê-los menos barulhentos. Roberta lançou um sorriso zombeteiro sobre mim, dando duas palmadinhas no meu ombro esquerdo.
- Gostou da surpresa da noite, amiga? – Roberta me encarou
- Que surpresa filha da...
- Epa! Calma, mocinha. Ladies não falam palavrão! – e sorriu novamente, tomando-me uma das mãos e caminhando em direção à mesa – elas não mordem e, mesmo que mordessem, eu já sei que você gosta disso - deu ao "disso" uma entonação irônica, o que me fez olhá-la ferozmente em reprovação à brincadeira.
Minhas pernas resistiam ao movimento, mas algo tão mais interno e irresistível também me ajudou a aproximar das três figuras femininas. Amanda iniciou:
- Achei que você não vinha. Deixei recado na sua secretária eletrônica, mas você não respondeu...
- Pra variar – Letícia murmurou.
Olhei para Letícia, sentada bem próxima a Ana, que parecia tão assustada quanto eu. Armadilha ou não de sua parte, Letícia estava incrivelmente fascinante naquela noite: os lábios delineados, um batom suave acompanhado de um brilho chamativo que dava a sua boca um tom intocável e amplamente desejável, os olhos atentos e fixos, gulosos olhos, profundos e profanos. Ana, ao seu lado, ofuscava a minha memória, constrastando com a imagem que eu mantinha dela, da última noite em que ela inva diu meu corpo e meu apartamento; fechada num terninho preto e branco, não se moveu muito, mas percorreu sabe-se lá quantas vezes o meu olhar, os meus gestos, fitou o copo de whiskie nas minhas mãos e sempre que tocada por Letícia, eu quase podia sentir-lhe uma certa ojeriza.
- Sabia que, se fosse pra uma festa, você viria mesmo. – Letícia disse e se voltou para Ana, abraçando-lhe a cintura.
Fiquei algum tempo imóvel à frente delas, transpirando e conjeturando milhares de saídas estratégicas. Olhei para os meus sapatos, para meus joelhos nus, para o meu decote e me senti completamente exposta. Amanda arrastou a cadeira para trás e caminhou em minha direção. Pensei que fosse me abraçar, dar-me os cordiais três beijinhos, afinal já fazia algum bom tempo desde o nosso último encontro. Quando se aproximou o suficiente de mim, deu-me a volta e lançou-se aos braços de Roberta que estava imediatamente atrás de mim, que permaneceu estática, olhando nos meus olhos com os mesmos olhos piedosos de uma criança travessa recém-saída de uma mau-criação.
- Lisa...
Eu tentei não demonstrar a surpresa e levantei o copo, dando minhas reverências à cena. Amanda beijou furiosamente (e é esse o advérbio que descreve a cena: algo furioso) a boca de Roberta e quando finalmente se despregaram, uma mancha vermelha de batom corou queijo e lábios de Roberta, que com as bochechas rosadas – de álcool e de vergonha -, nem fez tanta questão de limpar. Ainda abraçadas, Roberta insistiu:
- Lisa, aconteceu de...
- Relaxa, Roberta. – eu sorri e nessa hora, um peso saiu dos meus ombros – só posso desejar que dê certo.
Os olhos de Amanda se encontraram com os meus e, caso ela estivesse jogando, a partida eu havia vencido. Tática ou não, meu sorriso e a minha tranqüilidade na fala atingiram em cheio o alvo e tão logo ferida, Amanda arregalou discretamente os olhos, enquanto desafrouxava a força com que havia abraçado Roberta. Tomei um gole no whisky, agora nem tão amargo.
Sunday, November 12, 2006
Gone for a while...
Peço desculpa pela segunda interrupção da história, mas prometo a continuação - detalhista - do que aconteceu.
O Sem Blues voltará brevemente a sua aciduidade blogueira.
Au revoir
O Sem Blues voltará brevemente a sua aciduidade blogueira.
Au revoir
Saturday, November 04, 2006
O bater de asas de um Anjo Caído
"Por favor, não me empurre de volta ao sem volta de mim, há muito tempo estava acostumado a apenas consumir pessoas como se consomem cigarros, a gente fuma, esmaga a ponta no cinzeiro, depois vira na privada, puxa a descarga, pronto, acabou. Desculpe mas foi só mais um engano? E quantos ainda restam na palma da minha mão? Ah, me socorre que hoje não quero fechar a porta com essa fome na boca." ( Anotações sobre um amor urbano - Caio Fernando Abreu)
Não quero lamentar suas lágrimas. Não quero olhar pra trás e ter a certeza de que existe um quê de nós em todas as fotos, em todos os cigarros, em todas as taças, nos seus beijos, nas minhas fugas. Eu vou abortar a nossa felicidade, que é tão mais sua do que minha. Vai doer e serão águas passadas... será só vento e poeira. Ainda preciso dos meus erros, ainda preciso das não-lágrimas.
O episódio que iniciei no post anterior continua, em breve.
Não quero lamentar suas lágrimas. Não quero olhar pra trás e ter a certeza de que existe um quê de nós em todas as fotos, em todos os cigarros, em todas as taças, nos seus beijos, nas minhas fugas. Eu vou abortar a nossa felicidade, que é tão mais sua do que minha. Vai doer e serão águas passadas... será só vento e poeira. Ainda preciso dos meus erros, ainda preciso das não-lágrimas.
O episódio que iniciei no post anterior continua, em breve.
Sunday, October 29, 2006
When you look around do you wonder: do you play to win or are you just a bad loser?
O celular tocou irritante dentro da bolsa. Ainda com uma das mãos no volante, procurei-a no banco de trás, alongando e esticando meu braço até finalmente alcançá-la. Peguei o celular, abri o flip e conferi o nome Letícia piscando ritmado no visor do telefone. Como havia um semáforo a poucos metros de distância, deixei o celular no banco de passageiro, enquanto retomava a direção do carro. Assim que parei o carro, ela já havia desistido da ligação. Olhei para os lados, para os carros ao meu redor... tomei-o em minhas mãos de novo e disquei os 8 números, no maior dos pesares:
- Oi.
- Ei – e, sem dar espaço para a resposta dela, completei – não pude atender seu telefonema. Estava no meio do trânsito.
- Ah – com um tom de alívio – pensei que não fosse me atender, como geralmente faz...
E, antes de adentrar este meu capítulo, que eu desvende Letícia. Já lhes apresentei Amanda em outro momento e, informo-lhes que ela continua circulando pela minha vida ou, como ela mesma disse, continua tentando encontrar a saída desse labirinto em forma de mulher que eu personifico.
II.
(Anexo que explica a existência de Letícia) Letícia, alguns anos mais nova que eu, cabelos dourados, longos e excessivamente lisos; dona de gestos meticulosos, mãos espertas e rápidas, fortuitas e quase agressivas, unhas sempre bem feitas, quase sempre pintadas de preto. Eu a conheci um dia, por acaso, numa festa que, de última hora resolvi ir, a pedidos insistentes de uma amiga minha, Roberta. Como havia pouco tempo desde o meu rompimento com Ana, decidi que era o melhor a se fazer, afinal, o que é que uma taça de Martini e um maço de Gudang não fazem? Algum tempo em meio ao jogo de luz, às vozes adocicadas de algumas mulheres, aos comentários masculinizados de Rorô, que a esta hora já havia beijado tantas e dado o telefone errado a muitas, comecei uma conversa amigável com Letícia, que ali também por acaso estava. Alguns tragos no cigarro e Letícia não desviava mais o olhar de mim, percorrendo com os olhos, indiscretamente, meu decote. Eu calculava cada palavra, o tom da minha voz, os gestos, o jeito de mexer no meu cabelo, de brincar com o isqueiro, de jogar a fumaça no ar; aproveitei os momentos em que som estava bem mais alto e inclinei meu rosto para perto dela, para que sentisse meu hálito no seu pescoço, meu perfume... poucos minutos, Letícia entregava suas cartas para mim, sem sonhar com o blefe que eu articulava. A noite caminhou, taças se esvaziaram, cigarros queimaram, juízos foram perdidos e quando a madrugada assinalou o dia que entrava, acordei sobressaltada embrulhada nos lençóis brancos do apartamento de Letícia. A cabeça rodou, pesou, latejou e antes que o corpo semi-nu de Letícia pudesse despertar, vesti minhas roupas e acelerei para fora daquele lugar. Cheguei ao meu apartamento com o Sol apontando no horizonte e adormeci conferindo os 15 recados que Rorô havia deixado na minha secretária eletrônica.
III.
Ainda com Letícia no telefone:
- Pára com a bobagem, Letícia...
- É, bobagem, não é? Deve ser, Lisa, deve ser... – deixou escapar um pequeno tom de ironia, mas sem perder o ritmo, recomeçou - você vai a festa da Roberta hoje?, queria conversar com...
Eu interrompi:
- Não sei.
- Porquê?
- Não estou bem... a Amanda deve...
- Nem começa com esse assunto, Ana. Você e a Amanda não são nada...
- Nem eu e você.
(Às caras leitoras, agora lhes permito o direito de me odiarem e é esse o propósito do atual post: não lhes ser agradável. Como iniciei esse texto, minha melhor definição continua sendo esse labirinto de Amanda: uma espécie de laboratório virtual de relacionamentos instantâneos. Já chamaram isso de sedução e acho infantil acreditar nessa minha sensualidade. É mais uma necessidade de auto-afirmação, de violentamente brincar com os sentimentos alheios à procura de efeitos colaterais em outrem que indique que eu valho algo, que eu desperto alguma coisa. Eu jogo pra ganhar, sem jamais saber o que está em jogo. Letícia é vítima, Amanda também, eu encabeço a lista. Ana é diferente porque ela sabe das minhas cartas, ele entende o meu jogo, ela dispensa o meu blefe. Quando no começo ela seria só mais uma aventura, ele me colocou frente ao espelho, meu feitiço contra mim mesma: ele me olhou nos olhos, compreendeu meu blefe por inteiro e delicadamente retirou essa máscara dos meus olhos, me vendo despida desse tabuleiro emocional. Ana foi o lance de dados do destino para desbaratar essa minha trama. Ana – e até então só ela – entendeu que eu necessito de não precisar de nada, de não estar intimamente ligada a ninguém e talvez seja por isso que, agora, Ana seja a minha ligação com o que eu, inadvertidamente, chamo de felicidade.)
O silêncio dos segundos seguintes pareceram horas. Letícia deu um riso raivoso do outro lado da linha como se eu a pudesse enxergar, fechando os olhos, apertando as pálpebras e vociferando qualquer xingamento.
- Lisa, diga que você vai e eu não lhe amolo mais – suspirou – preciso conversar com você. Tem tanta coisa que eu preciso lhe falar, que dói em mim desde o dia...
- Letícia, não quero alimentar nada entre a gente...
- Eu falei, por algum acaso, em alimentar coisa alguma?
- Não, mas eu também...
- Então, você vai e pronto. Encontro você ás dez.
Desligou o telefone justamente quando o sinal abria. Bati com a mão no volante, irritada pelas poucas palavras e por ter atendido ao telefonema. Arranquei cantando os pneus.
IV.
Fui pensando pelo caminho até meu apartamento que fazia já algum tempo que não via Letícia desde nossa primeira e última transa. A verdade é que ela sempre me ligava, com alguma desculpa de última hora, para saber se eu iria sair, se ficaria mesmo em casa, mas jamais, na ausência de seu telefonema, pensei que pudesse ter encontrado um novo caso. O destino provaria o contrário no seguinte sábado.
Conforme programado, às 21:15, encontrei-me diante do meu guarda-roupa na eterna dúvida do que usar. A única peça de roupa que parecia adequada era um vestido preto, sem alças, um pouco acima dos joelhos. Retirei-o do cabide, moldei-o no corpo e até que a imagem não fora de todo mal. Soltei os cabelos que deram pequenos cachos atrás e ficaram ondulados à frente. Lápis, rímel, sombras, blush, gloss e eu estava pronta.
V.
Bati a campainha da pequena mansão na qual Roberta residia. Muitos carros parados à frente de sua casa, uma movimentação constante, mulheres em sua grande maioria, mulheres de todas as – deliciosas - maneiras. A casa estava realmente cheia, logo de entrada casais se agarrando, trocando carinhos explícitos em lugares mais escuros, enquanto o som ensurdecia possíveis gemidos, gritos e conversas. Cumprimentei alguns conhecidos, beijei algumas bochechas até que alcancei o pátio onde a maioria se encontrava. Perguntei por Roberta e indicaram-me uma tenda logo mais à frente, iluminada por velas e pequenas tochas fincadas nos jardins laterais. Logo que pus o pé sobre o tapete que decorava o ambiente, ouvi uma voz rouca e familiar me chamar.
- A-há! – e Roberta me abraçou de lado – você não ia faltar, não é mesmo? Tem cinco meninas para cada mulher – e sorriu com os olhos miúdos de embriagada.
- Mal cheguei, Rorô... controle-se, querida Wando!
Roberta deu uma gargalhada alta e recebeu alguns olhares curiosos. Deu de ombros à curiosidade alheia e voltou-se a mim:
- Darling, agora você segura o seu queixo, porque ele vai querer cai.
- Ah é? Porquê?
Roberta apontou para uma mesa onde duas mulheres sentadas trocavam calmamente algumas palavras. Uma delas já havia percebido a minha presença e olhava hipnoticamente para mim, sem interromper a fala. Forçei um pouco as vistas e então reconheci Amanda, maravilhosamente vestida com uma blusa vermelha tão decotada quanto a minha. Sorri levantando a mão e acenando, enquanto ela respondia da mesma maneira. Ao seu lado, notei que a figura também me era familiar e só depois de me aproximar um pouco mais que pude reconhecer a figura. Os braços, o desenho quadrangular do rosto, os olhos amendoados, o sorriso lascivo sempre desenhado na boca... e Ana reapareceu milagrosamente como sempre faz.
E antes que eu pudesse me aproximar da mesa, senti Roberta segurar meus ombros por trás e sussurrar “agora vem a parte bombante”. Por trás de um casal que estava em pé perto da mesa, eis que aparece Letícia, com os mesmo cabelos dourados agora presos numa espécie de coque, com dois copos nas mãos. Coloca um dos copos à frente de Ana e a beija nos lábios, enquanto Ana leva a mão à sua nuca, de um jeito que eu conhecia e com uma pressão que eu poderia descrever. A cena parecia agora quase tocável, embora dentro de mim uma avalanche desmesurada houvesse se principiado. O que eu mais temia – que era ver Ana nos braços de outrem – havia se configurado e o outrem era Letícia. Vitória ou derrota, a revanche ou apenas destino, a verdade é que ao final do beijo, as duas acabaram por repousar o olhar sobre mim, ali completamente apavorada e sem reação. Abordei o primeiro garçom que passava por ali com uma bandeja cheia de copos de whiskie e aproveitei para pegar dois, tomei-o um gole só e o outro continuou, trêmula, na outra mão. Caminhei em direção à mesa, com Roberta à minha cola, segurando-me pela cintura, caso eu ameaçasse sair correndo para bem longe dali.
- Oi.
- Ei – e, sem dar espaço para a resposta dela, completei – não pude atender seu telefonema. Estava no meio do trânsito.
- Ah – com um tom de alívio – pensei que não fosse me atender, como geralmente faz...
E, antes de adentrar este meu capítulo, que eu desvende Letícia. Já lhes apresentei Amanda em outro momento e, informo-lhes que ela continua circulando pela minha vida ou, como ela mesma disse, continua tentando encontrar a saída desse labirinto em forma de mulher que eu personifico.
II.
(Anexo que explica a existência de Letícia) Letícia, alguns anos mais nova que eu, cabelos dourados, longos e excessivamente lisos; dona de gestos meticulosos, mãos espertas e rápidas, fortuitas e quase agressivas, unhas sempre bem feitas, quase sempre pintadas de preto. Eu a conheci um dia, por acaso, numa festa que, de última hora resolvi ir, a pedidos insistentes de uma amiga minha, Roberta. Como havia pouco tempo desde o meu rompimento com Ana, decidi que era o melhor a se fazer, afinal, o que é que uma taça de Martini e um maço de Gudang não fazem? Algum tempo em meio ao jogo de luz, às vozes adocicadas de algumas mulheres, aos comentários masculinizados de Rorô, que a esta hora já havia beijado tantas e dado o telefone errado a muitas, comecei uma conversa amigável com Letícia, que ali também por acaso estava. Alguns tragos no cigarro e Letícia não desviava mais o olhar de mim, percorrendo com os olhos, indiscretamente, meu decote. Eu calculava cada palavra, o tom da minha voz, os gestos, o jeito de mexer no meu cabelo, de brincar com o isqueiro, de jogar a fumaça no ar; aproveitei os momentos em que som estava bem mais alto e inclinei meu rosto para perto dela, para que sentisse meu hálito no seu pescoço, meu perfume... poucos minutos, Letícia entregava suas cartas para mim, sem sonhar com o blefe que eu articulava. A noite caminhou, taças se esvaziaram, cigarros queimaram, juízos foram perdidos e quando a madrugada assinalou o dia que entrava, acordei sobressaltada embrulhada nos lençóis brancos do apartamento de Letícia. A cabeça rodou, pesou, latejou e antes que o corpo semi-nu de Letícia pudesse despertar, vesti minhas roupas e acelerei para fora daquele lugar. Cheguei ao meu apartamento com o Sol apontando no horizonte e adormeci conferindo os 15 recados que Rorô havia deixado na minha secretária eletrônica.
III.
Ainda com Letícia no telefone:
- Pára com a bobagem, Letícia...
- É, bobagem, não é? Deve ser, Lisa, deve ser... – deixou escapar um pequeno tom de ironia, mas sem perder o ritmo, recomeçou - você vai a festa da Roberta hoje?, queria conversar com...
Eu interrompi:
- Não sei.
- Porquê?
- Não estou bem... a Amanda deve...
- Nem começa com esse assunto, Ana. Você e a Amanda não são nada...
- Nem eu e você.
(Às caras leitoras, agora lhes permito o direito de me odiarem e é esse o propósito do atual post: não lhes ser agradável. Como iniciei esse texto, minha melhor definição continua sendo esse labirinto de Amanda: uma espécie de laboratório virtual de relacionamentos instantâneos. Já chamaram isso de sedução e acho infantil acreditar nessa minha sensualidade. É mais uma necessidade de auto-afirmação, de violentamente brincar com os sentimentos alheios à procura de efeitos colaterais em outrem que indique que eu valho algo, que eu desperto alguma coisa. Eu jogo pra ganhar, sem jamais saber o que está em jogo. Letícia é vítima, Amanda também, eu encabeço a lista. Ana é diferente porque ela sabe das minhas cartas, ele entende o meu jogo, ela dispensa o meu blefe. Quando no começo ela seria só mais uma aventura, ele me colocou frente ao espelho, meu feitiço contra mim mesma: ele me olhou nos olhos, compreendeu meu blefe por inteiro e delicadamente retirou essa máscara dos meus olhos, me vendo despida desse tabuleiro emocional. Ana foi o lance de dados do destino para desbaratar essa minha trama. Ana – e até então só ela – entendeu que eu necessito de não precisar de nada, de não estar intimamente ligada a ninguém e talvez seja por isso que, agora, Ana seja a minha ligação com o que eu, inadvertidamente, chamo de felicidade.)
O silêncio dos segundos seguintes pareceram horas. Letícia deu um riso raivoso do outro lado da linha como se eu a pudesse enxergar, fechando os olhos, apertando as pálpebras e vociferando qualquer xingamento.
- Lisa, diga que você vai e eu não lhe amolo mais – suspirou – preciso conversar com você. Tem tanta coisa que eu preciso lhe falar, que dói em mim desde o dia...
- Letícia, não quero alimentar nada entre a gente...
- Eu falei, por algum acaso, em alimentar coisa alguma?
- Não, mas eu também...
- Então, você vai e pronto. Encontro você ás dez.
Desligou o telefone justamente quando o sinal abria. Bati com a mão no volante, irritada pelas poucas palavras e por ter atendido ao telefonema. Arranquei cantando os pneus.
IV.
Fui pensando pelo caminho até meu apartamento que fazia já algum tempo que não via Letícia desde nossa primeira e última transa. A verdade é que ela sempre me ligava, com alguma desculpa de última hora, para saber se eu iria sair, se ficaria mesmo em casa, mas jamais, na ausência de seu telefonema, pensei que pudesse ter encontrado um novo caso. O destino provaria o contrário no seguinte sábado.
Conforme programado, às 21:15, encontrei-me diante do meu guarda-roupa na eterna dúvida do que usar. A única peça de roupa que parecia adequada era um vestido preto, sem alças, um pouco acima dos joelhos. Retirei-o do cabide, moldei-o no corpo e até que a imagem não fora de todo mal. Soltei os cabelos que deram pequenos cachos atrás e ficaram ondulados à frente. Lápis, rímel, sombras, blush, gloss e eu estava pronta.
V.
Bati a campainha da pequena mansão na qual Roberta residia. Muitos carros parados à frente de sua casa, uma movimentação constante, mulheres em sua grande maioria, mulheres de todas as – deliciosas - maneiras. A casa estava realmente cheia, logo de entrada casais se agarrando, trocando carinhos explícitos em lugares mais escuros, enquanto o som ensurdecia possíveis gemidos, gritos e conversas. Cumprimentei alguns conhecidos, beijei algumas bochechas até que alcancei o pátio onde a maioria se encontrava. Perguntei por Roberta e indicaram-me uma tenda logo mais à frente, iluminada por velas e pequenas tochas fincadas nos jardins laterais. Logo que pus o pé sobre o tapete que decorava o ambiente, ouvi uma voz rouca e familiar me chamar.
- A-há! – e Roberta me abraçou de lado – você não ia faltar, não é mesmo? Tem cinco meninas para cada mulher – e sorriu com os olhos miúdos de embriagada.
- Mal cheguei, Rorô... controle-se, querida Wando!
Roberta deu uma gargalhada alta e recebeu alguns olhares curiosos. Deu de ombros à curiosidade alheia e voltou-se a mim:
- Darling, agora você segura o seu queixo, porque ele vai querer cai.
- Ah é? Porquê?
Roberta apontou para uma mesa onde duas mulheres sentadas trocavam calmamente algumas palavras. Uma delas já havia percebido a minha presença e olhava hipnoticamente para mim, sem interromper a fala. Forçei um pouco as vistas e então reconheci Amanda, maravilhosamente vestida com uma blusa vermelha tão decotada quanto a minha. Sorri levantando a mão e acenando, enquanto ela respondia da mesma maneira. Ao seu lado, notei que a figura também me era familiar e só depois de me aproximar um pouco mais que pude reconhecer a figura. Os braços, o desenho quadrangular do rosto, os olhos amendoados, o sorriso lascivo sempre desenhado na boca... e Ana reapareceu milagrosamente como sempre faz.
E antes que eu pudesse me aproximar da mesa, senti Roberta segurar meus ombros por trás e sussurrar “agora vem a parte bombante”. Por trás de um casal que estava em pé perto da mesa, eis que aparece Letícia, com os mesmo cabelos dourados agora presos numa espécie de coque, com dois copos nas mãos. Coloca um dos copos à frente de Ana e a beija nos lábios, enquanto Ana leva a mão à sua nuca, de um jeito que eu conhecia e com uma pressão que eu poderia descrever. A cena parecia agora quase tocável, embora dentro de mim uma avalanche desmesurada houvesse se principiado. O que eu mais temia – que era ver Ana nos braços de outrem – havia se configurado e o outrem era Letícia. Vitória ou derrota, a revanche ou apenas destino, a verdade é que ao final do beijo, as duas acabaram por repousar o olhar sobre mim, ali completamente apavorada e sem reação. Abordei o primeiro garçom que passava por ali com uma bandeja cheia de copos de whiskie e aproveitei para pegar dois, tomei-o um gole só e o outro continuou, trêmula, na outra mão. Caminhei em direção à mesa, com Roberta à minha cola, segurando-me pela cintura, caso eu ameaçasse sair correndo para bem longe dali.
Sunday, October 22, 2006
À espera...
(O texto ficou longo, confesso. Irritante isso de ser quase "pernóstica". Mas, aqui vai meu conselho: está sem paciência? Vá para outro blog. Esse texto pede pra ser lido do começo ao fim. Meu soluço egoísta faz essa exigência. Se quer ler essa minha "quase-literatura", vá até o fim!)
Percorri os canais da TV uma última vez antes de levantar-me. Àquela hora da noite, poucos programas pareciam atraentes e, diante do marasmo de um sábado chuvoso, pouco havia a ser feito. Conferi no digital do meu pulso o horário: “22:24”. Lancei o olhar na taça ainda molhada do vinho tinto, na chama do cigarro que se extinguia, lançando línguas de fumaça no ar. Tomei-o entre os dedos, suguei o último trago, fechando os olhos enquanto a fumaça se desprendia de minhas narinas e bocas. Permaneci um tempo ali, deitada com a cabeça encostada no braço do meu sofá negro, olhos fixos no teto até que a última nuvem de fumaça se dissipasse no ar. Voltei o olhar à televisão, oscilei a minha vontade entre continuar ali deitada ou ir até a cozinha. Ao sentir um gosto amargo e seco em minha boca, impulsionei o corpo pra cima e em um segundo, já estava em pé.
No primeiro contato do meu pé descalço com o chão gelado da minha cozinha, decorado com azulejos brancos e pretos alternadamente posicionados como em tabuleiros de dama, senti um arrepio frio percorrer-me a espinha. Estremeci. A geladeira, estrategicamente posicionada entre armários embutidos e a pia, era o grande monumento da minha cozinha planejada, tão sobriamente decorada. Com uma mão no bolso e a outra na porta, fiquei alguns longos minutos “assistindo” ao festival de cinema trash da minha empobrecida geladeira: algumas frutas, sucos de validade duvidosa, latas de condimentos, uma embalagem redonda de papelão cujo único pedaço de pizza que ali jazia parecia tomar formas vivas, um falecido apresuntado, vinho. Tomei a garrafa verde-escura nas mãos e, conferindo que havia poucos goles a serem tomados, encostei o gargalo frio nos meus lábios e, inclinando a cabeça para trás, deixei que o líquido doce escorresse pela minha garganta, permitindo que algumas atrevidas gotas escapulissem da minha boca, deslizando pelo meu queixo e pescoço abaixo.
Retornei ao sofá, agora um pouco mais sonolenta. Deitei na mesma posição de anteriormente, porém, dessa vez, com o olhar direcionado para os outdoors dos prédios vizinhos ao meu. O reflexo da televisão nas duas grandes janelas misturados aos raios luminosos que a atravessavam foi me adormecendo, aliviando as tensões dos músculos e, no meu último suspiro acordada, lutei contra o peso das pálpebras, mas logo me rendi ao sono.
Acordei subitamente. O coração acelerado impulsionava um sangue raivoso e veloz nas minhas veias, que dilatavam e imprimiam em todo corpo uma pressão aterrorizante. Ouvi barulhos de chaves, maçanetas sendo tocadas, porta fechando, passos firmes e ritmados, uma respiração ofegante que eu consegui perceber mesmo com o barulho da chuva fina sobre a janela da sala. Os passos foram se aproximando, cada vez mais audíveis, até que a silhueta alcançou a porta da sala onde eu me encontrava, muito provavelmente guiada pelo barulho da televisão.
Parou no vão da porta, com as mãos apoiadas nas partes internas da parede. Vestida com um sobretudo preto, de grandes botões também negros, a silhueta se esclareceu pra mim. Quando reconheci os traços de Ana, um aporte louco de medo, desespero, surpresa, calor explodiu no meu ventre e de lá se espalhou, adormecendo membros e sentidos a cada nova inspiração. Apenas pude observá-la, com o cabelo molhado e solto, o rosto molhado onde algumas gotas d’água deslizavam e se escondiam logo abaixo do queixo. Busquei os olhos de Ana, que pareciam duas grandes telas, sem qualquer tom de medo, de susto, apenas uma essência vermelha que me assistia como eu assistia a ela. Li em seus olhos: desejo. A fragrância que sempre usava embriagou a minha sala e a mim também. Silêncio.
Ana caminhou alguns passos em minha direção; fiz menção de levantar. Ela se precipitou sobre mim: levantou uma das pernas, sentou-se sobre o meu colo, de modo que eu ficava entre suas pernas com seu dorso a minha frente. Arrepiei todos os pêlos, estremeci toda a espinha. Abri a boca, com a menção de falar, mas sem a capacidade de articular qualquer vocábulo. Ela se precipitou sobre mim de novo e, com um dos dedos sobre os meus lábios, fez o meu silêncio. Sorriu deliciosamente, como se eu ali, em meio a suas pernas, fosse uma presa capturada, refém, entregue, completamente dela. Arqueou uma das sobrancelhas, com o vestígio do sorriso ainda na boca; tomou uma das minhas mãos e colocou-a sobre sua coxa direita, um pouco acima do joelho. Senti a calor de seu corpo pela primeira vez em tanto tempo. Uma fisgada de prazer apunhalou meu ventre e entranhas, me fazendo fechar os olhos e abandonar a cabeça. Ana viu e, com a outra mão livre, percorreu meu ombro direito, meu pescoço, até conseguir segurar minha nuca e, numa vontade quase selvagem, puxou-me contra ela, grudando seus lábios nos meus, invadindo furiosamente minha boca com sua língua, rodando-a, molhando-me, perpertuando o momento. Quando me soltou, já não era mais a mesma: havia me fundido às sensações e a presença dela. Tarde demais para voltar atrás.
Tentei levantar o meu tronco do sofá para bem perto do corpo de Ana, mas ela me empurrou de volta, reajeitando seu corpo sobre o meu de um jeito que sua anca repousava sobre a minha numa pressão incrivelmente prazerosa. Deixei escapar um gemido, ela sorriu: pressionou, agora mais forte, o ventre sobre mim. Segurei sua cintura e respondi ao gesto fazendo outra pressão sobre ela. Ana mordeu os lábios e eu me rendi completamente aos caprichos dela. Na sua sagacidade fora do comum, Ana percebeu minha rendição. Buscou os botões do casaco e, debaixo para cima, um por um, foi desabotoando-o. Logo que avistei sua pele clara sobre o casado, senti algo úmido e quente deixar-me o corpo e provocar fortes contrações de gozo. Ana tomou-me as mãos de novo e me fez toca-la no percurso que começou nas coxas, passou pelo quadril, cintura, costas e, finalmente, seus seios. Intumescidos e amarronzados, deslizei a ponta de meus dedos sobre eles, ora de modo circular, ora apenas acariciando-os. Ficavam mais ainda perceptíveis e Ana contorcia-se ali, sentada sobre o meu corpo, segurando meus braços. Sob aquele sobretudo, Ana vestia apenas uma calçinha preta de renda (deveras clichê, mas incrivelmente sensual). Ana gemeu baixinho, sempre mostrando seus dentes brancos, pérolas lascivas que me prometiam loucas e escandalosas mordidas. Pouco tempo fiquei ali, desejando seus seios e lancei-me ao encontro deles. Ana tentou me frear, mas retirei suas mãos de mim, acobertando de beijos os mesmos seios redondos. Ela deu um pequeno grito, mas assim que sentiu o quente dos meus lábios sobre seu corpo, a resposta foi instantânea e puxou-me pra mais e mais perto dela. Abraçava-me, puxava meus cabelos, obrigando a alternar ora em um ora em outro seio. Antes que eu cantasse as pedras do jogo, ela me rejeitou, saiu de cima de mim, encostou-se a parede e silabou “vem” para mim. Levantei-me num só impulso do sofá e fui ao encontro dela. Empurrei meu corpo contra o dela e contra a parede, levantei uma de suas pernas e coloquei a minha entre elas, sem deixar que Ana pudesse escapar. Tentei prende-la algum tempo ali, mas ela conseguiu reverter a situação, imobilizando-me e colocando-me sentada no mesmo sofá no qual me encontrara.
- Fique aí e só sai quando eu te chamar... – dando uma ênfase dengosa ao eu.
Sem reação e em completo torpor, não relutei a imposição. Antes de se sentar no sofá à minha frente, Ana ficou de costas para mim e retirou lentamente a calcinha, jogando-a longe. Observei a tudo que ela fazia e a cada novo gesto, outra onda úmida e quente se pronunciava no meu ventre.
Ana sentou-se à minha frente, apoiou uma de suas pernas sobre o assento do sofá e separou os joelhos. Pude ver suas partes, inchadas e molhadas, logo ali. O impulso selvagem era o de atracar-me ao corpo dela, fundir sua vontade a minha vontade mas, fui capaz apenas de me prender a cena, ao sofá e ao gozo absurdo que a cena me proporcionava. Ana lançou um olhar voluptuoso enquanto levava sua mão as suas mesmas partes. Não acreditava na cena, era tudo ainda muito surreal: Ana, de volta a minha realidade (ou a isso que aconteceu), se tocando ali a minha frente, produzindo gemidos tão familiares, enquanto olhava pra mim, dizendo palavras que jamais pensaria em ouvir, confessando desejos que eu me deliciei até mesmo só de os imaginar sendo satisfeitos. Eu quase podia sentir as partes de Ana latejando, inchadas, encharcadas com esse seu fluido. Levantei do sofá, ela também se levantou. Correu um pouco de mim, rindo da minha “gula” por ela. Quando a alcancei perto da mesa dessa mesma sala, ela me segurou de novo e, enquanto sentava-se sobre a mesa, eu fui retirando a minha camisa, já enxarcada de suor. Quando se voltou a mim e me viu ofegante, Ana pronunciou o mesmo sorriso safado que costumava me oferecer. Puxou-me pela cintura, colocando-me entre suas pernas e, retirando a minha pequena – quase minúscula – bermuda, para que eu sentisse a umidade e a temperatura em que se encontrava suas intimidades. Ao primeiro contato, deixei escapar um gemido e Ana adorou a minha submissão naquele gesto. Olhei-a com os olhos perdidos, implorando paz, mas Ana me invadia com sua presença, com seu sexo, com sua fragrância e, num momento fatal, invadi seu sexo com meus dedos. Ana gritou, gemeu em forte e bom tom, ritmando seu corpo contra a minha mão que a penetrava. Inclinava-se, deitava sobre a mesa, mordia os lábios, retornava a posição, me arranhava, me mordia, tentava se desvencilhar pra que eu, heroicamente, a fizesse voltar ao seu lugar, invadindo-a de novo. Sentia seu fluido molhar meus dedos a cada nova invasão, ao som de seus gemidos, ao sabor salgado de seu pescoço agora também encharcado pelo suor. Pouco tempo e Ana segurou-me muito mais forte, abraçou meu corpo, forçando a entrada de meus dedos até pontos que eu não saberia que iriam. Numa ânsia de unir seu corpo ao meu, como se aquela fosse nosso último momento como um corpo só, um só desejo. Puxou-me os cabelos e posicionou meu rosto à frente do seu e sussurou, com um tom que eu ainda preciso decifrar, as seguintes palavras:
- “É tudo seu, Lisa. Sempre foi... eu te a...”
E interrompeu a frase com um gemido alto e ensurdecedor, mas loucamente excitante, num gozo forte, completo e inteiriço, estremecendo suas extremidades, consumindo suas forças, abandonando o plano do meu apartamento e indo para um outro qualquer, transcendental a esse. Naquele momento, não precisei do complemento da frase. Ana estava de volta, mais minha, mais nossa.
Agora, olho para fora desse apartamento, com a TV desligada, repassando tudo. Lembro-me de que logo depois desse espetáculo orgásmico, ela se vestiu, com lágrimas nos olhos, o corpo ainda dormente. Reiterou do casaco, correu em direção a porta e, antes que eu pudesse detê-la, ela simplesmente saiu naquela madrugada de sábado pra não mais voltar. Tentei deixar recados em sua caixa postal, no trabalho. Quando finalmente, recebi resposta, ela veio com a voz feminina do mesmo dia do telefonema:
- A Ana acabou de entrar pro banho. Pediu pra você ligar depois. É do escritório?
Desvencilhei-me da resposta, confirmando o que foi a pergunta dessa mulher que eu recusava reconhecer como a pessoa que faria companhia a Ana, a que tomava meu lugar. Agora, aqui nesse mesmo sofá, com a mesma taça de vinho, o mesmo cigarro acesso, ainda espero o momento em que Ana me acordará desse sonho. Ilusão ou não, ainda prefiro a luz de néon dessa imagem pintada de Ana, do que a certeza de que nada além da minha imaginação constrói essa realidade fria e caótica que eu vivo.
Percorri os canais da TV uma última vez antes de levantar-me. Àquela hora da noite, poucos programas pareciam atraentes e, diante do marasmo de um sábado chuvoso, pouco havia a ser feito. Conferi no digital do meu pulso o horário: “22:24”. Lancei o olhar na taça ainda molhada do vinho tinto, na chama do cigarro que se extinguia, lançando línguas de fumaça no ar. Tomei-o entre os dedos, suguei o último trago, fechando os olhos enquanto a fumaça se desprendia de minhas narinas e bocas. Permaneci um tempo ali, deitada com a cabeça encostada no braço do meu sofá negro, olhos fixos no teto até que a última nuvem de fumaça se dissipasse no ar. Voltei o olhar à televisão, oscilei a minha vontade entre continuar ali deitada ou ir até a cozinha. Ao sentir um gosto amargo e seco em minha boca, impulsionei o corpo pra cima e em um segundo, já estava em pé.
No primeiro contato do meu pé descalço com o chão gelado da minha cozinha, decorado com azulejos brancos e pretos alternadamente posicionados como em tabuleiros de dama, senti um arrepio frio percorrer-me a espinha. Estremeci. A geladeira, estrategicamente posicionada entre armários embutidos e a pia, era o grande monumento da minha cozinha planejada, tão sobriamente decorada. Com uma mão no bolso e a outra na porta, fiquei alguns longos minutos “assistindo” ao festival de cinema trash da minha empobrecida geladeira: algumas frutas, sucos de validade duvidosa, latas de condimentos, uma embalagem redonda de papelão cujo único pedaço de pizza que ali jazia parecia tomar formas vivas, um falecido apresuntado, vinho. Tomei a garrafa verde-escura nas mãos e, conferindo que havia poucos goles a serem tomados, encostei o gargalo frio nos meus lábios e, inclinando a cabeça para trás, deixei que o líquido doce escorresse pela minha garganta, permitindo que algumas atrevidas gotas escapulissem da minha boca, deslizando pelo meu queixo e pescoço abaixo.
Retornei ao sofá, agora um pouco mais sonolenta. Deitei na mesma posição de anteriormente, porém, dessa vez, com o olhar direcionado para os outdoors dos prédios vizinhos ao meu. O reflexo da televisão nas duas grandes janelas misturados aos raios luminosos que a atravessavam foi me adormecendo, aliviando as tensões dos músculos e, no meu último suspiro acordada, lutei contra o peso das pálpebras, mas logo me rendi ao sono.
Acordei subitamente. O coração acelerado impulsionava um sangue raivoso e veloz nas minhas veias, que dilatavam e imprimiam em todo corpo uma pressão aterrorizante. Ouvi barulhos de chaves, maçanetas sendo tocadas, porta fechando, passos firmes e ritmados, uma respiração ofegante que eu consegui perceber mesmo com o barulho da chuva fina sobre a janela da sala. Os passos foram se aproximando, cada vez mais audíveis, até que a silhueta alcançou a porta da sala onde eu me encontrava, muito provavelmente guiada pelo barulho da televisão.
Parou no vão da porta, com as mãos apoiadas nas partes internas da parede. Vestida com um sobretudo preto, de grandes botões também negros, a silhueta se esclareceu pra mim. Quando reconheci os traços de Ana, um aporte louco de medo, desespero, surpresa, calor explodiu no meu ventre e de lá se espalhou, adormecendo membros e sentidos a cada nova inspiração. Apenas pude observá-la, com o cabelo molhado e solto, o rosto molhado onde algumas gotas d’água deslizavam e se escondiam logo abaixo do queixo. Busquei os olhos de Ana, que pareciam duas grandes telas, sem qualquer tom de medo, de susto, apenas uma essência vermelha que me assistia como eu assistia a ela. Li em seus olhos: desejo. A fragrância que sempre usava embriagou a minha sala e a mim também. Silêncio.
Ana caminhou alguns passos em minha direção; fiz menção de levantar. Ela se precipitou sobre mim: levantou uma das pernas, sentou-se sobre o meu colo, de modo que eu ficava entre suas pernas com seu dorso a minha frente. Arrepiei todos os pêlos, estremeci toda a espinha. Abri a boca, com a menção de falar, mas sem a capacidade de articular qualquer vocábulo. Ela se precipitou sobre mim de novo e, com um dos dedos sobre os meus lábios, fez o meu silêncio. Sorriu deliciosamente, como se eu ali, em meio a suas pernas, fosse uma presa capturada, refém, entregue, completamente dela. Arqueou uma das sobrancelhas, com o vestígio do sorriso ainda na boca; tomou uma das minhas mãos e colocou-a sobre sua coxa direita, um pouco acima do joelho. Senti a calor de seu corpo pela primeira vez em tanto tempo. Uma fisgada de prazer apunhalou meu ventre e entranhas, me fazendo fechar os olhos e abandonar a cabeça. Ana viu e, com a outra mão livre, percorreu meu ombro direito, meu pescoço, até conseguir segurar minha nuca e, numa vontade quase selvagem, puxou-me contra ela, grudando seus lábios nos meus, invadindo furiosamente minha boca com sua língua, rodando-a, molhando-me, perpertuando o momento. Quando me soltou, já não era mais a mesma: havia me fundido às sensações e a presença dela. Tarde demais para voltar atrás.
Tentei levantar o meu tronco do sofá para bem perto do corpo de Ana, mas ela me empurrou de volta, reajeitando seu corpo sobre o meu de um jeito que sua anca repousava sobre a minha numa pressão incrivelmente prazerosa. Deixei escapar um gemido, ela sorriu: pressionou, agora mais forte, o ventre sobre mim. Segurei sua cintura e respondi ao gesto fazendo outra pressão sobre ela. Ana mordeu os lábios e eu me rendi completamente aos caprichos dela. Na sua sagacidade fora do comum, Ana percebeu minha rendição. Buscou os botões do casaco e, debaixo para cima, um por um, foi desabotoando-o. Logo que avistei sua pele clara sobre o casado, senti algo úmido e quente deixar-me o corpo e provocar fortes contrações de gozo. Ana tomou-me as mãos de novo e me fez toca-la no percurso que começou nas coxas, passou pelo quadril, cintura, costas e, finalmente, seus seios. Intumescidos e amarronzados, deslizei a ponta de meus dedos sobre eles, ora de modo circular, ora apenas acariciando-os. Ficavam mais ainda perceptíveis e Ana contorcia-se ali, sentada sobre o meu corpo, segurando meus braços. Sob aquele sobretudo, Ana vestia apenas uma calçinha preta de renda (deveras clichê, mas incrivelmente sensual). Ana gemeu baixinho, sempre mostrando seus dentes brancos, pérolas lascivas que me prometiam loucas e escandalosas mordidas. Pouco tempo fiquei ali, desejando seus seios e lancei-me ao encontro deles. Ana tentou me frear, mas retirei suas mãos de mim, acobertando de beijos os mesmos seios redondos. Ela deu um pequeno grito, mas assim que sentiu o quente dos meus lábios sobre seu corpo, a resposta foi instantânea e puxou-me pra mais e mais perto dela. Abraçava-me, puxava meus cabelos, obrigando a alternar ora em um ora em outro seio. Antes que eu cantasse as pedras do jogo, ela me rejeitou, saiu de cima de mim, encostou-se a parede e silabou “vem” para mim. Levantei-me num só impulso do sofá e fui ao encontro dela. Empurrei meu corpo contra o dela e contra a parede, levantei uma de suas pernas e coloquei a minha entre elas, sem deixar que Ana pudesse escapar. Tentei prende-la algum tempo ali, mas ela conseguiu reverter a situação, imobilizando-me e colocando-me sentada no mesmo sofá no qual me encontrara.
- Fique aí e só sai quando eu te chamar... – dando uma ênfase dengosa ao eu.
Sem reação e em completo torpor, não relutei a imposição. Antes de se sentar no sofá à minha frente, Ana ficou de costas para mim e retirou lentamente a calcinha, jogando-a longe. Observei a tudo que ela fazia e a cada novo gesto, outra onda úmida e quente se pronunciava no meu ventre.
Ana sentou-se à minha frente, apoiou uma de suas pernas sobre o assento do sofá e separou os joelhos. Pude ver suas partes, inchadas e molhadas, logo ali. O impulso selvagem era o de atracar-me ao corpo dela, fundir sua vontade a minha vontade mas, fui capaz apenas de me prender a cena, ao sofá e ao gozo absurdo que a cena me proporcionava. Ana lançou um olhar voluptuoso enquanto levava sua mão as suas mesmas partes. Não acreditava na cena, era tudo ainda muito surreal: Ana, de volta a minha realidade (ou a isso que aconteceu), se tocando ali a minha frente, produzindo gemidos tão familiares, enquanto olhava pra mim, dizendo palavras que jamais pensaria em ouvir, confessando desejos que eu me deliciei até mesmo só de os imaginar sendo satisfeitos. Eu quase podia sentir as partes de Ana latejando, inchadas, encharcadas com esse seu fluido. Levantei do sofá, ela também se levantou. Correu um pouco de mim, rindo da minha “gula” por ela. Quando a alcancei perto da mesa dessa mesma sala, ela me segurou de novo e, enquanto sentava-se sobre a mesa, eu fui retirando a minha camisa, já enxarcada de suor. Quando se voltou a mim e me viu ofegante, Ana pronunciou o mesmo sorriso safado que costumava me oferecer. Puxou-me pela cintura, colocando-me entre suas pernas e, retirando a minha pequena – quase minúscula – bermuda, para que eu sentisse a umidade e a temperatura em que se encontrava suas intimidades. Ao primeiro contato, deixei escapar um gemido e Ana adorou a minha submissão naquele gesto. Olhei-a com os olhos perdidos, implorando paz, mas Ana me invadia com sua presença, com seu sexo, com sua fragrância e, num momento fatal, invadi seu sexo com meus dedos. Ana gritou, gemeu em forte e bom tom, ritmando seu corpo contra a minha mão que a penetrava. Inclinava-se, deitava sobre a mesa, mordia os lábios, retornava a posição, me arranhava, me mordia, tentava se desvencilhar pra que eu, heroicamente, a fizesse voltar ao seu lugar, invadindo-a de novo. Sentia seu fluido molhar meus dedos a cada nova invasão, ao som de seus gemidos, ao sabor salgado de seu pescoço agora também encharcado pelo suor. Pouco tempo e Ana segurou-me muito mais forte, abraçou meu corpo, forçando a entrada de meus dedos até pontos que eu não saberia que iriam. Numa ânsia de unir seu corpo ao meu, como se aquela fosse nosso último momento como um corpo só, um só desejo. Puxou-me os cabelos e posicionou meu rosto à frente do seu e sussurou, com um tom que eu ainda preciso decifrar, as seguintes palavras:
- “É tudo seu, Lisa. Sempre foi... eu te a...”
E interrompeu a frase com um gemido alto e ensurdecedor, mas loucamente excitante, num gozo forte, completo e inteiriço, estremecendo suas extremidades, consumindo suas forças, abandonando o plano do meu apartamento e indo para um outro qualquer, transcendental a esse. Naquele momento, não precisei do complemento da frase. Ana estava de volta, mais minha, mais nossa.
Agora, olho para fora desse apartamento, com a TV desligada, repassando tudo. Lembro-me de que logo depois desse espetáculo orgásmico, ela se vestiu, com lágrimas nos olhos, o corpo ainda dormente. Reiterou do casaco, correu em direção a porta e, antes que eu pudesse detê-la, ela simplesmente saiu naquela madrugada de sábado pra não mais voltar. Tentei deixar recados em sua caixa postal, no trabalho. Quando finalmente, recebi resposta, ela veio com a voz feminina do mesmo dia do telefonema:
- A Ana acabou de entrar pro banho. Pediu pra você ligar depois. É do escritório?
Desvencilhei-me da resposta, confirmando o que foi a pergunta dessa mulher que eu recusava reconhecer como a pessoa que faria companhia a Ana, a que tomava meu lugar. Agora, aqui nesse mesmo sofá, com a mesma taça de vinho, o mesmo cigarro acesso, ainda espero o momento em que Ana me acordará desse sonho. Ilusão ou não, ainda prefiro a luz de néon dessa imagem pintada de Ana, do que a certeza de que nada além da minha imaginação constrói essa realidade fria e caótica que eu vivo.
Saturday, October 14, 2006
Pra ser sincera
(Preâmbulo completamente dispensável)
Anacrônico foi o primeiro título que dei a esse rascunho mal-feito e desenfreado. Anacrônico como eu, anacrônico na sua insensatez. Aos leitores dispostos a seguir, meu descompromisso com a lógica, a veracidade, ou aquele sentimento delicioso de se sentir "escrito" por palavras alheias. Rabiscos são rabiscos e não passam do esboço da realidade fugida e "irretratável". Aos que mesmo assim, até aqui se dispuseram, vão e leiam! Se sairem os mesmos de antes, estará saldada a nossa "dívida". Caso contrário...
Fotografias e jornais jogados pelo carpete da sala; um café que esfria na mesa de centro, um cigarro que se esvazia no cinzeiro negro, ali, bem ao lado do café. Eu, daqui, olhando a pouca iluminação da rua e o vazio completo e absoluto. O silêncio óbvio e impenetrável. Os passos cansados, ritmados, freqüentes, lá fora. Alguns ruídos mais fortes de carros, ônibus, freios, buzinas, bicicletas, pensamentos. As paredes, em tons claros e inertes, enjaulam a fera que perambula mordida pelo apartamento a enxergar as últimas nuvens de fumaça preta que pairam no ar.
Li e reli seus dizeres, saboreando cada palavra, consumindo essa sua vontade de me atingir numa gula sufocante de absorver tudo. Ainda me perco entre o que você disse, entre o que já havia dito e o que eu não entendi – ou que não quis. Parecia tão simples: sonhar um sonho irreal, alimentar um fogo no meio do inverno, dar asas a uma bala de canhão. Parecia, não o é. Esse ser abrasivo, misterioso e complexo que você me personifica é só uma ilusão.
Meu crime sem castigo, seu aperto de mão.
Pensei tanto nessas últimas horas no meu sentido, nesse sentido que você enxerga tão claro e parece tão pouco certo pra mim. Conversei com ela sobre as minhas dificuldades. Contei para ela quase tudo e ficarei com quase nada. Aliás, ficarei com a frase com a qual ela me deixou “eu deveria temer tudo isso”. Ela deveria? Eu deveria? Meus crimes perfeitos, que quase nunca deixam suspeitos, me fazem de vítima, corroem tudo que há de bom em mim e, é agora, nesse quase nada nas mãos, que tudo é iluminado. Quero te explicar tanta coisa...
Quero um momento pra ser real, tocar nas coisas que ainda não pude sentir, segurar em algo e me sentir pertencente a algum lugar. Andei vagando tanto tempo por aí, entre possibilidades e despedidas, entre conquistas e retiradas, que já não sei de onde venho. Tão clichê, mas é isso: sou um chavão tão óbvio que cega. Foi preciso que você me ferisse, como o fez, pra que eu me libertasse dessa espécie de vício: o costume de partir na hora mais crítica, a mania de envolver, seduzir, controlar, manipular, partir, partir e partir. Enfiar as mãos nos bolsos sem olhar para trás, para não deixar nada ali. Ela está certa quando me diz agora que deveria temer. Eu também temo. Não quero nem pensar nas cicatrizes...
Sem delongas, queria pedir desculpas a todos os corações que já foram partidos. Não por mim, mas pelas outras almas – tão “ingratas” quanto a minha. A todos os corações que – como o seu – sofreram pela estupidez de outros. Se houvesse maneira, eu gritaria a todos os casos mal resolvidos, a todas as amantes abandonadas, a todos os soluços no meio da noite, a todas as esperas do chamado do telefone, para se alegrarem pois não há dor maior do que aquela que nos é inerente e não depende da presença de ninguém. Enquanto você chora pela minha ausência, vou gastar lágrimas e licores e novos amores tentando descobrir porque nenhum lugar parece me acolher, porque ninguém parece o bastante. Os erros continuaram os mesmos, as vítimas serão outras, até que o jogo seja enfadonho e se volte contra mim.
Ainda que você me entenda tão bem, eu preciso me entender.
Não fique com raiva, não pense que joguei com as cartas da vaidade, não pare de ouvir as músicas, não se esqueça dos meus-seus momentos de cumplicidade, dos minutos contados no telefone, das nossas risadas, de tudo aquilo que, por um momento, foi seu mundo. Se foi meu, já não importa. Quando as canções forem mais claras e mais sentidas, quando as noites parecem tão mais longas e dolorosas, nem se atreva a pensar em mim. Pode ser tentador, mas seria estúpido. Tão imbecil quanto seria se eu ficasse, quando parte de mim se perde(a poeira no vento). No meu caminho tortuoso, apagado, sem propósito visível, ainda só há o espaço suficiente para não me sufocar. Um dia , quem sabe, eu encontre a razão da minha "fugacidade". Por enquanto, fico com as pegadas que deixo pra ninguém decifrar.
Meu crime – ainda – sem castigo... seu aperto de mão.
Anacrônico foi o primeiro título que dei a esse rascunho mal-feito e desenfreado. Anacrônico como eu, anacrônico na sua insensatez. Aos leitores dispostos a seguir, meu descompromisso com a lógica, a veracidade, ou aquele sentimento delicioso de se sentir "escrito" por palavras alheias. Rabiscos são rabiscos e não passam do esboço da realidade fugida e "irretratável". Aos que mesmo assim, até aqui se dispuseram, vão e leiam! Se sairem os mesmos de antes, estará saldada a nossa "dívida". Caso contrário...
"I am a question to the world
Not an answer to be heard" (Goo Goo Dolls)
Fotografias e jornais jogados pelo carpete da sala; um café que esfria na mesa de centro, um cigarro que se esvazia no cinzeiro negro, ali, bem ao lado do café. Eu, daqui, olhando a pouca iluminação da rua e o vazio completo e absoluto. O silêncio óbvio e impenetrável. Os passos cansados, ritmados, freqüentes, lá fora. Alguns ruídos mais fortes de carros, ônibus, freios, buzinas, bicicletas, pensamentos. As paredes, em tons claros e inertes, enjaulam a fera que perambula mordida pelo apartamento a enxergar as últimas nuvens de fumaça preta que pairam no ar.
Li e reli seus dizeres, saboreando cada palavra, consumindo essa sua vontade de me atingir numa gula sufocante de absorver tudo. Ainda me perco entre o que você disse, entre o que já havia dito e o que eu não entendi – ou que não quis. Parecia tão simples: sonhar um sonho irreal, alimentar um fogo no meio do inverno, dar asas a uma bala de canhão. Parecia, não o é. Esse ser abrasivo, misterioso e complexo que você me personifica é só uma ilusão.
Meu crime sem castigo, seu aperto de mão.
Pensei tanto nessas últimas horas no meu sentido, nesse sentido que você enxerga tão claro e parece tão pouco certo pra mim. Conversei com ela sobre as minhas dificuldades. Contei para ela quase tudo e ficarei com quase nada. Aliás, ficarei com a frase com a qual ela me deixou “eu deveria temer tudo isso”. Ela deveria? Eu deveria? Meus crimes perfeitos, que quase nunca deixam suspeitos, me fazem de vítima, corroem tudo que há de bom em mim e, é agora, nesse quase nada nas mãos, que tudo é iluminado. Quero te explicar tanta coisa...
Quero um momento pra ser real, tocar nas coisas que ainda não pude sentir, segurar em algo e me sentir pertencente a algum lugar. Andei vagando tanto tempo por aí, entre possibilidades e despedidas, entre conquistas e retiradas, que já não sei de onde venho. Tão clichê, mas é isso: sou um chavão tão óbvio que cega. Foi preciso que você me ferisse, como o fez, pra que eu me libertasse dessa espécie de vício: o costume de partir na hora mais crítica, a mania de envolver, seduzir, controlar, manipular, partir, partir e partir. Enfiar as mãos nos bolsos sem olhar para trás, para não deixar nada ali. Ela está certa quando me diz agora que deveria temer. Eu também temo. Não quero nem pensar nas cicatrizes...
Sem delongas, queria pedir desculpas a todos os corações que já foram partidos. Não por mim, mas pelas outras almas – tão “ingratas” quanto a minha. A todos os corações que – como o seu – sofreram pela estupidez de outros. Se houvesse maneira, eu gritaria a todos os casos mal resolvidos, a todas as amantes abandonadas, a todos os soluços no meio da noite, a todas as esperas do chamado do telefone, para se alegrarem pois não há dor maior do que aquela que nos é inerente e não depende da presença de ninguém. Enquanto você chora pela minha ausência, vou gastar lágrimas e licores e novos amores tentando descobrir porque nenhum lugar parece me acolher, porque ninguém parece o bastante. Os erros continuaram os mesmos, as vítimas serão outras, até que o jogo seja enfadonho e se volte contra mim.
Ainda que você me entenda tão bem, eu preciso me entender.
Não fique com raiva, não pense que joguei com as cartas da vaidade, não pare de ouvir as músicas, não se esqueça dos meus-seus momentos de cumplicidade, dos minutos contados no telefone, das nossas risadas, de tudo aquilo que, por um momento, foi seu mundo. Se foi meu, já não importa. Quando as canções forem mais claras e mais sentidas, quando as noites parecem tão mais longas e dolorosas, nem se atreva a pensar em mim. Pode ser tentador, mas seria estúpido. Tão imbecil quanto seria se eu ficasse, quando parte de mim se perde(a poeira no vento). No meu caminho tortuoso, apagado, sem propósito visível, ainda só há o espaço suficiente para não me sufocar. Um dia , quem sabe, eu encontre a razão da minha "fugacidade". Por enquanto, fico com as pegadas que deixo pra ninguém decifrar.
Meu crime – ainda – sem castigo... seu aperto de mão.
Sunday, October 08, 2006
Vou-me embora pra Pasárgada também
E é sempre por acaso que a vida acontece. É por acaso que nascemos, que crescemos, que fazemos escolhas, é por acaso que certas aptidões aparecem e outras se apagam. Aleatoriamente, as pessoas vêm e vão, sem que sejamos capazes de apontar as que deveriam ficar e as que deveriam sair de nossas vidas. A morte é um evento simplesmente probabilístico. Somos dados num espaço amostral de mais incertezas que probabilidades. Foi por acaso que num desses dias, meus dedos foram mais ágeis do que a consciência cega:
- Alô?
- Quem fala? – respiração ligeiramente descompassada.
Ela responde do outro lado da linha. Talvez já se sinta tocado pelo meu tom de voz, tom que ela tanto conhece. Assim mesmo, identifico-me. Levo a mão à testa, arrependo-me pelo meio segundo que me sobrou de tempo entre a resposta e continuo:
- Tanto tempo que não nos falamos que... – ela me interrompe
- Não crie desculpas para me ligar – pausadamente, retoma – você ligou e isso é suficiente.
- Se você diz... não queria incomodar... é que ás vezes... – emudeço a voz por alguns segundos, esperando que ela, do outro lado da linha, viesse com qualquer assunto que me resgatasse do sentimento patético - ... às vezes, não faz mal ligar sem motivo.
- Faz bem. Já tomou o seu café? – no mesmo tom inabalável.
- Faz alguns minutos... – lanço o olhar na xícara ainda morna, sob a mesa de centro da sala.
- Isso vai acabar com seu estômago qualquer dia desses... – ela acidamente critica.
- É ainda o que me sobra intacto.
- (...)
- E como estão as coisas? Fiquei sabendo da novidade da promoção...
- Ah é? – pigarreiou – saiu. Finalmente.
- Era o que você mais queria, né? Fico feliz por isso. – e eu esboço um sorriso “telefônico” visivelmente sarcástico.
- Você não costumava ser irônica. – num tom de voz entre ríspido e ressentido.
- Nem você costumava ir embora – eu retomo as rédeas.
- Ainda não, dá... é impossível conversar com você sem que essa arrogância exista...
- Agora sou arrogante? Há!
- Não disse isso... você entende o que convém.
- Você – ênfase – é o que convém.
Percebo que ela enche os pulmões de ar e, na minha lividez de assisti-la sem sequer observá-la, prevejo que levaria a mão à altura das sobrancelhas, franziria a testa e disparava:
- Sabe, Lisa? É por isso ainda que não lhe liguei. Você e esse seu orgulho ferido. Maldito orgulho ferido! - esbravejou.
- Tudo bem, Ana. Desculpas pela rispidez... é incontrolável. Sei que nem deveria lhe ligar, foi o que você pediu, mas eu...
- Não, Lisa! È... é bom ouvir você...
Continuou...
- ... tem algo na sua voz que ainda me ...
E uma terceira voz, também feminina, porém um pouco mais aveludada, invade a ligação:
- Ana, onde você guarda os cobertores? - silêncio.
Do outro lado da linha, á escuta, eu empalideço. Eu me espalho e me remonto tantas vezes, que ao voltar ao controle das ações, há partes dormentes, seriamente afetadas. Algumas partes ainda pelo chão. Ela, no que me pareceu uma dissimulação, desmonta o tom de voz da última frase e se volta a mim com um novo, casto e artificial:
- Preciso desligar, Lisa. Assim que puder, eu ligo para você. Agora é que...
- Não foi você quem disse para não inventar desculpas?
O período de tempo compreendido entre o fim da ligação e a hora que adormeci, confesso, não possuo mínima idéia. As avalanches em mim recomeçaram; morro a baixo, destruíram toda e qualquer pretensão. A terceira voz entrara pelos ouvidos com o peso da notícia desastrosa. Tudo em mim se desprendeu. As imagens que eu guardava de Ana: os dias dos cabelos molhados, as tardes em que passamos perambulando pelas ruas, as manhãs em que, ainda na cama, ficávamos horas deitadas com as bocas próximas, desvendando e reconhecendo-se uma na outra, as gargalhadas sempre bem vindas; toda reminiscência virara um desastroso conteúdo indigerível e intragável. O gosto amargo dos últimos dias ao lado dela parecia recente, era ontem. Éramos. Não somos mais. Lembrança por lembrança, a outra voz no fundo da ligação, foi corroendo, embebendo de dor e ódio a imagem de Ana. Levantei-me do sofá ainda com pernas e mãos dormentes, algum tremor nas pontas dos dedos. Andei um pouco sem direção pela casa. Abri e fechei a geladeira; liguei e desliguei o som. O tremor persistia; a voz impregnada no consciente; Ana e a raiva dela, Ana e o ódio dela, Ana e tudo aquilo que eu quis por Ana, Ana e só Ana. O vazio que brotou naquela hora talvez nem Ana preencheria. Todas as músicas de amor fariam sentido, todas as lágrimas despejadas teriam seu valor, todos os luares seriam mais dolorosos e melhor lembrados, todas as tardes na enseada, vagando perdida e sozinha, pareceriam mais minhas: o amor que eu sentia por Ana, num egoísmo anômalo, convertera-se em minha dor. O timbre da voz que destruía Ana em mim me atormentava e me libertava: havia cortado os finíssimos barbantes que me mantinham presa às sensações, às esperanças, a Ana. Era, finalmente, algo além de mim, ao acaso, apunhalando o mito de Ana no meu ser. “Ana não é mais sua”, uma voz gritava em mim, com o mesmo timbre da terceira voz ao telefone.
Vejo, hoje, que Ana ainda existe em mim e, embora com a mesma dor, é uma cicatriz (ou a tentativa disso...). Ana não é mais a Ana. Já se tornou a sombra dela, o que há de melhor nela em mim. Tamanho foi meu sentimento por ela que não me permiti guardar rancores e, por isso, são as virtudes de Ana que alegram meu sorriso sempre que a imagem dela me acode. Em mim, Ana é a brisa, o vento calmo e sereno que arrepia, gela, mas passa: é só o aviso parcimonioso de que existe um mar bravo além da costa. É a certeza da solidão que não desespera, é a música que toca no rádio e não entristece. Ana perdeu seu sentido: é o sentido por si mesma. Ana deixou de ser um nome e passou a ser um sentimento. Ana vive em mim. Talvez se ela repousasse seus ariscos olhos sobre o meu sóbrio olhar, por se enxergar tão brilhante e óbvia em mim, imagino que chorasse por algum tempo, sem secar as lágrimas - o que é de seu feitio. E se chorasse, eu sorriria – e não de felicidade, mas da cumplicidade que sempre nos foi peculiar.
Sei que perambula por aí, em outros braços, provando de outros beijos, vivendo uma outra vida que eu rejeitaria. Já sei que soa platônico e sonhador demais mas, preciso disso enquanto não encontrar a fenda certa que arranque-a para fora de mim. A outra voz no telefone agora lateja, mas não arde. É apenas o meu divisor d’águas. Entre agradecê-la pelo momento ou expurgá-la da minha identidade, prefiro conviver com a tranqüilidade mordida de que essa terceira voz me proporcionou. Bem ou mal, Ana ainda me pertence, mesmo que a voz que atualmente a envolva não seja a minha. Para esta, eu deixo a Ana que eu não quero mais.
- Alô?
- Quem fala? – respiração ligeiramente descompassada.
Ela responde do outro lado da linha. Talvez já se sinta tocado pelo meu tom de voz, tom que ela tanto conhece. Assim mesmo, identifico-me. Levo a mão à testa, arrependo-me pelo meio segundo que me sobrou de tempo entre a resposta e continuo:
- Tanto tempo que não nos falamos que... – ela me interrompe
- Não crie desculpas para me ligar – pausadamente, retoma – você ligou e isso é suficiente.
- Se você diz... não queria incomodar... é que ás vezes... – emudeço a voz por alguns segundos, esperando que ela, do outro lado da linha, viesse com qualquer assunto que me resgatasse do sentimento patético - ... às vezes, não faz mal ligar sem motivo.
- Faz bem. Já tomou o seu café? – no mesmo tom inabalável.
- Faz alguns minutos... – lanço o olhar na xícara ainda morna, sob a mesa de centro da sala.
- Isso vai acabar com seu estômago qualquer dia desses... – ela acidamente critica.
- É ainda o que me sobra intacto.
- (...)
- E como estão as coisas? Fiquei sabendo da novidade da promoção...
- Ah é? – pigarreiou – saiu. Finalmente.
- Era o que você mais queria, né? Fico feliz por isso. – e eu esboço um sorriso “telefônico” visivelmente sarcástico.
- Você não costumava ser irônica. – num tom de voz entre ríspido e ressentido.
- Nem você costumava ir embora – eu retomo as rédeas.
- Ainda não, dá... é impossível conversar com você sem que essa arrogância exista...
- Agora sou arrogante? Há!
- Não disse isso... você entende o que convém.
- Você – ênfase – é o que convém.
Percebo que ela enche os pulmões de ar e, na minha lividez de assisti-la sem sequer observá-la, prevejo que levaria a mão à altura das sobrancelhas, franziria a testa e disparava:
- Sabe, Lisa? É por isso ainda que não lhe liguei. Você e esse seu orgulho ferido. Maldito orgulho ferido! - esbravejou.
- Tudo bem, Ana. Desculpas pela rispidez... é incontrolável. Sei que nem deveria lhe ligar, foi o que você pediu, mas eu...
- Não, Lisa! È... é bom ouvir você...
Continuou...
- ... tem algo na sua voz que ainda me ...
E uma terceira voz, também feminina, porém um pouco mais aveludada, invade a ligação:
- Ana, onde você guarda os cobertores? - silêncio.
Do outro lado da linha, á escuta, eu empalideço. Eu me espalho e me remonto tantas vezes, que ao voltar ao controle das ações, há partes dormentes, seriamente afetadas. Algumas partes ainda pelo chão. Ela, no que me pareceu uma dissimulação, desmonta o tom de voz da última frase e se volta a mim com um novo, casto e artificial:
- Preciso desligar, Lisa. Assim que puder, eu ligo para você. Agora é que...
- Não foi você quem disse para não inventar desculpas?
O período de tempo compreendido entre o fim da ligação e a hora que adormeci, confesso, não possuo mínima idéia. As avalanches em mim recomeçaram; morro a baixo, destruíram toda e qualquer pretensão. A terceira voz entrara pelos ouvidos com o peso da notícia desastrosa. Tudo em mim se desprendeu. As imagens que eu guardava de Ana: os dias dos cabelos molhados, as tardes em que passamos perambulando pelas ruas, as manhãs em que, ainda na cama, ficávamos horas deitadas com as bocas próximas, desvendando e reconhecendo-se uma na outra, as gargalhadas sempre bem vindas; toda reminiscência virara um desastroso conteúdo indigerível e intragável. O gosto amargo dos últimos dias ao lado dela parecia recente, era ontem. Éramos. Não somos mais. Lembrança por lembrança, a outra voz no fundo da ligação, foi corroendo, embebendo de dor e ódio a imagem de Ana. Levantei-me do sofá ainda com pernas e mãos dormentes, algum tremor nas pontas dos dedos. Andei um pouco sem direção pela casa. Abri e fechei a geladeira; liguei e desliguei o som. O tremor persistia; a voz impregnada no consciente; Ana e a raiva dela, Ana e o ódio dela, Ana e tudo aquilo que eu quis por Ana, Ana e só Ana. O vazio que brotou naquela hora talvez nem Ana preencheria. Todas as músicas de amor fariam sentido, todas as lágrimas despejadas teriam seu valor, todos os luares seriam mais dolorosos e melhor lembrados, todas as tardes na enseada, vagando perdida e sozinha, pareceriam mais minhas: o amor que eu sentia por Ana, num egoísmo anômalo, convertera-se em minha dor. O timbre da voz que destruía Ana em mim me atormentava e me libertava: havia cortado os finíssimos barbantes que me mantinham presa às sensações, às esperanças, a Ana. Era, finalmente, algo além de mim, ao acaso, apunhalando o mito de Ana no meu ser. “Ana não é mais sua”, uma voz gritava em mim, com o mesmo timbre da terceira voz ao telefone.
Vejo, hoje, que Ana ainda existe em mim e, embora com a mesma dor, é uma cicatriz (ou a tentativa disso...). Ana não é mais a Ana. Já se tornou a sombra dela, o que há de melhor nela em mim. Tamanho foi meu sentimento por ela que não me permiti guardar rancores e, por isso, são as virtudes de Ana que alegram meu sorriso sempre que a imagem dela me acode. Em mim, Ana é a brisa, o vento calmo e sereno que arrepia, gela, mas passa: é só o aviso parcimonioso de que existe um mar bravo além da costa. É a certeza da solidão que não desespera, é a música que toca no rádio e não entristece. Ana perdeu seu sentido: é o sentido por si mesma. Ana deixou de ser um nome e passou a ser um sentimento. Ana vive em mim. Talvez se ela repousasse seus ariscos olhos sobre o meu sóbrio olhar, por se enxergar tão brilhante e óbvia em mim, imagino que chorasse por algum tempo, sem secar as lágrimas - o que é de seu feitio. E se chorasse, eu sorriria – e não de felicidade, mas da cumplicidade que sempre nos foi peculiar.
Sei que perambula por aí, em outros braços, provando de outros beijos, vivendo uma outra vida que eu rejeitaria. Já sei que soa platônico e sonhador demais mas, preciso disso enquanto não encontrar a fenda certa que arranque-a para fora de mim. A outra voz no telefone agora lateja, mas não arde. É apenas o meu divisor d’águas. Entre agradecê-la pelo momento ou expurgá-la da minha identidade, prefiro conviver com a tranqüilidade mordida de que essa terceira voz me proporcionou. Bem ou mal, Ana ainda me pertence, mesmo que a voz que atualmente a envolva não seja a minha. Para esta, eu deixo a Ana que eu não quero mais.
Friday, September 15, 2006
Anyway
O dia amanheceu tenebrosamente nublado. O relógio me lembrou que já eram seis horas. Alguns raios alaranjados do recém-nascido Sol invadiam os basculantes do meu quarto, enquanto o azul do céu dava lugar ao vapor da manhã. Lutei contra as forças das pálpebras; um, dois, três espreguiços. Desenrolei os braços de Amanda do meu corpo, suas pernas das minhas, recolocando o lençol negro sobre o corpo semi-nu dela. Acendi as luminárias do espelho da minha suíte, o que forçou a contração das pálpebras. Lavei o rosto, deixando que os últimos fios d'água despencassem sem qualquer aparo . Fitei-me a expressão por alguns minutos, retomando o fôlego e procurando na imagem à minha frente um traço gritante da minha idade. Nada. Não sei ainda se o que dói mais é não tê-los ou não enxergá-los.
- Lisa... - Amanda se espreguiça chamando meu nome - onde você vai? Hoje é sábado...
- Vou malhar, Amanda...
- Espera - e ela já ia se levantando -, faço um café para você...
- Não - disse enquanto me dirigia a ela - fique por aqui mesmo. Depois da academia, devo passar no mercado... se quiser ficar por aqui e...
- Não, tudo bem - e ela se enrolou no meu lençol - vou curtir seu cheiro um pouco mais e já mesmo eu tenho que ir conferir a loja. - e fechou, sorridente, os olhos.
Um gole de café velho e amargo. "Não foi sempre assim", eu penso logo que a primeira careta aparece. Lembro do gosto do café dela, logo pela manhã. Um gosto de meu, dela. Um jeito único de me beijar a testa, acariciando meus castanhos cabelos, me chamando de dorminhoca. O peso do seu corpo sobre o meu quando se dedicava a me fazer cócegas.
Nada: o café continua com o gosto amargo na minha boca. O gosto da saudade impregnado em mim. O assobio frio dessa manhã de inverno que sussurra saudade nos meus ouvidos.
Lançei últimos olhares para o apartamento e, conferindo que estava tudo nos conformes, apaguei as luzes da sala-de-estar, peguei a chave do carro e chamei o elevador. Essa decoração às vezes me enjôa. Tão sóbrio, tão certo, tão arquitetônico. Tão eu. Fechei os olhos enquanto inspirava raivosamente, com um ódio irracional e fugaz. Expulsei o ar dos pulmões de uma só vez, arrepiando os pêlos do braço.
Como ainda não havia grande luminosidade no céu, as poucas frechas de luz que invadiam o corredor do meu prédio criavam uma atmosfera confortante. Olhei ao redor, pensei em acender um cigarro. Lembrei que deveria parar de fumar. "Impossível", pensei em voz alta. Mas, mesmo assim, mantive-me disposta a malhar, desprezando o vicio que Ana costumava odiar.
É a primeira vez que denuncio o nome de Ana. É isso mesmo que seu nome deflagra em mim: uma denúncia, um flagrante: é vertiginoso pensar nela. Um reboliço de sensações e memórias que se perdem no estreito abismo entre o que eu sou e o que eu quero. Ana é a linha que divide o meu "querer" do meu "ser": ela não faz sentido, ela é o sentido por si só. Eu fico sem jeito, calada quando penso nela e é nesse meu silêncio, na minha ausência, que eu percebo o tamanho de Ana dentro de mim. A verdade é que meu nome, meus braços, meu corpo, meu apartamento... fica demasiadamente tedioso e vazio sem o aroma dela como essência. O que dói é saber que Ana se foi, deixando intocado em mim tudo que eu sonhei com/para ela. Ana (ou melhor, a ida dela) destruiu o meu sorriso espontâneo, jogou por terra os meus pilares, cegou-me os olhos da realidade nua, escravizou-me os sentidos às memórias do "nosso" tempo. Ana, agora, são os três pontos dessa frase que me impedem de seguir em frente...
Cheguei a academia por volta das seis e meia, quando ainda não havia muitas pessoas transitando pelo recinto. Escolhi a melhor esteira, com vista para a enseada, com o sol nascente à minha frente. Liguei a aparelhagem toda da geringonça e só então percebi quão idiota era optar pela corrida indoor ao invés de desfrutar de um cooper ao ar livre. Um breve instante e o pensamento se escafedeu com a constatação de que seria muito mais cômodo evitar os grãos de areia que entrariam no meu tênis e renderiam muitas -e nada agradáveis - palavras de desagrado.
Alguns minutos se transpuseram em horas naquela esteira. Gotas de suor emergiam de minhas têmporas, testa, braços, costas; umedeceram meu corpo, para ser secado num sopro frio dessa manhã de inverno. Alguns pássaros já saíam de seus ninhos, sobrevoavam a praia, pousavam, iam, retornam. Faziam do céu um picadeiro, em cambalhotas, vôos rasantes e até alguns ligeiros mergulhos. Eu, do lado de dentro da grande janela de vidro, divertia-me com seu comportamento, imaginando como seria bom ter asas. “Para onde eu iria?”. A resposta inevitável veio como um alarme, um soco no estômago, uma placa de “proibido seguir” depois de uma ladeira inclinadíssima. Balançei a cabeça, alonguei os braços e ensaiei alguma música com os lábios, para manter Ana longe de mim.
A hora inteira que se passou enquanto eu corria pareceu perdida à distância. Um lapso, quem nunca os teve? Peguei a toalha que repousava sobre um dos braços da esteira, e a mochila no outro. Dirigi-me à sala dos aparelhos, enquanto procurava com os olhos algum instrutor que pudesse me fazer companhia naquela sala excessivamente branca. Agora, eu percebo como não tenho a menor sensibilidade para me notar “notada”. Uma sombra impediu que o sol batesse nos meus olhos enquanto fazia uma série de abdominais. Fui lentamente abrindo os olhos e colocando minha mão contra os poucos raios de sol que contornavam a figura e me cegavam.
- Já tão cedo por aqui? – e eu pude ver um sorriso de canto de lábio.
- Ahn? – franzi a testa.
- Perguntei se já está por aqui tão cedo... – e o sorriso ficou ligeiramente maior.
- Ah sim! – eu sorri - Não dá para ficar um final de semana inteiro sem malhar. – eu menti, pois na verdade, acordar com Amanda me dava uma sensação de enjôo, uma náusea. Era quase contra minha natureza.
- É – e Raquel olhou para os próprios pés -, entendo a sensação. Precisa de alguma coisa? - retornou a repousar os olhos claros sobre mim.
- Não por agora. - devolvi os olhos semi-serrados.
- Depois quero lhe perguntar uma coisa, pode ser?
- Pode perguntar agora, se você quiser...
- Não, depois da sua série, você vai lá em cima e conversamos.
Raquel era uma mulher peculiar. E era essa sua peculiaridade que lhe tornava misteriosamente atraente. Dava aulas de aeróbica e uma segunda lista de atividades que eu desconhecia. O corpo era excessivamente delineado pelos anos de exercício físico diário, mas se permitia algumas curvas e outras acentuações: seios fartos que roubavam os olhares e quadril proporcional a estreiteza da cintura. Talvez - porque este era o tipo de dado que ela não revelava - beirasse seus 40 anos; não que o verificasse em rugas, fadigas e comportamentos; revelava-se tão espotânea quanto as garotas de 20, 25 anos. Alguns rumores iam ao encontro de minha tese de que ela se envolvia com mulheres, mas eu me satisfazia em comprá-la pelos olhares que peremptoriamente trocávamos: olhares esses fortuitos, lascivos, voluptuosos, fugidos. Impossível não notá-la, mais ainda não desejá-la.
Tomei alguns minutos na conclusão da série de abdominais e subi os dois lances de escada que separavam a ala de aparelhos do segundo andar, onde estavam os vestiários e alguns salões menores para as aulas de aeróbica, spinning, etc. Ainda com o corpo molhado pelo suor, procurei, displicente, Raquel pelo segundo piso e, não a encontrando, dirigi-me ao vestiário. Joguei mochila para um lado, toalha pra o outro e quando posicionei as duas mãos na camisa para retirá-la, eis que a silhueta provocante dela me aparecesse no espelho, ás minhas costas. Larguei a camisa e virei-me de frente:
- Já vai? - sorriu, fechando a porta atrás de si.
- Já - e conferi o relógio digital no braço esquerdo - não é você quem diz que não é certo ficar mais de duas horas na "maromba"? - eu disse, arqueando uma das sobrancelhas.
Apenas sorriu. Raquel passou por mim e devido a estreiteza entre o armário e o banco entre os quais eu estava em pé, ela precisou roçar seu corpo no meu. Aquele breve momento tensionou meu corpo, especialmente o ventre, que foi invadido por um derrame frio de sensações. Enquanto o perfume dos cabelos dela ainda se dissipavam e eu recobria as faculdades mentais, ela começou:
- Eu queria falar com você...
- Ah, é mesmo! - interrompi-a.
- ... é sobre a Ana.
Mantive o olhar á altura dos olhos dela.
- O quê sobre ela? - sem uma ruga de apreensão, embora as mãos houvessem trepidado.
- Vocês se separaram, né? Fiquei sabendo... - e estalou uma unha na outra, observando-as, meticulosamente, como se procurasse a coragem para prosseguir- É mesmo uma pena... eu jamais iria imaginar...
- Ninguém imaginaria, Quel - forçei um sorriso.
Foi então que ela se prestou a contar uma história da qual (perdão ao leitor atento) não me recordo, posto que todo o seguinte momento foi intercalado por esse tremor, cujo início se deu nas mãos, e abrangeu-se pelo corpo, enfraquecendo-me as pernas. As imagens de Ana, as últimas palavras, os últimos beijos, o fim...
Quando acudiu-me a precisão do presente, subi os olhos a altura normal e Raquel estava à minha exata frente, com os olhos apertados e a boca, ligeiramente aberta, mostrando as pérolas lascivas que me prometiam fervorosas mordidas. Balançei levemente a cabeça para certificar-me da proximidade de nossas bocas.
- Sempre quis ficar com você, Lisa... - e despiu-me com o olhar, dos pés aos olhos, percorrendo os lábios vermelhos com a ponta voraz e molhada da língua - agora eu faço questão.
Segurando uma de minhas mãos contra a parede, Raquel encostou levemente seus lábios nos meus, permitindo-me sentir-lhe o hálito quente; a outra mão envolveu-me a cintura, subiu as costas, retornou a cintura e perpetuou seus movimentos. Ao ponto que estive de beijá-la, ela se retraiu, com o sorriso intacto, o mesmo que me abordou.
- Mas, não agora. - e deu-me as costas e saiu, elegante, do vestiário.
Agora, vejo-me aqui sentada na poltrona, com a fumaça do cigarro expurgando os escrúpulos, confabulando todos os "se" e "porquês" do episódio. Teria eu me sujeitado a luxúria de Raquel? Eu penso que sim. Não me desfaço dos romances rápidos, visto que eles me completam num segundo (um segundo breve, mas um segundo leve sem a assombração da perda de Ana). Uma traição à Amanda? Não acredito. Para ela, talvez sim; mas é diante da minha impossibilidade de amá-la na mesma frequência que todos os casos se tornam apenas outros casos.
O apartamento vazio, assim como eu, se confundem. Sou tudo aquilo que fica, o que ainda não se apagou, a chama que insiste em reacender. Entre um trago no charuto e no vinho tinto, olho de relançe para o telefone e finjo sermos bons amigos: nem ele me incomoda, nem eu a ele. Na chegada dessa noite, nessa invasão da lua e das estrelas, dentro da minha sala, minha solidão fica, como tantas vezes, maior que eu. Eu (r)elevo: o cruzeiro estará assaz alto para qualquer discernimento, anyway.
- Lisa... - Amanda se espreguiça chamando meu nome - onde você vai? Hoje é sábado...
- Vou malhar, Amanda...
- Espera - e ela já ia se levantando -, faço um café para você...
- Não - disse enquanto me dirigia a ela - fique por aqui mesmo. Depois da academia, devo passar no mercado... se quiser ficar por aqui e...
- Não, tudo bem - e ela se enrolou no meu lençol - vou curtir seu cheiro um pouco mais e já mesmo eu tenho que ir conferir a loja. - e fechou, sorridente, os olhos.
Um gole de café velho e amargo. "Não foi sempre assim", eu penso logo que a primeira careta aparece. Lembro do gosto do café dela, logo pela manhã. Um gosto de meu, dela. Um jeito único de me beijar a testa, acariciando meus castanhos cabelos, me chamando de dorminhoca. O peso do seu corpo sobre o meu quando se dedicava a me fazer cócegas.
Nada: o café continua com o gosto amargo na minha boca. O gosto da saudade impregnado em mim. O assobio frio dessa manhã de inverno que sussurra saudade nos meus ouvidos.
Lançei últimos olhares para o apartamento e, conferindo que estava tudo nos conformes, apaguei as luzes da sala-de-estar, peguei a chave do carro e chamei o elevador. Essa decoração às vezes me enjôa. Tão sóbrio, tão certo, tão arquitetônico. Tão eu. Fechei os olhos enquanto inspirava raivosamente, com um ódio irracional e fugaz. Expulsei o ar dos pulmões de uma só vez, arrepiando os pêlos do braço.
Como ainda não havia grande luminosidade no céu, as poucas frechas de luz que invadiam o corredor do meu prédio criavam uma atmosfera confortante. Olhei ao redor, pensei em acender um cigarro. Lembrei que deveria parar de fumar. "Impossível", pensei em voz alta. Mas, mesmo assim, mantive-me disposta a malhar, desprezando o vicio que Ana costumava odiar.
É a primeira vez que denuncio o nome de Ana. É isso mesmo que seu nome deflagra em mim: uma denúncia, um flagrante: é vertiginoso pensar nela. Um reboliço de sensações e memórias que se perdem no estreito abismo entre o que eu sou e o que eu quero. Ana é a linha que divide o meu "querer" do meu "ser": ela não faz sentido, ela é o sentido por si só. Eu fico sem jeito, calada quando penso nela e é nesse meu silêncio, na minha ausência, que eu percebo o tamanho de Ana dentro de mim. A verdade é que meu nome, meus braços, meu corpo, meu apartamento... fica demasiadamente tedioso e vazio sem o aroma dela como essência. O que dói é saber que Ana se foi, deixando intocado em mim tudo que eu sonhei com/para ela. Ana (ou melhor, a ida dela) destruiu o meu sorriso espontâneo, jogou por terra os meus pilares, cegou-me os olhos da realidade nua, escravizou-me os sentidos às memórias do "nosso" tempo. Ana, agora, são os três pontos dessa frase que me impedem de seguir em frente...
Cheguei a academia por volta das seis e meia, quando ainda não havia muitas pessoas transitando pelo recinto. Escolhi a melhor esteira, com vista para a enseada, com o sol nascente à minha frente. Liguei a aparelhagem toda da geringonça e só então percebi quão idiota era optar pela corrida indoor ao invés de desfrutar de um cooper ao ar livre. Um breve instante e o pensamento se escafedeu com a constatação de que seria muito mais cômodo evitar os grãos de areia que entrariam no meu tênis e renderiam muitas -e nada agradáveis - palavras de desagrado.
Alguns minutos se transpuseram em horas naquela esteira. Gotas de suor emergiam de minhas têmporas, testa, braços, costas; umedeceram meu corpo, para ser secado num sopro frio dessa manhã de inverno. Alguns pássaros já saíam de seus ninhos, sobrevoavam a praia, pousavam, iam, retornam. Faziam do céu um picadeiro, em cambalhotas, vôos rasantes e até alguns ligeiros mergulhos. Eu, do lado de dentro da grande janela de vidro, divertia-me com seu comportamento, imaginando como seria bom ter asas. “Para onde eu iria?”. A resposta inevitável veio como um alarme, um soco no estômago, uma placa de “proibido seguir” depois de uma ladeira inclinadíssima. Balançei a cabeça, alonguei os braços e ensaiei alguma música com os lábios, para manter Ana longe de mim.
A hora inteira que se passou enquanto eu corria pareceu perdida à distância. Um lapso, quem nunca os teve? Peguei a toalha que repousava sobre um dos braços da esteira, e a mochila no outro. Dirigi-me à sala dos aparelhos, enquanto procurava com os olhos algum instrutor que pudesse me fazer companhia naquela sala excessivamente branca. Agora, eu percebo como não tenho a menor sensibilidade para me notar “notada”. Uma sombra impediu que o sol batesse nos meus olhos enquanto fazia uma série de abdominais. Fui lentamente abrindo os olhos e colocando minha mão contra os poucos raios de sol que contornavam a figura e me cegavam.
- Já tão cedo por aqui? – e eu pude ver um sorriso de canto de lábio.
- Ahn? – franzi a testa.
- Perguntei se já está por aqui tão cedo... – e o sorriso ficou ligeiramente maior.
- Ah sim! – eu sorri - Não dá para ficar um final de semana inteiro sem malhar. – eu menti, pois na verdade, acordar com Amanda me dava uma sensação de enjôo, uma náusea. Era quase contra minha natureza.
- É – e Raquel olhou para os próprios pés -, entendo a sensação. Precisa de alguma coisa? - retornou a repousar os olhos claros sobre mim.
- Não por agora. - devolvi os olhos semi-serrados.
- Depois quero lhe perguntar uma coisa, pode ser?
- Pode perguntar agora, se você quiser...
- Não, depois da sua série, você vai lá em cima e conversamos.
Raquel era uma mulher peculiar. E era essa sua peculiaridade que lhe tornava misteriosamente atraente. Dava aulas de aeróbica e uma segunda lista de atividades que eu desconhecia. O corpo era excessivamente delineado pelos anos de exercício físico diário, mas se permitia algumas curvas e outras acentuações: seios fartos que roubavam os olhares e quadril proporcional a estreiteza da cintura. Talvez - porque este era o tipo de dado que ela não revelava - beirasse seus 40 anos; não que o verificasse em rugas, fadigas e comportamentos; revelava-se tão espotânea quanto as garotas de 20, 25 anos. Alguns rumores iam ao encontro de minha tese de que ela se envolvia com mulheres, mas eu me satisfazia em comprá-la pelos olhares que peremptoriamente trocávamos: olhares esses fortuitos, lascivos, voluptuosos, fugidos. Impossível não notá-la, mais ainda não desejá-la.
Tomei alguns minutos na conclusão da série de abdominais e subi os dois lances de escada que separavam a ala de aparelhos do segundo andar, onde estavam os vestiários e alguns salões menores para as aulas de aeróbica, spinning, etc. Ainda com o corpo molhado pelo suor, procurei, displicente, Raquel pelo segundo piso e, não a encontrando, dirigi-me ao vestiário. Joguei mochila para um lado, toalha pra o outro e quando posicionei as duas mãos na camisa para retirá-la, eis que a silhueta provocante dela me aparecesse no espelho, ás minhas costas. Larguei a camisa e virei-me de frente:
- Já vai? - sorriu, fechando a porta atrás de si.
- Já - e conferi o relógio digital no braço esquerdo - não é você quem diz que não é certo ficar mais de duas horas na "maromba"? - eu disse, arqueando uma das sobrancelhas.
Apenas sorriu. Raquel passou por mim e devido a estreiteza entre o armário e o banco entre os quais eu estava em pé, ela precisou roçar seu corpo no meu. Aquele breve momento tensionou meu corpo, especialmente o ventre, que foi invadido por um derrame frio de sensações. Enquanto o perfume dos cabelos dela ainda se dissipavam e eu recobria as faculdades mentais, ela começou:
- Eu queria falar com você...
- Ah, é mesmo! - interrompi-a.
- ... é sobre a Ana.
Mantive o olhar á altura dos olhos dela.
- O quê sobre ela? - sem uma ruga de apreensão, embora as mãos houvessem trepidado.
- Vocês se separaram, né? Fiquei sabendo... - e estalou uma unha na outra, observando-as, meticulosamente, como se procurasse a coragem para prosseguir- É mesmo uma pena... eu jamais iria imaginar...
- Ninguém imaginaria, Quel - forçei um sorriso.
Foi então que ela se prestou a contar uma história da qual (perdão ao leitor atento) não me recordo, posto que todo o seguinte momento foi intercalado por esse tremor, cujo início se deu nas mãos, e abrangeu-se pelo corpo, enfraquecendo-me as pernas. As imagens de Ana, as últimas palavras, os últimos beijos, o fim...
Quando acudiu-me a precisão do presente, subi os olhos a altura normal e Raquel estava à minha exata frente, com os olhos apertados e a boca, ligeiramente aberta, mostrando as pérolas lascivas que me prometiam fervorosas mordidas. Balançei levemente a cabeça para certificar-me da proximidade de nossas bocas.
- Sempre quis ficar com você, Lisa... - e despiu-me com o olhar, dos pés aos olhos, percorrendo os lábios vermelhos com a ponta voraz e molhada da língua - agora eu faço questão.
Segurando uma de minhas mãos contra a parede, Raquel encostou levemente seus lábios nos meus, permitindo-me sentir-lhe o hálito quente; a outra mão envolveu-me a cintura, subiu as costas, retornou a cintura e perpetuou seus movimentos. Ao ponto que estive de beijá-la, ela se retraiu, com o sorriso intacto, o mesmo que me abordou.
- Mas, não agora. - e deu-me as costas e saiu, elegante, do vestiário.
Agora, vejo-me aqui sentada na poltrona, com a fumaça do cigarro expurgando os escrúpulos, confabulando todos os "se" e "porquês" do episódio. Teria eu me sujeitado a luxúria de Raquel? Eu penso que sim. Não me desfaço dos romances rápidos, visto que eles me completam num segundo (um segundo breve, mas um segundo leve sem a assombração da perda de Ana). Uma traição à Amanda? Não acredito. Para ela, talvez sim; mas é diante da minha impossibilidade de amá-la na mesma frequência que todos os casos se tornam apenas outros casos.
O apartamento vazio, assim como eu, se confundem. Sou tudo aquilo que fica, o que ainda não se apagou, a chama que insiste em reacender. Entre um trago no charuto e no vinho tinto, olho de relançe para o telefone e finjo sermos bons amigos: nem ele me incomoda, nem eu a ele. Na chegada dessa noite, nessa invasão da lua e das estrelas, dentro da minha sala, minha solidão fica, como tantas vezes, maior que eu. Eu (r)elevo: o cruzeiro estará assaz alto para qualquer discernimento, anyway.
Saturday, September 09, 2006
Amanda: depois de nós
Eram quase dez horas da noite, quando meu ônibus chegou ao destino. Não tenho a noção exata dos minutos porque assim que conferi o horário no relógio, fui procurar meu celular para saber se ela havia me ligado. Ainda sonolenta pelas horas em que passei adormecida, desci do ônibus com uma mala pequena, uma bolsa tiracolo e olhos avermelhados do choro de antes. A noite daquele inverno estava especialmente mais fria, solitária e solidária com a minha incompreensão. A janela de vidro fumê que separava o meu rosto do ar gelado da estrada estava ligeiramente embaçada, permitindo que poucas imagens se formassem. Recostada na poltrona, passei a viagem com o meu mp3 ligado, ouvindo todas as músicas que ainda julgava necessárias. Aquelas que ela me ensinou a gostar, aquelas que eu lhe ensinei a cantar; outras que foram nosso fundo musical, outras apenas que faziam sentido ouvir.
A rodoviária, em tons sujos de cinza, parecia tão familiar. Algumas pessoas sentadas, espalhadas pela plataforma de embarque; outras apressadas empurravam seus carrinhos, suas malas pelo grande salão. O barulho de pessoas conversando em tons moderados, celulares chamando, a voz das caixas de som que anunciavam as próximas saídas... e eu ali. No meio de tudo. No meu silêncio sempre mudo.
Girei o olhar pelo lugar. Direcionei-me a saída. Peguei o primeiro táxi que vi vago. Desci na porta do meu prédio, paguei o senhor já de meia-idade que guiava o táxi. Subi os lances de escada contando os degraus, compassando a respiração, acendendo/desligando as luzes. Um labirinto até chegar de volta a mim.
Em frente à porta do meu apartamento, agora, inspiro aquela fragrância de estar “de volta”. Não, eu não quero estar aqui e não há outro lugar melhor para estar. Procuro pela chave na bolsa quando ouço o telefone chamar. Acelero a procura, agarro as chaves entre os dedos e coloco de qualquer jeito na fechadura. Lanço-me veloz, mas não o suficiente para atender a chamada. Paro de pé à frente do telefone, imaginando que ela poderia ter ligado: o que queria, o que iria dizer, se já sabia que eu estava em casa, se queria me ver. Talvez viesse aqui, talvez não. Pelo não, eu dou as costas. O telefone toca:
- Alô?
- Já chegou? – a voz rouca, como se acabasse de acordar.
- Acabei de chegar... – eu respondo, jogando a bolsa sobre o sofá, visivelmente descontente.
- Posso ir até aí?
- Ainda não desfiz as malas e...
- Eu lhe ajudo. Me espera que eu já chego aí em alguns minutos...- e desliga o telefone.
Amanda - a dona da voz no telefonema - é meu capricho. Tão somente isso. Com seus 1,70m de altura, quadris largos, cintura fina, pernas grossas, lábios avermelhados e suculentos, que costumam me devorar noites a fio. Amanda me entende. Amanda me satisfaz, me substancia. É espontânea na cama, é entregue, é sublime. Sua pele bronzeada de sol, seus olhos cor-de-mel, seus braços proporcionalmente menores do que o conjunto, mas tão eficientes em me prenderem. Foram muitas as vezes em que quis amá-la como eu aprendi a amar a outra. Mas, sempre que me vejo disponível para tamanha façanha, sinto-me mais perto do nada, redimida a insignificância por querer substituí-la. É vê-la me dominar até quando eu me desfaço da dominação. O fantasma que eu não sei se quero exorcizar.
Amanda chegou, com seu sorriso branco e enjoativamente feliz. Nunca a felicidade me enjoou tanto. Ela, o seu sorriso e essa mania de cuidar de mim. Eu a desejo, não posso nem conseguiria negar. Desejo no sentido carnal, inócuo e vicioso do desejo. Amanda tem a dose certa de tudo o que eu preciso como um corpo. Amanda só não pode ser ela.
Chegou com algumas sacolas, sob um vestido curto, estampado em flores rosas e vermelhas, bem decotado e ligeiramente acima dos joelhos. Amanda requebra quando anda e suas pernas se revezam, ora uma ora outra, a frente da imagem, enlouquecendo qualquer bom cidadão que parasse para percebê-la. Lembro-me do dia em que nos conhecemos. Numa dessas noites avulsas, em que se venderia a alma ao diabo por uma boa taça de vinho, resolvi sair para dançar, embriagar-me e apagar (mesmo que temporariamente) as lembranças dela. Vesti uma calça jeans escura, uma blusa branca sem alças, cabelos soltos e levemente cacheados pela umidade, um par de brincos prateados e a certeza de dar um passo em direção à distância dela. Lá pelas duas da madrugada, percebi que havia um par de olhos lascivos me acompanhando pela pista. Pares de olhos estes que decoravam o rosto ligeiramente maquiado de Amanda, das bochechas excessivamente rosadas pelo blush. O vulto que ela perfazia atiçava-me os sentidos. Ela se aproximou e o perfume adocicado (que ela ainda usa) me envolveu na batida da música que tocava. Meus olhos se prenderam nos dela, enquanto seus braços seguravam, firmes, a minha cintura. Foi tudo tão rápido. Os beijos, os amassos, o corpo dela nu contra o meu quase nu; os gemidos, os fôlegos. A minha mente entorpecida pelas incontáveis taças de vinho e o insaciável desejo de Amanda de sempre querer mais. Ela me invadia, dedos, língua, olhares. Eu me rendia. Era a rendição temporária que eu lhe permitia ter.
Desde então, Amanda se apegou a mim. Percebo que ela precisa de mim e isso me faz bem. Passo alguns dias fora, não dou notícias, me faço de intocável, intangível. Amanda se desespera, me liga repetida e incansáveis vezes no celular, para que na última eu atenda...
- Onde você estava? – ela altera o tom de voz, que costuma ser tranquilamente agudo.
- Por aí, Amanda...
- E não atendeu o celular por quê? – enfeza-se
- Não pude.
- Não pode ou não quis, Lisa? – dando uma ênfase interrogativa ao “ou”.
- Agora atendi, não atendi?
- É... – e eu posso ouvir a respiração dela do outro lado, numa inspiração lenta e intensa- estou com saudades. Fiquei preocupada...
É, é egoísmo. Egocentrismo da minha parte e acho difícil curá-lo. É a minha armadura, o meu elmo, aquilo que não me permite desabar, cair em desgosto. É frágil, eu sei. Por ser frácil é que falo disso. A procura de Amanda, os telefonemas, os e-mails, as longas conversas pela Internet e o carinho que não parece ter fim... Amanda alimenta o que eu sou. Posso não amá-la na reciprocidade, mas preciso dela.
Agora mesmo, Amanda está se divertindo com as minhas malas. Retirando as roupas, reajeitando meu mundo, desfrutando dessa breve sensação de me possuir. É o que ela faz de melhor. Ouço alguns comentários dela aqui da sala, algumas risadas, algo que ela me conta sobre uma amiga em comum. Não gosto de pensar nela como “minha”: Amanda é do mundo. Amanda é perfeita demais para minha insegurança e, talvez seja por isso que livrei-a do meu ciúme doentio. Ela me faz esquecer, ela me faz espairecer, ela me faz querer amá-la sem ser capaz de tanto. Ela só não sabe - ainda - como me curar.
A rodoviária, em tons sujos de cinza, parecia tão familiar. Algumas pessoas sentadas, espalhadas pela plataforma de embarque; outras apressadas empurravam seus carrinhos, suas malas pelo grande salão. O barulho de pessoas conversando em tons moderados, celulares chamando, a voz das caixas de som que anunciavam as próximas saídas... e eu ali. No meio de tudo. No meu silêncio sempre mudo.
Girei o olhar pelo lugar. Direcionei-me a saída. Peguei o primeiro táxi que vi vago. Desci na porta do meu prédio, paguei o senhor já de meia-idade que guiava o táxi. Subi os lances de escada contando os degraus, compassando a respiração, acendendo/desligando as luzes. Um labirinto até chegar de volta a mim.
Em frente à porta do meu apartamento, agora, inspiro aquela fragrância de estar “de volta”. Não, eu não quero estar aqui e não há outro lugar melhor para estar. Procuro pela chave na bolsa quando ouço o telefone chamar. Acelero a procura, agarro as chaves entre os dedos e coloco de qualquer jeito na fechadura. Lanço-me veloz, mas não o suficiente para atender a chamada. Paro de pé à frente do telefone, imaginando que ela poderia ter ligado: o que queria, o que iria dizer, se já sabia que eu estava em casa, se queria me ver. Talvez viesse aqui, talvez não. Pelo não, eu dou as costas. O telefone toca:
- Alô?
- Já chegou? – a voz rouca, como se acabasse de acordar.
- Acabei de chegar... – eu respondo, jogando a bolsa sobre o sofá, visivelmente descontente.
- Posso ir até aí?
- Ainda não desfiz as malas e...
- Eu lhe ajudo. Me espera que eu já chego aí em alguns minutos...- e desliga o telefone.
Amanda - a dona da voz no telefonema - é meu capricho. Tão somente isso. Com seus 1,70m de altura, quadris largos, cintura fina, pernas grossas, lábios avermelhados e suculentos, que costumam me devorar noites a fio. Amanda me entende. Amanda me satisfaz, me substancia. É espontânea na cama, é entregue, é sublime. Sua pele bronzeada de sol, seus olhos cor-de-mel, seus braços proporcionalmente menores do que o conjunto, mas tão eficientes em me prenderem. Foram muitas as vezes em que quis amá-la como eu aprendi a amar a outra. Mas, sempre que me vejo disponível para tamanha façanha, sinto-me mais perto do nada, redimida a insignificância por querer substituí-la. É vê-la me dominar até quando eu me desfaço da dominação. O fantasma que eu não sei se quero exorcizar.
Amanda chegou, com seu sorriso branco e enjoativamente feliz. Nunca a felicidade me enjoou tanto. Ela, o seu sorriso e essa mania de cuidar de mim. Eu a desejo, não posso nem conseguiria negar. Desejo no sentido carnal, inócuo e vicioso do desejo. Amanda tem a dose certa de tudo o que eu preciso como um corpo. Amanda só não pode ser ela.
Chegou com algumas sacolas, sob um vestido curto, estampado em flores rosas e vermelhas, bem decotado e ligeiramente acima dos joelhos. Amanda requebra quando anda e suas pernas se revezam, ora uma ora outra, a frente da imagem, enlouquecendo qualquer bom cidadão que parasse para percebê-la. Lembro-me do dia em que nos conhecemos. Numa dessas noites avulsas, em que se venderia a alma ao diabo por uma boa taça de vinho, resolvi sair para dançar, embriagar-me e apagar (mesmo que temporariamente) as lembranças dela. Vesti uma calça jeans escura, uma blusa branca sem alças, cabelos soltos e levemente cacheados pela umidade, um par de brincos prateados e a certeza de dar um passo em direção à distância dela. Lá pelas duas da madrugada, percebi que havia um par de olhos lascivos me acompanhando pela pista. Pares de olhos estes que decoravam o rosto ligeiramente maquiado de Amanda, das bochechas excessivamente rosadas pelo blush. O vulto que ela perfazia atiçava-me os sentidos. Ela se aproximou e o perfume adocicado (que ela ainda usa) me envolveu na batida da música que tocava. Meus olhos se prenderam nos dela, enquanto seus braços seguravam, firmes, a minha cintura. Foi tudo tão rápido. Os beijos, os amassos, o corpo dela nu contra o meu quase nu; os gemidos, os fôlegos. A minha mente entorpecida pelas incontáveis taças de vinho e o insaciável desejo de Amanda de sempre querer mais. Ela me invadia, dedos, língua, olhares. Eu me rendia. Era a rendição temporária que eu lhe permitia ter.
Desde então, Amanda se apegou a mim. Percebo que ela precisa de mim e isso me faz bem. Passo alguns dias fora, não dou notícias, me faço de intocável, intangível. Amanda se desespera, me liga repetida e incansáveis vezes no celular, para que na última eu atenda...
- Onde você estava? – ela altera o tom de voz, que costuma ser tranquilamente agudo.
- Por aí, Amanda...
- E não atendeu o celular por quê? – enfeza-se
- Não pude.
- Não pode ou não quis, Lisa? – dando uma ênfase interrogativa ao “ou”.
- Agora atendi, não atendi?
- É... – e eu posso ouvir a respiração dela do outro lado, numa inspiração lenta e intensa- estou com saudades. Fiquei preocupada...
É, é egoísmo. Egocentrismo da minha parte e acho difícil curá-lo. É a minha armadura, o meu elmo, aquilo que não me permite desabar, cair em desgosto. É frágil, eu sei. Por ser frácil é que falo disso. A procura de Amanda, os telefonemas, os e-mails, as longas conversas pela Internet e o carinho que não parece ter fim... Amanda alimenta o que eu sou. Posso não amá-la na reciprocidade, mas preciso dela.
Agora mesmo, Amanda está se divertindo com as minhas malas. Retirando as roupas, reajeitando meu mundo, desfrutando dessa breve sensação de me possuir. É o que ela faz de melhor. Ouço alguns comentários dela aqui da sala, algumas risadas, algo que ela me conta sobre uma amiga em comum. Não gosto de pensar nela como “minha”: Amanda é do mundo. Amanda é perfeita demais para minha insegurança e, talvez seja por isso que livrei-a do meu ciúme doentio. Ela me faz esquecer, ela me faz espairecer, ela me faz querer amá-la sem ser capaz de tanto. Ela só não sabe - ainda - como me curar.
Thursday, September 07, 2006
Das noites em que pensei em não pensar

Mordi os lábios enquanto desentrelaçava os dedos, uns dos outros, os meus dos seus. Joguei meu olhar, cansado e rendido, aos seus, que me devoraram num fôlego ritmado e comedido. Você me invadiu: cerrou-os, arqueou a sobrancelha, desviou o sorriso dos lábios enquanto passeava com a ponta molhada de sua língua sobre o seu lábio inferior. Um gélido arrepio se esfregou sobre o meu ventre e, espalhando-se pelas minhas costas, me fez movimentar os braços em sua direção. Você me reteve: segurou minha mãos pelos punhos e, em seguida, desceu suas mãos pelos meus braços, ombros, cintura. Arrancou minha roupa, foi bem isso que você fez. As pontas de seus dedos, longos e estreitos dedos, me tocavam suavemente levantando minha blusa até a altura dos ombros, para quando então despedida dela, irem me tocando no pescoço, ombros, braços, mãos.
A música que havíamos colocado de fundo parecia tão distante quanto todo o resto da decoração do quarto. Imóveis, espectadores desse balé aturdido, intenso, dramático e precipitado. A luz de teto apagada, o azul da noite que tomava espaço no céu da tarde, em tons de alaranjado que riscavam o céu. O nosso quarto na penumbra; você sob a luminosidade de alguns poucos raios que se punham. Aquela imagem grudava em mim, tatuava-se no meu ser e naquele momento eu já não mais sabia que parte era minha, qual era sua.
Avancei sobre o seu corpo, mas você me reteve novamente. Levantou-se sem desviar os olhos penetrantes do meu e, enquanto eu me reajeitava na beirada da cama, vestida apenas com um sutiã preto, você, agora de pé a minha frente, foi lentamente, tirando a blusa. Botão por botão, arrepio por arrepio. E os olhos nos meus. Meus olhos em você. E você me sugando naquele movimento. Suas mãos iam descendo e, quando se livraram de todos os botões, dirigiram-se a mim. Sob a sua camisa branca, nada. Apenas você.
Suas mãos quentes se repousaram nos meus ombros e, no segundo que entrou, me jogaram contra o colchão da cama. O impacto, embora suave, me despertou, acudiu-me do estado quase tonto do momento anterior. Primeiro, colocou o joelho esquerdo ao lado de minha coxa direita e logo em seguida, seu joelho direito ao lado de minha perna direita, ficando, por assim narrar-lhes, ela sentada sobre mim. Aquele vulto, suficientemente iluminado pelo entardecer em tons de azul e espaçados laranjas, me envenenou: entreguei-me ali mesmo, embaixo do ventre dela.
Ela sorriu. Um sorriso safado, sim. Um sorriso de canto de lábio, como tantos outros, mas com o gosto - que eu quase podia sentir - de vitória, dominação. Eu sorria também, mas não que ela visse. Que você visse. Era ali que eu me sentia sua: sendo totalmente sua. “Tá vendo? Sou sua.”, poderia ter falado. Fiz menção de levantar: você me parou. Você sorri, eu sorrio. Tentei deslizar minhas mãos pelas suas coxas, que me apertavam contra a cama, deixando que o peso de seu corpo sob o meu deitado me enlouquece e arrepiasse todos os pêlos que ainda podiam se excitar. Mas, não. Você também as segurou, levando e prendendo-as acima de minha cabeça, deixando que algumas partes do seu corpo tocassem o meu num momento breve e eterno, frio e quente, uma mistura de não-sei-o-quê afrodisíaco e paradoxal.
Você se ergueu e sentou-se novamente sobre mim, desta vez encaixando-se ainda mais sobre o meu colo. Estremeci. A vontade alucinante era de pressioná-la contra meu corpo, beijar-lhe entrâncias, protuberâncias, curvas. Arranhar-lhe as costas e vê-la levantar a face acima, com a boca levemente aberta, gemendo baixo, só para mim, com os olhos espremidos.
De volta a posição, você afastou a blusa branca de mangas já aberta e eu pude ver o contorno da sua forma. O desenho de seus quadris, cintura, seios, ombros, pescoço. Deliciando-se do momento(melhor dito, do meu desconcerto aliado a minha semi-loucura), você deixou a blusa cair. Seu corpo agora completamente nu, engrenado com o meu. Soltou os cabelos dourados e levemente ondulados e, cada instante em que eles avançavam pelas costas e ombros dela, eu sentia aquele tremor quase agonizante invadir as partes já tensionadas pelas imagens anteriores.
E era tão bom ver você se distraindo com o meu desejo explícito. Sentia-se desejada, eu via. Sentindo-se desejada, alimentava aquela chama que toda mulher (como eu também) tem de se sentir fatalmente poderosa. Você tomou minhas mãos e conduziu-as pelo seu corpo: coxas, quadris, cintura, abdômem, colo, ombros, braços, ombros, colo... até que finalmente se (me) permitiu deslizar a mãos sobre os seus seios, a essa hora tesos e ouriçados. No primeiro toque, você mordeu os lábios, girou a cabeça, jogando os cabelo sob o rosto e desprendendo suas mãos da minha.
Distraída com o movimento dos cabelos, aproveitei para tomar-lhe o controle e lancei seu corpo de encontro a cama, postando-me agora entre as suas pernas. Você sorri, gostosamente sorri com seus brancos dentes. Passo minha mão entre suas pernas e, levantando e afastando levemente seus joelhos, tenciono meu ventre contra o seu. Você geme, dessa vez mais alto, mais agudo. Não resisto, devoro em beijos seus lábios, queijo, pescoço. Você me puxa mais pra perto, eu pressiono um pouco mais. Você geme...
Noites assim, noites tão nossas, hoje num passado nebuloso. E aí se perdem entre amargura e solidão.
Entre um e outro café, sentada agora, nessa mesma beirada da cama, já não sei o limite de parar de pensar nisso. Às vezes passo tanto tempo aqui, sentada, nesse mesmo azul do entardecer, com alguns fios de lágrimas já secando pelo meu rosto. Penso ainda se você volta. Vou olhar vezes para porta; vou refazer seus passos pela casa; vou buscar nelas aquilo que, em você, me consome, me lembra de não lhe esquecer; vou borrifar o seu perfume pela casa; vou me abraçar a sua blusa branca de manga. Por fim, não vou a lugar nenhum. Estou exatamente ali, onde você me deixou.
A música que havíamos colocado de fundo parecia tão distante quanto todo o resto da decoração do quarto. Imóveis, espectadores desse balé aturdido, intenso, dramático e precipitado. A luz de teto apagada, o azul da noite que tomava espaço no céu da tarde, em tons de alaranjado que riscavam o céu. O nosso quarto na penumbra; você sob a luminosidade de alguns poucos raios que se punham. Aquela imagem grudava em mim, tatuava-se no meu ser e naquele momento eu já não mais sabia que parte era minha, qual era sua.
Avancei sobre o seu corpo, mas você me reteve novamente. Levantou-se sem desviar os olhos penetrantes do meu e, enquanto eu me reajeitava na beirada da cama, vestida apenas com um sutiã preto, você, agora de pé a minha frente, foi lentamente, tirando a blusa. Botão por botão, arrepio por arrepio. E os olhos nos meus. Meus olhos em você. E você me sugando naquele movimento. Suas mãos iam descendo e, quando se livraram de todos os botões, dirigiram-se a mim. Sob a sua camisa branca, nada. Apenas você.
Suas mãos quentes se repousaram nos meus ombros e, no segundo que entrou, me jogaram contra o colchão da cama. O impacto, embora suave, me despertou, acudiu-me do estado quase tonto do momento anterior. Primeiro, colocou o joelho esquerdo ao lado de minha coxa direita e logo em seguida, seu joelho direito ao lado de minha perna direita, ficando, por assim narrar-lhes, ela sentada sobre mim. Aquele vulto, suficientemente iluminado pelo entardecer em tons de azul e espaçados laranjas, me envenenou: entreguei-me ali mesmo, embaixo do ventre dela.
Ela sorriu. Um sorriso safado, sim. Um sorriso de canto de lábio, como tantos outros, mas com o gosto - que eu quase podia sentir - de vitória, dominação. Eu sorria também, mas não que ela visse. Que você visse. Era ali que eu me sentia sua: sendo totalmente sua. “Tá vendo? Sou sua.”, poderia ter falado. Fiz menção de levantar: você me parou. Você sorri, eu sorrio. Tentei deslizar minhas mãos pelas suas coxas, que me apertavam contra a cama, deixando que o peso de seu corpo sob o meu deitado me enlouquece e arrepiasse todos os pêlos que ainda podiam se excitar. Mas, não. Você também as segurou, levando e prendendo-as acima de minha cabeça, deixando que algumas partes do seu corpo tocassem o meu num momento breve e eterno, frio e quente, uma mistura de não-sei-o-quê afrodisíaco e paradoxal.
Você se ergueu e sentou-se novamente sobre mim, desta vez encaixando-se ainda mais sobre o meu colo. Estremeci. A vontade alucinante era de pressioná-la contra meu corpo, beijar-lhe entrâncias, protuberâncias, curvas. Arranhar-lhe as costas e vê-la levantar a face acima, com a boca levemente aberta, gemendo baixo, só para mim, com os olhos espremidos.
De volta a posição, você afastou a blusa branca de mangas já aberta e eu pude ver o contorno da sua forma. O desenho de seus quadris, cintura, seios, ombros, pescoço. Deliciando-se do momento(melhor dito, do meu desconcerto aliado a minha semi-loucura), você deixou a blusa cair. Seu corpo agora completamente nu, engrenado com o meu. Soltou os cabelos dourados e levemente ondulados e, cada instante em que eles avançavam pelas costas e ombros dela, eu sentia aquele tremor quase agonizante invadir as partes já tensionadas pelas imagens anteriores.
E era tão bom ver você se distraindo com o meu desejo explícito. Sentia-se desejada, eu via. Sentindo-se desejada, alimentava aquela chama que toda mulher (como eu também) tem de se sentir fatalmente poderosa. Você tomou minhas mãos e conduziu-as pelo seu corpo: coxas, quadris, cintura, abdômem, colo, ombros, braços, ombros, colo... até que finalmente se (me) permitiu deslizar a mãos sobre os seus seios, a essa hora tesos e ouriçados. No primeiro toque, você mordeu os lábios, girou a cabeça, jogando os cabelo sob o rosto e desprendendo suas mãos da minha.
Distraída com o movimento dos cabelos, aproveitei para tomar-lhe o controle e lancei seu corpo de encontro a cama, postando-me agora entre as suas pernas. Você sorri, gostosamente sorri com seus brancos dentes. Passo minha mão entre suas pernas e, levantando e afastando levemente seus joelhos, tenciono meu ventre contra o seu. Você geme, dessa vez mais alto, mais agudo. Não resisto, devoro em beijos seus lábios, queijo, pescoço. Você me puxa mais pra perto, eu pressiono um pouco mais. Você geme...
Noites assim, noites tão nossas, hoje num passado nebuloso. E aí se perdem entre amargura e solidão.
Entre um e outro café, sentada agora, nessa mesma beirada da cama, já não sei o limite de parar de pensar nisso. Às vezes passo tanto tempo aqui, sentada, nesse mesmo azul do entardecer, com alguns fios de lágrimas já secando pelo meu rosto. Penso ainda se você volta. Vou olhar vezes para porta; vou refazer seus passos pela casa; vou buscar nelas aquilo que, em você, me consome, me lembra de não lhe esquecer; vou borrifar o seu perfume pela casa; vou me abraçar a sua blusa branca de manga. Por fim, não vou a lugar nenhum. Estou exatamente ali, onde você me deixou.
Saturday, August 26, 2006
Nada pra mim

Olhei no relógio do canto direito inferior do meu computador quase obsoleto. 23:25h. Como um ato que não pede explicação, conferi o mesmo horário no meu relógio digital no punho. Religiosamente no mesmo horário. Passei a mãos pelos cabelos presos com um prendedor metálico prateado, reajeitei a armação dos óculos. O celular completamente imóvel. E é assim que você me coloca no mesmo lugar.
Perdi meu tempo há muito tempo. Quando? Não sei mais. Sinto um vazio estranho num espaço que não me pertence. Vou voltar, mas é na volta que as amarguras da ida latejam dolorosamente mais evidentes. Queria não precisar, queria não ter a necessidade de. Sempre preciso; nada tenho. Só a possibilidade do meu amanhã.
É. Você não apareceu e essa vai ser só mais uma noite, entre eu, meu travesseiro e o rádio ligado até de manhã.
Se eu acordar durante a madrugada, que meus pensamentos não despertem. Costumo passar alguns minutos - há dias em que eles se transformam em horas - deitada, imóvel, apenas sob o controle da minha respiração. Penso em você, é óbvio. Penso nos seus sussurros, na sua voz quase rouca que me acordava de manhã. O cheiro dos seus cabelos, as curvas do seu corpo. Num mar de nostalgia, eu me pego embriagada de você. Aí, eu olho o relógio (de novo) e vejo que mal cinco minutos passaram e você ainda em mim. Queria que você precisasse mais de mim. Queria poder ir embora, jogar as suas fotos fora, deletar seus telefones da minha agenda eletrônica. Queria ir embora para você me querer mais. Se hoje eu lhe vejo e fingo (espero que bem) que não se passa de situação comum, é porque quero que você deseje. Não que eu me renda aos jogos, mas é que fica doloroso entregar os dados na sua mão.
Reviro os lençóis e os meus dois grandes travesseiros. Sinto um calor diferente que aquece e umidece meu corpo sob o lençol. Eu saio da cama, sento à frente do computador e espero não-sei-o-quê. Penso em rendição. Tomo um café esquecido na garrafa térmica vermelha. Amargo, ácidos, mas assim mesmo o tomo. Pergunto-me se preciso aprender a aceitar sua ausência. Aí então é que vejo que sempre estive adaptada a ela. Não sei se dói saber mais da minha consciência ou da sua indiferença.
Perdi meu tempo há muito tempo. Quando? Não sei mais. Sinto um vazio estranho num espaço que não me pertence. Vou voltar, mas é na volta que as amarguras da ida latejam dolorosamente mais evidentes. Queria não precisar, queria não ter a necessidade de. Sempre preciso; nada tenho. Só a possibilidade do meu amanhã.
É. Você não apareceu e essa vai ser só mais uma noite, entre eu, meu travesseiro e o rádio ligado até de manhã.
Se eu acordar durante a madrugada, que meus pensamentos não despertem. Costumo passar alguns minutos - há dias em que eles se transformam em horas - deitada, imóvel, apenas sob o controle da minha respiração. Penso em você, é óbvio. Penso nos seus sussurros, na sua voz quase rouca que me acordava de manhã. O cheiro dos seus cabelos, as curvas do seu corpo. Num mar de nostalgia, eu me pego embriagada de você. Aí, eu olho o relógio (de novo) e vejo que mal cinco minutos passaram e você ainda em mim. Queria que você precisasse mais de mim. Queria poder ir embora, jogar as suas fotos fora, deletar seus telefones da minha agenda eletrônica. Queria ir embora para você me querer mais. Se hoje eu lhe vejo e fingo (espero que bem) que não se passa de situação comum, é porque quero que você deseje. Não que eu me renda aos jogos, mas é que fica doloroso entregar os dados na sua mão.
Reviro os lençóis e os meus dois grandes travesseiros. Sinto um calor diferente que aquece e umidece meu corpo sob o lençol. Eu saio da cama, sento à frente do computador e espero não-sei-o-quê. Penso em rendição. Tomo um café esquecido na garrafa térmica vermelha. Amargo, ácidos, mas assim mesmo o tomo. Pergunto-me se preciso aprender a aceitar sua ausência. Aí então é que vejo que sempre estive adaptada a ela. Não sei se dói saber mais da minha consciência ou da sua indiferença.
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