O dia amanheceu tenebrosamente nublado. O relógio me lembrou que já eram seis horas. Alguns raios alaranjados do recém-nascido Sol invadiam os basculantes do meu quarto, enquanto o azul do céu dava lugar ao vapor da manhã. Lutei contra as forças das pálpebras; um, dois, três espreguiços. Desenrolei os braços de Amanda do meu corpo, suas pernas das minhas, recolocando o lençol negro sobre o corpo semi-nu dela. Acendi as luminárias do espelho da minha suíte, o que forçou a contração das pálpebras. Lavei o rosto, deixando que os últimos fios d'água despencassem sem qualquer aparo . Fitei-me a expressão por alguns minutos, retomando o fôlego e procurando na imagem à minha frente um traço gritante da minha idade. Nada. Não sei ainda se o que dói mais é não tê-los ou não enxergá-los.
- Lisa... - Amanda se espreguiça chamando meu nome - onde você vai? Hoje é sábado...
- Vou malhar, Amanda...
- Espera - e ela já ia se levantando -, faço um café para você...
- Não - disse enquanto me dirigia a ela - fique por aqui mesmo. Depois da academia, devo passar no mercado... se quiser ficar por aqui e...
- Não, tudo bem - e ela se enrolou no meu lençol - vou curtir seu cheiro um pouco mais e já mesmo eu tenho que ir conferir a loja. - e fechou, sorridente, os olhos.
Um gole de café velho e amargo. "Não foi sempre assim", eu penso logo que a primeira careta aparece. Lembro do gosto do café dela, logo pela manhã. Um gosto de meu, dela. Um jeito único de me beijar a testa, acariciando meus castanhos cabelos, me chamando de dorminhoca. O peso do seu corpo sobre o meu quando se dedicava a me fazer cócegas.
Nada: o café continua com o gosto amargo na minha boca. O gosto da saudade impregnado em mim. O assobio frio dessa manhã de inverno que sussurra saudade nos meus ouvidos.
Lançei últimos olhares para o apartamento e, conferindo que estava tudo nos conformes, apaguei as luzes da sala-de-estar, peguei a chave do carro e chamei o elevador. Essa decoração às vezes me enjôa. Tão sóbrio, tão certo, tão arquitetônico. Tão eu. Fechei os olhos enquanto inspirava raivosamente, com um ódio irracional e fugaz. Expulsei o ar dos pulmões de uma só vez, arrepiando os pêlos do braço.
Como ainda não havia grande luminosidade no céu, as poucas frechas de luz que invadiam o corredor do meu prédio criavam uma atmosfera confortante. Olhei ao redor, pensei em acender um cigarro. Lembrei que deveria parar de fumar. "Impossível", pensei em voz alta. Mas, mesmo assim, mantive-me disposta a malhar, desprezando o vicio que Ana costumava odiar.
É a primeira vez que denuncio o nome de Ana. É isso mesmo que seu nome deflagra em mim: uma denúncia, um flagrante: é vertiginoso pensar nela. Um reboliço de sensações e memórias que se perdem no estreito abismo entre o que eu sou e o que eu quero. Ana é a linha que divide o meu "querer" do meu "ser": ela não faz sentido, ela é o sentido por si só. Eu fico sem jeito, calada quando penso nela e é nesse meu silêncio, na minha ausência, que eu percebo o tamanho de Ana dentro de mim. A verdade é que meu nome, meus braços, meu corpo, meu apartamento... fica demasiadamente tedioso e vazio sem o aroma dela como essência. O que dói é saber que Ana se foi, deixando intocado em mim tudo que eu sonhei com/para ela. Ana (ou melhor, a ida dela) destruiu o meu sorriso espontâneo, jogou por terra os meus pilares, cegou-me os olhos da realidade nua, escravizou-me os sentidos às memórias do "nosso" tempo. Ana, agora, são os três pontos dessa frase que me impedem de seguir em frente...
Cheguei a academia por volta das seis e meia, quando ainda não havia muitas pessoas transitando pelo recinto. Escolhi a melhor esteira, com vista para a enseada, com o sol nascente à minha frente. Liguei a aparelhagem toda da geringonça e só então percebi quão idiota era optar pela corrida indoor ao invés de desfrutar de um cooper ao ar livre. Um breve instante e o pensamento se escafedeu com a constatação de que seria muito mais cômodo evitar os grãos de areia que entrariam no meu tênis e renderiam muitas -e nada agradáveis - palavras de desagrado.
Alguns minutos se transpuseram em horas naquela esteira. Gotas de suor emergiam de minhas têmporas, testa, braços, costas; umedeceram meu corpo, para ser secado num sopro frio dessa manhã de inverno. Alguns pássaros já saíam de seus ninhos, sobrevoavam a praia, pousavam, iam, retornam. Faziam do céu um picadeiro, em cambalhotas, vôos rasantes e até alguns ligeiros mergulhos. Eu, do lado de dentro da grande janela de vidro, divertia-me com seu comportamento, imaginando como seria bom ter asas. “Para onde eu iria?”. A resposta inevitável veio como um alarme, um soco no estômago, uma placa de “proibido seguir” depois de uma ladeira inclinadíssima. Balançei a cabeça, alonguei os braços e ensaiei alguma música com os lábios, para manter Ana longe de mim.
A hora inteira que se passou enquanto eu corria pareceu perdida à distância. Um lapso, quem nunca os teve? Peguei a toalha que repousava sobre um dos braços da esteira, e a mochila no outro. Dirigi-me à sala dos aparelhos, enquanto procurava com os olhos algum instrutor que pudesse me fazer companhia naquela sala excessivamente branca. Agora, eu percebo como não tenho a menor sensibilidade para me notar “notada”. Uma sombra impediu que o sol batesse nos meus olhos enquanto fazia uma série de abdominais. Fui lentamente abrindo os olhos e colocando minha mão contra os poucos raios de sol que contornavam a figura e me cegavam.
- Já tão cedo por aqui? – e eu pude ver um sorriso de canto de lábio.
- Ahn? – franzi a testa.
- Perguntei se já está por aqui tão cedo... – e o sorriso ficou ligeiramente maior.
- Ah sim! – eu sorri - Não dá para ficar um final de semana inteiro sem malhar. – eu menti, pois na verdade, acordar com Amanda me dava uma sensação de enjôo, uma náusea. Era quase contra minha natureza.
- É – e Raquel olhou para os próprios pés -, entendo a sensação. Precisa de alguma coisa? - retornou a repousar os olhos claros sobre mim.
- Não por agora. - devolvi os olhos semi-serrados.
- Depois quero lhe perguntar uma coisa, pode ser?
- Pode perguntar agora, se você quiser...
- Não, depois da sua série, você vai lá em cima e conversamos.
Raquel era uma mulher peculiar. E era essa sua peculiaridade que lhe tornava misteriosamente atraente. Dava aulas de aeróbica e uma segunda lista de atividades que eu desconhecia. O corpo era excessivamente delineado pelos anos de exercício físico diário, mas se permitia algumas curvas e outras acentuações: seios fartos que roubavam os olhares e quadril proporcional a estreiteza da cintura. Talvez - porque este era o tipo de dado que ela não revelava - beirasse seus 40 anos; não que o verificasse em rugas, fadigas e comportamentos; revelava-se tão espotânea quanto as garotas de 20, 25 anos. Alguns rumores iam ao encontro de minha tese de que ela se envolvia com mulheres, mas eu me satisfazia em comprá-la pelos olhares que peremptoriamente trocávamos: olhares esses fortuitos, lascivos, voluptuosos, fugidos. Impossível não notá-la, mais ainda não desejá-la.
Tomei alguns minutos na conclusão da série de abdominais e subi os dois lances de escada que separavam a ala de aparelhos do segundo andar, onde estavam os vestiários e alguns salões menores para as aulas de aeróbica, spinning, etc. Ainda com o corpo molhado pelo suor, procurei, displicente, Raquel pelo segundo piso e, não a encontrando, dirigi-me ao vestiário. Joguei mochila para um lado, toalha pra o outro e quando posicionei as duas mãos na camisa para retirá-la, eis que a silhueta provocante dela me aparecesse no espelho, ás minhas costas. Larguei a camisa e virei-me de frente:
- Já vai? - sorriu, fechando a porta atrás de si.
- Já - e conferi o relógio digital no braço esquerdo - não é você quem diz que não é certo ficar mais de duas horas na "maromba"? - eu disse, arqueando uma das sobrancelhas.
Apenas sorriu. Raquel passou por mim e devido a estreiteza entre o armário e o banco entre os quais eu estava em pé, ela precisou roçar seu corpo no meu. Aquele breve momento tensionou meu corpo, especialmente o ventre, que foi invadido por um derrame frio de sensações. Enquanto o perfume dos cabelos dela ainda se dissipavam e eu recobria as faculdades mentais, ela começou:
- Eu queria falar com você...
- Ah, é mesmo! - interrompi-a.
- ... é sobre a Ana.
Mantive o olhar á altura dos olhos dela.
- O quê sobre ela? - sem uma ruga de apreensão, embora as mãos houvessem trepidado.
- Vocês se separaram, né? Fiquei sabendo... - e estalou uma unha na outra, observando-as, meticulosamente, como se procurasse a coragem para prosseguir- É mesmo uma pena... eu jamais iria imaginar...
- Ninguém imaginaria, Quel - forçei um sorriso.
Foi então que ela se prestou a contar uma história da qual (perdão ao leitor atento) não me recordo, posto que todo o seguinte momento foi intercalado por esse tremor, cujo início se deu nas mãos, e abrangeu-se pelo corpo, enfraquecendo-me as pernas. As imagens de Ana, as últimas palavras, os últimos beijos, o fim...
Quando acudiu-me a precisão do presente, subi os olhos a altura normal e Raquel estava à minha exata frente, com os olhos apertados e a boca, ligeiramente aberta, mostrando as pérolas lascivas que me prometiam fervorosas mordidas. Balançei levemente a cabeça para certificar-me da proximidade de nossas bocas.
- Sempre quis ficar com você, Lisa... - e despiu-me com o olhar, dos pés aos olhos, percorrendo os lábios vermelhos com a ponta voraz e molhada da língua - agora eu faço questão.
Segurando uma de minhas mãos contra a parede, Raquel encostou levemente seus lábios nos meus, permitindo-me sentir-lhe o hálito quente; a outra mão envolveu-me a cintura, subiu as costas, retornou a cintura e perpetuou seus movimentos. Ao ponto que estive de beijá-la, ela se retraiu, com o sorriso intacto, o mesmo que me abordou.
- Mas, não agora. - e deu-me as costas e saiu, elegante, do vestiário.
Agora, vejo-me aqui sentada na poltrona, com a fumaça do cigarro expurgando os escrúpulos, confabulando todos os "se" e "porquês" do episódio. Teria eu me sujeitado a luxúria de Raquel? Eu penso que sim. Não me desfaço dos romances rápidos, visto que eles me completam num segundo (um segundo breve, mas um segundo leve sem a assombração da perda de Ana). Uma traição à Amanda? Não acredito. Para ela, talvez sim; mas é diante da minha impossibilidade de amá-la na mesma frequência que todos os casos se tornam apenas outros casos.
O apartamento vazio, assim como eu, se confundem. Sou tudo aquilo que fica, o que ainda não se apagou, a chama que insiste em reacender. Entre um trago no charuto e no vinho tinto, olho de relançe para o telefone e finjo sermos bons amigos: nem ele me incomoda, nem eu a ele. Na chegada dessa noite, nessa invasão da lua e das estrelas, dentro da minha sala, minha solidão fica, como tantas vezes, maior que eu. Eu (r)elevo: o cruzeiro estará assaz alto para qualquer discernimento, anyway.
Friday, September 15, 2006
Saturday, September 09, 2006
Amanda: depois de nós
Eram quase dez horas da noite, quando meu ônibus chegou ao destino. Não tenho a noção exata dos minutos porque assim que conferi o horário no relógio, fui procurar meu celular para saber se ela havia me ligado. Ainda sonolenta pelas horas em que passei adormecida, desci do ônibus com uma mala pequena, uma bolsa tiracolo e olhos avermelhados do choro de antes. A noite daquele inverno estava especialmente mais fria, solitária e solidária com a minha incompreensão. A janela de vidro fumê que separava o meu rosto do ar gelado da estrada estava ligeiramente embaçada, permitindo que poucas imagens se formassem. Recostada na poltrona, passei a viagem com o meu mp3 ligado, ouvindo todas as músicas que ainda julgava necessárias. Aquelas que ela me ensinou a gostar, aquelas que eu lhe ensinei a cantar; outras que foram nosso fundo musical, outras apenas que faziam sentido ouvir.
A rodoviária, em tons sujos de cinza, parecia tão familiar. Algumas pessoas sentadas, espalhadas pela plataforma de embarque; outras apressadas empurravam seus carrinhos, suas malas pelo grande salão. O barulho de pessoas conversando em tons moderados, celulares chamando, a voz das caixas de som que anunciavam as próximas saídas... e eu ali. No meio de tudo. No meu silêncio sempre mudo.
Girei o olhar pelo lugar. Direcionei-me a saída. Peguei o primeiro táxi que vi vago. Desci na porta do meu prédio, paguei o senhor já de meia-idade que guiava o táxi. Subi os lances de escada contando os degraus, compassando a respiração, acendendo/desligando as luzes. Um labirinto até chegar de volta a mim.
Em frente à porta do meu apartamento, agora, inspiro aquela fragrância de estar “de volta”. Não, eu não quero estar aqui e não há outro lugar melhor para estar. Procuro pela chave na bolsa quando ouço o telefone chamar. Acelero a procura, agarro as chaves entre os dedos e coloco de qualquer jeito na fechadura. Lanço-me veloz, mas não o suficiente para atender a chamada. Paro de pé à frente do telefone, imaginando que ela poderia ter ligado: o que queria, o que iria dizer, se já sabia que eu estava em casa, se queria me ver. Talvez viesse aqui, talvez não. Pelo não, eu dou as costas. O telefone toca:
- Alô?
- Já chegou? – a voz rouca, como se acabasse de acordar.
- Acabei de chegar... – eu respondo, jogando a bolsa sobre o sofá, visivelmente descontente.
- Posso ir até aí?
- Ainda não desfiz as malas e...
- Eu lhe ajudo. Me espera que eu já chego aí em alguns minutos...- e desliga o telefone.
Amanda - a dona da voz no telefonema - é meu capricho. Tão somente isso. Com seus 1,70m de altura, quadris largos, cintura fina, pernas grossas, lábios avermelhados e suculentos, que costumam me devorar noites a fio. Amanda me entende. Amanda me satisfaz, me substancia. É espontânea na cama, é entregue, é sublime. Sua pele bronzeada de sol, seus olhos cor-de-mel, seus braços proporcionalmente menores do que o conjunto, mas tão eficientes em me prenderem. Foram muitas as vezes em que quis amá-la como eu aprendi a amar a outra. Mas, sempre que me vejo disponível para tamanha façanha, sinto-me mais perto do nada, redimida a insignificância por querer substituí-la. É vê-la me dominar até quando eu me desfaço da dominação. O fantasma que eu não sei se quero exorcizar.
Amanda chegou, com seu sorriso branco e enjoativamente feliz. Nunca a felicidade me enjoou tanto. Ela, o seu sorriso e essa mania de cuidar de mim. Eu a desejo, não posso nem conseguiria negar. Desejo no sentido carnal, inócuo e vicioso do desejo. Amanda tem a dose certa de tudo o que eu preciso como um corpo. Amanda só não pode ser ela.
Chegou com algumas sacolas, sob um vestido curto, estampado em flores rosas e vermelhas, bem decotado e ligeiramente acima dos joelhos. Amanda requebra quando anda e suas pernas se revezam, ora uma ora outra, a frente da imagem, enlouquecendo qualquer bom cidadão que parasse para percebê-la. Lembro-me do dia em que nos conhecemos. Numa dessas noites avulsas, em que se venderia a alma ao diabo por uma boa taça de vinho, resolvi sair para dançar, embriagar-me e apagar (mesmo que temporariamente) as lembranças dela. Vesti uma calça jeans escura, uma blusa branca sem alças, cabelos soltos e levemente cacheados pela umidade, um par de brincos prateados e a certeza de dar um passo em direção à distância dela. Lá pelas duas da madrugada, percebi que havia um par de olhos lascivos me acompanhando pela pista. Pares de olhos estes que decoravam o rosto ligeiramente maquiado de Amanda, das bochechas excessivamente rosadas pelo blush. O vulto que ela perfazia atiçava-me os sentidos. Ela se aproximou e o perfume adocicado (que ela ainda usa) me envolveu na batida da música que tocava. Meus olhos se prenderam nos dela, enquanto seus braços seguravam, firmes, a minha cintura. Foi tudo tão rápido. Os beijos, os amassos, o corpo dela nu contra o meu quase nu; os gemidos, os fôlegos. A minha mente entorpecida pelas incontáveis taças de vinho e o insaciável desejo de Amanda de sempre querer mais. Ela me invadia, dedos, língua, olhares. Eu me rendia. Era a rendição temporária que eu lhe permitia ter.
Desde então, Amanda se apegou a mim. Percebo que ela precisa de mim e isso me faz bem. Passo alguns dias fora, não dou notícias, me faço de intocável, intangível. Amanda se desespera, me liga repetida e incansáveis vezes no celular, para que na última eu atenda...
- Onde você estava? – ela altera o tom de voz, que costuma ser tranquilamente agudo.
- Por aí, Amanda...
- E não atendeu o celular por quê? – enfeza-se
- Não pude.
- Não pode ou não quis, Lisa? – dando uma ênfase interrogativa ao “ou”.
- Agora atendi, não atendi?
- É... – e eu posso ouvir a respiração dela do outro lado, numa inspiração lenta e intensa- estou com saudades. Fiquei preocupada...
É, é egoísmo. Egocentrismo da minha parte e acho difícil curá-lo. É a minha armadura, o meu elmo, aquilo que não me permite desabar, cair em desgosto. É frágil, eu sei. Por ser frácil é que falo disso. A procura de Amanda, os telefonemas, os e-mails, as longas conversas pela Internet e o carinho que não parece ter fim... Amanda alimenta o que eu sou. Posso não amá-la na reciprocidade, mas preciso dela.
Agora mesmo, Amanda está se divertindo com as minhas malas. Retirando as roupas, reajeitando meu mundo, desfrutando dessa breve sensação de me possuir. É o que ela faz de melhor. Ouço alguns comentários dela aqui da sala, algumas risadas, algo que ela me conta sobre uma amiga em comum. Não gosto de pensar nela como “minha”: Amanda é do mundo. Amanda é perfeita demais para minha insegurança e, talvez seja por isso que livrei-a do meu ciúme doentio. Ela me faz esquecer, ela me faz espairecer, ela me faz querer amá-la sem ser capaz de tanto. Ela só não sabe - ainda - como me curar.
A rodoviária, em tons sujos de cinza, parecia tão familiar. Algumas pessoas sentadas, espalhadas pela plataforma de embarque; outras apressadas empurravam seus carrinhos, suas malas pelo grande salão. O barulho de pessoas conversando em tons moderados, celulares chamando, a voz das caixas de som que anunciavam as próximas saídas... e eu ali. No meio de tudo. No meu silêncio sempre mudo.
Girei o olhar pelo lugar. Direcionei-me a saída. Peguei o primeiro táxi que vi vago. Desci na porta do meu prédio, paguei o senhor já de meia-idade que guiava o táxi. Subi os lances de escada contando os degraus, compassando a respiração, acendendo/desligando as luzes. Um labirinto até chegar de volta a mim.
Em frente à porta do meu apartamento, agora, inspiro aquela fragrância de estar “de volta”. Não, eu não quero estar aqui e não há outro lugar melhor para estar. Procuro pela chave na bolsa quando ouço o telefone chamar. Acelero a procura, agarro as chaves entre os dedos e coloco de qualquer jeito na fechadura. Lanço-me veloz, mas não o suficiente para atender a chamada. Paro de pé à frente do telefone, imaginando que ela poderia ter ligado: o que queria, o que iria dizer, se já sabia que eu estava em casa, se queria me ver. Talvez viesse aqui, talvez não. Pelo não, eu dou as costas. O telefone toca:
- Alô?
- Já chegou? – a voz rouca, como se acabasse de acordar.
- Acabei de chegar... – eu respondo, jogando a bolsa sobre o sofá, visivelmente descontente.
- Posso ir até aí?
- Ainda não desfiz as malas e...
- Eu lhe ajudo. Me espera que eu já chego aí em alguns minutos...- e desliga o telefone.
Amanda - a dona da voz no telefonema - é meu capricho. Tão somente isso. Com seus 1,70m de altura, quadris largos, cintura fina, pernas grossas, lábios avermelhados e suculentos, que costumam me devorar noites a fio. Amanda me entende. Amanda me satisfaz, me substancia. É espontânea na cama, é entregue, é sublime. Sua pele bronzeada de sol, seus olhos cor-de-mel, seus braços proporcionalmente menores do que o conjunto, mas tão eficientes em me prenderem. Foram muitas as vezes em que quis amá-la como eu aprendi a amar a outra. Mas, sempre que me vejo disponível para tamanha façanha, sinto-me mais perto do nada, redimida a insignificância por querer substituí-la. É vê-la me dominar até quando eu me desfaço da dominação. O fantasma que eu não sei se quero exorcizar.
Amanda chegou, com seu sorriso branco e enjoativamente feliz. Nunca a felicidade me enjoou tanto. Ela, o seu sorriso e essa mania de cuidar de mim. Eu a desejo, não posso nem conseguiria negar. Desejo no sentido carnal, inócuo e vicioso do desejo. Amanda tem a dose certa de tudo o que eu preciso como um corpo. Amanda só não pode ser ela.
Chegou com algumas sacolas, sob um vestido curto, estampado em flores rosas e vermelhas, bem decotado e ligeiramente acima dos joelhos. Amanda requebra quando anda e suas pernas se revezam, ora uma ora outra, a frente da imagem, enlouquecendo qualquer bom cidadão que parasse para percebê-la. Lembro-me do dia em que nos conhecemos. Numa dessas noites avulsas, em que se venderia a alma ao diabo por uma boa taça de vinho, resolvi sair para dançar, embriagar-me e apagar (mesmo que temporariamente) as lembranças dela. Vesti uma calça jeans escura, uma blusa branca sem alças, cabelos soltos e levemente cacheados pela umidade, um par de brincos prateados e a certeza de dar um passo em direção à distância dela. Lá pelas duas da madrugada, percebi que havia um par de olhos lascivos me acompanhando pela pista. Pares de olhos estes que decoravam o rosto ligeiramente maquiado de Amanda, das bochechas excessivamente rosadas pelo blush. O vulto que ela perfazia atiçava-me os sentidos. Ela se aproximou e o perfume adocicado (que ela ainda usa) me envolveu na batida da música que tocava. Meus olhos se prenderam nos dela, enquanto seus braços seguravam, firmes, a minha cintura. Foi tudo tão rápido. Os beijos, os amassos, o corpo dela nu contra o meu quase nu; os gemidos, os fôlegos. A minha mente entorpecida pelas incontáveis taças de vinho e o insaciável desejo de Amanda de sempre querer mais. Ela me invadia, dedos, língua, olhares. Eu me rendia. Era a rendição temporária que eu lhe permitia ter.
Desde então, Amanda se apegou a mim. Percebo que ela precisa de mim e isso me faz bem. Passo alguns dias fora, não dou notícias, me faço de intocável, intangível. Amanda se desespera, me liga repetida e incansáveis vezes no celular, para que na última eu atenda...
- Onde você estava? – ela altera o tom de voz, que costuma ser tranquilamente agudo.
- Por aí, Amanda...
- E não atendeu o celular por quê? – enfeza-se
- Não pude.
- Não pode ou não quis, Lisa? – dando uma ênfase interrogativa ao “ou”.
- Agora atendi, não atendi?
- É... – e eu posso ouvir a respiração dela do outro lado, numa inspiração lenta e intensa- estou com saudades. Fiquei preocupada...
É, é egoísmo. Egocentrismo da minha parte e acho difícil curá-lo. É a minha armadura, o meu elmo, aquilo que não me permite desabar, cair em desgosto. É frágil, eu sei. Por ser frácil é que falo disso. A procura de Amanda, os telefonemas, os e-mails, as longas conversas pela Internet e o carinho que não parece ter fim... Amanda alimenta o que eu sou. Posso não amá-la na reciprocidade, mas preciso dela.
Agora mesmo, Amanda está se divertindo com as minhas malas. Retirando as roupas, reajeitando meu mundo, desfrutando dessa breve sensação de me possuir. É o que ela faz de melhor. Ouço alguns comentários dela aqui da sala, algumas risadas, algo que ela me conta sobre uma amiga em comum. Não gosto de pensar nela como “minha”: Amanda é do mundo. Amanda é perfeita demais para minha insegurança e, talvez seja por isso que livrei-a do meu ciúme doentio. Ela me faz esquecer, ela me faz espairecer, ela me faz querer amá-la sem ser capaz de tanto. Ela só não sabe - ainda - como me curar.
Thursday, September 07, 2006
Das noites em que pensei em não pensar

Mordi os lábios enquanto desentrelaçava os dedos, uns dos outros, os meus dos seus. Joguei meu olhar, cansado e rendido, aos seus, que me devoraram num fôlego ritmado e comedido. Você me invadiu: cerrou-os, arqueou a sobrancelha, desviou o sorriso dos lábios enquanto passeava com a ponta molhada de sua língua sobre o seu lábio inferior. Um gélido arrepio se esfregou sobre o meu ventre e, espalhando-se pelas minhas costas, me fez movimentar os braços em sua direção. Você me reteve: segurou minha mãos pelos punhos e, em seguida, desceu suas mãos pelos meus braços, ombros, cintura. Arrancou minha roupa, foi bem isso que você fez. As pontas de seus dedos, longos e estreitos dedos, me tocavam suavemente levantando minha blusa até a altura dos ombros, para quando então despedida dela, irem me tocando no pescoço, ombros, braços, mãos.
A música que havíamos colocado de fundo parecia tão distante quanto todo o resto da decoração do quarto. Imóveis, espectadores desse balé aturdido, intenso, dramático e precipitado. A luz de teto apagada, o azul da noite que tomava espaço no céu da tarde, em tons de alaranjado que riscavam o céu. O nosso quarto na penumbra; você sob a luminosidade de alguns poucos raios que se punham. Aquela imagem grudava em mim, tatuava-se no meu ser e naquele momento eu já não mais sabia que parte era minha, qual era sua.
Avancei sobre o seu corpo, mas você me reteve novamente. Levantou-se sem desviar os olhos penetrantes do meu e, enquanto eu me reajeitava na beirada da cama, vestida apenas com um sutiã preto, você, agora de pé a minha frente, foi lentamente, tirando a blusa. Botão por botão, arrepio por arrepio. E os olhos nos meus. Meus olhos em você. E você me sugando naquele movimento. Suas mãos iam descendo e, quando se livraram de todos os botões, dirigiram-se a mim. Sob a sua camisa branca, nada. Apenas você.
Suas mãos quentes se repousaram nos meus ombros e, no segundo que entrou, me jogaram contra o colchão da cama. O impacto, embora suave, me despertou, acudiu-me do estado quase tonto do momento anterior. Primeiro, colocou o joelho esquerdo ao lado de minha coxa direita e logo em seguida, seu joelho direito ao lado de minha perna direita, ficando, por assim narrar-lhes, ela sentada sobre mim. Aquele vulto, suficientemente iluminado pelo entardecer em tons de azul e espaçados laranjas, me envenenou: entreguei-me ali mesmo, embaixo do ventre dela.
Ela sorriu. Um sorriso safado, sim. Um sorriso de canto de lábio, como tantos outros, mas com o gosto - que eu quase podia sentir - de vitória, dominação. Eu sorria também, mas não que ela visse. Que você visse. Era ali que eu me sentia sua: sendo totalmente sua. “Tá vendo? Sou sua.”, poderia ter falado. Fiz menção de levantar: você me parou. Você sorri, eu sorrio. Tentei deslizar minhas mãos pelas suas coxas, que me apertavam contra a cama, deixando que o peso de seu corpo sob o meu deitado me enlouquece e arrepiasse todos os pêlos que ainda podiam se excitar. Mas, não. Você também as segurou, levando e prendendo-as acima de minha cabeça, deixando que algumas partes do seu corpo tocassem o meu num momento breve e eterno, frio e quente, uma mistura de não-sei-o-quê afrodisíaco e paradoxal.
Você se ergueu e sentou-se novamente sobre mim, desta vez encaixando-se ainda mais sobre o meu colo. Estremeci. A vontade alucinante era de pressioná-la contra meu corpo, beijar-lhe entrâncias, protuberâncias, curvas. Arranhar-lhe as costas e vê-la levantar a face acima, com a boca levemente aberta, gemendo baixo, só para mim, com os olhos espremidos.
De volta a posição, você afastou a blusa branca de mangas já aberta e eu pude ver o contorno da sua forma. O desenho de seus quadris, cintura, seios, ombros, pescoço. Deliciando-se do momento(melhor dito, do meu desconcerto aliado a minha semi-loucura), você deixou a blusa cair. Seu corpo agora completamente nu, engrenado com o meu. Soltou os cabelos dourados e levemente ondulados e, cada instante em que eles avançavam pelas costas e ombros dela, eu sentia aquele tremor quase agonizante invadir as partes já tensionadas pelas imagens anteriores.
E era tão bom ver você se distraindo com o meu desejo explícito. Sentia-se desejada, eu via. Sentindo-se desejada, alimentava aquela chama que toda mulher (como eu também) tem de se sentir fatalmente poderosa. Você tomou minhas mãos e conduziu-as pelo seu corpo: coxas, quadris, cintura, abdômem, colo, ombros, braços, ombros, colo... até que finalmente se (me) permitiu deslizar a mãos sobre os seus seios, a essa hora tesos e ouriçados. No primeiro toque, você mordeu os lábios, girou a cabeça, jogando os cabelo sob o rosto e desprendendo suas mãos da minha.
Distraída com o movimento dos cabelos, aproveitei para tomar-lhe o controle e lancei seu corpo de encontro a cama, postando-me agora entre as suas pernas. Você sorri, gostosamente sorri com seus brancos dentes. Passo minha mão entre suas pernas e, levantando e afastando levemente seus joelhos, tenciono meu ventre contra o seu. Você geme, dessa vez mais alto, mais agudo. Não resisto, devoro em beijos seus lábios, queijo, pescoço. Você me puxa mais pra perto, eu pressiono um pouco mais. Você geme...
Noites assim, noites tão nossas, hoje num passado nebuloso. E aí se perdem entre amargura e solidão.
Entre um e outro café, sentada agora, nessa mesma beirada da cama, já não sei o limite de parar de pensar nisso. Às vezes passo tanto tempo aqui, sentada, nesse mesmo azul do entardecer, com alguns fios de lágrimas já secando pelo meu rosto. Penso ainda se você volta. Vou olhar vezes para porta; vou refazer seus passos pela casa; vou buscar nelas aquilo que, em você, me consome, me lembra de não lhe esquecer; vou borrifar o seu perfume pela casa; vou me abraçar a sua blusa branca de manga. Por fim, não vou a lugar nenhum. Estou exatamente ali, onde você me deixou.
A música que havíamos colocado de fundo parecia tão distante quanto todo o resto da decoração do quarto. Imóveis, espectadores desse balé aturdido, intenso, dramático e precipitado. A luz de teto apagada, o azul da noite que tomava espaço no céu da tarde, em tons de alaranjado que riscavam o céu. O nosso quarto na penumbra; você sob a luminosidade de alguns poucos raios que se punham. Aquela imagem grudava em mim, tatuava-se no meu ser e naquele momento eu já não mais sabia que parte era minha, qual era sua.
Avancei sobre o seu corpo, mas você me reteve novamente. Levantou-se sem desviar os olhos penetrantes do meu e, enquanto eu me reajeitava na beirada da cama, vestida apenas com um sutiã preto, você, agora de pé a minha frente, foi lentamente, tirando a blusa. Botão por botão, arrepio por arrepio. E os olhos nos meus. Meus olhos em você. E você me sugando naquele movimento. Suas mãos iam descendo e, quando se livraram de todos os botões, dirigiram-se a mim. Sob a sua camisa branca, nada. Apenas você.
Suas mãos quentes se repousaram nos meus ombros e, no segundo que entrou, me jogaram contra o colchão da cama. O impacto, embora suave, me despertou, acudiu-me do estado quase tonto do momento anterior. Primeiro, colocou o joelho esquerdo ao lado de minha coxa direita e logo em seguida, seu joelho direito ao lado de minha perna direita, ficando, por assim narrar-lhes, ela sentada sobre mim. Aquele vulto, suficientemente iluminado pelo entardecer em tons de azul e espaçados laranjas, me envenenou: entreguei-me ali mesmo, embaixo do ventre dela.
Ela sorriu. Um sorriso safado, sim. Um sorriso de canto de lábio, como tantos outros, mas com o gosto - que eu quase podia sentir - de vitória, dominação. Eu sorria também, mas não que ela visse. Que você visse. Era ali que eu me sentia sua: sendo totalmente sua. “Tá vendo? Sou sua.”, poderia ter falado. Fiz menção de levantar: você me parou. Você sorri, eu sorrio. Tentei deslizar minhas mãos pelas suas coxas, que me apertavam contra a cama, deixando que o peso de seu corpo sob o meu deitado me enlouquece e arrepiasse todos os pêlos que ainda podiam se excitar. Mas, não. Você também as segurou, levando e prendendo-as acima de minha cabeça, deixando que algumas partes do seu corpo tocassem o meu num momento breve e eterno, frio e quente, uma mistura de não-sei-o-quê afrodisíaco e paradoxal.
Você se ergueu e sentou-se novamente sobre mim, desta vez encaixando-se ainda mais sobre o meu colo. Estremeci. A vontade alucinante era de pressioná-la contra meu corpo, beijar-lhe entrâncias, protuberâncias, curvas. Arranhar-lhe as costas e vê-la levantar a face acima, com a boca levemente aberta, gemendo baixo, só para mim, com os olhos espremidos.
De volta a posição, você afastou a blusa branca de mangas já aberta e eu pude ver o contorno da sua forma. O desenho de seus quadris, cintura, seios, ombros, pescoço. Deliciando-se do momento(melhor dito, do meu desconcerto aliado a minha semi-loucura), você deixou a blusa cair. Seu corpo agora completamente nu, engrenado com o meu. Soltou os cabelos dourados e levemente ondulados e, cada instante em que eles avançavam pelas costas e ombros dela, eu sentia aquele tremor quase agonizante invadir as partes já tensionadas pelas imagens anteriores.
E era tão bom ver você se distraindo com o meu desejo explícito. Sentia-se desejada, eu via. Sentindo-se desejada, alimentava aquela chama que toda mulher (como eu também) tem de se sentir fatalmente poderosa. Você tomou minhas mãos e conduziu-as pelo seu corpo: coxas, quadris, cintura, abdômem, colo, ombros, braços, ombros, colo... até que finalmente se (me) permitiu deslizar a mãos sobre os seus seios, a essa hora tesos e ouriçados. No primeiro toque, você mordeu os lábios, girou a cabeça, jogando os cabelo sob o rosto e desprendendo suas mãos da minha.
Distraída com o movimento dos cabelos, aproveitei para tomar-lhe o controle e lancei seu corpo de encontro a cama, postando-me agora entre as suas pernas. Você sorri, gostosamente sorri com seus brancos dentes. Passo minha mão entre suas pernas e, levantando e afastando levemente seus joelhos, tenciono meu ventre contra o seu. Você geme, dessa vez mais alto, mais agudo. Não resisto, devoro em beijos seus lábios, queijo, pescoço. Você me puxa mais pra perto, eu pressiono um pouco mais. Você geme...
Noites assim, noites tão nossas, hoje num passado nebuloso. E aí se perdem entre amargura e solidão.
Entre um e outro café, sentada agora, nessa mesma beirada da cama, já não sei o limite de parar de pensar nisso. Às vezes passo tanto tempo aqui, sentada, nesse mesmo azul do entardecer, com alguns fios de lágrimas já secando pelo meu rosto. Penso ainda se você volta. Vou olhar vezes para porta; vou refazer seus passos pela casa; vou buscar nelas aquilo que, em você, me consome, me lembra de não lhe esquecer; vou borrifar o seu perfume pela casa; vou me abraçar a sua blusa branca de manga. Por fim, não vou a lugar nenhum. Estou exatamente ali, onde você me deixou.
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