Wednesday, March 21, 2007

Uma carta para além do rio

Pensei em mil textos. Palavras, frases, pensamentos prontos, clichês sinceros. Nada. Dentro e fora: o seco se (con)funde com toda a dor, cegando-me, desorientando-me pro lado de lá, que é sempre distante e fugaz. As lágrimas, de tão poucas, caem pesadas; fecundam o improvável, alimentam o incerto. E aqui dentro: seco e amargo. Quero cuspir, balançar a cabeça, dar voltas sobre meus próprios pés até que não haja ponto fixo pra visão. Cansei de pensar e pensar parece agora tão distante. Já não é mais pensamento, é fuga. Diagonais que se aproximam, se observam, se entortam na proximidade do infinito, sem jamais se tocaram. E tudo parece mais abstrato, fora, dentro, único e desorganizado. E tudo parece menos eu.

Penso nas coisas que queria te dizer, nas coisas bonitas que me faz bem ouvir e falar pra você. Algo em mim se perdeu. Está tão dolorido que já não existe dor. Entende? Eu sei, você sente. Penso na sua desventura (ou seria aventura?) amorosa e nos inúmeros jogos que você anda aceitando-jogando-perdendo-ganhando. Vontade sincera de estapear tua cara, te levar pra longe, beber tanto, até você e eu sermos só essa fumaça opaca no meio da madrugada de uma noite de luar. Vou deixar a vontade guardada no bolso, apalpá-la sobre a calça, até que seja o momento certo de tomá-la entre os dedos e viver sua plenitude.

Elevo meu pensamento até sua rima, pra entender em que verso eu consigo te captar. Não duvido do amor, eu duvido dos amantes e do teatro deles; não duvido de você, duvido das circunstâncias. E você há de amar, sempre mais, acredite. Amor é virose. Acabei de crer.

Acabo por pensar em mim também. Pensar em mim é difícil de definir, posto que não sei o que realmente enxergo. Queria me ver pelos seus olhos, pela sua força, pela sua presença. O espelho da minha alma que corre por ai e talvez me dê respostas necessárias pra que minha existência não seja só seca e amarga...

Quero me perder. É tão natural. É tão óbvio. Preciso me perder, pra alguém certo me achar - se é que o certo existe, e só não é projeção ilusória da solidão. Até lá, me conta, pra onde eu vou?


(como eu entitulei: um cartão postal pra lá das minas, ou, a resposta dela)
Ainda guardo os pontos brilhantes daquela noite. A tela, os olhos, os olhos ao olharem para a tela. Foi como despertar para uma frase recém (re)lida em noite de insônia e nunca mais conseguir escapar de sorrisos. E, no horizonte, junto à tal esteira, a qual escapou e, independente, transfigurou-se em recurso estilístico, vejo ainda as faíscas. Não apagaram, nem apagarão, mesmo ao passarem pelo (R)rio.